Na imensidão dessa estrada percorrida, quando já silenciada, transfigurou-se, vestindo-se de asfalto que, lentamente, torna meus passos mais pesados e traz uma saudade aos pés. Quanta suavidade a terra me oferecia em seu leito, quando ainda vivia sobre a poeira do tempo. A chuva ainda desperta nuances de barro e, em mim, faz chover lembranças. Queria ainda pisar na mata rasteira, contornar riachos dengosos, cheios de gozo e paz, que faziam as águas cantarem, correndo por trilhos abertos pelas mãos de meu pai. Que saudade imensa das árvores e seus frutos dançando ao vento, adoçando olhares; dos caminhos marcados por milhares de passos; da entrada suave onde o rancho vivia. Entre quatro paredes, o céu entrava, e o fogão de lenha aceso aguardava o sol. As manhãs se alegravam com sorrisos sem trauma, crianças se levantavam com leveza na alma, e o roçado chamava as enxadas para perto. Ah, mas o tempo esqueceu… Sim, esqueceu de viver! O vazio do mato, dos rostos, das vozes, é uma alma sem alma. Aquele romantismo de outrora, que contava histórias, recitava versos e prosas, entoava cânticos e inspirava poesias, hoje se encerra em páginas amarelas. Minha amada, tão bela quanto o despertar da manhã, serena e tranquila, pulsa dentro de mim. Teus olhos e teu sorriso são como um fio de transmissão de força que acende minhas luzes e traz o sol para mais perto. Espero por ti nas encruzilhadas dos meus devaneios, pelas florestas que dizem teu nome, nas cores que lembram teu ventre e no perfume que encerra meus dias.
Pensamentos da Herta
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Coração sertanejo
Na imensidão dessa estrada percorrida, quando já silenciada, transfigurou-se, vestindo-se de asfalto que, lentamente, torna meus passos mais...
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 27 de abril de 2026
O tempo e nós
Não tenho idade, sou o tempo, e ele sempre se renova em seu próprio percurso. Meu útero guarda meu reflexo, como uma rosa que o tempo despetalou, mas cujo caule ainda lembra como fazê-la florescer. Onde mais estaria o útero das flores, senão nelas próprias?
O tempo nunca acaba, embora pareça passar diante de nós. Se entrei nele e vivo o agora, onde me refugiarei quando deixar para trás o futuro que não viverei?
São muitas perguntas e poucas respostas. Sou peregrina nesta terra e sigo adiante como quem sabe e não sabe, como quem vive e pouco vive, pois há um tempo limitado para estudar, refletir e aprender sobre mim mesma e sobre como a vida funciona.
Acredito que somos como elos de uma corrente invisível, cujo tempo guarda em sua memória para nos reencontrar nos planos celestes. Cada ser é um elo que se une em algum lugar, para depois se reunir em um momento específico. Algo que só mais tarde iremos compreender.
sábado, 18 de abril de 2026
Mantendo o desejo de viver
Já é tarde, quase suave e aberta, e as manhãs se deixaram levar. Meus olhos deram vida, emprestando seu brilho ao meu coração. Apagou-se todo o orgulho que havia, acenderam-se as luzes da generosidade que minha alma havia esquecido. De juíza à expectativa, da incompreensão à sabedoria do tempo. Deus organizou o corpo, concedendo muito mais honra ao que não tinha, para que não haja divisão entre o forte e o fraco; pelo contrário, que todos cooperem com igual cuidado em favor uns dos outros, sem prejudicar ninguém. É um lembrete de que participamos de um mesmo princípio: o bem que nos completa! Mas o mundo, como vento tempestuoso, carrega mágoa e raiva, despejando sobre nós relâmpagos de mal querer. Infelizmente.
Nuvens aguadas
Prefiro ser desprezada pelos homens a ser esquecida por Deus. Ando meio murcha, como uma rosa fora do solo, suando sob sol forte, mas me fortaleço com o sal. Caminho sobre a glória do porvir, já que a realidade já não me compõe nem me retrata. Procuro ser o que sempre fui: triste nos tempos de tristeza e alegre nas épocas de alegria. Sou mais! Nada me subtrai — nem o tempo, nem as andanças, nem as cobranças. Eu o universo somos um; eu, com todos, sou o componente que sustenta o que se vê, a alegria da complexidade que ronda a existência. Sem vindas nem idas, apenas passos que me transportam, enquanto a criança ainda mora em mim, apesar de tantos anos completos. Produzo e prendo!
sábado, 28 de março de 2026
Restos do resto
Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o carinho, o resto fica sozinho, enquanto uma onda de melancolia balança as cortinas. Falar do quê? Dos homens no bar, procurando alegria num copo. Da mulher que busca afeto na academia ou nos produtos de beleza? É isso que sobrou da humanidade? Que fúria é essa, em que nada se entende, nada se sabe, e nem se tenta compreender? Será que se sabe e mesmo assim não se busca? Os homens viraram armas contra si mesmos, um cano e dois caminhos. O outro vale tão pouco? Ah, vamos nos amar — será que quem se ama também ama os outros? No púlpito, só cabe um.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Trancas nas portas
Hoje parece um peso insuportável, sem a leveza de antes. Embora o passado fosse trabalhoso, cansativo e árduo, havia caminhos abertos e mais ânimo para o dia seguinte.
O ar carrega um silêncio que quase me quebra, uma aura escura envolve a terra, como se Deus tivesse nos deixado à mercê de algo que nos separa.
Não posso dizer que a culpa seja da tecnologia ou dos homens, há algo muito mais profundo à espreita, como se a própria vida já não fizesse parte de nós. Houve uma separação quase imperceptível, que nos arrasta até a beira do precipício, olhando uns para os outros lá de cima, mesmo estando todos no mesmo lugar.
Cada ser vive em sua redoma, cercado pelas mentiras diárias e alimentado por pretensão. Crescem entre espinhos e florescem apenas para si, como tubérculos enterrados no fundo, exibindo folhas inúteis.
Se voltarmos, se mexermos e remexermos, talvez nos reencontremos naquele estado de lucidez que há muito deixamos para trás.
Vou embora daqui a pouco, já me preparei para isso, mas sinto que parto entristecida por deixar tanta gente mergulhada em confusão.
Herta Fischer
segunda-feira, 9 de março de 2026
O equilíbrio no viver
Me transformei em um personagem criado por mim. Abrir passagens quase sempre me desafia; ser quem sou ou me fazer ser é bem mais fácil. É preciso se esmiuçar para pertencer? A vida é vencer ou morrer, e prefiro vencê-la a entregá-la à morte de mim mesmo. Parece claro que todos vivem e se alegram, mas a alegria de estar sem realmente estar é mínima. Que todos se regozijem em minha passagem, pois de que valeria a alegria sem compartilhamento? Lembro-me da senhora que viveu e morreu em sua obra mais preciosa, desvendando o prazer no amor, sem abdicar de ser e viver. Viveu, se entregou, se transformou, e mesmo assim levou o que era seu e deixou o que não era. Talvez tenha transgredido ensinamentos em busca de facilidade, mas que felicidade não tive. De que adianta a felicidade sem paz? Não é a mudança que nos muda, mas sim nós que devemos mudar de acordo com as mudanças.
Herta Fischer
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