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Entre buracos

Certa vez olhei para o céu e vi detalhes por toda parte. O dia iluminava meu semblante, levando meu olhar. Com a chegada da noite, me perdia...

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre buracos

Certa vez olhei para o céu e vi detalhes por toda parte. O dia iluminava meu semblante, levando meu olhar. Com a chegada da noite, me perdia no horizonte, como cinzas levadas pelo vento, negando-me à luz do sol e recriando-me na sombra do luar. Foi então que me apaixonei pela vida. Tudo se resumia em luz e sombra. Eu, também um pouco sombra, me escondia em mim mesma, como gato sem rumo à procura de telhado, e às vezes tudo virava ilusão. Era como sonhar com asas e dragões. Pertencia e ao mesmo tempo não pertencia a nada. Recebia direções que nem quem as dava conhecia, e preparavam meus pés para sapatos que não me serviam. Como nuvens aprendem o caminho das águas, em que mar velejam? Eu sabia que estava viva, que dias e noites me transformavam, mas lá dentro, na origem de mim, quem me guiaria? Sentia-me como uma planta, plantada meio à deriva, com cuidados especiais. Tinha teto, afeto, era envolta por essa fragrância, mas também precisava ser regada e podada para crescer. Como nuvens que aprenderam a velejar, aprendi o caminho de mim.  Ainda que insistisse, nada seria a meu gosto, qualquer caminho se tornava apenas caminho. Tudo em mim, se fazia em mim e fora de mim, nada havia. 

Minha memória dá voltas e sempre retorna para onde não posso estar. O que antes era rico, agora empobrece; as riquezas que antes se derramavam sobre mim, com abundância de poder, hoje me podam. Não consigo mais seguir em frente! Minhas estradas me engoliram, não contam suas histórias e nem lembram das minhas, me atravessam como punhais de melancolia e descaso, me empurrando para baixo da casca, de onde não consigo sair, obrigando-me a avançar sem vontade. 



sábado, 13 de junho de 2026

Tropeçando e aprendendo

Estou aqui, parada no silêncio, mais uma vez à deriva em pensamentos. Às vezes penso que nada vale a pena, que tudo o que faço não tem valor. Cheguei a este mundo num vale de dor, difícil nascer, difícil viver. Fui andando e tropeçando, se crescer não fosse aprender a andar. Desenvolvi meus próprios métodos de fuga, quase nunca estava presente, e quando doía, me escondia da emoção. Tive que aprender na marra a subir em árvores e descer sem me machucar entre os galhos (literalmente). Ouvia de longe as vozes do mundo, chegando até mim como uivos de lobos, que eu recebia com cânticos, me preparando para não sentir medo. O tempo me levou como águas de corredeira, suportando o trânsito entre pedras e desaguando para todos os rumos possíveis. Muitas vezes era insuportável observar, mas meus olhos abriam caminhos e meu coração aprendia rápido a não se consumir. Subidas, descidas, encruzilhadas, caminhos sem saída, chegadas e partidas: vida! Foi assim que descobri um mundo novo feito só para mim; aos cinco anos fui ao encontro das letras, desvendando mistérios escondidos entre as nuvens do desconhecido. Acendeu-se dentro do peito a necessidade de ir além do condomínio ignorância. Gravetos viraram arte, estradinhas se estenderam além dos sonhos de menina e minha mente já se preparava para transpor horizontes. Como enormes postes que levam luz a lugares remotos, minha mente captava as luzes da inteligência.

Me adaptei às circunstâncias e me envolvi nos acontecimentos, sem fúria nem revolta, já que tudo é aprendizado. Viver dia de cada vez é o suficiente! E me bastava o caminhar, mais do que as paisagens. Comecei a desvendar segredos que nunca me contaram, lutando desesperadamente para conquistar o que meu coração precisava. O tempo se instalava para absorver costumes e repetições, a memória do que foi dito diversas vezes, e minha alma ansiava por algo que ainda me faltava. O mundo não me bastava! E eu estava nele! Como seria bom aprender a domá-lo. Mas não aprendi! Os dias que marcam o tempo, as emoções que acendem faíscas, o fogo que nos consome... como aprender a apagá-los? Ah, aquele medo de errar, de ser condenada por algo, de ter que prestar contas sem saber ao certo quanto deve. O corpo pedindo e a alma negando. Ainda agora me pedem resistência, insistem para que eu pare, e não liberam meios suficientes para criar caminhos.







