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Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...

sábado, 27 de dezembro de 2025

Sonhos enterrados

É aqui que tudo começa e, provavelmente, será aqui que tudo terminará. Houve um tempo em que tudo me parecia vivo, as coisas se encaixavam naturalmente. Nada parecia tão incerto, e a correria da vida me impulsionava a seguir cada vez mais rápido, até que, sem perceber, tudo mudou de repente. Passei a ver a vida sem encanto, tudo ficou pesado, até as tarefas mais simples me causavam desânimo, como se já não houvesse mais caminhos abertos como antes. O tempo correu demais e me deixou para trás; parece ter se renovado, mas me tornou mais lenta. Às vezes, choro ao abrir a janela pela manhã, pois já não encontro a mesma alegria que me recebia. No lugar das árvores e do cheiro de mato, sinto o gosto de combustível no ar, vejo postes e fios se entrelaçando, escondendo o céu. Tenho uma vontade imensa de voltar, mas o passado roubou meu retorno; nem mesmo minha pequena casa de esperança existe mais. Só a saudade amarga abre feridas no meu peito. Tento achar um lugar de descanso para aliviar a angústia, faço o possível para seguir, mas onde estão minhas estradinhas de terra? Quando as enterraram? E meus poucos sonhos, em que encruzilhada ficaram? Minha realidade vem perdendo identidade, não consigo lidar com as mudanças. Já não há relógios nos pulsos, nem consciência nos meus dias, que passam rápido demais e não percebem que minhas pernas não correm antes. Há um burburinho constante na minha mente, quero agir, quero entrar nesse mundo sem pátria, quero fazer parte, mas só me resta a parte que me nega.


Herta Fischer





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mesa farta em hospital

Chamas se erguem ao amanhecer, quase derretendo o asfalto. Estranho é o silêncio que não vem de passos. Há um vai e vem sem valor, um leva e traz vazio. Fala-se muito, diz-se pouco, e o vazio conhece seus favores. A lona que cobre um circo, a arte medida em risos, e risos que não vêm de fora. Há uma mensagem na natureza, que poucos decifram e entendem. Uma mesa farta em hospital. Curiosamente, a ambição pelo saber se deteriora, enquanto a corrida pelo nada se intensifica.

Herta Fischer



Cerca invisível

Quase ninguém vê. E o que ninguém vê é o meu palco.


Gosto da solidão, pois ela me acolhe melhor do que as pessoas.


Sozinha, há mais contemplações e diferentes formas de admirar, sem que meus olhos se percam.


Falar sem palavras ou declamar as levezas do coração para si mesma é como escrever um livro não lido, mas cheio de significado para a alma.


Tumultos ferem meus ouvidos, e a multidão me perde em si mesma.


Tenho vontade de sair, inventar, transmitir, aprender e, por que não, ensinar. Mas o mundo vive dentro de uma redoma.

Herta Fischer



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Chegamos ou voltamos?

Só tenho a mim como resposta, e às vezes a pergunta nem é feita. Ando sem rumo mesmo quando acredito estar no caminho certo. É cansativo demais tentar entender nossos próprios propósitos. Qual é o objetivo? Como diz o velho ditado: nadar, nadar e morrer na praia! Como todos os dias que passam, como tudo que se, como tudo que se sonha — aproveita-se por instantes. É como se apaixonar; começo maravilhoso, tristeza depois de um tempo. Jardins que se desfazem, jogos que se perdem, ilusões que se quebram. Vai-se porque é preciso ir, volta-se porque se foi. Minha cabeça gira como um cata-vento; deveria não me importar, mas me importo. Deveria esquecer, mas lembro, e, ao lembrar, dói.




quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A verdade das flores

Já percorri mais da metade do caminho, fortalecendo-me e reunindo forças para seguir pelas minhas estradinhas empoeiradas. Estou mais feliz do que o habitual, aprendi isso com as flores. Hoje cedo, como sempre faço antes de ir ao trabalho, saí para tirar algumas fotos. Encontrei uma trepadeira florida, que adora escalar, assim como eu. Havia um arbusto médio, prestes a se tornar árvore, e a trepadeira, aninhada em seus galhos, sem sufocá-lo, subia delicadamente até tocar seu “ombro” e o presenteava com belas flores lilases. Na volta, no final da tarde, passei pelo mesmo caminho e notei que as flores haviam desaparecido. Ela continuava agarrada à árvore, como se dependesse dela para viver, mas a magia que a fazia se destacar já não estava ali. Assim também me sinto – minhas pétalas murcham a cada dia, ressecam, mas sigo firme, agarrada à vida que me sustenta.

Herta Fischer



sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eu e o vento

Talvez esse seja um bilhete de despedida, sei lá. Vivemos sempre nos despedindo de algo ou alguém e, mesmo assim, o dia se encarrega de se derramar sobre nós como um regador com água fria, molhando-nos como quem mata a sede. O anoitecer me traz delírios nostálgicos, e passo a ver estrelas que brilham apenas por dentro, num céu que inventei só para mim. Caminhei tanto pelas minhas estradinhas espelhadas, onde andorinhas pousavam do outro lado; podia vê-las em segredo, mas nunca tocá-las. Criei um mundinho pequeno e tranquilo, como se meu reinado fosse eterno, e até imaginei um par de asas para dançar com o vento. A música começa e danço com meu parceiro em um ritmo mágico, pelo reino das minhas andanças. Ouço então uma voz suave, vinda de não sei onde, que pulsa nos meus ouvidos dizendo: “A dança é bela, mas o baile não durará para sempre! Construa, através dela, o poder da inspiração e criatividade, como quem tem alma de poeta.” Quando a dança acabar, ainda estarei por aí, moldando montanhas, passando entre galhos, folhas e flores. Nossa realidade se unirá e poderemos dançar juntos enquanto houver brilho nos teus olhos. Desperto e percebo que a vida é sonho, e que por um tempo rodopiarei pelo salão dançando só, mas nunca esquecerei que tenho um vento mágico para embalar-me quando sentir que minhas asas já não me sustentam.

Herta Fischer

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Voando no tempo

Hoje voarei!  

Coloquei asas no meu viver.  

Havia tanto tempo, e o tempo se esgotava,  

pairando no ar, havia saudade.  

Tive asas, mas o tempo as roubou.  

Rompi as entranhas do tempo e dei asas a mim mesma.  

Madura e fraca, entre facas me curei,  

soletrando sorrisos, desenhei felicidade.  

De volta, nada recebi, mas outras oportunidades me sustentaram.  

Sem perceber, transformei-me em passado.  

Ainda vejo, por trás da cortina, uma réstia de esperança,  

céu aberto, tempo inverso.  

Nuvens que passam num azul profundo,  

outros tempos no mesmo tempo, fazendo de mim verso.  

Herta Fischer





sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O tempo e eu

 Nasci em dia de sol, talvez, por isso, tenha

tanta energia.

Gosto de caminhar, de escrever, de sonhar.

Tudo que aprendi, foi por mim mesma. Criar

é minha raiz.

Sou casada, tive filhos, tenho netos. Uma composição

orquestrada por lutas e desafios.

Nada foi fácil, O difícil é que me fez crescer.

Os passos que minhas estradinhas criaram, o

asfalto que por elas passaram, as histórias que

me contaram, criaram sonhos que me levaram.

Aprendi com a natureza, á enfrentar as correntezas e

a florir nas incertezas.

Ainda há um certo brilho em meu olhar, uma vontade

de construir, de subsistir, de ir e vir.

Gosto de tudo que se integra : Gente, animais, flores, poesia.

Se existe tempo, o tempo é agora, até que, o tempo,

desista de mim, mas ainda não é hora.

Herta Fischer



domingo, 2 de novembro de 2025

Sorte ou destino

Tereza sentia a necessidade de aprender pelo olhar, a única maneira que conhecia, sua única escola. Seu pai, vindo da simplicidade, não sabia ler nem escrever, mas aprendeu observando. O mundo lhe oferecia, através do olhar, todas as ferramentas necessárias para o aprendizado. Suas mãos fortes apontavam direções, e a sola dos pés calejados mostrava o caminho.


Aos dezesseis anos, Tereza estava pronta para casar, mas ainda gostava de escalar os arvoredos ao redor de sua palhoça e brincar de boneca com espigas de milho verde. Não escolheu seu parceiro; ele a escolheu. Coube a ela aceitar e, de repente, se tornar mulher. Sentia-se adulta, mas a criança dentro dela ainda vivia, instigando e assumindo o controle.


No começo, era como brincar de dona de casa. Ela adorava acender o fogão a lenha pela manhã, mergulhar uma colher no pote de banha de porco, besuntar uma panelinha de alumínio e brincar de cozinhar. Mas o tempo foi exigindo mais dela. Sem saber números ou letras, precisava improvisar para medir porções. Muitas vezes chorava quando algo saía errado, e seu marido frequentemente perdia a paciência.


Por sorte ou destino, sua sogra veio morar perto e começou a ensiná-la o que sabia, ajudando-a a amadurecer. Na sua pobre casinha de solteira, não havia relógio, mas seu marido mantinha um de pulso pendurado na parede. Quando ele chegava para o almoço, ela olhava os ponteiros se juntando no topo. Assim, pela educação do olhar, Tereza foi aprendendo e, com o tempo, criou seus próprios códigos para cozinhar.


Certa manhã, começou a sentir calafrios pelo corpo e a boca cheia de água, o que a deixou muito mal. Correu até a casa da sogra, contou o que estava sentindo e descobriu que estava grávida. Ficou assustada.  Enquanto a barriga crescia, crescia também o seu mundo, e o faz de conta tornou-se coisa séria.

Herta Fischer






quarta-feira, 29 de outubro de 2025

lembranças de um amor

Acho que te amei nos dias das borboletas azuis, 


quando o jardim ainda florescia.


Te amei como o vento que esculpe 


o trajeto do fim.


Em algum canto do passado ficou imóvel, 


não era amor, só um deslize.


Os caminhos que percorremos juntos 


se perderam no pó da estrada.


O tempo desgastou a emoção. 


Não te busco, nem te apago, 


alimentei a ilusão.


A pouca idade age sem saber, 


sente muito, mas logo se desfaz.


O que resta são lembranças 


do que ficou para trás. 

Hertinha Fischer


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Amor inocente

O amor estava ali, na emoção do embaraço, que deixou um beijo no ar. Ah, se eu pudesse voltar novamente àquele olhar, que silenciosamente me amava, despertando em mim deliciosas sensações. Tudo era envolto em alegrias – meu pensar e meu querer. E você, ali, como se me tocasse com cinzel, esculpindo-me como se desenha em papel. Não havia o prazer do toque, mas o prazer sentido se comparava aos céus. Tocando o ar como uma pena delicada que voa, e meu olhar a te imaginar sabor. 

