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Eco da alma

Havia tantas portas fechadas que abri-las já não importava. Sempre haveria um lugar onde o tempo se encostava. Segurava-se a uma espécie de ...

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Eco da alma

Havia tantas portas fechadas que abri-las já não importava. Sempre haveria um lugar onde o tempo se encostava. Segurava-se a uma espécie de esperança, onde ainda havia costa, havia mar. Sabia que atravessava o tempo como quem percorre um labirinto. Tudo se desfazia ao redor dela, gente engolindo gente, e só ela permanecia intacta.


Simplesmente amava e, amando, não percebia. Coisas se acumulavam nas calçadas, nos bares, nas praias; coisas movidas por desejos e súplicas, por mais desejos e súplicas. Doença generalizada. Um encanto pelo feio, que se multiplicava como se fosse belo. Lutar contra isso seria como golpear o ar.


Sociedade em desfloramento, seca, despedaça-se e se mascara.


Nunca me notarão enquanto caminho só pela rua. Sou a realidade de mim, me incluo na promessa e a promessa me eleva, quase pura e perdida em pureza, quase nua e vestida de fumaça. Caminho onde as flores me olham com certa tristeza que a tarde apaga e a noite tenta sonhar comigo, como se sonhos ainda pudessem me despertar.

Olho para dentro de mim mesma, quantas mensagens estão guardadas, prontas para eclodires em palavras, que ninguém ouvirá.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Verdade esquecida

Cristina estava triste, e não era uma tristeza qualquer. Não era por ninguém, nem por algo, e sim por ela mesma. Enfrentava algo desconhecido, que lhe escapava da compreensão. A idade lhe pregara uma peça. De repente, teria que atuar, sem que o palco lhe pertencesse. Sua percepção diminuía a cada passo. Olhava e esquecia. Seus pés, antes tão ágeis, já não caminhavam como antes, e suas mãos, antes tão prestativas, já davam sinais de que não mais a compreenderiam.


Queria estar inteira, mas inteira nunca mais estaria. O tempo a desgastou, tirando-lhe as arestas. Não havia tempo para resgates, nem coragem para admitir. Como uma árvore cuja raiz se desprendeu da terra, já previa a queda. Suas folhas amareladas, sem brilho, secavam-se à sombra do nada. E o nada a observava. Havia sombras do início ao fim do dia. Uma pequena luz se acendia às vezes pelos caminhos que trilhava, mas queria voltar ao começo, e começo não havia.


Portas se fecharam, o mundo mudou. Tentou entrar no passado, mas nem rastros ele deixou. Tudo o que conhecia, tudo que tinha como certeza, de repente se anuviou. “Mentira!”, diziam. “E eu sou verdade?” Uma verdade esquecida, em terra de ninguém, onde as passagens se fecharam e as pegadas se apagaram. Para onde voltar?


Não há volta. Nem idas nem vindas, só essa solidão que espreita, e a vontade de encontrar um caminho, onde os caminhos já passaram. Se a viram, esqueceram; se esqueceram, não a lembram mais; e se não é lembrada, já não existe naquele lugar.


Herta Fischer


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para o amor, de me lançar nos braços das emoções, sem cautela e sem arrependimento. Também houve uma doce e teimosa busca — não por qualquer coisa, nem pelos outros, nem por mim — mas uma procura silenciosa por completude.


Começo a decifrar o tempo. Ele me segue, me empurra, me eleva e, depois, sem critério ou desculpa, vinga-se do que fiz ou deixei de fazer. Vai embora, me deixa na época em que mais preciso, me enterra na pressa de sua passagem.


Tento me levantar e, no desespero, agarro-me à esperança de que ainda haja um caminho para mim. Mas o horizonte me esmaga, como um pedaço de feno seco nos dentes afiados dos ruminantes.


Então me entrego a mais uma tentativa — de me purificar, me corrigir, me desculpar e seguir até a última estação, se ela ainda existir.


Penso nos outros, quero falar, interagir, reconciliar… e o que consigo? Apenas mais decepções na minha coleção de travessias.


Vou me recolher para dentro, pois não tenho escolha. Proíbem-me de dizer o que penso. Tenho que me enroscar nas teias que teceram, que parecem novas e limpas, prometendo um banquete na alvorada, mas que colocam minha vida em risco.


