segunda-feira, 20 de junho de 2016

A espera de um amor

Lina estava agachadinha entre o capinzal
dançante, a catar gravetos para o próximo
acender do fogo. A brisa suave lhe acariciava o rosto
sereno, como uma mão suave a lhe afagar.
Toda tarde, precisava se preparar para o
dia seguinte. Então, quando o sol quase se apagava no horizonte
dos seus olhos, ela se preocupava em deixar tudo pronto.
Arrancou de sua cintura um pedaço de pano encardido e
se pôs a enrolar sobre um pequeno feixe de gravetos maiores,
amarrando-o com um nó apertado.
Alguns gravetos menores colocara sobre o vestido que
abrira como um avental, segurando as duas pontas com
seus dedinhos miúdos, deixando um par de pernas bem torneadas
a mostra.
Rolou com uma certa impaciência, o feixe, sobre as pernas roliças
até que se encaixassem perfeitamente sobre os gravetos menores acima de sua cintura
no cocho de seu vestido.
Se deu por satisfeita, soltando um suspiro de alivio ao ver que tudo dera  certo.
As vezes faltava-lhe mãos, duas não bastavam.
Sorriu ao pensar nisso. por certo, agradecer pelo que se tem, é menos sofrido.
Fazendo um esforço tremendo para segurar as duas pontas do vestido a suportar
o peso da madeira, foi caminhando devagar, sondando o terreno mais ao longe,
para não tropeçar,
Subiu um morrinho e ao longe já podia enxergar a fumaça da chaminé de sua casinha
dançando ao ar, saudando a sua chegada.
Desceu a ribanceira meio desengonçada, subir era fácil, já descer sem poder olhar onde se pisava,
era preocupante.
Usando o calcanhar como freio, enfim, chegou lá embaixo, quando jogou a lenha ao chão, apenas soltando as abas do vestidinho surrado.
Bateu o pano úmido com as mãos, para tirar qualquer resquícios de madeira que pudesse ter fincado nas tramas de seu vestido.
Entrou pela porta da frente, pegou um balde de alumínio que descansava sobre uma pequena mesinha de madeira, e foi para fora, pegando o caminho do rio.
Andando ligeiro para que a noite não a alcançasse, desceu a ribanceira tomando cuidado para não cair e rolar barranco abaixo. Colocando um pé de cada vez, um na frente do outro, meio de lado, para não escorregar e cair.
Uma graciosa biquinha  se esparramava sobre o lago, espumando de felicidade. Ela se abaixou delicadamente colocando o balde a beijar a bica. E o balde descansou debaixo dela se deliciando com seu frescor. Ficou satisfeito até transbordar,
Tocou a alça do balde que balbuciou um som delicado como se dissesse;-Eis o que mereço, esta é a minha porção!
Colocando-o entre os pés, abaixou um pouquinho e se pôs a molhar a fronte, sentiu um arrepio de prazer inundando seu corpo, estava tão fresquinho que quase se jogou de roupa e tudo sobre o laguinho, mas, não tinha tempo, as sombras naquela hora já tiravam metade de sua capacidade de enxergar.
Levantou-se rapidamente, segurou a alça do balde, levantando-o com as mãos quase a tocar seus tornozelos, e com um esforço tremendo se pôs a subir a ladeira.
A noite encheu o céu com a sua magia, estrelas dançavam na escuridão, e os sons noturnos despertavam como uma trilha sonora a lhe saudar.
Meio ofegante, alcançou o quintal, e se pôs a andar mais depressa, logo adentrou a cozinha. Com um último sinal de força levantou o balde até a altura de um banquinho de madeira disposto ao lado do
fogão,  só então, suspirou satisfeita.
Seu estômago deu uma resmungada, lembrando-lhe que ainda não jantara. Mas, achou que não compensava acender o fogo, então, se esgueirou ate a pequena despensa e ficando nas pontas dos pés, alcançou um pequeno pote de vidro, que preguiçosamente, descansava sobre um balcão.
Retirou a tampa e o levou até o nariz, sentiu um aroma defumado entrar pelos orifícios causando-lhe um prazer indescritível, seu estômago resmungou novamente esperando lembrar-lhe que só o cheiro não lhe satisfazia.  -Nem a mim, ela resmungou: -preciso comer!
Levou o pote até a cozinha, pegou uma tabua e  uma faquinha, fatiando o bacon em tiras bem fininhas, pegou um pedaço de pão que estava sobre a mesa e fez um lanche, achando tudo delicioso!.
Não tinha muitas opções, a unica forma de conservar seus alimentos era defumando a carne, fazendo pães caseiros e usando alimentos enlatados que comprava num armazém situado em um povoado
um pouco distante dali.
Tinha uma pequena horta em que cultivava várias espécies de vegetais, sempre deixando algumas como sementes, assim, não lhe faltava nada durante o verão, outono e primavera.
Porém, para o inverno, ela tinha que coletar muitos itens para poder sobreviver até a estação seguinte, então, passava quase que o dia todo pensando em que precisaria fazer.
Muito lhe custava aquela vida de solidão, embora estivesse tão acostumada que não pensava em sonhar com outra forma de viver.
Seus pais se foram muito cedo, quando ela tinha apenas quinze anos, mas lhe deixaram um legado muito precioso, lhe ensinaram tudo o que ela sabia; a época certa de plantar, como preparar a terra, como caçar um animal, como defumar a carne e etc.
Então, aos poucos foi deixando de consumir enlatados, mesmo porque, tudo que ela precisava obter através da comunidade teria que ser a base de troca, pois pouco lhe restava para vender, a não ser, quando alguém vinha de longe e comprava variedades de vegetais que ela produzia. Porém, a maior parte era destinada a troca.