Herta Fischer (Hertinha)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Em que espaço nos perdemos

As pessoas reclamam que o mundo está chato, mas não fazem nada para mudar, apenas se isolam, tornando tudo ainda mais monótono. 


De vez em quando, pare para observar uma flor, um pássaro ou um córrego. Ouça a música suave da natureza, que clama pela sua atenção, não porque precisa, mas para que você volte a se encantar pela vida. Estamos tristes e continuaremos assim se não retomarmos nossas origens, onde um simples olhar atento ao redor fazia toda a diferença. Não perdemos a capacidade de olhar, mas a percepção da suavidade com que deveríamos ver. 


Criamos formas e máquinas poderosas para substituir os homens, mas o ser humano é único, capaz de criar com sentimento, superando as máquinas, porque existe e sente o existir. Tudo ao seu redor é real e faz parte. Empatia não é apenas aceitar os direitos das pessoas sem questionar, mas também reconhecer que elas têm deveres. 


Olhar com compaixão para o semelhante, aquele que se assemelha a nós, é essencial. Há pessoas por todos os lados, mas que nem se olham nos olhos, como se já não se identificassem. Criamos um mundo fechado ao nosso redor, cheio de empatia por dentro, mas revolta por fora. Isso é evidente até nas calçadas, geralmente vazias, enquanto os carros estão lotados.


Até a natureza parece triste: a chuva se atrasa, o calor é intenso, e o frio vem com pedras no colo. Será que ainda dá tempo de reverter isso, ou o mundo que conhecemos já se perdeu para sempre? 


Hertinha Fischer.

sábado, 4 de outubro de 2025

O dia e sua heroína

O sol surgia por trás de um muro de pedra, projetando suas cores vivas entre as árvores. Tereza estava ali, olhos atentos, cantarolando uma melodia suave cuja letra apenas ela conhecia.


Ela passou pelo paiol para pegar algumas espigas de milho, debulhando-as rapidamente sobre seu velho avental, enquanto as galinhas, apressadas, quase bicavam seus pés. Só então ela espalhava os grãos sobre o chão de terra batida ao redor da construção.


Depois de terminar essa tarefa, voltou para casa para preparar o café da manhã. Acendeu o fogão a lenha, como fazia diariamente, usando palhas e gravetos preparados na tarde anterior. Encheu uma chaleira com água, colocou-a na chapa quente e esperou até que borbulhasse. Pegou o suporte do coador de pano pendurado na parede, colocou-o sobre a mesa, mediu o pó de café e despejou a água quente, enchendo o ar com um aroma agradável que despertava o marido e os filhos para mais um dia de trabalho na roça.


Enquanto eles se preparavam, ela passava ovos batidos em pães amanhecidos e fritava-os em óleo quente, enchendo a casa com um cheiro irresistível que os fazia sentar-se à mesa rapidamente. Assim que saíssem para o campo, ela cuidaria de outras tarefas da casa.


Sozinha, enchia duas bacias de alumínio com água, uma para lavar os utensílios e outra para enxaguar, já que não tinha água encanada. Depois de lavar tudo, varria o chão de terra, arrumava as camas e separava as roupas sujas, colocando-as em uma bacia para levá-las ao rio. Colocava uma rodilha de pano na cabeça, equilibrava a bacia cheia e carregava um balde vazio em cada mão.


Todo o trabalho era feito manualmente; ela esfregava as roupas no rio, colocava-as para quarar e voltava para casa com os baldes cheios de água fresca. Então atiçava o fogo novamente, escolhia o feijão e o colocava na panela.

Hertinha Fischer













O todo de nós

 Eu e o corpo somos um, a verdade de mim se revela na imagem.

Sou o dentro e o fora - Uma parte cria e outra desafia.
Nada fora de mim me copia.
Imagine-me no ventre, caso não sou a mesma?
Sou a vida que há em mim.
Não sou o acaso, sou a hora e o lugar, as honras de minha vez.
No corte do cordão nasceu a independência. No tudo de mim, a consciência.
Não aprendemos porque queremos, aprendemos porque somos universos próprios. identidade de patentes registradas, comandadas por uma parte de nós que não faz parte.
Como as águas que sai da nascente da terra e procura o seu caminho, não tem ideia de onde vai, mas vai, contornando e se tornando cada vez mais veloz. Não tem consciência de si, porém a terra á recebe como se fosse consciência dela.
Nós não temos a vida, a vida é que nos tem e nos molda segundo a sua própria consciência.
Mostra-nos o caminho, coordena as paisagens, nos coloca nos lugares e se enche de expectativas á nosso respeito. fazendo com que estejamos á seu dispor, sem, no entanto, tornarmos seus escravos.
Torna-te tu mesmo e desfia a ti próprio, seguindo o rumo do teu melhor, sem danificar o rumo que não foi aberto para ti.

Hertinha Fischer

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Duas paralelas - um só caminho

Vejo pessoas perdendo a verdadeira felicidade, observando e se lamentando pelo que está distante, esquecendo de apreciar o perfume do que está ao alcance. Aqui, na longínqua terra das maracutaias, onde o sol brilha à noite e o dia se esconde na escuridão. As falácias são suaves como algodão, mas a verdade é áspera como lixa – a razão beira a loucura. Os meios tontos e os tontos no meio, tropeçam nas mentiras e aplaudem os que sem vergonha envergonham. Seria isso efeito da mistura ou sinal da decadência da sociedade?


Se somos irmãos pela aparência – imagem e semelhança, por que há tanta crueldade e guerra? Quem separou e designou uns e outros para a disputa? De quem é a terra? O futuro e o passado caminham lado a lado, e o que construímos hoje se reflete no amanhã.


Meu passado ronda meus pensamentos, com uma esperança ainda jovem de que ele possa reverter o futuro, tornando-o tão bom quanto já foi. Que a sorte venha como o som de velhas portas sem trincos ou fechaduras. Que o tempo nos devolva as enxadas e foices, e que a humanidade volte a saborear as plantações, sem que as sementes sofram transformações que as deformem. Que as mãos reencontrem o caminho da arte, e os homens recuperem tudo o que perderam para as máquinas.



Hertinha Fischer














sábado, 13 de setembro de 2025

Transferência de um bem

Quis apenas ser eu, esquecendo que outros também querem o mesmo...


Marchei como se fosse plena, como se ninguém me bastasse, como se o mundo fosse posse minha. Mas me deparei com a ignorância de mim mesma. Agora, no enfado, construo meus dias e, em lamentos, faço minha cama todos os dias. Só há espinhos nela, mas ainda assim construo esperanças sobre eles.


O sol me expulsa da cama pela manhã, enquanto a lua me traz de volta ao descanso. Um descanso sonoro, repleto de boas recordações de um futuro que já entra em mim, como letras memorizadas e melodias já compostas. Talvez eu estivesse mais satisfeita se soubesse qual dever me bastaria.


Minha mãe sempre me alertava quando um homem passava em nossa porta para mendigar pão: "Este homem não tem nome, nem residência, nem família!" dizia ela. Não sei por que me vem à memória, nem por que o chamava de Lazírio, talvez por ser um pequeno Lázaro, aquele que mendigava à porta dos grandes e recebia as migalhas que sobravam. Poderia nos parecer ninguém, mas Deus estava com ele em sua renúncia.


Então, lembro de quando subia nas árvores para brincar de gente grande. Não havia nada lá, nem um pote de mel, mas eu me sentia como um urso lambuzado de doces.


O ser que se desprende, assim como a borboleta deixa seu casulo e ganha asas para voar, morre ao despertar sua prole. É assim que me sinto agora. Quanto mais invisível sou aqui, mais viva e visível me sinto para mim mesma.


Doar-se não é sacrifício, é mágico e sagrado. O próprio viver é uma doação. Se sou, vivo! Se vivo, sou! E se sou e vivo, de que me adianta se não doar um pouco de mim? Me bastar, o que me basta?


A pior doença do ser é estar envolto em si mesmo, como se o universo não existisse e de nada precisasse. Existem outros tipos de prazeres que podem trazer satisfações para a vida toda. No entanto, insistimos em buscar prazeres momentâneos, mesmo que nos custem lágrimas e sofrimentos. Precisamos aprender a ler os rótulos antes de nos medicarmos.

Hertinha Fischer














sábado, 30 de agosto de 2025

Lá se vão os vilões, lá se vem os mocinhos velhos

Perguntam-me se tenho uma boa história para contar. Tenho histórias, só não sei se são tão boas assim.


Alguns trechos foram esquecidos, outros guardados na memória, sem que eu possa contar. O que consigo narrar, ao escrever, acabo esquecendo. A melhor fase, antes dos cinco anos, não registrei. Nos outros sessenta anos, a memória guardou mais paisagens do que palavras. Não sei descrever o caminho, os córregos ou as mudanças, que foram tantas.


Digo apenas que havia, sempre havia! Um estalo de vida uivando, como lobos famintos seguindo suas trilhas. Um frenesi de saberes e sabores, vencendo e hesitando ao mesmo tempo. Às vezes, penso que é inútil revelar, como fotos antigas que acabam esquecidas nas gavetas. Minhas importâncias são minhas — enquanto me valem, têm valor. Depois que me for, alguém talvez lhes dê valor, mas não com o mesmo significado.


Pouco a pouco, o tempo nos vai perdendo, e os lugares que ocupávamos, preenchidos por outros. As lembranças tornam-se mais lentas, como o tilintar do orvalho da manhã, que mal chega e já se prepara para partir. Uma flor que o tempo toma para si, cujo perfume se dissipa ao vento.


Algum lugar me espera. Se me espera, quando? Haverá cura para essa doença chamada velhice, ou ela persistirá até que seja a própria cura? A velhice é como a infância antes dos cinco anos, sem registros. Nada é tão sublime quanto mais um dia, mais uma noite e o dia seguinte. A memória não vai além do instante. E é este instante que nos impele a seguir pelos caminhos já memorizados. Até que nos procurem nas coisas que deixamos, e, para aliviar a dor da lembrança, essas coisas sejam descartadas. Missão cumprida, partida!

Hertinha Fischer










segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O entardecer da vida

(Talvez doa um pouco, acima dos espinhos, floresce uma rosa)


Esses dias que me desvendam,


revelaram-me em outros tempos.


O passado foi revisado,


os rascunhos que me contaram.


