terça-feira, 29 de novembro de 2016

Preservação de Deus

Me alegro em tempo,
a alegria, meu sustento,
Não jogo, não bebo ilusões
para não cair na sarjeta
de sonhos suspeito.
Vou, só Deus sabe como.
Um manhã de cada vez, pois
da tarde, não sei!
Uma crisália nascida
no campo, sem poder,
cheia de querer
em vão.
Olhando as coisas
como se já não as vesse,
que amanhã tudo morre
e quando morre, só desgosto
a pensar que nada viveu,
esperando, nasceu e
morreu, sem ao menos
saber que era tudo
que se transformaria
no infinito
o sonho de Deus!
Herta Fischer

domingo, 27 de novembro de 2016

A irrelevância.

É forte, é sereno esta
minha mania de amar.
Sobre a rocha construo
um caminho, na montanha,
meus muros, Tudo chega
num determinado momento,
e tudo se vai, da mesma forma.
Não adianta andar pelos campos
plantando sem intenção de colher,
nem sentar-se numa cadeira
para espreguiça-se como
quem não tem culpa.
Cada um acredita como convém,
mas, acreditar em ilusões
é o mesmo que encontrar
um rio sobre miragem,
e dela querer beber.
Diz-se dos homens coisas
que não provém. homens
bons jamais deturpa, nem tem
por costume
arrolhar em si, grandes coisas.
Vivemos no limite, e no limite
devemos viver, acreditando sempre,
no melhor que pode haver.
A fé move montanhas, no sentido
figurado: é força que mantem em pé,
A fé não só nos impulsiona, mas,
também nos coloca frente ao
mais sublime, que é manter-se
mais discípulo que mestre.
A soberba da vida é homem
sem palavra, é homem que
só destrói, que coloca-se
acima como quem sabe de tudo,
No entanto, mal sabe onde
se escorar.
Herta Fischer

