Estou aqui, parada no silêncio, mais uma vez à deriva em pensamentos. Às vezes penso que nada vale a pena, que tudo o que faço não tem valor. Cheguei a este mundo num vale de dor, difícil nascer, difícil viver. Fui andando e tropeçando, se crescer não fosse aprender a andar. Desenvolvi meus próprios métodos de fuga, quase nunca estava presente, e quando doía, me escondia da emoção. Tive que aprender na marra a subir em árvores e descer sem me machucar entre os galhos (literalmente). Ouvia de longe as vozes do mundo, chegando até mim como uivos de lobos, que eu recebia com cânticos, me preparando para não sentir medo. O tempo me levou como águas de corredeira, suportando o trânsito entre pedras e desaguando para todos os rumos possíveis. Muitas vezes era insuportável observar, mas meus olhos abriam caminhos e meu coração aprendia rápido a não se consumir. Subidas, descidas, encruzilhadas, caminhos sem saída, chegadas e partidas: vida! Foi assim que descobri um mundo novo feito só para mim; aos cinco anos fui ao encontro das letras, desvendando mistérios escondidos entre as nuvens do desconhecido. Acendeu-se dentro do peito a necessidade de ir além do condomínio ignorância. Gravetos viraram arte, estradinhas se estenderam além dos sonhos de menina e minha mente já se preparava para transpor horizontes. Como enormes postes que levam luz a lugares remotos, minha mente captava as luzes da inteligência.
Me adaptei às circunstâncias e me envolvi nos acontecimentos, sem fúria nem revolta, já que tudo é aprendizado. Viver dia de cada vez é o suficiente! E me bastava o caminhar, mais do que as paisagens. Comecei a desvendar segredos que nunca me contaram, lutando desesperadamente para conquistar o que meu coração precisava. O tempo se instalava para absorver costumes e repetições, a memória do que foi dito diversas vezes, e minha alma ansiava por algo que ainda me faltava. O mundo não me bastava! E eu estava nele! Como seria bom aprender a domá-lo. Mas não aprendi! Os dias que marcam o tempo, as emoções que acendem faíscas, o fogo que nos consome... como aprender a apagá-los? Ah, aquele medo de errar, de ser condenada por algo, de ter que prestar contas sem saber ao certo quanto deve. O corpo pedindo e a alma negando. Ainda agora me pedem resistência, insistem para que eu pare, e não liberam meios suficientes para criar caminhos.