Já é tarde, quase suave e aberta, e as manhãs se deixaram levar. Meus olhos deram vida, emprestando seu brilho ao meu coração. Apagou-se todo o orgulho que havia, acenderam-se as luzes da generosidade que minha alma havia esquecido. De juíza à expectativa, da incompreensão à sabedoria do tempo. Deus organizou o corpo, concedendo muito mais honra ao que não tinha, para que não haja divisão entre o forte e o fraco; pelo contrário, que todos cooperem com igual cuidado em favor uns dos outros, sem prejudicar ninguém. É um lembrete de que participamos de um mesmo princípio: o bem que nos completa! Mas o mundo, como vento tempestuoso, carrega mágoa e raiva, despejando sobre nós relâmpagos de mal querer. Infelizmente.
Pensamentos da Herta
Total de visualizações de página
Mantendo o desejo de viver
Já é tarde, quase suave e aberta, e as manhãs se deixaram levar. Meus olhos deram vida, emprestando seu brilho ao meu coração. Apagou-se tod...
sábado, 18 de abril de 2026
Nuvens aguadas
Prefiro ser desprezada pelos homens a ser esquecida por Deus. Ando meio murcha, como uma rosa fora do solo, suando sob sol forte, mas me fortaleço com o sal. Caminho sobre a glória do porvir, já que a realidade já não me compõe nem me retrata. Procuro ser o que sempre fui: triste nos tempos de tristeza e alegre nas épocas de alegria. Sou mais! Nada me subtrai — nem o tempo, nem as andanças, nem as cobranças. Eu o universo somos um; eu, com todos, sou o componente que sustenta o que se vê, a alegria da complexidade que ronda a existência. Sem vindas nem idas, apenas passos que me transportam, enquanto a criança ainda mora em mim, apesar de tantos anos completos. Produzo e prendo!
sábado, 28 de março de 2026
Restos do resto
Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o carinho, o resto fica sozinho, enquanto uma onda de melancolia balança as cortinas. Falar do quê? Dos homens no bar, procurando alegria num copo. Da mulher que busca afeto na academia ou nos produtos de beleza? É isso que sobrou da humanidade? Que fúria é essa, em que nada se entende, nada se sabe, e nem se tenta compreender? Será que se sabe e mesmo assim não se busca? Os homens viraram armas contra si mesmos, um cano e dois caminhos. O outro vale tão pouco? Ah, vamos nos amar — será que quem se ama também ama os outros? No púlpito, só cabe um.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Trancas nas portas
Hoje parece um peso insuportável, sem a leveza de antes. Embora o passado fosse trabalhoso, cansativo e árduo, havia caminhos abertos e mais ânimo para o dia seguinte.
O ar carrega um silêncio que quase me quebra, uma aura escura envolve a terra, como se Deus tivesse nos deixado à mercê de algo que nos separa.
Não posso dizer que a culpa seja da tecnologia ou dos homens, há algo muito mais profundo à espreita, como se a própria vida já não fizesse parte de nós. Houve uma separação quase imperceptível, que nos arrasta até a beira do precipício, olhando uns para os outros lá de cima, mesmo estando todos no mesmo lugar.
Cada ser vive em sua redoma, cercado pelas mentiras diárias e alimentado por pretensão. Crescem entre espinhos e florescem apenas para si, como tubérculos enterrados no fundo, exibindo folhas inúteis.
Se voltarmos, se mexermos e remexermos, talvez nos reencontremos naquele estado de lucidez que há muito deixamos para trás.
Vou embora daqui a pouco, já me preparei para isso, mas sinto que parto entristecida por deixar tanta gente mergulhada em confusão.