Vencendo as horas que já esqueci,


quando o relógio me venceu enfim,


No ciclo das mesmas horas,


um pouco de mim foi se perdendo.


A noite que mal descanso,


o dia que chega apressado,


Tempo, anda mais devagar,


pois aqui sou só um viajante.


De repente, aqui me vi


com o rosto ruborizado.


Lá se foram os melhores dias,


e já me sinto derrotado.


Sulcos que abri com esforço


agora marcam minha pele.


Meus órgãos, antes tão puros,


por dentro já me repelem.


Pernas já se esgotaram,


olhos ficaram turvos,


unhas frágeis nas pontas dos dedos,


ossos agora enfraquecidos.


Por dentro, sempre criança,


quer brincar e se distrair.


O corpo já tão exausto,


só deseja o alvorecer.


A lua pela metade,


os campos adormecidos,


meia luz, meio nevoeiro,


nos sonhos que foram perdidos.


Hertinha Fischer.







 

domingo, 24 de agosto de 2025

O começo e o fim da linha

Aqueles instantes singelos e, ao mesmo tempo, loucos por conhecimento, mergulhavam naquele mundo ainda imerso na escuridão. O sol parecia distante e frio, enquanto a lua roçava de leve a borda das sombras, quase iluminando algum trecho que nem existia.


Eu, quase alguém, enfrentando esse mundo desconhecido, entre cinzas e vestígios de fogo, apostava nesse viver morno e sem fôlego. Submergia, afogado, nas profundezas das carências, tentando ser luz ao ultrapassar as nuvens.


Tocava de leve o vazio e sentia a magia do tudo no nada que se revelava em outros que não me pertenciam. Estava dentro e, de fora, explorava-me.


O que são paixões: chamas ou apagões? Lá fora, o tempo corria, dia após dia, crescendo. Tempo que me levou sem notar, tempo que passou sem que eu soubesse.


Um presente e um futuro – um só instante, anos a fio passando no reflexo de um único luar. E o fim à espreita, até quando existir?

Hertinha Fischer









O resolver matemático da vida

Quem mais poderia me enxergar como os olhos de minha mãe? 


Era um olhar claro, cheio de amor e fé. Não podia andar com meus próprios pés, nem escolher os caminhos, mas podia contar com o calor do seu colo quando o inverno se instalava no meu semblante. 


Os tropeços da infância não deixavam muitas marcas, mas, com o tempo e a correria da vida, as quedas se tornavam mais intensas e as feridas, maiores. Fui deixando para trás as brincadeiras inocentes e entrando em um mundo perigoso, onde um vulcão de emoções explodia. 


Minhas andanças ficavam cada vez mais frenéticas, e o mundo me cercava de tal forma que eu me perdia em seu labirinto de poder. Ainda havia aquele medo de crescer – de descobrir para onde não ir, de aprender o errado, mas não com os erros. 


A arrogância da adolescência não traz sabedoria – segue com olhos entreabertos, cerrados, descrentes. Todos pareciam tão certos, tão amáveis, tão plenos, enquanto eu, meio tonta, vacilava à revelia. 


Buscava me relacionar, sentia uma urgência em ser aceita, mas a pressa me levou ao mundo das frustrações. Havia uma riqueza de palavras dentro de mim, mas a timidez prendia minha língua. Meus familiares eram de poucas palavras, e com eles aprendi a ser reservada no falar. Contudo, minha mente vagava livremente, sonhando com a vastidão dos sentimentos profundos. 


Assim foi minha entrada na vida adulta, aprendendo muito na solidão, quando o silêncio me tocava e os sonhos ganhavam brilho. Só após muitos calos nos pés e dissabores na alma, descobri que todos somos iguais. 


O que a boca não conta, os olhos revelam. Minha história não foi a melhor nem a pior, mas esteve cheia de agitação e riqueza nos detalhes. Às vezes intensa, às vezes leve e solta. É assim que a vida nos molda. 


De repente, mais próxima do horizonte. 


Hertinha Fischer








sábado, 16 de agosto de 2025

Paixão de primeira viagem

Mais um dia na roça, as mudas já estavam preparadas

na caixa, prontas para encontrarem seu lugar na terra.

Algumas mãozinhas se posicionavam, preparadas para

estabelecerem um ritual de plantação.

Uma grande extensão de terra estava devidamente aradas

e gradeadas, só faltava abrir os sulcos com a enxada.

E lá estava ela, a irmã mais velha de uma leva de cinco filhos,

que, incansavelmente, fazia uma valeta rasa, que seria preenchida

por centenas de mudas de cebola, todas enfileiradas milimetricamente,

por seus três irmãos mais novos. Com a terra que se revolvia na valeta

principal, cobriam-se as mudas, e assim, consequentemente, como um

ritual sem fim.

Vilma se destacava entre as mulheres, se tornara uma peça principal entre

os irmãos. Além de fazer o serviço mais pesado, orientava os demais no 

que deveriam ajudar.

Sonhava um dia poder viver por conta própria, poder largar aquela vida simples, onde seus sonhos eram enterrados junto com as mudas.

Mas, ainda era muito jovem e precisava aprender a andar com os próprios pés.

O próprio andava muito distante.

Os anos foram passando devagar. Cada pedacinho de terra batida continha muito mais que simples pisadas.

Sua cabecinha rodava sem parar, ousava pensar em outros lugares, outras possibilidades lhe encaravam enquanto dormia.

De repente, como num conto de fada, uma porção de terra foi alugada por japoneses. Uma família inteira passou a rondar seu espaço. A terra foi revolvida com tratores potentes, o pequeno riacho fora alargado, tornando-se um grande lago, uma carreira de canos enlaçados por argolas, subiam a ribanceira, até se entregarem, completamente, entre os sulcos da lavoura.

Um rapaz muito simpático desceu até o rio para colocar o motor em funcionamento, passando em frente a porta de sua casinha. Ela deixou escapar um suspiro de satisfação. Algum anjo lhe dizia, lá no fundo de seu íntimo que as coisas iriam mudar.

Subiu até a estrada e ficou maravilhada com aquela forma de regar. Só conhecia seu pobre regador de lata. A água jorrava por todos os lados, como um chuveiro inteligente, espalhando por sobre uma grande porção da lavoura. Depois de uma hora mais ou menos, as pessoas mudavam os canos de lugar, até que toda a terra ficasse totalmente alimentada de umidade.

Suas manhãs repletas de tarefas e cansaço, finalmente, á encaminhou para outros rumos. Enquanto acendia o fogo para preparar o café, sua alma se enchia de felicidade. Embora tivesse o rosto do dia, a refletir afazeres, tinha o coração transbordando de emoções.

Ao ouvir o roncar de um caminhão, sabia que veria alguém que a faria transportar para um mundo só dela, fazendo com que, as tarefas, antes tão angustiosas, lhe parecesse menos pesada.

Já se preparava para olhar pelo buraco da parede. Já não parecia tão desconcertante, a falta de uma parte do reboco. E com os olhinhos afoitos e curiosos, se preparava para vê-lo passar, indo em direção ao rio para ligar o motor.

Começou a tomar mais cuidado com a forma de se vestir. O trabalho na roça exige roupas simples - lenço e chapéu na cabeça e um conga surrado nos pés, mas, teve a ideia de colocá-lo apenas quando saísse, para que o moço não tivesse que vê-la mal vestida.

No inicio ele nem olhou para ela, parecia completamente alheio a tudo, mas, conforme o tempo ia passando, os olhares insistentes daquela menina, despertou um certo interesse da parte dele. Tinha acabado de completar dezesseis anos, começava a  desabrochar por dentro e por fora, sua juventude e frescor não passaram despercebido e começou um flerte silencioso entre os dois.

Hiroche já estava com vinte e um anos de idade, estava pronto para um relacionamento sério, no entanto, Vilma ainda teria que esperar mais alguns anos para que seu pai á deixasse namorar. Porém, ela sentia o coração pulsando no peito por causa dele. Muitas vezes, precisava segurar o peito com força para evitar que os outros escutassem o nome dele em cada batida.

Certa tarde, quando descia para o rio para buscar água na bica, ela ouviu alguns passos vindo em sua direção, olhou para cima, notando aquela presença maravilhosa que a fazia sonhar.

O motor ficava um pouco abaixo de onde ela estava, ela concluiu que ele estava indo desligá-lo, embrenhou-se entre a mata com muito tato, bem devagarzinho, tomando um certo cuidado para não alertá-lo com o barulho de galhos se quebrando abaixo de seus pés. Perto do tanque tinha uma grande árvore que ela e seus irmãos chamavam de árvore de galo, por ser uma árvore, cujas flores, se pareciam com pequenos galinhos vermelhos. De onde estava dava para ver o motor. 

Quando ele chegou, desligou o motor, desceu até a beirada do tanque, lavando as mãos e molhando levemente os cabelos. ela quase desmaiou ao constatar que com os cabelos molhados, os cabelos negros brilharam ainda mais, deixando aquele rosto muito mais atraente. Resistiu um pouco, pensando em sair correndo dali, mas, ele olhou para o lado e a viu. Foi se deslocando bem devagar em sua direção perguntando com uma voz bem suave: - O que você está fazendo ai?

Ela se encolheu um pouco diante do nervosismo que a apavorou naquele momento, já um tanto arrependida de tal ato, mas, respondeu com a voz controlada: - Estou olhando para você!

- Isso eu percebi, disse ele em tom brincalhão: - Só não sei o que se passa em sua cabeça!

Sua cabeça rodopiou, aquele olhar a deixou tão vulnerável, que a fez se aproximar um pouco mais e com os olhos iluminados e a boca entreaberta, se ofereceu a ele sem pensar. Foi um beijo rápido e cheio de significado, pelo menos para ela. Sentaram-se numa pedra e começaram a conversar como dois grandes amigos, ele fazendo pergunta e ela respondendo meio sem graça: -Preciso ir, ele comentou antes de se levantar, ela baixou os olhos, ainda sentindo o gosto dos lábios dele nos seus. também se levantou e tomaram direções opostas, ela voltou para a bica e ele subiu em direção a casa de seus pais.

Dias se passaram, ela o evitou o quanto pode, não poderia encará-lo depois do ocorrido, e ele, por sua vez, nem dava sinais de que se importara.

O amor que ela nutria por ele, ia muito além da presença física. Ela sempre achava um jeito de vê-lo pelos buracos da parede ou adentrando a mata e furtivamente, se encolhendo atrás de algum arbusto, só para vê-lo passar.