sábado, 26 de novembro de 2016

Relativo a salvação

As vezes eu me ponho a pensar:
-Nos muitos tropeços que o homem faz questão
de distribuir pelos seus próprios caminhos.
E são tantos a tropeçar, sem ao menos parar
para pensar em quem  é que os derrubam.
Falam deles mesmos, com tanta arrogância, como se o Cristianismo
fossem eles próprios.
A cruzada que matou homens de bem, pelo simples fato da
não concordância com seus dogmas, para usurpar e espalhar pelo mundo afora,
um poder roubado, na ânsia pelo poder.
A igreja que se diz verdadeira, no entanto, comete a maior das heresias,
Homens que se dizem religiosos e que, por fim, tem uma única finalidade que é
poder.
Não esta em mim, o poder de julgamento, nem a querencia de falar mal, mas
esta em mim, a consciência de me permitir falar sobre o assunto.
Cristo, a primazia da criação, O primeiro homem, O primeiro a conhecer
Deus, a quem chama de Pai, por ser Ele o primeiro Filho gerado,
A mulher, figura da igreja, casada com Cristo, unida em amor com
seu esposo, na qual gera filhos.
A maçã, figura da desobediência, pela qual foram expulsos do paraíso: O filho
amado, a esposa fiel.
E ambos sofreram punições, Tanto o filho, quanto a igreja - ( mãe de muitos
filhos.)
Tudo  isso pela busca de poder, quando o diabo, com inveja de seu criador, queria
tirar-lhe o espaço. assim, anunciou a Eva, a igreja, que se ela comesse da árvore do conhecimento, teria o mesmo poder de Deus.
Tudo que se aplica a palavra, desde o princípio, são figurativa, sombra do que haveria de vir.
O homem sendo expulso do paraíso, tornando-se conhecedor da morte, Eva e Adão gerando filhos, a inveja entrando pela porta, a inveja, a mentira e o assassinato. Deus levando com ele o filho bom e expulsando de suas vistas o filho mau.
O povo se tornando cruel a ponto de Deus querer acabar com a terra e com os homens,se arrependendo de tê-los criado.
Noé fazendo a arca sobre a supervisão de Deus, Deus escolhendo a quem salvar. o diluvio
durando quarenta dias e quarenta noites. A chegada de Noé na terra, A sequencia que se da após isto.
A historia do povo santo, a historia do povo corrupto, a corrupção e santidade se dando as mãos.
O povo santo no cativeiro por quatrocentos anos, sobre o domínio da figura de faraó, o homem abominável, que adorava figuras animalescas,
O salvador Moisés, adotado pelo mundano, comendo do mesmo pão que alimentava o algozes
de seu próprio povo, chamuscado com sangue inocente, ganho através da escravidão.
O saber a respeito de onde viera, de conhecer sua mãe, de contrariar sua família, de entender o que ali se passava,
A sua escapada, por força de um assassinato, a fuga para lugares longínquos, o encontro com Deus no Monte Sagrado, o acreditar  no que via, o se preparar na solidão, o cajado em suas mãos. A longa volta, o enfrentamento ao poder.
As sete pragas, os milagres, a ultima praga, a morte dos primogênitos, O sangue do cordeiro aspergido na porta, a morte de todos os meninos e animais, a vida preservada dos que creram e se valeram do sangue santo.
A negação do Faraó, a teimosia, a astucia dos encantadores, a morte de seu primogênito, a tentativa de fazê-lo ressuscitar nos braços de seus deuses, a decepção.
O fazer o povo compreender que dele vinha a salvação, o conselho com seus irmãos, a despedida da família que lhe assistiu,
A decisão de liberdade: o libertar, o convencer, o preparo de toda gente, a saída, a recusa de alguns, o mar se abrindo, o povo passando em terra seca em meio ao mar a morrer de medo, a investida de seu algoz arrependido, querendo voltar atrás. o Mar se fechando, homens e animais sacrificados.
A entrada no deserto: a fome, o calor, o frio, a deserção, a reclamação, a falta de compreensão.
O subir no monte:  o encontrar-se pela segunda vez com o criador, o conselho, as leis, a obediência, o tempo.
O povo:  a canseira, o se desviar, o despertar da ira, a desavença, o se consolar  com ídolos, o
se entregar a volúpia, o descreditar.
A volta:  o castigo, a ideologia, a entrega das leis, o julgar, o fazer valer a lei.
Novamente o deserto:  a cobrança, o faltar fé, o alimento vindo do céu, a soberba, a arrogância, a vaidade, os enganos, a ganância, a falta de caráter.
A apostasia: gritos, reclamações, vícios, o machucar a pedra.
A chegada na terra prometida: O castigo, a morte, o enterro, o disputar pelo corpo, o anjo, o diabo, o descanso.
Entrada: a guerra, o vencer, o triunfo.
Quantas coisas que jamais entenderemos, só o fato de que tudo era relativo a Cristo, que salvaria o  povo do cativeiro do pecado, dando-lhes a chance de nascer de novo.
Herta Fischer  (hertinha)


















Construindo caminhos

I capítulo

Baseado numa historia real..