Preciso falar das flores e não das pétalas que caíram; sentir o vento sem me importar quando ele despenteia meus cabelos; olhar para o rio, cheio de máculas, e dizer que não foi obra dos homens. Tenho que compreender as narrativas, mesmo quando esquecem que meu coração vê e minha mente é lúcida.


Não suporto essas regras que nos impõem, verdades mentirosas e mentiras travestidas de verdade. Os sábios trancados e os tolos com as chaves. 

Herta Fischer






sábado, 27 de dezembro de 2025

Sonhos enterrados

É aqui que tudo começa e, provavelmente, será aqui que tudo terminará. Houve um tempo em que tudo me parecia vivo, as coisas se encaixavam naturalmente. Nada parecia tão incerto, e a correria da vida me impulsionava a seguir cada vez mais rápido, até que, sem perceber, tudo mudou de repente. Passei a ver a vida sem encanto, tudo ficou pesado, até as tarefas mais simples me causavam desânimo, como se já não houvesse mais caminhos abertos como antes. O tempo correu demais e me deixou para trás; parece ter se renovado, mas me tornou mais lenta. Às vezes, choro ao abrir a janela pela manhã, pois já não encontro a mesma alegria que me recebia. No lugar das árvores e do cheiro de mato, sinto o gosto de combustível no ar, vejo postes e fios se entrelaçando, escondendo o céu. Tenho uma vontade imensa de voltar, mas o passado roubou meu retorno; nem mesmo minha pequena casa de esperança existe mais. Só a saudade amarga abre feridas no meu peito. Tento achar um lugar de descanso para aliviar a angústia, faço o possível para seguir, mas onde estão minhas estradinhas de terra? Quando as enterraram? E meus poucos sonhos, em que encruzilhada ficaram? Minha realidade vem perdendo identidade, não consigo lidar com as mudanças. Já não há relógios nos pulsos, nem consciência nos meus dias, que passam rápido demais e não percebem que minhas pernas não correm antes. Há um burburinho constante na minha mente, quero agir, quero entrar nesse mundo sem pátria, quero fazer parte, mas só me resta a parte que me nega.


Herta Fischer





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Mesa farta em hospital

Chamas se erguem ao amanhecer, quase derretendo o asfalto. Estranho é o silêncio que não vem de passos. Há um vai e vem sem valor, um leva e traz vazio. Fala-se muito, diz-se pouco, e o vazio conhece seus favores. A lona que cobre um circo, a arte medida em risos, e risos que não vêm de fora. Há uma mensagem na natureza, que poucos decifram e entendem. Uma mesa farta em hospital. Curiosamente, a ambição pelo saber se deteriora, enquanto a corrida pelo nada se intensifica.

Herta Fischer



Cerca invisível

Quase ninguém vê. E o que ninguém vê é o meu palco.


Gosto da solidão, pois ela me acolhe melhor do que as pessoas.


Sozinha, há mais contemplações e diferentes formas de admirar, sem que meus olhos se percam.


Falar sem palavras ou declamar as levezas do coração para si mesma é como escrever um livro não lido, mas cheio de significado para a alma.


Tumultos ferem meus ouvidos, e a multidão me perde em si mesma.


Tenho vontade de sair, inventar, transmitir, aprender e, por que não, ensinar. Mas o mundo vive dentro de uma redoma.

Herta Fischer



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Chegamos ou voltamos?

Só tenho a mim como resposta, e às vezes a pergunta nem é feita. Ando sem rumo mesmo quando acredito estar no caminho certo. É cansativo demais tentar entender nossos próprios propósitos. Qual é o objetivo? Como diz o velho ditado: nadar, nadar e morrer na praia! Como todos os dias que passam, como tudo que se, como tudo que se sonha — aproveita-se por instantes. É como se apaixonar; começo maravilhoso, tristeza depois de um tempo. Jardins que se desfazem, jogos que se perdem, ilusões que se quebram. Vai-se porque é preciso ir, volta-se porque se foi. Minha cabeça gira como um cata-vento; deveria não me importar, mas me importo. Deveria esquecer, mas lembro, e, ao lembrar, dói.