Nunca mais se falaram a sós, parecia que aquele beijo fora fruto de sua imaginação, mas, que mudara para sempre a sua vida naquele lugar. Sentia que pertencia a ele e as manhãs ficaram bem mais prazerosas só em pensar que ele chegaria para mais um dia de trabalho. 

A família dele era bem grande, todos trabalhavam juntos e eram boas pessoas, muito simpáticas e prestativas, trazendo muita satisfação para ela e sua família, que acabaram se tornando bons amigos.

Ela ainda estava esperançosa de que um dia eles pudessem ficar juntos, não havia pressa, talvez, com um pouco mais de idade, ele pudesse promover algum encontro, ou talvez, pedisse a sua mão para seu pai.

Os anos se passaram, o amor só aumentava e nada! Nem sequer um olhar mais demorado, nada!

Até que um dia soube da novidade.

Estava um dia muito quente, daqueles em que até a saliva pode queimar os lábios. Ele chegou na porta de sua casa, pedindo um copo de água fresca. Ela foi até o balde, encheu um copo e entregou para ele. Ele sorveu o liquido em pequenos goles, enquanto a encarava nos intervalos. - O que foi? ela perguntou: - Por que me olha assim?

-Assim como? ele respondeu: 

-Desse jeito que não entendo!

-É que eu preciso te contar uma coisa, antes que você saiba de outro modo!

-Que coisa!

-Eu vou me casar!

- Casar?  - Mas como, se nem está namorando?

- Pois é! - sabe por que não te procurei mais?

- Por que não quis, ora!

- Não, resposta errada. Eu quis e muito! Só que não achei justo te enganar. 

- Como assim, me enganar?

- Na minha cultura, são os pais que arrumam casamento ao filho mais velho, porque, é o filho mais velho que fica morando junto e cuidando deles quando se casam. 

- Como assim? - O filho mais velho não se casa por amor?

-Não! O amor chega depois. Deu uma bela gargalhada achando graça de tudo, enquanto ela balançava a cabeça de um lado para o outro sem entender.

E foi assim que os sonhos mais lindos que ela já teve na vida se desvaneceu. Ele continuou trabalhando perto de sua casa, ela continuou vendo-o todos os dias, até que aquela paixão foi embora, assim como veio, deixando-a livre para outras experiências.

Hertinha Fischer
















Pétalas de razões

Despediram-me ainda na aurora, para que o dia me acolhesse por inteiro, antes que a noite revelasse outro lado. Havia pontes, idas e vindas, mostrando intenções que, por trás de tudo, terminavam e recomeçavam. Pediram-me que caminhasse devagar, sem compromissos com passagens estreitas e desertas que certamente encontraria. Ensinaram-me amor em qualquer instante, fé em cada passo e confiança, especialmente quando precisasse de algo mais que coisas. Quando finalmente deixei o casulo, já me sentia forte o suficiente para voar, desbravar, mas sem me sentir corajosa demais. Colocaram uma balança em minhas mãos para dosar sonhos, uma fita métrica em cada pé para não dar um passo maior que a perna. Assim, cresci à sombra do bem-querer, sobre pétalas de razão, perfumadas com emoção, sem pensar ou desejar mais do que me cabe.

sábado, 2 de agosto de 2025

Mente e coração

Ainda estou a desvendar esse labirinto de tijolos e telhas, onde minha alma se refugia em um corpo já marcado por lutas e labutas. Ainda quero caminhar, ainda quero voar mais um pouco na ponta dos pés. 


Como quem, parado, se desloca por dentro. 


A última gota não secou, transborda serena. Não desejo coisas, quero o que está além delas. As estrelas ainda brilham. Há um céu de encantos e desencantos nos cantos. Uma porta pequena ainda se abre, e há uma certa suavidade além das cortinas das janelas, voltadas para tempos e contratempos. 


Se pudesse voltar, mudaria algo? Talvez! Esse sabor que ainda sinto em rostos que já nem vejo mais... Onde estariam agora, se ainda estivessem? 


Há um desejo que ainda persiste, uma conexão entre a mente e o coração, que ainda guarda o que o tempo escondeu. 


O "meu tempo" passou entre as urtigas, temperadas com sal, enquanto meus passos absorviam as gotículas suaves da vida. Sempre havia sorrisos na boca da noite e suavidade nos olhos do sol. 

Hertinha Fischer.










segunda-feira, 21 de julho de 2025

Olhos cansados de ver

Sempre estive oculta por dentro, nunca deixando transparecer a obsessão da minha alma, que, herege, flutuava dentro de mim como um pássaro sedento à procura de água, mesmo estando próximo de um rio. Precisava descobrir, sozinha, o ocultismo das mentes solitárias, que se embrenhavam em pensamentos, por vezes sombrios, sem deixar sinais visíveis.


Todos temos um cantinho secreto, um paraíso ou um inferno interior, algo inexplicável que nos impulsiona para o abismo da ansiedade. No início, há uma comodidade interna, como um despreparo psíquico, sem sentimentos claros. Com os anos, a mente desperta um desejo enorme de ser como os outros, e é nesse instante que nos perdemos de nós mesmos.


Temos fala, movimentos, cheiro, paladar, audição, visão ocular, objetos que aprendemos a manusear, mas não sabemos ler nosso livro interno. Assim, nunca aprenderemos a lidar com o desconhecido do sentir. É como tentar andar na Lua sem nenhum equipamento que engane a gravidade. Temos leis, mas não as interpretamos, desconhecendo-as totalmente, assim como quem acredita em Deus, mas não no invisível.


Manusear com as mãos é fácil, mas lidar com os sentidos exige muita prática e envolve emoções. E como controlar as emoções sem perder o controle sobre nós mesmos? Como entender o que nos causa dor? Como compreender as diferenças nos resultados individuais nos campos afetivos e financeiros, quando ganhos e perdas afetam áreas que nunca aprendemos a operar?


Nesse contexto, talvez fosse melhor não ter consciência de nada. Ou melhor: consciência, todos temos, até os animais, mas seria bom ter uma consciência curta. Que não fôssemos donos do amor, mas que o amor fosse dono de nós. Que a vida nos levasse ao ponto onde viver fosse necessário e nos trouxesse de volta quando fosse preciso.


Hertinha Fischer





















quinta-feira, 17 de julho de 2025

Dia artificial

Sempre sem estilo ao me vestir, minha alma é o verdadeiro manto. Venho de um tempo em que as coisas eram feitas para durar, talvez por isso meu olhar carregue tanto. Eu desvendava a mágica das sombras — o olhar parcial do dia e o completo das horas. À noite, escondia as cores sob o tapete, preservando as sombras, quebradas apenas pela fraca luz da lamparina a querosene. Lá fora, os sons arrepiantes das formas assustadoras; até o silêncio parecia sussurrar.


A lua cheia espiava pelos buracos da parede, trazendo conforto ao revelar que nada estava totalmente oculto na escuridão. Só então eu ousava sair debaixo do cobertor, aproveitando a luz daquele olhar lunar. O canto generoso do galo me despertava com expectativa para viver, pois dormir era como morrer por algumas horas. O sol espalhava sua luz, dissipando as sombras e devolvendo cores aos jardins, vozes às galinhas e alegria às abelhas. O espírito humano se preparava para brilhar.


Ah, que nostalgia. Já não há escuridão na noite; a cidade vive num eterno dia artificial. Agora, quem me acorda são os motores, sem asas, apenas o ranger dos pneus no asfalto. E o olhar da lua já não atravessa mais minhas paredes.






sábado, 12 de julho de 2025

Lágrimas de sol

E aquele chão encantador que acariciava os pés, coberto de pó vermelho, brincava de rachar os calcanhares, adentrando e colorindo os sulcos. A relva, pela manhã, soletrava gotas como lágrimas do sol, poetizando o amanhecer. O verde das minhas íris refletia as folhas trepadeiras que dançavam ao vento. O coração, em um frenesi, parecia saltar pela boca. Quantas histórias estariam ali, esquecidas por quem passava? Minha imaginação as buscava em cada vala aberta. Ali, árvores lendárias contavam os anos em anéis, enquanto orquídeas choviam como ouro puro sobre os troncos. Reunidas no presente, carregavam consigo o passado. Eu, ainda presente, caminhei entre elas, sentindo o prazer de estar ali. Talvez eu também já tenha sido passado, retornando à minha essência, girando em torno do tempo.






sábado, 5 de julho de 2025

Leitura da vida

Às vezes, me sentia tão sozinha, como se estivesse em um mundo só meu.


Amava as pessoas, amava de verdade, mas o que estava perto parecia distante. Uso muito o termo "minhas estradinhas," minha verdadeira amiga que me incentivava a seguir em frente. Queria conversar, aprender com quem sabia, mas não tinham tempo para mim. Então, eu ia, meio que tateando, segurando aqui e ali, até encontrar onde estavam as coisas. E elas surgiam, escondidas dentro da imaginação. 


Quantas vezes o rio soletrava poesia, enquanto as ramadas espalhavam encantos entre as árvores, e eu descobria novos modos de amar. Quantas fantasias se misturavam às minhas andanças, quase se fundindo com a realidade. O espaço que meus pés ocupavam guardava mais histórias do que o próprio caminhar, contando de sonhos distantes que ainda me esperavam. A prova estava no horizonte. 


À noitinha, quando tudo parecia adormecido, as luzes ao longe brilhavam como pontos luminosos em céus desconhecidos, apontando mundos a serem explorados. Às vezes, eu era a princesinha dos olheiros das formigas, outras vezes, a raposa tentando caçar a esperteza. As descobertas eram vagas, os ouvidos atentos aos sons, ao sutil falar do sertão já marcado pelas plantações. A semente que rasgava a terra, tão frágil e forte ao mesmo tempo, emergia, ganhando formas e cores, como se já conhecesse o caminho planejado. 


De repente, quase tudo me parecia familiar. Tudo fazia sentido, até o que eu não sabia parecia conhecido. Interpretava cada olhar como quem lê um texto bem escrito. A mente, eu pensava, depende de como a usamos, da curiosidade com que buscamos conhecimento. A vida é um livro aberto, pronto para qualquer pessoa que ousa lê-lo sem preconceitos.