O povoado ficava a algumas milhas de sua casa, e ela só ia para lá em caso de extrema necessidade.
Lina não gostava de abandonar suas coisas, sua casinha precisava dela, senão, entristecia sobremodo, chegando ao ponto de quase morrer de desgosto. Ali, tudo lhe pertencia: o gato, os pássaros, a horta, as madeiras, a água, tudo era seu, e ela pertencia a eles, sabia que, se um dia tivesse que abandoná-los, eles morreriam, e ela também.
Gostava demais do silêncio, pois era o silêncio que a presenteava com todos os sons da natureza, voz agradável que promovia sua paz.
Estava a esperar pela estação de que mais gostava, era no inverno que a sua criatividade aflorava, quando passava os dias sentada em frente ao seu tear, criando as suas vestimentas anuais.
Ao pensar nisso, lembrou que ainda tinha muito a fazer,
Colocou um pouco de água na bacia, e se pôs a se lavar. massageou os pés bem suavemente, arrancando-lhe gemidinhos de prazer, estava com os pés doloridos de tanto trabalhar, e nada melhor que água fria para lhe proporcionar uma certa sensação de descanso,lavou o rosto, o pescoço, e depois mergulhou o corpo todo sobre a água, ensaboou-se, e as espumas lhe acariciavam a pele branca e as bolhas de alegrias lhe suavizaram o semblante, Ficou  ali por horas,sentindo o perfume do sabonete que fizera, tinha uma adocicado perfume de almíscar que lhe davam a sensação de estar num campo.
Devido ao relaxamento contínuo, Bocejou. Percebendo que já era hora de se recolher, pegou uma toalha macia, jogou sobre as costas e saiu da água, pisando delicadamente com as pontas dos pés, rumou para o quarto que lhe aguardava, deixando pequenas pegadas molhadas no ladrilho, como quem tatuava  seu caminho.
Colocou uma camisola cor de rosa, que lhe acentuava a cor branca da pele, e a luz da lamparina acesa, moldava-á, deixando-á com aparência de anjo.
Como era de costume:  tirou a colcha da cama colocando-á no banquinho que descansava ao pé da mesma, passou as mãos sobre os lençóis para desamarrotá-lo, bateu com força nos travesseiros fofando-o, e depois cobriu-se com um lençol de algodão, bocejou mais uma vez, sentindo as pálpebras pesadas, deslizou-se para um lugar tão conhecido, o mundo dos sonhos.
Se aconchegou nas historias que sua mente realizava enquanto dormia, tudo lhe parecia tão real como uma vela acesa, se esbaldava em cânticos de alegrias, e sua alma navegava na poesia do merecido descanso.
Despertou com o sol batendo de leve em sua janela, abriu seus olhinhos e o saudou com um meigo sorriso:- Bom dia, sol!
Preparou-se para sair da cama, colocando os pés descalços no chão frio, sentindo uma mescla de prazer, procurou pelos chinelos com as pontas dos pés, achando-o o encaixou nos mesmos.
Com a ajuda das ágeis mãos, puxou as pontas dos lençóis e os encaixou debaixo do colchão, alisando-o
para desamassa-lo, depois estendeu sobre a cama, a colcha de algodão, e então, sorriu satisfeita.
Então rumou para a cozinha que já lhe aguardava, como em todas as manhãs, conhecendo a sua rotina, os galhos e a palha estavam sobre o fogão, prontos para ajudá-la a acender o fogo.
Pegou uma palha de milho seca,  alguns gravetos e enfiou na boca do fogão, acendendo um fósforo atiçou o fogo que imediatamente se fez labareda, Só então, adicionou a lenha mais grossa.
Uma golfada de calor entrou em seu corpo como bafo de dragão, Só então, encheu a chaleira com água e colocou-o sobre a chapa quente.
Pegou um recipiente que a aguardava pendurado na parede, era nada mais que um suporte de coador
de café, colocando em sua base um pequeno bule de alumínio fundido.
Pegou no armário um pote de vidro contendo o pó de café, com a ajuda de uma colher para medir, colocou algumas medidas dentro do coador, sentando-se ao lado do fogão enquanto esperava a água ferver.
Tão logo, um aroma encheu a cozinha deixando-á meio nostálgica, lembrou-se de sua mãe.
Tão bom quando estavam todos juntos, quando era a mãe a lhe fazer os agrados, como acordar com o  mesmo aroma entrando em seu quarto. e sua mãe lhe oferecia uma xícara da bebida, enquanto ela ainda estava deitada.
Só depois ela se levantava e ambas tomavam o café juntas com seu pai.
Bons tempos! - pensou ela: - Era magnífico ter uma família para cuidar dela. No entanto, tudo que é bom, dura pouco, e para ela, durou menos ainda.
Pensava que seus pais durariam para sempre, até aquele dia.
Quando eles se despediram dela naquela tarde, ela bem que desconfiou de alguma coisa, fora bem diferente das outras vezes, parecia que já sabiam que não voltariam. Deram-lhe inúmeros conselhos, a beijaram repetidas vezes com muito mais alegria que de costume, depois se perderam na curva.
Ela  esperou a volta deles até se cansar, No dia seguinte, ainda louca de preocupação recebeu a visita de dois policiais, dizendo-lhe que seus pais não mais voltariam.
Ficaram presos em algum lugar da estrada, quando bateram em uma árvore e...se foram, abandonando
seus corpos sem vida.
Ela os enterrou no cemitério do povoado, fechando para sempre aquele capítulo de sua história. Agora, teria que viver sem eles e começar tudo novamente, agora, como dona dela mesma..como
quem ainda tem muito o que fazer.
E pensando nisso, um som que veio de fora lhe tirou o sossego da memória... um som rústico, quase que desesperado, pronto para lembrá-la que lá fora, as coisas, os seres dependiam de seu trabalho.