Existiu uma mulher de fibra
em minha vida, Foi a primeira mulher
que conheci.
Não tinha  muito conhecimento,
só o saber que a vida dá.
Casou-se aos dezesseis anos de idade,
quando ainda brincava com bonecas.
e nada sabia sobre amor.
Casar-se, para ela, era algo
que apenas acontecia, num belo dia,
quando algum rapaz lhe pedisse a mão.
Regalava-se de alegrias, brincando
de ser, em seu quintal sonhador.
Tinha em seu semblante um esplendor
de menina sertaneja.
Hugo viera para aquele lugar, como
nômade, estava em busca de trabalho.
Aos vinte e três anos de idade, fora
expulso de sua casa pelo pai, e procurava
um lugar para ficar,
Filho de imigrantes alemães, seu pai era muito rígido,
e o expulsou de sua casa.
Foi então, rumo ao seu destino. Desmantelado e pobre
como um sertão sem flor.
Cabisbaixo, buscava por um amor,
Acendeu-se então um rabisco de possibilidade,
ao notar a pequena flor brincando em seu quintal.
Tereza morava naquela fazenda com seus irmãos e
pais, Tão meiga menina, repleto de luz em seu olhar,
Brincalhona e alegre, tudo era novidade em sua pobreza,
que um homem como Hugo só poderia lhe chamar atenção,
Dono de uma boa postura, diferente dos demais, um olhar
sério enigmático até.
Um bigode charmoso lhe enfeitava a boca, e a força que dele emanava
ao segurar a enxada, muito a impressionou.
Tereza ainda era menina, pequena flor a desabrochar,
não tinha experiência alguma, só sabia de brincar.
Hugo a observava de longe, sem poder se aproximar,
era uma visão miraculosa, que o deixava sem ar.
Foi então, que surgiu a ideia de pedir a sua mão
A tarde estava fresca, depois de um dia cansativo
de trabalho, na solidão de seu cantinho, quase nada
a comer, apenas um pedaço de pão descansava sobre a mesa.
Precisava urgentemente de alguém para lhe aquecer nestas horas
frias, alguém que lhe fizesse companhia e que cozinhasse para ele.
Um homem só não é nada, pensou:
Tinha duas trocas de roupas, uma estava jogada num canto, suja, e
outra ele usava após o trabalho, quando se lavava.
Tivera tudo, vivera com seus pais num sitio grande, onde cultivavam
e criavam gados. Mas a sorte lhes escapara, a chegada de militares
que tomara tudo dos seus pais.
Foram expulsos de suas terras, e jogados no meio do sertão, como
animais selvagens.
Não podia sair dali, por serem imigrantes, corriam o risco de serem presos.
E agora, o seu destino o colocara na mesma posição, agora era seu pai
que não o queria,
Por ser já um rapaz de vinte e três anos, não permitia mais que seu pai
lhe dirigisse a vida, precisava cortar os laços.
E ainda mais, o lugar onde moravam, sem nenhuma regalia a não ser
o que conseguiam fazendo carvão, que mal dava para se alimentarem com
dignidade.
Não sentiu-se mal, quando seu pai lhe pedira para sair de sua casa, só porque
saíra com alguns amigos no domingo e chegara um pouco tarde e
um tanto bêbado.
Agora estava em outro lugar, sobre uma nova condição, não tão
diferente de outrora, mas, pelo menos, era dono de si.
Ao pensar nisso, tomou coragem, e se dirigiu rumo a casa da moça.
Chegando na frente da casa, bateu palmas, o suor já molhava-lhe os dedos, tanto
era o nervosismo.
O pai da moça, que tinha por nome, Benedito, abriu a porta do rancho
e deu de cara com ele, Por sorte eles já se conheciam, pois trabalhavam juntos,
sobre a direção do mesmo patrão.
Boa noite! - falou as pressas:
Logo veio a resposta: - Boa noite!
Benedito o convidou a sentar num pequeno banquinho talhado
em madeira disposto ao lado da porta da sala, não o convidou a entrar.
Sentaram-se os dois lado a lado e começaram uma conversa animada
sobre a plantação.
Hugo lhe falava que tudo ali era bom, mas, que não pretendia ser empregado
a vida inteira, tão logo recebesse algum dinheiro, ia procurar um arrendamento
de terra que pudesse trabalhar por sua conta e risco.
Benedito lhe ouvia com atenção.
E a conversa fluiu até bem tarde da noite, quando Benedito se levantou, olhou
para o céu como se fosse um relógio, dizendo: - Já é bem tarde, precisamos nos recolher, porque
amanhã levantamos cedo,
Hugo se levantou meio desapontado consigo mesmo, faltou-lhe coragem para falar de Tereza.
Por varias semanas ele voltou a fazer visitas a casa, mas, sempre sentia-se desencorajado diante
do que ouvia nos bastidores,
A casa de Tereza era feita de madeira, chamuscada de barro, e coberta com sapé. La de dentro podia
se ouvir tudo o que era falado lá fora, e vice-versa.
Benedito era uma pessoa simpática, mas, não podia se dizer a mesma coisa de sua mulher.
Dona Veneranda, mulher de lutas, tinha no semblante, uma mescla de tristeza, que transformava sua palavras em golpes, quase que, sem perceber, era um pouco agressiva. Por várias vezes em que aparecia para servir-lhes uma xícara de café, mal o olhava nos olhos, sempre indiferente a sua pessoa,
e quando abria a boca, era  como uma faca cortante, sempre fria e afiada.
Sentia a presença de Tereza por detrás da porta, quando ela e suas irmãs mais novas, se derretiam em sorrisinhos, e sua mãe lhe dava alguns sermões.
Sabia ser observado pelos buracos da casa.
Então, quando já não aguentava mais observar Tereza de longe, certo dia, com uma força sobre humana que só da paixão se pode tirar, ele novamente se dirigiu para lá.