Hertinha Fischer











segunda-feira, 30 de junho de 2025

Eu dando vida as coisas

E o caminho era suave, sem obstáculos, na linguagem das flores. Um perfume de cores e risos se espalhava pelo olhar. A liberdade fluía como bálsamo nas veias, tingindo as linhas da alegria exposta. Corpo e mente em harmonia com o vento que acariciava as folhas. Um pequeno mundo, geograficamente resumido. Pedrinhas desbotadas amorteciam o marrom das trilhas empoeiradas. O mestre, o tempo, escrevia em si mesmo, nas folhas brancas soltas no ar. Uma mente dançante imitava o movimento das folhas no chão, animando a magia de um ser. Um ser que nem sabia ser. Um corpo pequeno, de poucos dias, sonhando com a realidade abstrata. Ao redor, o vento falava, dando vida ao vazio do espaço. A corrida do coração abria os lábios num sorriso. A dança contínua do tempo acompanhava o corpo que cantava o silêncio das coisas. Tudo era vivo, mesmo o que parecia morto. Se ali estava, existia. E se existia, tinha propósito, na alegria de me ver passar.

Hertinha Fischer



domingo, 29 de junho de 2025

Não houve nós dois

Havia luz naquele olhar, capaz de derrubar todas as minhas defesas. Surgiu de repente no meu caminho, andando desmascarado e sutil. Olhei e adoeci no mesmo instante, sabia que morreria de amor. Meus olhos o seguiam, mesmo sem sua presença física. Meu coração o chamava até que ele me ouviu. Era como se o tempo, cheio de felicidade, girasse sob meus pés. Momentos inexplicáveis todos direcionados àquela luz.


Tão pouco tempo parecia uma eternidade. Cada encontro se tornava um instante eterno até o próximo. Eu dizia: "Feitos um para o outro!" Mal sabia eu que nada existia do outro lado. Uma magia incendiária consumia toda a razão. A cada encontro, eu me preparava como uma rainha para seu rei, acreditando na ilusão de reciprocidade. Os doces beijos com gosto de chocolate e hortelã tatuavam meu coração. As risadas ternas, os passeios de mãos dadas, o ir para a cama depois da despedida, levando o gosto da felicidade para os sonhos. Esperar pelo próximo encontro, ouvir o ronco da moto chegando, sentir os abraços na cintura, as gotas do sereno nos envolvendo, o amor se revelando em nós. O mundo se resumia: nada existia sem ele.


Até aquele dia. Um sábado à tarde, ensolarado e cruel. Eu esperava o ônibus para voltar à casa do meu pai. Ele apareceu de repente, como um vento tempestuoso. "Onde vai?" perguntou. "Na casa do meu pai", respondi. "Ele me espera." Sem piedade, como se não tivesse me ouvido, retrucou: "Vai nada, está indo se encontrar com outro!" "Que outro?" perguntei, perplexa. "Não sei, você que vai me dizer!" Já havia explicado que meu pai, viúvo, me aguardava todo sábado para que eu preparasse o almoço de domingo e cuidasse de suas roupas. "Mas não é isso que estão dizendo..."

Hertinha Fischer










sexta-feira, 20 de junho de 2025

Marchinha do acontecer

E as nuvens densas se alinharam


no semblante do sol azul.

Quando o amor despertou o urso,

sobre o gelo formado no sul.

O mar ficou açucarado, quando

o amor acendeu a luz.

A poeira de areia que o vento levantou

trouxe alegrias fartas e ondas a quem amou.

Sobre o terço rezado, contavam-se

os dedos,

o amor, quando revelado, de ambos os lados,

libera coragem e dissipa os medos..

Hertinha Fischer.

Sinônimo de amor é sonhar

Se estou aqui, estou parado,  

se vou ali, estou andando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou na roça, estou trabalhando,  

se fico em casa, estou descansando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou feliz, estou sorrindo,  

se fico triste, estou sentindo,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se chego em casa, estou chegando,  

se saio, estou passeando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se olho o céu, estou orando,  

voltando à terra, estou voando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou deitada, estou pensando,  

se estou dormindo, estou sonhando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou amando.  


Hertinha Fischer.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Emoções e fracassos

 Estava eu, sem chão, naquele momento.

Acostumada a ter meu pai na direção, comandando as

tarefas, e nós, sobre seu comando, trabalhando e se

desenvolvendo. 

Repentinamente, nos vimos sem esse auxilio.

Sem ferramentas adequadas para continuar na lavoura, como

um motor de irrigação, por exemplo, meu pai se viu obrigado

a tomar outras direções. 

Sem aviso prévio, a plantação já não se desenvolvia bem,

as sementes não mais despertavam como antes.  A plantação seguia

lenta e sem o desenvolvimento necessários para finalizar-se com saúde.

E por várias vezes, a gente perdia tudo na roça, sem proveito algum na colheita.

Antes mesmo disso acontecer, meu pai já trabalhava como intermediário na

venda de sementes de cebola, que, naquela região era muito bem aceita.

Foi então, que apareceram mais dois produtores da região sul, que o procuraram

para revender essas sementes naquela região.

Como meu pai não necessitava mais de nosso trabalho, nós passamos a trabalhar

como diaristas para outros agricultores, enquanto meu pai se comprometeu ,exclusivamente,

em suas vendas.

No inicio até que era divertido, poderíamos ganhar o nosso próprio dinheiro, e ficar com ele, já que nosso pai, não nos dava nada além de alimentação, moradia e vestes.

Até que, em determinado dia, ele começou a resmungar algo como: - Vocês precisam tomar uma decisão em suas vidas, Até aqui eu cuidei das necessidades básicas de vocês, mas, está na hora de cada um cuidar de si.

O que ganho com vendas dá muito bem para mim e sua mãe, mas, para tratar de todos vocês como adultos, vai sair muito caro.

Eu ainda era uma jovenzinha de quatorze anos de idade, embora, já me sentisse bem mais madura do que minhas irmãs mais velhas. E fui ficando incomodada com o jeito do meu pai agir. De repente, ele não mais precisava de nenhum de nós?

Numa tarde ensolarada, quando a noite já preparava sua chegada, chegou um carro em nosso quintal, com quatro ocupantes.

Vinham de uma cidade que me era completamente desconhecida. Estavam a procura de moças para trabalhar em sua lanchonete.

Não tenho e não tinha, naquela época, nenhuma ideia de como chegaram até nossa casa. Sei que acabaram encontrando o caminho de meu destino.

O homem e a mulher eram os donos da propriedade, e outros dois, seus funcionários.

Foi uma conversa rápida. Decidido ali mesmo, em nosso quintal. E repentinamente, antes que a noite avançasse muito, já me via dentro do carro, ao lado de minha irmã numero quatro e os dois desconhecidos rapazes.

A viagem durou aproximadamente uma hora, talvez. O silencio arrebatava a quilometragem. 

Quando chegamos ao local, entramos por uma grande porta, E dentro do estabelecimento, havia um grande balcão de madeira, com alguns banquinhos encostados em frente. Algumas mesinhas  e pequenas cadeiras de madeira, dispostos em um médio salão. Dentro do balcão havia um outro balcão, embutido na parede. Uma chapa de lanche e várias garrafas de bebidas dispostas numa prateleira acima . Ao lado, uma geladeira de porte médio. 

Atravessamos esse compartimento e entramos numa espécie de deposito, com vários engradados de garrafas de cervejas e refrigerantes. E mais a frente havia uma cama, beliche, já pronta,  para nós duas dormir. Ao lado um pequeno banheiro com chuveiro.

E foi assim, meio que, silenciosamente, que toda a mudança começou.

A tarde, o ambiente mudava um pouco, varias pessoas, se aglomeravam, encostados no balcão, enquanto eu e minha irmã os servíamos meio timidamente, Depois de alguns dias já mais soltas, com um pouco mais de pratica, fomos aperfeiçoando a forma de atender os clientes que ali chegavam para lanchar, ou simplesmente relaxar, depois de um intenso dia de trabalho.

Certa noite, estava eu, fazendo sanduiches para dois clientes, e quando me virei, havia mais quatro pessoas para atender. Reparei que havia um rapaz entre eles, que assim que me viu, não tirava os olhos de mim. Outros três, aparentavam ser bem mais velhos que ele. Muito tempo depois fiquei sabendo que eram tios e sobrinho, e que o rapaz tinha dezenove anos de idade. Vieram na cidade, para instalar um parque de diversão. Seus tios eram os proprietários e ele, estava passando um dias na casa de um de um  deles, aproveitando para passar alguns dias com eles no parque.

Ele apareceu mais algumas tardes e sempre me olhava com aqueles belos olhos verdes. Numa noite, quando eu recebia o valor de consumo, seu tio me deu mais do que devia, quando fui devolver-lhe o troco, ele não quis receber me pedindo que ficasse com ele, como caixinha. Eu fui colocar o dinheiro no bolso, e o rapaz, imediatamente, pegou em minhas mãos e me fez devolver para o caixa. Não entendi direito o que o levou a fazer isso, mas, como sempre, minha educação exigiu que o obedecesse.

Na quarta visita a lanchonete, ele me fez um convite para ir conhecer o parque de diversão. Como na noite seguinte seria meu dia de folga, aceitei o convite.

A tarde, tomei meu banho e escolhi minha melhor roupa, que nem era tão sofisticada assim. Apenas uma blusinha florida e um macacão jeans e um sapatinho de salto baixo. Sai para a rua toda contente, sabendo que o encontraria.

Logo que entrei no parque, as luzes coloridas, com diversos percursos e atrações como carrosséis, roda gigante, chapéu mexicano e algumas barraquinhas de jogos variados, me deixaram meio tonta. Nunca havia sequer chegado perto de um. Meus olhos o procuravam, nem precisei andar muito, lá estava ele, dentro de uma barraca. Assim, que me viu, pulou a grade e veio ao meu encontro.

Colocou seu braço ao redor do meu pescoço e foi me levando para conhecer o parque. Me levou para brincar no chapéu mexicano, e fiquei deslumbrada com tal acontecimento. Era uma delicia girar acima do chão, e poder observar a cidade de cima, como era noite, as luzes á deixava mais exuberante. Ele estava ao meu lado e ficamos nos olhando e rindo o tempo todo. Depois me levou na roda gigante, e assim, fui conhecendo toda a magia de um parque de diversão, honrando o nome que levava.

Depois de nos divertirmos bastante, chegou a hora de subir de volta para casa. Ele se ofereceu para me acompanhar. Quando já estava quase chegando, paramos, nos olhamos e nos beijamos. Eu já havia beijado alguns rapazes, esporadicamente, quando ia no cinema de minha cidade com minhas irmãs mais velhas. Nos domingos, nosso pai nos dava o dia livre. Depois do almoço, deixávamos a cozinha limpa e podíamos fazer o que quisermos. Como a única opção que tínhamos a noite era dormir cedo para acordar cedo na segunda feira para trabalhar. Quando tinha um filme bom passando no cinema, nós íamos, de ônibus, até a cidade que ficava a mais ou menos uns vinte quilômetros de nossa casa. Apesar de ter que andar por cinco quilômetro a pé até chegar ao ponto, e depois, voltar tudo a pé novamente.