Béée´´eeé´!!!
Era uma de suas ovelhas..lembrando-lhe que já passara da hora de servir  o café da manhã.
Como já era de hábito, não havia relógios em sua casa, ela nunca precisara da contagem do tempo, para ela, existia o nascer e o se pôr do sol. Noite e dia, simplesmente.
Foi para fora e se pôs a caminhar rumo ao rancho, seguida por sua ovelha líder.
Ela treinara aquela ovelha para que outras a seguissem, não gostava da ideia de ter um cão amestrado, não queria que seus bichinhos convivessem com o medo, adorava a ideia da liberdade, e da sobrevivência pela simbiose e senso do dever. onde uma ou mais espécies estivessem unidas pela cumplicidade, não por méritos ou força.
Os indivíduos amam aqueles que lhes mostram o caminho, não aqueles que lhes obrigam a seguir seus passos, embora precisem de um líder, quase sempre, precisam que os ensinem a ser indivíduos completos, mesmo que estejam unidos num mesmo parecer.
As outras ovelhas esperavam do lado de fora do rancho, cada uma em seu lugar, até que ela colocasse a comida, só então cada uma se dirigia para o seu cocho, como se estivessem inumeradas e catalogadas em cada memória.
Lina parou por um momento a olhar para elas, reparando que algumas estavam no ponto para serem tosquiadas.
Separou então, umas três cabeças, colocando-ás dentro de uma cercadinho, e correu a pegar a maquina de tosa.
Em apenas alguns minutos, as três ovelhas saíram dando pulinhos, agradecidas e aliviadas.
Ela pegou a lã de ótima qualidade, orgulhosa de si mesma e de seu trabalho, levou para dentro do rancho, mais um pouco e já teria material suficiente para começar a trabalhar a lã.
Não via a hora  da chegada do inverno, quando então, ficaria imersa na tarefa de tecelã.
voltou para casa e enquanto caminhava viu as ovelhas como pontinhos brancos sumindo nas montanhas.
Lembrou que precisava de pães.
O fogo ainda estava aceso e a água fervia na chaleira, começou a procurar pelos ingredientes.
foi até a dispensa, pegando um pequeno pote de farinha, notou que estava quase acabando, e ficou um tanto apreensiva, logo precisaria ir até o povoado. Detestava quando precisava sair de seu recanto, mas, as vezes, isto era tremendamente necessário. procurou por ovos nos ninhos, e achou alguns, as galinhas eram generosas naquela época.
Colocou os ingredientes sobre o balcão, só então, foi buscar o ingrediente principal, o fermento que ela mesma fez a três dias atrás, estava levedado e perfeito, só então iniciou-se  o ritual.
Colocou a farinha sobre uma bancada de madeira, abrindo um buraco no meio, depois foi adicionando o fermento, a água morna, o óleo, os ovos, o sal, e se pôs a sová-lo, ela amava aquele ritual.
quando a massa estava lisa e uniforme, colocou-á dentro de uma bacia de alumínio, cobrindo-á com um guardanapo branquinho e o colocou para descansar.
Enquanto isso, deu uma varrida na casa, levou o lixo para fora, separando-os.
Não havia coleta por ali, então, ela precisava usar de bom senso, o que era para ser queimado, ela jogava numa vala, o que servia como adubo, ela colocava em uma outra, e o que não tinha serventia nem para queimar, nem para servir como adubo, ela levava até o galpão, para descartar em
tempo oportuno quando ia para a cidade.
Como consumia pouco produto industrializado, demorava muito tempo para isto acontecer.
Foi para o riacho buscar a tão preciosa água, com a ajuda do amigo balde, ela encheu alguns potes, embora não fosse muito., pois água também estraga, trouxera o que consumiria apenas em um dia ou um dia e meio, não mais.
Colocou uma panela no fogo, e escolheu uma pequena quantidade de feijões, tudo colhido em sua fazenda,que produzia quase tudo que ela necessitava,
Só então, foi para o campo.
Cortou alguns metros de feno e alfafa, tudo o que ela poderia carregar, e medindo bem cada feixe para que  não ficasse tão pesado, amarrou com pedaços de trapos de algodão. colocou nas costas, e
o levou até o rancho, não precisou fazer mais que três viagens, e se deu por satisfeita.
As cabras pastavam sossegadamente entre a passagem da roça para casa, e as ovelhas estavam um pouco além. deixado-á tranquila quanto a segurança de seu pequeno rebanho.
Esboçou um meigo sorriso, mexendo só o canto da boca, pensando: - Como tudo isso é bonito. Não trocaria esta vida por nada!
Ao voltar para casa, a natureza já havia prestado a sua colaboração: a massa dos pães estavam no ponto de enrolar, e os feijões já cozidos, só esperava a hora do acréscimo dos temperos.
Pegou duas formas, untou-ás, modelou os pães e depositou cada um  em seu lugar. cobriu-os novamente, os colocando no mesmo lugar que anteriormente já estavam, para que crescessem até o ponto de ir para o forno.
Colocou mais um pedaço de madeira no fogo, desta vez, foi um tronco de goiabeira, muito mais resistente, para  manter o forno quente e preparado para receber os pães.
Pegou um pequeno recipiente de socar alho, colocou um pouco de sal e alguns dentes de alho, socando-os até que virassem uma pasta. colocou um pouco de óleo numa panela já aquecida., acrescentando a pasta, e esperou que ele fritasse, só então, acrescentou os grãos. subiu pelos ares um
aroma tão saboroso, que, mesmo sem comer, dava até para matar a fome, de tão gostoso e perfumado