Herta Fischer
segunda-feira, 9 de março de 2026
O equilíbrio no viver
Me transformei em um personagem criado por mim. Abrir passagens quase sempre me desafia; ser quem sou ou me fazer ser é bem mais fácil. É preciso se esmiuçar para pertencer? A vida é vencer ou morrer, e prefiro vencê-la a entregá-la à morte de mim mesmo. Parece claro que todos vivem e se alegram, mas a alegria de estar sem realmente estar é mínima. Que todos se regozijem em minha passagem, pois de que valeria a alegria sem compartilhamento? Lembro-me da senhora que viveu e morreu em sua obra mais preciosa, desvendando o prazer no amor, sem abdicar de ser e viver. Viveu, se entregou, se transformou, e mesmo assim levou o que era seu e deixou o que não era. Talvez tenha transgredido ensinamentos em busca de facilidade, mas que felicidade não tive. De que adianta a felicidade sem paz? Não é a mudança que nos muda, mas sim nós que devemos mudar de acordo com as mudanças.
Herta Fischer
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
A dose certa
Enquanto o dia começava a trazer a luz do sol mais perto, as rosas dançavam, espalhando suas pétalas adormecidas pelo chão. O céu, de um azul imenso, se transformava à medida que nuvens surgiam e deslizavam, guiadas pelo vento ansioso para levá-las ao norte, onde se juntariam para virar chuva. Serena observava a paisagem como uma abelha que encara as flores, pronta para colher o pólen e transformá-lo em mel. Sua família se preparava para arar a terra para mais uma plantação de batatas. Ao longe, via o barracão ainda fechado; o vento forte fazia seu nariz escorrer. Procurou por alguém, mas não havia viva alma por perto. Apressou-se até a porta, girou a chave na fechadura e, ao abrir, foi surpreendida por um cheiro desagradável de batatas podres. Com um lenço nas mãos, cobriu o nariz e amarrou-o atrás da orelha. Sentou-se no chão e começou a separar as batatas, colocando as boas numa caixa e descartando as estragadas, que deixavam um sumo fétido em suas mãos. Trabalhou até quase onze horas, quando precisou deixar o barracão e voltar para casa para preparar o almoço. Lavou bem as mãos numa bacia com água junto à porta, evitando sujá-la, pois sabia que o marido detestaria. Ao chegar à cozinha, os afazeres ganharam vida. Com dedos ágeis e experientes, cortou os legumes e os colocou para cozinhar. Ao meio-dia em ponto, a mesa estava posta — como todos os dias, num ritual quase sagrado.
A felicidade pousava em seus ombros como uma bela borboleta azul, e já sentia a chegada de sua prole, que se sentaria à mesa para elogiar sua comida. Nada é tão especial quanto o amor cultivado todos os dias com pequenas doses de esperança. Havia dias difíceis, como em qualquer lugar, mas o amor estava presente em todos. Tudo o que se faz com esperança se concretiza na fé..
Herta Fischer
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Eco da alma
Havia tantas portas fechadas que abri-las já não importava. Sempre haveria um lugar onde o tempo se encostava. Segurava-se a uma espécie de esperança, onde ainda havia costa, havia mar. Sabia que atravessava o tempo como quem percorre um labirinto. Tudo se desfazia ao redor dela, gente engolindo gente, e só ela permanecia intacta.
Simplesmente amava e, amando, não percebia. Coisas se acumulavam nas calçadas, nos bares, nas praias; coisas movidas por desejos e súplicas, por mais desejos e súplicas. Doença generalizada. Um encanto pelo feio, que se multiplicava como se fosse belo. Lutar contra isso seria como golpear o ar.
Sociedade em desfloramento, seca, despedaça-se e se mascara.
Nunca me notarão enquanto caminho só pela rua. Sou a realidade de mim, me incluo na promessa e a promessa me eleva, quase pura e perdida em pureza, quase nua e vestida de fumaça. Caminho onde as flores me olham com certa tristeza que a tarde apaga e a noite tenta sonhar comigo, como se sonhos ainda pudessem me despertar.
Olho para dentro de mim mesma, quantas mensagens estão guardadas, prontas para eclodires em palavras, que ninguém ouvirá.
-
As pessoas reclamam que o mundo está chato, mas não fazem nada para mudar, apenas se isolam, tornando tudo ainda mais monótono. De vez em q...
-
Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...
-
Estamos vivendo por viver.......... Eu procuro algo de valor nas pessoas e não encontro mais. Futilidades apenas. Tanta gente sem con...