O filme começava as oito horas e terminava as dez. E o ônibus saia do seu ponto as dez, então, não dava para assistir o final do filme. Já que, para chegar do cinema até o ponto, Tínhamos que andar uns dez minutos. Mesmo assim, a gente ficava feliz demais por poder fazer algo diferente do cotidiano.

Como o cinema, na época, era um lugar de encontro, sempre havia rapazes do nosso bairro, que tomava o mesmo ônibus, e consequentemente, como bons adolescentes, o ônibus passava a ser um ótimo lugar para paqueras. Que acabava em convites para assistir o filme juntos. Numa dessas vezes, ao invés de assistir a um filme que não tinha final, se trocavam caricias. E foi assim que acabei ganhando o primeiro beijo, seguidos do segundo, terceiro, e outros vários. Longe da vista do meu pai, tudo era divertido. 

Não passava disso, na segunda feira tudo era esquecido, diante do trabalho árduo na roça. 

Mas aquele beijo foi bem diferente, tinha uma conotação mais ardente, algo que jamais havia imaginado, seria amor? Talvez!

Nos dias que se passaram, a gente dava sempre um jeitinho de nos encontrarmos, as escondidas, longe de olhares curiosos que pudessem gerar fofocas maledicentes. E os beijos se multiplicavam.

Certo dia, enquanto ainda havia eu e ele, Seria meu dia de folga. Resolvi ir para casa de meus pais e lhe contei.

Foi então, que pediu para que nos encontrássemos no terminal de ônibus da cidade. Eu, como já mencionei, morava na lanchonete de uma cidade um tanto distante da cidade que fazia ligação com o sitio que meus pais moravam. Ele viria de outra cidade, onde seus tios moravam, sentido contrario de mim. E foi no exato momento que eu desembarcava do ônibus que me trazia, ele desembarcava do ônibus que o trouxe. E nós nos aproximamos, nos beijamos, ele pegou em minha mão e começamos a passear pelas ruas como se nada mais existisse a não ser nós dois. 

Ainda era de manhã bem cedo, perto das oito horas, e eu tinha que pegar um ônibus as quatro horas da tarde, rumo ao sitio de meus pais. E ainda teria que andar cinco quilômetros a pé, depois do desembarque. Havia na cidade um lugar muito bonito, chamado cruzeiro. Onde havia várias pedras e jardins com uma grande cruz de ferro, situado num lugar bem alto, de onde se poderia ver a cidade inteira. E nós subimos até lá. Não havia ninguém por perto, e pudemos conversar e namorar em paz. 

Passamos o dia em nosso mundo, sem comer e sem beber água, nos alimentando de beijos. Apenas quando apareceu, por acaso, um sorveteiro, é que ele comprou um sorvete para ambos. Quando percebi já tinha passado das quatro horas da tarde. E o último ônibus que me levaria até o sitio, saia as seis, então, meio relutantes, nós tivemos que descer e nos despedirmos. E foi assim, que ele me deixou, com a lembrança do ultimo beijo e um leve aceno de mão.

Quando desci no ponto, já estava escuro, E tive que ter muita coragem para caminhar cinco quilômetros sem luz. Fui rezando, e limitei-me a distrair com a doce lembrança do encontro. Ainda sentia o perfume em minhas mãos, e o gosto dos inúmeros beijos trocados.

Passei o final de semana em transe. E na segunda feira, voltei para o trabalho, que transcorria sem muitas novidades. O meu amor foi embora pra cidade em que morava, e desta vez, era bem mais longe, a 374 quilômetros de mim.

Passou-se varias semanas até que, um dia, uma carta chegou. Vinha de uma loja de móveis que ficava do outro lado da rua. Um funcionário veio me entregar. Fiquei  muito surpresa quando vi o nome do remetente. Nada mais, nada menos, que ele. Com papel de carta, cheirosa e delicada, com uma gravura de duas pessoas abraçadas no alto de uma colina,  com uma boa caligrafia que dizia assim: - Meu amor, como você estava linda nesse dia. Sinto tantas saudades suas e meu amor não cabe nesse papel. Este foi o dia mais lindo de minha vida. Beijo!

Poucas palavras que trouxeram alegrias imensas para meu coração.

O tempo passou, veio mais uma carta bem romântica e depois o silêncio.

Trabalhei mais alguns meses na lanchonete, depois pedi para sair e fui trabalhar numa padaria próxima. O salário era maior e o trabalho bem mais divertido. Mais gente trabalhando, mais gente entrando e saindo, e assim fui fazendo novas amizades, E como não tinha mais o deposito para dormir, aluguei um quarto numa pensão, onde vieram morar comigo, uma irmã e uma amiga.

Certo dia, após uma longa jornada de trabalho, Já estava quase na hora de sair, chegou uma senhora que costumava a passar por lá de vez em quando para tomar um café. Era muito brava  e a gente gostava de irrita-la. Não me lembro o que foi que eu falei, e ela imediatamente, levantou a bengala para bater em mim, eu agachei no balcão ficando de cócoras, e quando me levantei, lá estava ele, com cara de preocupação, olhando para mim. Fiquei muito surpresa ao vê-lo. Estava chovendo naquela hora, e seu cabelo muito mais encaracolado  por estar molhado. Vestia uma camisa cor de caramelo, calça azul e sapato preto, lindo e elegante como sempre. 

Começou dizendo: Nossa! levei um susto quando via aquela senhora querendo te agredir! Eu apenas o olhava como se fosse uma alucinação. Gaguejei um pouco ao responder que já estava acostumada com a senhora e que, ela não fazia mal nem a uma mosca. Como estava quase na hora de acabar meu turno,  pedi que me esperasse.

E foi o que ele fez.

Minha irmã que também trabalhava ali, me ofereceu um guarda-chuva e me aconselhou a leva-lo ate a pensão. Na hora fiquei meio sem jeito, mas como estava chovendo muito e sem ter onde ficar para conversarmos, pedi a ele que fossemos até a pensão. E novamente nos perdemos um no outro, ele me beijava ardentemente, enquanto sussurrava em meu ouvido: - Quanta saudade!

Naquela época havia muito respeito por parte dos rapazes, eles nunca tentavam nada a mais do que simples beijos. E foi o que aconteceu. Conversávamos entre um beijo e outro.

Ele me contou que viera na casa de seus tios e já estava voltando para sua cidade, e não resistindo, resolveu vir  me ver. Que eu estava linda e que ele desejava estar sempre comigo, mas, que estudava e trabalhava, e como a cidade em que morava era longe, não podia me ver com muita frequência. Eu não perguntei nada, nada mesmo, só ficava inebriada com seus beijos quentes. Veio a hora da despedida, eu o levei ate a porta, sentindo meus lábios inchados, sentindo uma certa vergonha por causa disso. E ele se foi.

Eu com quinze anos, ainda sem nenhum preparo para o romance, fui adentrando a solicitude tempo, me achando a rainha das horas, perdida nos embaraços das emoções. Sem palavras para defender o que sentia, deixei-o ir. E os momentos tão sublimes foram se apagando ante outros encontros e decepções.

Só agora,  com sessenta anos de idade, amadurecida e repleta, de vida, por dentro, consigo, enfim, falar dos sentimentos profundos que despontava em mim, ainda em tenra idade, das quais as palavras ainda me eram tão escassas. Se fosse hoje, sem duvida, eu te diria, que te amei!

Hertinha Fischer











sábado, 14 de junho de 2025

Estação de cada vez

Sempre confiei no tempo,


em mim havia a tranquilidade


de resolver tudo no dia seguinte.


Mas compreender, como compreendia, não era


algo para os outros.


Os erros que eu cometia se apagavam,


depois da noite. Nunca guardei nada para o amanhã.


Meu dia era e é apenas um dia.


Não se vive o amanhã no hoje.


Não é preciso carregar tudo para


debaixo dos lençóis.


Muito menos semear mágoas nos sonhos.


Pode-se guardar munição para guerras futuras,


mas não se usa munição sem que existam


guerras.


O que nos serve, serve em vida.


Depois da morte, nada mais serve..

Hertinha Fischer






sábado, 7 de junho de 2025

Feitio da vida

A vida me exibia como parte dela, sem me notar, e lá estava eu. Não havia escolha, o sentido me guiava. Como uma frase bem escrita em um conto inteiro, eu lia, mas não entendia. Desejava o céu, mas era terra. Um ser dentro de um universo que nem sabia existir. Movimentos de figuras, pessoas! E o que mais eram esses componentes? Defender-se sem culpa, culpar-se por existir. Às cegas, ir e vir, caminhar desconexo. Saber o que sabiam, ensinar-me sem compreender. Que mundo rarefeito e desconexo – nascer em um meio desconhecido e precisar sobreviver. Talvez por isso a vida nos negue o conhecimento ao nascer. Nada se perde, tudo é um amontoado das mesmas coisas. O que não se copia, não se cria, ou se ausenta da superioridade, sem novidade, apenas superficialidade. 


Hertinha Fischer

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O eu que se perdeu

Não é apenas o eu que passa,  


mas tudo que dele emana.  

Um sopro transformado em vento,  

uma sombra solitária ao meio-dia.  

As ondas que se desfazem na praia,  

a areia que se perde na orla.  

O pulsar de um coração sem sangue,  

a leveza cercada de excesso.  

O alto em lugares baixos, a luz em dias  

sem lua.  

Somos alegrias passageiras.  

Curvados pelo medo, mas eretos.  

Sedentos do amor alheio,  

carentes do amor próprio.  


Hertinha Fischer.

domingo, 1 de junho de 2025

Bioalegria

Nunca me entristeci com nada, embora já tenha chorado bastante. As situações que não podia resolver, deixava para o tempo ajeitar à sua maneira. Enquanto vivia, tentava aproveitar cada etapa com entusiasmo, mesmo quando algo não dava certo. Nasci na pobreza, minha casa era pequena: só uma cozinha, uma parede e um quarto para sete pessoas. Quando acordava e saía, tudo o que meus olhos alcançavam era meu. O vento brincava com meus cabelos, a estradinha serpenteava pela terra, escondendo-se do meu olhar curioso. O riacho, pequeno e acolhedor, abraçava suas águas. A jabuticabeira na beira do riacho deixava cair flores brancas sobre si, transformando-se de um dia para o outro em bolas negras e doces. O chão de terra batida, coberto por vegetação alegre, fazia cócegas nos meus pés. A tábua de lavar roupas, coberta de musgos, se tornava um escorregador para o rio. As músicas do rádio embalavam as tardes, acordavam as noites e recebiam os dias com poesias. A ribanceira, com um córrego ao centro, brilhava sob o sol. A velha bacia nos banhava e depois virava balanço no galho do pessegueiro. A roça verdejante nos observava do alto, ansiosa para brincar conosco. As pessoas, conhecidas de perto ou de longe, cultivavam amizades com carinho. Havia uma certa ordem, fruto da harmonia entre a natureza e o tempo, cujo patriarca era Deus!