que ficou.
Sorriu satisfeita, embora fizesse isso com muita frequência, toda vez que fazia,parecia sempre como
a primeira vez.
Dia de cozinhar para ela era sempre um dia repleto de prazer,
Abaixou-se para abrir a porta do armário, e de lá retirou duas panelas.. hoje ela queria uma refeição completa.
Lavou um tantinho de arroz, colocando-o na panela com um pouco de óleo e cebola já refogada, e cantarolando uma musica suave, derramou sobre ele um pouco de água, amava aquele som de água se misturando com óleo, salgou o suficiente e tampou-a parcialmente.
Em outra panela refogou algumas folhas de repolho crocante deixando-o macio e saboroso. colocou tudo sobre a mesa e se pôs a degustar.
Hum! pensou ela: - perfeito!
Hora de voltar ao trabalho! - pensou: Porém, não antes de tirar um cochilo.
Desarrumou a cama, assim, meio lenta e preguiçosa, deitou-se como quem se entrega a um descanso merecido, naquela hora do dia, todos os sonhos se tornavam inúteis, o sol estava muito forte, e todas as criaturas pareciam estar num estado letárgico, então, aproveitou para deixar de pensar.
Alguns minutos depois, acordou meio assutada, tinha tantas tarefas a fazer antes do anoitecer, e não
poderia ficar na cama por mais tempo, embora seu corpo não pensasse como ela.
Espreguiçou-se demoradamente, ates de pôr os pés no chão, com as pontas dos dedos procurou pelo chinelo, calçou-o e seguiu adiante.
Nem passou pela cozinha, pois, mais que certo, ela ficaria por lá.
Ao colocar os pés na soleira da porta, antes mesmo de alcançar o alpendre, ela sentiu um bafo quente vindo em direção ao seu rosto, estava muito quente ainda, mas, isto não a perturbava, precisava trabalhar.
Alcançou o chapéu surrado que a esperava pendurado num prego ao lado da porta, colocou-o
sobre a cabeça, sotando um leve suspiro, Olhou em volta, tudo parecia tão tranquilo, que, quase voltou pra dentro.
Era perturbador aquele silêncio, dava até uma pontinha de medo, sempre que o vento ficava tão quieto,  era prenúncio de tempestade.
Pensou em ir para a cidade, precisava abastecer-se de alguns itens, como querosene para as lamparinas - mas descartou.
lembrou-se do porque estar sozinha naquele lugar, e desejou mais que tudo uma companhia.
Não foi nada fácil abdicar do sonho de se casar e se tornar mãe. Por algum tempo, isso lhe dava muito prazer, até conhecer aquele homem.
Estava suada e suja a trabalhar no campo, quando ouviu uma voz forte: - uma moça tão bonita trabalhando no campo? -Suas mãos delicadas não foram feitas para este trabalho.
Ela levou algum tempo para se recompor, estava tão absorta que não percebera a aproximação do rapaz.
Meio sem jeito se ouviu a dizer: - Que susto! - De onde veio?
Ele, por sua vez, parecia bem a vontade,  com um belo sorriso nos lábios. respondeu:- Da estrada, de longe eu a vi a capinar, Então pensei: porque não me aproximar e pedir emprego?
Ela o olhou de soslaio e reparou na beleza do rapaz, corou  ao ver que era muito atraente.
Dono de uma pele bronzeada pelo sol, olhos castanhos bem delineados, e uma barba por fazer,  que o deixava com um ar enigmático. usava botas de boiadeiro, calça jeans  e uma camisa surrada de cor
azul, aberta no peito, exibindo um tórax de atleta cobertos por pelos levemente aloirado.
Ele percebeu que ela o estudava e sorriu, perguntando logo a seguir: -Gostou?
Ela enrubesceu baixando o olhar. - gostei do quê?
Ele passou a língua pelos lábios e respondeu com uma certa arrogância:- De mim, é claro! -ficou me olhando de baixo a cima como se me comesse com os olhos.
Ela ficou indignada com a prepotência daquele homem e deu-lhe uma resposta que soou um tanto agressiva: - Quem você pensa que é? - Entra nas minhas terras sem pedir permissão e ainda canta de galo.  Faça-me o favor, respeita-me!
Ele parecia divertir-se com a atitude dela, talvez por parecer tão vulnerável,.
Tirando o chapéu da cabeça, ele lhe fez um gesto de mesura, dizendo:
- Oi madame, me permita pedir licença, embora já tenha entrado em suas terras!
- Permita apresentar-me: Meu nome é Jeff...Jeff Corlin. Eu sou do Texas e ando a procura de trabalho,
sou honesto e gentil, isto basta!
Ela se pôs a rir, a situação era muito engraçada, ele mais parecia um ser do século passado, lhe saudando com toda aquela pompa.
- Bom, disse ela: - Por acaso estou mesmo precisando de alguém, não dou conta de todo trabalho sozinha, só tenho uma condição: Você dorme no celeiro, e suas refeições serão servidas na varanda, o pagamento será mensal.
 e desconto o trabalho extra, se tiver que lavar e passar suas roupas.
Esta bom pra você?
Ele a olhou com uma certa ternura no olhar e rapidamente concordou: -Quando começo?
_ Agora!
E ele começou imediatamente arrumando o  celeiro, embora não estivesse tão bagunçado, Aquela mulher que ele tinha a sua frente, sem duvida nenhuma, era uma perfeita roceira.
Enquanto ele amontoava os fardos de feno num outro canto, limpando uma pequena área, ela subiu a ladeira que levava até sede da casa, entrou e foi para seu quarto, abriu o guarda roupa e separou lençol, travesseiro e cobertores.
Quando voltou, percebeu que o moço já havia colocado uma tábua deitada sobre o chão, encostado na parede e jogado um colchão velho por cima,
