Havia luz naquele olhar, capaz de derrubar todas as minhas defesas. Surgiu de repente no meu caminho, andando desmascarado e sutil. Olhei e adoeci no mesmo instante, sabia que morreria de amor. Meus olhos o seguiam, mesmo sem sua presença física. Meu coração o chamava até que ele me ouviu. Era como se o tempo, cheio de felicidade, girasse sob meus pés. Momentos inexplicáveis todos direcionados àquela luz.
Tão pouco tempo parecia uma eternidade. Cada encontro se tornava um instante eterno até o próximo. Eu dizia: "Feitos um para o outro!" Mal sabia eu que nada existia do outro lado. Uma magia incendiária consumia toda a razão. A cada encontro, eu me preparava como uma rainha para seu rei, acreditando na ilusão de reciprocidade. Os doces beijos com gosto de chocolate e hortelã tatuavam meu coração. As risadas ternas, os passeios de mãos dadas, o ir para a cama depois da despedida, levando o gosto da felicidade para os sonhos. Esperar pelo próximo encontro, ouvir o ronco da moto chegando, sentir os abraços na cintura, as gotas do sereno nos envolvendo, o amor se revelando em nós. O mundo se resumia: nada existia sem ele.
Até aquele dia. Um sábado à tarde, ensolarado e cruel. Eu esperava o ônibus para voltar à casa do meu pai. Ele apareceu de repente, como um vento tempestuoso. "Onde vai?" perguntou. "Na casa do meu pai", respondi. "Ele me espera." Sem piedade, como se não tivesse me ouvido, retrucou: "Vai nada, está indo se encontrar com outro!" "Que outro?" perguntei, perplexa. "Não sei, você que vai me dizer!" Já havia explicado que meu pai, viúvo, me aguardava todo sábado para que eu preparasse o almoço de domingo e cuidasse de suas roupas. "Mas não é isso que estão dizendo..."
Hertinha Fischer
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