Hertinha Fischer.

sábado, 31 de maio de 2025

O sol também ama

Me encantavam as cores da tarde, derramadas na entrada da noite, enquanto se preparava para receber a visita da lua cheia. Costumava deitar lá fora, com o corpo quase adormecido junto ao chão frio, separado apenas por um manto de saco de estopa. Olhava para o céu como se pudesse tocar as estrelas com as mãos, e o brilho intenso delas pulsava dentro dos meus olhos. A boca da noite assoviava uma canção suave, que entrava com paixão no meu coração. Dizem que a noite é poética, compondo versos na escuridão apenas para enternecer as estrelas, que se apaixonam pelo sol distante. Acende suas luzes para que nunca se esqueçam de sua existência.

Hertinha Fischer





sábado, 24 de maio de 2025

Alegria do saber

Eu aprendia matemática contando as pedrinhas na estrada. É claro que sempre acabava perdendo as contas, mas me divertia muito enquanto caminhava sozinha para a escola. Foi assim também que aprendi a sonhar. Olhava com entusiasmo as borboletas ao meu redor, que coloriam minha história naquele momento. As curvas, as retas, os círculos, as entradas, as saídas, a roça!


Ao entrar na sala de aula, meus dedinhos agarravam o lápis com tanta força quanto a força da minha imaginação. Desenhos, a princípio desajeitados, iam ganhando músculos e ideais. A escola tinha cheiro de sabedoria, não aquela de saber tudo, mas a de poder descobrir.


A partitura das letras que eu tentava desvendar nas tabuletas espalhadas pelas estradas parecia querer me dizer algo importante, mas sempre me deixava intrigada por não saber corresponder. Aquele emaranhado de vogais e consoantes que acompanhavam figuras parecia tentar falar comigo, mas sem que eu pudesse compreender.


A escola... ah, a escola! Que preciosa semente despertava em mim. Ia além da estradinha, além de tudo ao meu redor; seria ela que me daria condições de saber mais sobre o mundo. As voltas do "a", os laços do "e", os pingos do "i", o olho do "o", as curvas do "u". Tão difíceis de desenhar, mas tão fáceis de amar. Jamais imaginei que, um dia, pudesse fazer poesia com elas. E fiz!


Hertinha Fischer





sexta-feira, 23 de maio de 2025

Contando tempo

A tarde se desenrolava em suas caminhadas doces, embrenhando-se entre os galhos descuidados, lançando feixes de luz nas pétalas floridas, enquanto a lua já se adornava atrás do morro imóvel.


O canto das cigarras e sabiás ecoava na boca do verão, que, aquecido ainda pela paixão iminente, se espalhava, derramando seu hálito quente sobre a terra.


Meu corpo corria sempre, buscando movimentar um pouco o ar e tornar mais leve o próprio respirar. Enquanto os cabelos deslizavam pelos ombros, os poros começavam a lacrimejar, aliviando, ainda que levemente, o calor sufocante da atmosfera.


A orquestra da noite iniciava a melodia do silêncio, onde sapos e grilos, em coro, conseguiam interrompê-lo, ajustando as cordas de seus violões desafinados.


Tempo, de quanto tempo precisamos? Apenas num segundo de luar, tantos sonhos florescem.

Hertinha Fischer








segunda-feira, 19 de maio de 2025

Dia de sonho

Noite que chega, noite avança,


cansaço que nunca descansa.


Se vai por um instante breve,


mas logo retorna e se percebe.


Um sorriso que mal se demora,


mostra os dentes e logo vai embora.


Traz as bênçãos de um repouso,


que só finge ser harmonioso.


Histórias estranhas se contam,


e a realidade se desmonta.


Quando o dia enfim clareia,


o cansaço logo incendeia.


Queria do sonho o caminho,


para dormir mais um pouquinho.


Sonhar que a segunda-feira,


poderia ser um domingo à beira.


E da manhã, aquela paz,


que a tarde jamais desfaz.

Hertinha Fischer



domingo, 18 de maio de 2025

o sonar do silêncio

Há memórias que nunca se apagam, como os luares de outros tempos e lugares. Havia uma criança, e essa criança era eu, com um mundão à minha espreita e o pouco que eu sabia. Mesmo sem ver, eu ouvia. Pela manhã, o cheiro de café chegava aos meus ouvidos e me dizia que era dia. As comédias dos grandes pássaros começavam ao nascer do sol, tentando ganhar dos pequenos, que eles punham a correr. Da grandeza da Tereza, que dava leveza ao dia, ouvia-se o seu cantar: "Essa vida é uma beleza." Essa saudade que corre solta, esfola a alma e nunca morre. Se uma estrada se fecha, logo outra socorre.

Hertinha Fischer







sábado, 17 de maio de 2025

Olhar que nada perde

Nem preciso de muito espaço, 


já tenho meu cantinho verde, 

abraços das árvores a me envolver. 

Sorrisos nas ruas se abrindo, 

afastando todos os cansaços. 

Portas que vão se abrindo, 

pessoas saindo, 

crianças da calçada surgindo, 

tornando meus sonhos mais belos. 

Meus olhos giram ao redor, 

nuvens que do céu não se soltam, 

estrelas que o ar escolta, 

e o mar sereno que nunca se revolta. 

Tintas lançadas no ar, 

no encontro do sol e da chuva, 

desenhando curvas suaves 

para o arco-íris formar. 

E a alma se alimenta, 

do que vê e do que sente, 

o corpo nunca desmente 

a alegria que às vezes se ausenta. 


Hertinha Fischer

sexta-feira, 16 de maio de 2025

O segundo diluvio

Acordei pensando no amor e logo veio à minha mente a figura de Cristo – sem rosto, de coração aberto.


Doando-se como o céu se doa às nuvens. Fiquei um pouco atordoada e pensei: Quem conhece o verdadeiro amor? As características do amor: não é soberbo, não é ciumento, não se orgulha, não é inconveniente, não busca seus próprios interesses, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade – Tudo suporta, tudo crê, tudo espera. Isso me faz lembrar o decorrer da vida, que não está ligado ao individualismo.


Então, refleti: Quem é o amor ou para que serve amar? O amor somos nós, esse é o sentido. A quem devemos esse amor? A Deus que nos criou! Serve para servir, sem usar de si mesmo para exemplificá-lo. O amor em si, o amor em nós, o amor que equilibra, o doador, o receptor. Como um casamento perfeito, onde o doador e o receptor agem de forma digna, justa e abençoada.


Lembro-me das virgens, das lâmpadas, das bodas. As prudentes se prepararam o suficiente para esperar que o esposo abrisse a porta para a festa. As néscias acreditavam que estavam seguras e que o esposo, ao vê-las, abriria a porta. Elas trouxeram pouco combustível para suas lâmpadas, que se apagaram. No escuro, pediram azeite emprestado às virgens prudentes, que se recusaram, dizendo: “Se dermos a vocês e o noivo demorar, corremos o risco de perder a festa”. Quando as néscias saíram para comprar combustível, o noivo abriu a porta, e as prudentes entraram. O noivo fechou a porta, e quando as néscias voltaram, encontraram-na trancada.


Assim é a vida. Muitos tolos não acreditam que a porta pode se fechar de repente, recusam-se a enxergar com clareza, até que a porta se feche e fiquem de fora. Foi o que aconteceu na época de Noé – quase todos, exceto sua própria família, não acreditaram em Deus e em Sua palavra, quando Ele disse que haveria uma grande inundação.


Hertinha Fischer









quinta-feira, 15 de maio de 2025

Há tempo que não me escuto

Fico pensando se vale a pena, sair ou entrar em cena. Muitas coisas novas não me atraem, coisas velhas me distraem. Já senti a força da ansiedade, mais saudade que felicidade. Com mais calma, perco o caminho, já desfiz o meu cantinho. Só me sobra pouco tempo, o resto é contratempo. Sinto a pele cada vez mais fina, os cabelos ralos, o coração vacilante, nas mãos poucos calos. Posso dizer o que quiser, ninguém me dá ouvidos, posso sentir um pouco mais, tudo fica reprimido. Invejo certas manias, nada faço que me anime, tudo perdeu a graça, até escrever me desanima.

Hertinha Fischer



quarta-feira, 9 de abril de 2025

O espelho que não me reflete

Só tenho medo de me perder de mim mesma.


Temo acordar pela manhã e não me reconhecer, não me identificar, e deixar de ser útil a alguém. Posso ser esquecida pelos outros, mas não quero esquecer que sou uma peça importante para a vida. Não preciso ser vista, elogiada ou aplaudida, só quero caminhar e sentir cada pedaço de chão como meu. Sentir, ao amanhecer, o cheiro gostoso de mais um dia. Os caminhos flutuando além do meu olhar, a relva sondando meus passos, a debandada dos pássaros lançando-se em seus magníficos voos, quase me confidenciando seus medos.


Reconhecer-me em tudo — em cada flor, nos caminhantes que nem percebem minha existência, mas não ocupam meu espaço, porque nele só eu caibo. Na novidade de cada etapa, onde me sustento. Pouco importa se me entendem ou não, se me querem bem ou não, se sou importante ou não. O que importa é que me identifico como um ser. Estou vivendo, mesmo que com pouca significância, mas existo.


E celebro, como quem celebra bodas. Encantada com os arranjos que o dia me oferece a cada passo — sejam pedras ou carne, flores ou descampados, secas ou úmidas. Tenho consciência de tudo — tenho a mim em tudo que me rodeia. Tudo pertence aos meus olhos, meus ouvidos, meu coração. Embora não possa me ver sem um espelho, sinto minha presença, e isso me faz saber que existo, que amo existir, sem me preocupar com a aparência, já que meus próprios olhos jamais me contemplarão. E os olhos dos outros não me incomodam.