Então, ela  cobriu o colchão com um lençol, e arrumou a cama para ele, Por incrível que pareça, ela não sentiu-se acanhada com a presença de um homem em seu celeiro, embora sabendo estar sozinha com ele, havia em seus olhos um doce brilho que lhe transmitia confiança,
Conversaram por mais alguns minutos, até ela perceber que precisava preparar a refeição, quando ele se ofereceu para ajudar, ela recusou.
Depois de tudo pronto, la foi ela com passos largos chamá-lo para o jantar.
Ele subiu a ladeira assobiando feliz, quando alcançou o alpendre, encontrou uma mesa posta para um rei.  Pratos de porcelana e taça de cristal cintilavam sobre um aparato tecido de junco, velas acesas num castiçal de cobre dançavam sobre um ambiente próprio de boas vindas,
Sorriu feliz, fazia tempo que não se sentia tão bem em um ambiente tão requintado. Logo após tomar seu lugar, sentiu a presença de mulher, um perfume enebriante invadiu a terra, era como se o mundo inteiro se transformasse em flor.
Ele se perguntou o por que de ainda não ter encontrado aquele lugar e se censurou por dentro pelo tempo perdido. Agora que estava ali, sentindo o encanto e a magia de um sentimento novo, não lhe restava mais nada, a não ser se dobrar aos próximos momentos, e cair de joelhos ante aquela visão que se desenhou em sua frente.
Nunca vira tanta beleza juntas, Não era uma beleza estonteante, era mais do que isso, como se o próprio anjo de Deus tivesse descido até ele.
Ela entrou com uma bandeja nas mãos, ele se levantou para ajudá-la e ao tocar de leve em suas pequenas mãos, uma onda de calor invadiu o seu peito, e uma corrente elétrica lhe impediu de falar.
Ambos se acariciaram com o olhar, e se tornaram um só por alguns momentos, até que, num relance de ternura, ele a convidou a sentar.
Tomando uma de suas mãos,  puxou a cadeira, e com a  outra,  a conduziu com maestria para o assento, até vê-la confortável em seu lugar, depois se dirigiu a outra ponta e também sentou-se, sem tirar os olhos
daquela visão maravilhosa.
Bela é a fera da paixão, que com suas garras não permite que sua presa se distraia. Aquele momento em especial, o amor começava a dar seu pulinho, e o coração ávido por poder já se preparava para dar o uivo da morte.
Comeram em silencio,  a atmosfera estava carregada de tensão, nem um, nem outro, tentava quebrar
o inquebrável. Tinham tanto a contar um ao outro, mas a voz se limitava a ficar trancafiado dentro, falavam de coisas amenas, mas nunca do que sentiam.
As horas se arrastaram e parecia que nenhum dos dois se deram conta do quanto o tempo passara depressa. Ela olhou para o relógio da parede e constatou que precisava se recolher. Soltando um suspiro quase inaudível, levantou-se da cadeira e se pôs a recolher os pratos, ele também se levantou, e,  num gesto cavalheiresco, se ofereceu para ajudá-la,
Prontamente, ela se recusou, não queria mais tê-lo por perto, a sua presença lhe incomodava, Então, ele se despediu e a deixou sozinha.
Enquanto preparava-se para dormir, ela pensou nos acontecimentos recentes, estava tudo em seu lugar, e de repente, ela não sabia mais.
Seu pai, antes de morrer lhe dissera: - Tome cuidado com os homens. O amor, as vezes,  chega e toma conta,  mas os homens são capazes de mentir.
Ela até perguntara ao pai: -Você mente para a mamãe?
Ele lhe respondeu com uma cara zombeteira e divertida: - Bem que eu tentei, mas o amor foi mais forte.
Depois de lavar a louça, ela se deitou, e o sono demorou para chegar, pois, por mais que ela quisesse, ela não conseguia deixar de pensar no homem que dormia em seu celeiro: - Será que também pensava nela?
Enfim, depois de muito tempo, o sono a vencera e se deu acordando já com o sol a pino.. Levantou-se,  preparou o dejejum.  Desta vez, fez uns bolinhos de chuva, com muita açúcar por cima,
Saiu até o alpendre e o viu parado la fora, com uma voz suave o chamou para dentro.
Naquela manhã, tudo pareceu normal, falaram sobre a lavoura, sobre o que ainda tinham que fazer, e ela lhe deu as coordenadas de por onde começar.
Tão logo, ele se despediu e foi para o trabalho.
Depois de tirar leite da cabra, de dar de comer as ovelhas, de buscar água na fonte, ela sentiu um grande desejo de ir para a roça.
Ao chegar bem perto do arrozal, já podia vê-lo trabalhando, pensou em desistir e voltar correndo, mas, ,afinal, nunca fora covarde, e não seria agora que começaria a ser.
Desceu bem devagar até alcançar o vale, tão logo, ele a viu e parou de trabalhar. Ela, porém fez sinal com a mão para que continuasse, não viera para bater papo, viera para ajudar.
Começou a empilhar a palha, e amarrar os montes.
Ele voltou a se concentrar no corte, e ambos só foram se falar no final da tarde, quando o sol já se punha no horizonte.
 Ela se aproximou devagar, na pontinhas do pés, e lhe falou: -por hoje, chega!
Ai, que susto! ele retrucou: - nem percebi a sua presença!
Ela olhou para ele sorrindo: - desculpe! não queria assustá-lo!  Rendeu o trabalho hoje, né?
Ele a olhou de soslaio.  O que será que ela queria dizer com isso?
Ela percebeu a gafe e se justificou: - Perdão, eu não quis te ofender, eu  só quis dizer que, com duas pessoas trabalhando, rende mais, é obvio!
Passaram então a guardar os pertences e as ferramentas, e seguiram rumo a casa: ela subiu para um lado, enquanto ele desceu para o outro. Pouco se falaram, mas havia promessa de encontro para o jantar.

