Me transformei em um personagem criado por mim. Abrir passagens quase sempre me desafia; ser quem sou ou me fazer ser é bem mais fácil. É preciso se esmiuçar para pertencer? A vida é vencer ou morrer, e prefiro vencê-la a entregá-la à morte de mim mesmo. Parece claro que todos vivem e se alegram, mas a alegria de estar sem realmente estar é mínima. Que todos se regozijem em minha passagem, pois de que valeria a alegria sem compartilhamento? Lembro-me da senhora que viveu e morreu em sua obra mais preciosa, desvendando o prazer no amor, sem abdicar de ser e viver. Viveu, se entregou, se transformou, e mesmo assim levou o que era seu e deixou o que não era. Talvez tenha transgredido ensinamentos em busca de facilidade, mas que felicidade não tive. De que adianta a felicidade sem paz? Não é a mudança que nos muda, mas sim nós que devemos mudar de acordo com as mudanças.
Herta Fischer