Hertinha Fischer.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Seios dos tolos

Abra a janela e olhe lá fora, perceba o silêncio que a envolve, o vazio de gente que caminha nela. O antes se mistura com o agora. A alegria murchou, restaram apenas olhares estranhos. Até uma criança rosnou para mim hoje, seria esse o amor animal que todos desejam? Os frutos ainda verdes, na liberdade, se lançam ao chão, onde apodrecem e enfeitam a terra com sua decadência. Que pena. Será que posso falar assim, ou ainda é cedo? A beleza falsa me ofusca, enquanto a "beleza" guardada no bolso parece mais fraca, talvez só sirva para comprar um pouco mais de falsidade. Já usam mais terra para adornar túmulos que não são mais caiados, exibindo-se com mármore. Será que o infinito é a soberba dos homens, que se conformam com uma vida rasa, mesmo sabendo que o fim é profundo? Se houver um amanhã, talvez saiba para onde ir; se não houver, para onde irá?


Hertinha Fischer.


sábado, 5 de abril de 2025

Minhas lembranças

Ah! O que antes eu tinha,


com que suavidade o sol


se espalhava.


O abraço da estrada até minha casa,


com braços longos e apertados


flanqueados por arbustos baixos.


As flores, que certamente se abriam


em sorrisos primaveris, celebrando


as passagens.


A textura da terra batida envolvendo, com 


cuidado, o contorno do nicho sagrado.


As vozes preenchendo o silêncio,


como quem precisa de melodia.


Arvoredos convidando as folhas 


a dançarem na serenata do vento.


A menininha sentada no alpendre da vida,


sonhando com os anjos.


O senhor e a senhora atiçando a força e a lei,


que eles mesmos criavam e acertavam.


O riacho descobrindo o caminho das águas,


o balde suportando o peso delas.


Aliança sem dedo. Casamento sem cláusulas.


União de tudo com todos, lei sublinhada


na lógica do sacrifício.


O equilíbrio entre necessidade e causa,


harmonia entre o útil e o agradável,


na delícia de construir, na simplicidade,


um lar de respeito e amor.


Hertinha Fischer

lar 






Subidas, descidas e coordenação

Me envolvi com o tempo, nunca quis esquecer.


Cada instante vivido deixava marcas.


Fui enfrentando os medos, mesmo que


dominassem meus momentos.


Queria caminhar, mas me faltavam passos.


Aprendi a usar o tempo a meu favor.


Minhas mãos suavam despreparadas,


sorrisos tímidos surgiam,


e palavras tremiam em minha boca.


Fui, como quem se explora,


protegida pelas escamas do seguir.


Cada dia me desafiava, e cada desafio me


ensinava.


Tive encontros abruptos,


que não me derrubaram, apenas me


impulsionaram a seguir com mais cautela.


Não sou contra nem a favor de ninguém,


sou a favor da vida que me habita.


Hertinha Fischer.





sexta-feira, 4 de abril de 2025

Filiação

Talvez o digno fosse um viajante,  

cujas mãos alcançavam o céu.  

Segurava uma foice,  

repleta de força em cada corte.  


O fogo sempre pronto para um espaço,  

quase sempre em acero,  

nunca tomava o que era seu por direito.  


Mesmo entre as torres de Babel,  

a simplicidade era sua essência.  

Não perturbava o natural,  

certo de que a presa livre estaria  

em seu quintal.  


Assim vivia, ouvia e transmitia,  

nada do elevado o preenchia.  

Fazia o que sabia fazer.  


O mundo ao seu redor o atraía,  

aprendia com as lições que se desenhavam,  

mas nada o incomodava.  


Seguiu pelos anos como um caminho  

que já nasceu traçado,  

absorvendo as marcas  

que formaram as ruas.  


Vinha de outros cantos, e o lugar  

já lhe pertencia,  

assim como ele pertencia  

a todos os lugares que via.  


Fez-se na pequenez, cultivou a tristeza,  

sobrou proeza e uniu-se  

à amada Tereza.  


E, a partir do nada,  

construiu uma estrada de felicidade  

para a posteridade.  


Hertinha Fischer




quinta-feira, 3 de abril de 2025

Memória de escultor

 Guardo na minha quietude tantos rostos, na memória, tantos momentos. Ainda há encontros quando a distância os torna impossível. Tenho as minhas estradinhas invisíveis, por onde ainda andam tantas promessas, sorrisos, passeios, palavras, que o passado não conseguiu enterrar. Muitas vezes, quando me entristeço, gosto de chamar a noite, a penumbra me trás lembranças e enumero um a um. Posso estar esquecida, mas, nunca me esqueço. Tenho memória de escultor.

Hertinha Fischer.

Chama das pegadas ( caminho dos pés)

Ainda que amanhã seja apenas penas a voar, sei que cheguei lá. Neste acaso em que as horas me alcançam, aos olhos de relógio que recebo, um arco se demora, um ponto que não me atrevo. De lá ainda venho, pra lá sequer andei. Depressa me absorveu os sonhos que sequer sonhei. 


Foi-se um a um, em dia ainda claro, como terra que virou barro, os amores que dediquei, nos afetos que mendiguei. Sou como onda de calor que frente fria encontrou, nuvens negras enfrentou, chuva forte me lavou, em pedra de gelo me transformou. 


Ainda cega vejo, com pouca luz ilumino. Se pouco transmiti, esse era meu destino. 

 Hertinha Fischer




sábado, 29 de março de 2025

Transformados seremos

Minha alma guarda o que desconheço,  

do que vivi já estou cansado.  

Quero ser o futuro,  

ser o futuro que serei.  

Sou um pedaço do passado,  

e do presente prisioneiro.  

Aguardo as cores que caem  

nas estações,  

depositadas por mãos que não sei.  

Se chocam com as flores,  

entre folhas e frutos aparecem.  

Tudo cabe neste mundo,  

antes que tudo acabe.  

O tempo é um poço sem fundo,  

que nem ele mesmo entende.  

Escolhe, recolhe e sustenta,  

e a alma se quebra.  

O que trouxe, leva consigo,  

no auge, tudo termina.  

Não consigo imaginar,  

longe da imagem mim mesmo.  

Que serei na eternidade,  

um eu que não sou eu,  

ou eu no meu apogeu?  


Hertinha Fischer

Sinalização do viver

Aprendi a erguer cercas de arame ao meu redor.


Carrego em mim a liberdade, e isso me basta.


O intenso que me observa pelos olhos,


A luz que me escuta pelas frestas,


A gentileza que me concede favores,


O alcançar que me preenche.


O que chegou me alcançou,


O que partiu se afastou,


Mas o prazer ainda corre solto.


Na margem da esperança,


bordada de segredos sutis,


entoam-se vitórias sem receio,


Do que sou e fui,


Do que percorreu e brilhou,


Do que enxergou de olhos fechados,


desvendando a luz de outros mundos.


Hertinha Fischer



quinta-feira, 27 de março de 2025

A roda da finitude

A vida encurta, o ponteiro apressa. Logo, logo, o dia se vai na rapidez que nos empurra a andar correndo. E, aos poucos, vai somando. Quando percebemos, já é depois, e de depois em depois notamos que a tartaruga virou lebre. Os cabelos brancos roubam a cor, e a esperança se transforma em renúncia no descarado passar do tempo. A amizade supera o amor, e o suor seca. Na terra do nunca, é nunca mesmo, só é sempre por acaso. E, se o sempre vence, é lógico: o nunca mente. 

Hertinha Fischer.




domingo, 23 de março de 2025

Transitoriedade

E a vida que chegou em mim, 


nem sei de quando.


Nem sabia que era vida,


mas nela ando.




Embarcou-me em sua aventura,


calçando minha estrutura.


Fez de mim o que aprouve.


Se fui, nem sei se houve.




Vejo-me e te vejo em mim.


Goteja, destila enfim.


Se te vejo, nem sei se vim.




Pequena neste mundo grande,


folha perdida neste desmande.


E a vida que se expande


me leva com ela por onde ande.




É a terra a dona do tempo,


que tudo encerra no esquecimento.


Pra dentro leva o ensinamento.


Se não paguei, fiquei devendo.


Hertinha Fischer




sábado, 22 de março de 2025

Tarde colorida

Hora de silêncio das flores,  


descansando no ventre da terra,  


acolchoando-a com suas cores,  


cobrindo-a com seus amores.  


Folhas caem para repousar,  


flores secam para encantar,  


soando doce melodia  


sob os passos a passar.  


Doce é o outono,  


estação que assume o trono,  


colhe o que estava no alto,  


e do chão se torna dono.  


Tudo parece findar,  


olhos já não podem enxergar  


que a seiva ainda pulsa  


aguardando o tempo de brotar.  

Hertinha Fischer.

Fidelidade e compromisso do existir

Há um único palco e uma única peça.


Bancos vazios e poucos aplausos. Mas não importa: bons protagonistas sabem como fazer o prazer desfilar pelo tapete vermelho. É tudo uma questão de realização no que se comprometem. Um passo traz alegria, dois passos, pura satisfação. A história de cada um se desenrola conforme o que acreditam e estão dispostos a pensar. Sempre foi assim, é assim e continuará sendo.


Dizem que não somos diferentes dos animais. O que acontece a um, acontece ao outro. Deveria ser apenas uma questão de sobrevivência. Porém, o homem, com sua astúcia, quer mais. Não se contenta com o palco ou em ser apenas um personagem; ele almeja a diretoria. E como diretor, dita o que os outros devem dizer, como devem agir e até como devem amar. Assim, perdemos a originalidade, tornando-nos marionetes em um palco repleto de hipocrisia, sem perceber que tudo é finito.


Deus nos diz que somos semelhantes a ele, talvez na originalidade. Mas, ao fugirmos de nós mesmos, confiando na metamorfose como se fôssemos criados em casulos, como sugere a ciência, abrimos espaço para todo tipo de infortúnio. Isso porque nos afastamos da bondade e da justiça.


Hertinha Fischer.







domingo, 16 de março de 2025

A liberdade que Deus concede

A aparência, de fato, nega a essência.


Há quem pense saber de tudo, afiando a língua para falar, como quem afia uma enxada para capinar. Contudo, pouco falam de si mesmos, pois, na ânsia de saber sobre os outros, acabam negando a si próprios por fraqueza. Julgam os seres humanos, sem perceber que são todos como massas batidas no mesmo liquidificador. Se negam a existência de Deus, como poderão explicar a vida? Buscam por algo que jamais encontrarão, pois se confortam com o que é passageiro. Detalham palavras, mas na prática da vida, falta foco. 


A Bíblia não tenta provar nada; assume Deus como um fato. Não aprisiona, pois acredita que a liberdade é o melhor caminho. Quem encontra consolo no que é perecível verá a morte como o fim. A palavra de Deus não é imposta, e o crer não é acessível àqueles que escolhem se perder.

Hertinha Fischer.