2 parte....Compartilhando aos poucos

O amor ia brotando...
Ela entrou em casa deixando seu sapato la fora, foi para o banheiro, tomou um gostoso banho  e se preparou para o jantar.
Lá fora, havia alguém a lhe esperar. Logo que botou os pés na cozinha ouviu uma voz a lhe chamar; - Lina!
Saiu com o coração nas mãos. E lá estava ele.  Já barbeado, de banho tomado. Estava muito atraente dentro de um traje bem limpo.. Camisa listrada e uma calça solta da cor de mel.
-O que você quer?  pôs-se a perguntar:
- Nada demais, disse ele: - só oferecer para ajudá-la, se você quiser. Afinal, trabalhou tanto quanto eu, e não é justo que eu descanse enquanto prepara o jantar.
Por um momento, ela pensou em despedi-lo, mas, veio-lhe a mente, que ela gostava de sua presença, Então, como quem não quer nada, ela lhe pediu que entrasse.
-O que eu faço, perguntou a ela:
-Acenda o fogo!
Ele se abaixou para pegar a lenha, e ela saiu para a varanda para apanhar a cebola e os rabanetes que tinha colhido um pouco antes do banho.
Depois entrou, lhe dizendo: - depois de acender o fogo, descasque as cebolas e os rabanetes!
Tirou então, as panelas do armário, colocando em cima do fogão, lavou o arroz, e foi buscar o pote de carne.
Ela armazenava a carne frita previamente , acrescentada a gordura, dentro de potes de barro, Depois, ia tirando aos poucos, adicionando alguns temperos.
Tirou alguns pedaços, para depois, guardá-los novamente no armário.
Ao voltar para a cozinha, deu de cara com dois olhos, olhando diretamente para ela. Eram azuis como a cor do céu, Mas, naquele momento, pareceu-lhe turquesa, seria a cor do amor?
Ela não sabia, só sabia, que aquela cor lhe tirara a paz. De repente, perdeu toda a sua confiança, tropeçando na incerteza. seria possível sonhar?
Ao chegar perto do fogão, colocou suas mãos frias sobre a chama, precisava se aquecer, estava a suar frio.
Foi então, que, sem perceber, ficou muito próxima dele.
Sentia-o tão próximo, que chegou a salivar, sabia que não era pelo cheiro de comida, mas, pelo perfume de homem.
Havia uma tensão no ar, que, se não fosse liberada, poderia explodir.
Ele a acolheu em seus braços quentes. dando-lhe um abraço, que quase a sufocou. Depois, bem de mansinho, colou seus lábios no dela.
Uma sensação de euforia misturada com desejo reprimido foi o suficiente para incendiar os dois corações.
Ficaram assim, por muito tempo, um saboreando o outro, como se o tempo tivesse parado. Só depois de muito tempo, se soltaram, soltando suspiros. olharam um dentro do olhar do outro, e sem dizer qualquer palavra, terminaram de preparar o jantar.
Ele arrumou a mesa, ela colocou a comida nos pratos, e juntos, numa frenética troca de olhares, foram se satisfazendo.
Depois, lavaram a louça, e antes de se despedirem, eles se beijaram outra vez.
Ele desceu para seu canto, e ela se refugiou em seu quarto, mas, ambos não conseguiram dormir.
Pela manhã, antes mesmo do sol sair para seu passeio, os dois já estavam em pé. tomaram o desjejum juntos, sem muitas palavras, não queriam quebrar o encanto das emoções.
Ele a ajudou a tratar dos animais, acabaram de colher o arroz, transportaram para o celeiro, descarregaram, clocaram para dentro, e saíram para dar uma volta nos arredores.
Foi então que ele lhe falou: - Lina. Eu sinto muito por ontem, eu não queria ter feito aquilo, porque, você sabe, eu não tenho parada. hora estou aqui, hora estou lá. sou um homem de aventura, não gosto de ficar. Mas, sinto que com você foi diferente, você não imagina o quanto me custou não ter feito amor com você!
Ela corou, pois também desejou ir além.
- O que você espera de mim? balbuciou:
- Nada, meu amor, nada que você também não queira!
Seu olhar se entristeceu por um momento, quase que seus olhos ficaram na tonalidade cinza. - Mas, eu te desejo muito. completou: - como nunca desejei nenhuma outra mulher. Só que não posso permanecer aqui por muito tempo, então, não posso te pedir nada.
Num relance de ternura, ela se jogou em seus braços, quase sem pensar, e as bocas ávidas por carinho se tornaram uma só.
Ela foi levando ele para cima, e enquanto caminhavam, entre sorrisos de malicias e beijos, formam se despindo aos poucos. As roupas ficaram marcando caminhos, e tão logo alcançaram a cama, já era muito tarde para usar a razão.
Ele descobriu que  ela ainda era virgem, isto acabou com sua alegria, mas, não dava mais para parar, então, aproveitaram ao máximo aquela emoção.
Depois dormiram abraçados como um casal qualquer. Pela manhã o ar estava mais frio, prenúncio de inverno,  Lina sabia,  que o inverno daquele ano, seria tão mais rigoroso que todos os outros.
Mais dois dias de trabalho e tudo estaria pronto, não havia mais nenhuma necessidade de ajuda, então, ficaria sozinha, mas como esquecer aquele amor?
Aproveitaram o máximo que puderam.  Fizeram amor no relento,  na cama dele no celeiro, na cama dela na casa, Enfim, em qualquer lugar, a qualquer hora.
Riram muito, se divertiram, só não fizeram planos e nem promessas.
Chegou então o inverno.. tudo se tornou muito cinza. As nuvens se deslocavam com muita pressa, vinham e iam, com ventos uivantes e frio de cortar.
As rés estavam protegidas da neve,  as verduras foram  tiradas da terra, as carnes estavam curtidas, mas, seu coração não tinha nenhuma proteção.
Pela manhã daquele dia ela acordou em aflição, era chegada a hora dele partir. como dizer a ele que ela sofreria, como pedir que ficasse?
Não, ela não faria isso, conversaram muito a respeito, e foi ela quem disse que não teria nenhum problema com sua partida.
Ele se levantou para banhar-se, depois que fizeram amor e ela foi preparar o cafe. Já tinha lágrimas nos olhos. Era o dia que ela não queria viver.
Tomaram o café em silencio, ele se levantou e desceu até o celeiro, arrumou as suas coisas. E ao sair, ela já estava esperando para levá-lo até o povoado.
Dirigiu meio desatenta, mas sem pronunciar uma palavra, foi quando ele quebrou o silêncio, perguntando:
 - Você vai ficar bem?
Ela não respondeu de imediato e ficou meditando:
 - Como eu posso ficar bem, se você chegou e mudou tudo?
Mas ficou quieta, engolindo a sua dor e lhe respondeu: claro!
Ao chegar perto da estação, ela desceu do carro, ele também,
 Ele pegou a sua mochila, jogou nas costas e a abraçou.
Os dois se beijaram pela última vez. Ele a olhava como quem quer ouvir da boca dela;
- fique!
Porém, ela nada falou.
E ela, esperando que ele dissesse: -Não vou mais! Mas,  também ficou calado.
Ela voltou para casa, depois de fazer algumas compras. O inverno batia as portas, logo não daria nem para dar alguns passos fora de sua casinha.
Logo que chegou, checou os animais, todos estavam bem e agasalhados com muito feno, as galinhas estavam empoleiradas dentro de seu galinheiro, tão bem fechadinho que pensavam já ser noite.
O gato se alojara debaixo do fogão. E ela pensou em ir para a cama, porém, não queria dormir.
Acendeu o fogo, colocou água para ferver, e fez um chá, bebeu acompanhado de algumas torradas com geleia.
Apanhou um livro na estante e começou a ler. Era um belo romance que a deixou nostálgica, então, o descartou e foi dormir.