Logo que Benedito apareceu na porta, já suspeitou que a conversa seria mais séria que de costume, só
de olhar para o moço.
Ele tinha as mãos rígidas como quem quer dar socos, e seu semblante estava tão entravado que mal
podia disfarçar com sorriso.
Benedito então lhe perguntou: - Que acontece rapaz, porque esta cara tão preocupada?
Ele baixou a cabeça, a olhar para os pés. Então, novamente, procurou pela força que não tinha,
e ao vir em sua memória o sorriso de Tereza conseguiu balbuciar: - Benedito, com todo respeito
que tenho pelo Senhor e sua família, eu gostaria de pedir permissão para namorar sua filha!
Um meio sorriso se abriu nos lábios finos de Benedito, meio divertido ele acenou com a cabeça e se pôs a dizer: - É serio, ela ainda é uma criança, só tem dezesseis anos. Você fala de Tereza, não é?
- Sim! - de Tereza, ha muito que quero fazer-lhe este pedido. É claro que tenho boas intenções.
Benedito ficou um tanto quieto como se pensasse bem no assunto.
Hugo gelou por dentro, será que havia se precipitado?
Tão logo, o silencio foi quebrado, e Benedito abriu a boca novamente falando: - Vou conversar com
Veneranda e com Tereza, depois lhe dou a resposta, pode passar por aqui amanhã?
- É claro, respondeu depressa:
E se despediu.
Ao chegar em sua cabana, mal parava em pé, era uma emoção tão grande, nunca havia namorado, nem estado com uma mulher, e só de pensar em Tereza, seu coração disparava.
Quase não dormiu naquela noite, não via a hora de ter a resposta.
Enquanto isso na casa de Tereza, uma discussão se acendera!
Benedito não falou nada naquela noite, mas, ao acordar, pela manhã, enquanto tomavam o dejejum,
ele os fez saber do pedido.
Veneranda, a mãe da moça, ficou um tanto nervosa, bateu a mão na mesa, esbravejando: - Eu sabia! esse moço não me enganou, essa de fazer visitas toda hora, era só um pretexto para tirar Tereza
de nós.
E quem nos ajudará após isso?
Tereza é o nosso braço direito, cuida dos mais novos, vai a roça quando se é preciso. E além de tudo
é muito nova para namorar.
Benedito falou calmamente: - No entanto, mulher, um dia ela vai se casar, e que seja com bom moço.
Eu acho o Hugo excelente homem, trabalhador, responsável, homem serio. E ainda por cima, alemão.
Tereza deu um sorrisinho, ao achar graça da ultima conclusão do pai, é logico que faria o que lhe mandassem.
Então, depois de muita conversa, a mãe de Tereza acabou por concordar.
Aquele dia demorou para terminar, parecia que a noite se atrasava, tanto para Tereza, quanto para Hugo,
Os dois ficaram agitados com a possibilidade de conversar, pois, até então, se conheciam pouco, só através de olhares furtivos, e meio sorriso roubados.
A noite chegara e com ela a certeza de não poder voltar atrás, mesmo sem jeito, Hugo precisava de uma resposta, então, se lavou, trocou de roupa, colocou uma água de cheiro, um restinho que sobrara e que guardara para ocasiões especiais que eram raras.
E se encaminhou para a casa de Tereza,
Para sua surpresa, logo que batera na porta, ela mesma veio lhe receber.
-Entre! disse com uma voz melodiosa: - meu pai e minha mãe estão a espera.
Pela primeira vez, ele foi convidado a entrar, os pais de sua amada estavam sentados num banquinho perto de um fogão a lenha. Só então percebeu o quanto eram pobres.
Ofereceram-no um outro banquinho do lado contrario, perto de um pequeno móvel de madeira, repleto de latas e panelas.
Em cima do fogão havia um charque, pendurado por um barbante, exalando um cheiro gostoso de carne defumada que atiçou seu paladar.
No fundo havia apenas uma cama de casal feita a mão em  tronco madeira, e dois colchões de palha de milho, dando a impressão, de que, os meninos e as meninas dormiam no chão.
Não tinha nenhuma repartição, era tudo vazado, um cômodo apenas, para coser e dormir.
Não era diferente de sua casa.
Tereza pôs água no fogo, como se lhe desse um recado: Já sei cozinhar! - querendo impressionar seu
pretendente.
Começaram a conversar sobre outros assuntos menos importante, até que pararam, vendo a ansiedade do moço.
-Então!  começou a falar Benedito:- Nós decidimos lhe dar a nossa benção. A partir de hoje, Tereza é a sua namorada. Parou por um momento como se estudasse alguma palavra, e completou: - Que seja breve o namoro, não quero filha minha mal falada!
Vocês não poderão se encontrar fora daqui, só poderão namorar supervisionados por alguém, podem ficar sentados la fora, se quiserem, mas nunca sozinhos. Essa é a regra.
Hugo ficou feliz demais para se preocupar com regras, já estava acostumado com isso, seus pais não eram diferentes, cresceu sobre o domínio das regras e não seria mais uma que o faria desistir de Tereza.
Tereza lhe ofereceu uma xícara de café,  e ele aproveitou para tocar de leve em suas mãos, sentindo o toque, Tereza se retraiu como se tivesse levado um choque, tremeu por dentro, não que não tivesse gostado, mas ficou envergonhada na frente dos pais.
Passou-se um mês. Todos os finais de semana. depois do termino do  serviço na roça, Hugo aparecia na casa de Tereza e os dois ficavam conversando por longas horas, acompanhados, ora, por um de seus irmãos, ora, por supervisão dos pais. Nunca se beijaram, nem tocaram-se de qualquer outra maneira, namoravam com o olhar.