sábado, 30 de maio de 2026

Coração sertanejo


Na imensidão dessa estrada percorrida, quando já silenciada, transfigurou-se, vestindo-se de asfalto que, lentamente, torna meus passos mais pesados e traz uma saudade aos pés. Quanta suavidade a terra me oferecia em seu leito, quando ainda vivia sobre a poeira do tempo. A chuva ainda desperta nuances de barro e, em mim, faz chover lembranças. Queria ainda pisar na mata rasteira, contornar riachos dengosos, cheios de gozo e paz, que faziam as águas cantarem, correndo por trilhos abertos pelas mãos de meu pai. Que saudade imensa das árvores e seus frutos dançando ao vento, adoçando olhares; dos caminhos marcados por milhares de passos; da entrada suave onde o rancho vivia. Entre quatro paredes, o céu entrava, e o fogão de lenha aceso aguardava o sol. As manhãs se alegravam com sorrisos sem trauma, crianças se levantavam com leveza na alma, e o roçado chamava as enxadas para perto. Ah, mas o tempo esqueceu… Sim, esqueceu de viver! O vazio do mato, dos rostos, das vozes, é uma alma sem alma. Aquele romantismo de outrora, que contava histórias, recitava versos e prosas, entoava cânticos e inspirava poesias, hoje se encerra em páginas amarelas. Minha amada, tão bela quanto o despertar da manhã, serena e tranquila, pulsa dentro de mim. Teus olhos e teu sorriso são como um fio de transmissão de força que acende minhas luzes e traz o sol para mais perto. Espero por ti nas encruzilhadas dos meus devaneios, pelas florestas que dizem teu nome, nas cores que lembram teu ventre e no perfume que encerra meus dias.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O tempo e nós

Não tenho idade, sou o tempo, e ele sempre se renova em seu próprio percurso. Meu útero guarda meu reflexo, como uma rosa que o tempo despetalou, mas cujo caule ainda lembra como fazê-la florescer. Onde mais estaria o útero das flores, senão nelas próprias?

O tempo nunca acaba, embora pareça passar diante de nós. Se entrei nele e vivo o agora, onde me refugiarei quando deixar para trás o futuro que não viverei?


São muitas perguntas e poucas respostas. Sou peregrina nesta terra e sigo adiante como quem sabe e não sabe, como quem vive e pouco vive, pois há um tempo limitado para estudar, refletir e aprender sobre mim mesma e sobre como a vida funciona.

Acredito que somos como elos de uma corrente invisível, cujo tempo guarda em sua memória para nos reencontrar nos planos celestes. Cada ser é um elo que se une em algum lugar, para depois se reunir em um momento específico. Algo que só mais tarde iremos compreender.

sábado, 18 de abril de 2026

Mantendo o desejo de viver

Já é tarde, quase suave e aberta, e as manhãs se deixaram levar. Meus olhos deram vida, emprestando seu brilho ao meu coração. Apagou-se todo o orgulho que havia, acenderam-se as luzes da generosidade que minha alma havia esquecido. De juíza à expectativa, da incompreensão à sabedoria do tempo. Deus organizou o corpo, concedendo muito mais honra ao que não tinha, para que não haja divisão entre o forte e o fraco; pelo contrário, que todos cooperem com igual cuidado em favor uns dos outros, sem prejudicar ninguém. É um lembrete de que participamos de um mesmo princípio: o bem que nos completa! Mas o mundo, como vento tempestuoso, carrega mágoa e raiva, despejando sobre nós relâmpagos de mal querer. Infelizmente. 




Nuvens aguadas

Prefiro ser desprezada pelos homens a ser esquecida por Deus. Ando meio murcha, como uma rosa fora do solo, suando sob sol forte, mas me fortaleço com o sal. Caminho sobre a glória do porvir, já que a realidade já não me compõe nem me retrata. Procuro ser o que sempre fui: triste nos tempos de tristeza e alegre nas épocas de alegria. Sou mais! Nada me subtrai — nem o tempo, nem as andanças, nem as cobranças. Eu o universo somos um; eu, com todos, sou o componente que sustenta o que se vê, a alegria da complexidade que ronda a existência. Sem vindas nem idas, apenas passos que me transportam, enquanto a criança ainda mora em mim, apesar de tantos anos completos. Produzo e prendo!

sábado, 28 de março de 2026

Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o carinho, o resto fica sozinho, enquanto uma onda de melancolia balança as cortinas. Falar do quê? Dos homens no bar, procurando alegria num copo. Da mulher que busca afeto na academia ou nos produtos de beleza? É isso que sobrou da humanidade? Que fúria é essa, em que nada se entende, nada se sabe, e nem se tenta compreender? Será que se sabe e mesmo assim não se busca? Os homens viraram armas contra si mesmos, um cano e dois caminhos. O outro vale tão pouco? Ah, vamos nos amar — será que quem se ama também ama os outros? No púlpito, só cabe um.