O sono demorava para chegar, e o som do sorriso de Jeff  vinha  em seu ouvido, como se ele ainda estivesse ali. Ela desejou demais a sua companhia, mas, sabia que ele já estava longe.
Daquele dia em diante, ela preparou seu tear, e sem pressa, pôs-se a trabalhar.
Passaram-se cinco invernos, alguns tão rigorosos e marcados por uma intensa saudade!
Conforme o tempo ia passando, a saudade foi doendo menos, e ela se encheu novamente de paz, recusava a aceitar novas companhias, preferia fazer tudo sozinha.
Mas, naquela tarde, quando se preparava para o sexto inverno sem ele, uma dor doida se aproximou, e ela sentiu necessidade da lembrança.
Tomou um gole de água. percebendo que o pote estava quase vazio novamente. Teria que descer até o rio, para encher as vasilhas.
Pegou dois baldes pequenos, e cantando uma canção de amor, foi se enredando pelo caminho entapetado pelo barro. Caia uma chuvinha fina, quase que imperceptível a olho nu, mas estava tão gelado, que a fez estremecer.
Foi descendo a ladeira, de pé em pé como sempre fazia, um após o outro, meio de lado para não escorregar nos degraus feitos com a ajuda de uma enxada.
Aos poucos, foi ouvindo o som da bica que desleixadamente derramava em abundância suas águas para o rio.
Era um som tão agradável, que a mergulhava num estado de empatia com a natureza exuberante que se estendia após ele.
Sorriu feliz, se abaixou, e antes de encher os baldes, deitou-os ao chão, e lavou sua face com água gelada.
A água chegou a queimar sua pele, mas, tão acostumada que estava com o frio, aquilo não á incomodou, pelo contrario, segui-se um gritinho de prazer.
Secou a pele com as costas das mãos, para depois laçar os baldes, e encher um a um até a boca.
Satisfeita com o trabalho, se pôs a subir o morro, e novamente, de passo em passo, meio desajeitada por ter as duas mãos ocupadas, conseguiu atingir o topo.
O vento batia forte nas árvores, e o uivo que se ouvia, parecia convidativo. Com algum esforço, conseguiu chegar em casa.
Tudo estava pronto, como sempre! Os animais, as aves e o gato estavam procurando seu cantinho predileto para deitar.
Ela ouviu o cantar de uma coruja buraqueira, que fez seu ninho bem perto da porta da sala, pensou em ir até la só para admirá-la, mas o frio estava tão horripilante que a fez desistir, Deu a volta e alcançou o alpendre, subiu devagar as escadas, e entrou na cozinha. O fogo crepitava na boca do fogão, e algumas brasas caíram ao chão. Isso que dá não cortar a lenha no tamanho certo, pensou ela: sobrou para fora do fogão, e a sobra veio ao chão ainda em brasa. A casa estava enfumaçada, mas, tão quentinha que a fez fechar a porta atrás de si. Pegou as brasas com auxilio de uma pá, e recolocou na boca do fogão que a engoliu.
O forno estava tão quentinho que resolveu bater um bolo.
Pegou uma travessa de louça, colocando na mesinha. foi para a dispensa e alcançou todos os ingredientes. Com a ajuda de um garfo bateu as claras em neve, logo após separá-las das gemas.
Só então, bateu os ovos, acrescentando açúcar e a manteiga até se fundirem numa mesma composição. Colocou leite de cabra, a farinha e o fermento que ela havia preparado anteriormente.
Não se dava ao luxo de ter fermento químico. Então, sempre deixava uma muda de fermento natural, que ela mesmo preparava.
Por ultimo, acrescentou as claras em neve. deixando a massa tão lisinha que dava vontade de comê-las sem assar.
Então, novamente lembrou de seu amor.
Quantas vezes cozinhara para ele, quantas vezes bateu o bolo, deixando a vasilha para que ele a raspasse. Agora, tudo ficava tão triste, até mesmo a travessa, parecia entristecer-se.
Ah! deixa para lá pensou, abanando-se com as mãos:
Não é hora de sentir saudade.
Voltou a se concentrar no bolo, mexendo bem de leve a massa, incorporando as claras em neve. Pegou a forma de alumínio, untou-a com manteiga, despejou a massa, jogou a tigela na pia, e colocou
a massa no forno.. alimentou o fogo mais uma vez, só que desta vez com pouca lenha, só para mantê-lo na temperatura ideal.. Só então, foi tomar seu banho.
A chaleira com água fervia, levou até o quarto, despejou seu conteúdo numa bacia, pegou um pouco de água fria e a temperou com delicadeza até sentir que a água morna.
Tirou a roupa, ainda aproveitando o vapor que inundava o ambiente, e rapidamente, se jogou dentro dela. Nossa! que gostoso! falou alto e em bom tom,
Lavou os pés, ensaboou o corpo todo, molhou até os cabelos, tão logo, despejou o restante da água limpa sobre si.
Era assim que se banhava. que falta lhe fazia a eletricidade.
Alcançou a toalha que estava disposta num banquinho, se colocou dentro dela e pôs-se a secar-se.
logo estava tão perfumada e tão quentinha dentro de seu penhoar de lã.
Voltou para a cozinha, sentiu cheiro de bolo, abriu o forno e já estava no ponto de tirá-lo de la.
Foi para a sala e ligou o radio de pilha numa estação qualquer. Uma musica sertaneja encheu o ar de nostalgia, e novamente, lembrou de seu amor.
Pegou uma fatia de bolo, e foi para a varanda, sentou-se numa cadeira de vime. A noite estava muito
fria, nenhum som se ouvia a não ser o uivo dos ventos, pois todos os animais dormiam. nenhuma estrela no céu, apenas escuridão.
Ficou la por algum tempo, até que chegasse o sono. Só então, resolveu ir para a cama.
Era assim que se livrava da insônia, com muito cansaço e sono.
Todos os dias eram iguais. quer dizer, em todas as estações. No verão, muito trabalho. No inverno, o tear, as idas e vindas ao celeiro pata tratar dos animais e aves. E muito, mas muito frio.
O tempo passou, ela amadureceu, a saudade diminuiu, Jeff quase se apagara de sua memória, e a vida prosseguia, acostumara-se na solidão.
Porém, numa tarde, quando ela saia para limpar a roça, ouviu passos de cavalo. Como assim, ela pensou: quem será que esta chegando?
Pensou que fosse seu vizinho, que de quando em quando passava por la para saber se estava bem.
Mas tão logo saiu para fora, levou um susto.
Quem estava no cavalo, era nada mais, nada menos, que, ele.
Já desapeava, quando ela o identificou.
E sem muitas palavras, ele a abraçou, com uma suavidade que quase provocou nela um desmaio.
Jesus! ela sussurrou entre lágrimas de emoção: - Não esperava mais vê-lo!
Ele então se pôs a falar, sem no entanto, soltar-se do abraço: - Eu, no entanto, não via a hora de revê-la!
- Ha quanto tempo? disse-lhe:
Ele a olhou como se fosse pela primeira vez, ela viu amor no olhar que lhe foi disparado.
-Você veio pra ficar, não é? Eu sinto!
Ele a tomou nos braços e a beijou com tanta paixão, que quase lhe tirou o fôlego, para depois resmungar: -Sim, meu amor, mil vezes, sim!
E daquele dia em diante, nem o inverno, nem o verão lhe proporcionou tanto prazer quando
aquele amor que voltou.
Se viveram felizes para sempre?
Se o sempre significa dia e noite, dias e noites.  Sim! Eles ainda são muito felizes, agora mais do que nunca, pois esta chegando naquela casa, mais um motivo para sorrir, na pessoa de uma criança.
Ai, o amor, que nasce assim, do nada, e vai se transformado em tudo na medida em que o aceitamos..
Herta Fischer







































































































