Estou aqui, mais uma vez, tentando mudar o foco dos pensamentos. Minhas lembranças são tão vívidas que, muitas vezes, parecem costuradas com pedaços semelhantes. Tive muita dificuldade para me encarar de frente, acreditava ser apenas o reflexo dos outros. Desde cedo, caminhei e brinquei com minhas fantasias, superando obstáculos e deixando que o tempo curasse certas feridas. A mata era meu mundo, os trilhos entre as árvores, minha alegria. Ainda vivo essa simplicidade, mesmo sem caminhos ou grandes florestas para explorar. Meus olhos substituem meus pés, e meu coração sente o invisível das boas memórias. O mundo visível é como uma grande tela, já pintada e completa, onde os olhos se cansam de ver e os ouvidos de ouvir. Nas profundezas das lembranças, onde o mortal não entra e o eu sem máscaras se revela, é possível ouvir a própria voz sem mover os lábios, chorar em silêncio sem lágrimas e alcançar o próprio limite — e, assim, aprender um pouco mais sobre a vida.
Herta Fischer