Nunca me entristeci com nada, embora já tenha chorado bastante. As situações que não podia resolver, deixava para o tempo ajeitar à sua maneira. Enquanto vivia, tentava aproveitar cada etapa com entusiasmo, mesmo quando algo não dava certo. Nasci na pobreza, minha casa era pequena: só uma cozinha, uma parede e um quarto para sete pessoas. Quando acordava e saía, tudo o que meus olhos alcançavam era meu. O vento brincava com meus cabelos, a estradinha serpenteava pela terra, escondendo-se do meu olhar curioso. O riacho, pequeno e acolhedor, abraçava suas águas. A jabuticabeira na beira do riacho deixava cair flores brancas sobre si, transformando-se de um dia para o outro em bolas negras e doces. O chão de terra batida, coberto por vegetação alegre, fazia cócegas nos meus pés. A tábua de lavar roupas, coberta de musgos, se tornava um escorregador para o rio. As músicas do rádio embalavam as tardes, acordavam as noites e recebiam os dias com poesias. A ribanceira, com um córrego ao centro, brilhava sob o sol. A velha bacia nos banhava e depois virava balanço no galho do pessegueiro. A roça verdejante nos observava do alto, ansiosa para brincar conosco. As pessoas, conhecidas de perto ou de longe, cultivavam amizades com carinho. Havia uma certa ordem, fruto da harmonia entre a natureza e o tempo, cujo patriarca era Deus!
Hertinha Fischer.
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