Uma fração de segundo

Pouco pesa aquilo que você carrega,
se em todas as manhãs, teu corpo
leve lhe parece, pelo
tanto que dormiu.
Estendas tuas mãos aos céus
e mendigue um bem. Não tenha
pressa de sonhar, pois, teu
sonho já se realizou no
tempo passado, no minuto
que lhe pareceu minguado,
mas, foi exatamente nele
que você se perpetuou...
Herta Fischer,

Um pouco de saudade

Eu declaro hoje, que vivo
a presença de tudo
que me rodeia, como
aves a construir ninhos,
Tu me é importante, todos
me são, de alguma forma,
até os mais secos sentimentos
ainda me fazem crescer.
Adornada estou com
teu amor, mesmo
que me esqueças, pois
tornou-se um pouco
meu dia, e de noite
se fez em ausência,
mas seu perfume ficou.
Herta Fischer

Alegria no porão

Ando sem inspiração,
preciso ler poesias.
As vezes, eu quero falar, outras, quero me calar, mas
escrever, eu quero sempre. só não sei
o que dizer.
Olho pela janela do meu quarto enquanto
procuro palavras, tento me inspirar
na cantiga dos pássaros, no sol
que timidamente me olha nos olhos, mas
minha cabeça esta tão cheia de preocupações,
e me coloca tão distante do que quero,
Seguir pelo meu dia eu queria, plantar um pouco
de palavras ritmadas no embalo
do que sinto.
Mas, de repente, nem sei mais o
que é sentir.
Será velhice?
Não ha em mim horizonte algum, só o
 medo de partir sem poder me despedir.
Não quero pensar, mas, eu penso. Aliás é o que
mais eu faço ultimamente.
Não sei onde se escondeu a alegria, talvez,
esteja empoeirada em algum
canto do porão, onde guardei o melhor
de mim, e não fui mais procurar, por medo
de não ser mais igual ao que sempre foi.
Porque o que era lindo, passou a ser apenas dor,
dor de saber que continuo, mas já sem
aquele olhar de criança, já percebendo que,
a vida já não quer mais ser vivida na mesma intensidade
de antes. E no arrasto se vai, na canseira desanima.
Herta Fischer.





Ilusão de percurso

Me prendi naquele olhar,
derradeiro olhar
que me deu ao partir.
Dizem que se ama uma só vez.
Então,
para que insistir em te esquecer.
Passaram-se os anos, você  se foi, eu fiquei,
não te esquecer foi meu motivo de sofrer,
Até que, num determinado espaço de tempo,
quando não havia mais razão para te esperar,
um novo amor chegou para ficar.
Isto me impulsionou para frente, isto me
deu forças para suportar saudade, e uma
forte vontade para lutar.
Se não me quis, se não me amou, porque então, deveria
eu, ficar chorando?
Chorando a sua ausência, quando com outra
daria presença?
Não, não!
Os dias passam e com eles vão-se os sentimentos
vazios, porque amor não resiste ausência, sem
que procure um outro amor que liberte.
Nutrir esperanças em vão não é sabedoria,
amar na solidão não é inteligência, seria o
mesmo que pedir que houvesse fruto
em árvore infértil.
O mesmo que cavar um buraco e se enterrar
viva, tendo o mundo nas mãos.
E agora, eu entendo porque não foi você.
Porque havia um outro amor a minha espera,
e talvez, houvesse, um outro amor a te esperar.
Herta Fischer.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

Morrendo aos poucos

Tão bom ser,
mesmo não sendo,
tão bom existir, mesmo
não sabendo.
Tão bom andar
sem movimento,
só deliciar
em sentimento
Sair sem saber onde ir,
chegar, chegando,
amar, amando
Cantar por dentro,
sem som, nem lamento,
andar no relento,
Tão bom não saber,
ler o entardecer
como quem segue
em frente, apenas
por querer.
Sou eu, talvez,
um pouco altivez, outro
pouco, mesquinhez,
E pensar que sou grande,
que nada, só um nozinho
envergonhado, no
meio deste gado que
vive o descaso de
ser simples empregado
de uma vida malograda
que ora, novidade, outrora
saudade.
Sinto-me escapando,
aos poucos me acabando,
sem rastros ou decência,
neste tempo de decadência,
pouca fartura, muita falência!

Herta Fischer

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Despertar para o bem

Teve um tempo que eu não via maldade, as vezes, me
colocavam em saia justa, mas,
eu só via como defeito, e ria.
Depois de algum tempo, de tanto levar bordoada, de tanto falarem na maldade humana,
que eu comecei a enxergar, Não gostei! Fiquei muito triste pelas pessoas perdendo seu tempo com invejas, ciúmes e sei mais lá o quê.
Eu não queria nada das pessoas a não ser respeito e amor,,Só isso! Era pedir muito?
Então, de estado puro, me transformei em estado bruto, e fui cada vez me endurecendo mais e mais.
Me tornei casca grossa, ninguém ousava quebrar, ou arrancar de mim nada que não fosse desprezo, com exceção de alguns.
Os que me davam, recebiam o mesmo e na mesma medida.
Me enfiei em mim e só acreditava naquilo que via, me afastei das pessoas e a amargura era minha virtude.
Até que, em um certo momento despertei daquele sono que me impunham, e voltei ao estado puro. Passei novamente a ter olhos para o que era e é belo, Não olho mais para as pessoas com olhar de defesa, nem uso mais meu ferrão, Estou liberta para o amor maior, acreditando que as pessoas não são o que dizem, nem tão pouco o que fazem, elas são o que elas defendem.
É para Deus que eu realizo..Esse fôlego que me mantém viva é a fé que
me sustenta...
Herta Fischer.

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