II capítulo
Até que numa tarde bem quente, Hugo apareceu com uma novidade, colocando as mãos no bolso tirou um par de aliança, colocando um em seu dedo, e outro no dedo de Tereza, que chamando pelo seus pais,  lhe contou que  seu noivo, marcaria o casamento na semana seguinte.
Naquele mesmo dia Hugo teve uma visita inesperada, seu irmão por parte de pai chegou meio triste e preocupado, lhe contando que seu pai estava passando muito mal, Hugo montou num cavalo emprestado e rumou para o sertão, as pressas.
O hospital ficava muito distante de onde seus pais moravam, tiraram-no de lá no lombo do cavalo,  ele e seu irmão iam a pé, até alcançar a estrada, por onde passava o ônibus.
Enquanto esperavam pela condução, seu pai só piorava,
Foi então, que um carro parou ao lado dos três, perguntando o que estava acontecendo?
Eles explicaram a situação, e o homem se ofereceu para levá-los até a cidade mais próxima.
Amarraram o cavalo num tronco ao lado de uma vendinha, pediram para  que o proprietário
cuidasse do cavalo, pois eles não sabiam quando poderiam voltar.
E partiram para a cidade, já com o pai agonizando, sentado no banco de trás, entre Hugo e seu irmão.
Embora Hugo não mais morasse com o pai, Hugo era o único filho que poderia socorrer o pai, já que,
ele e o irmão mais novo falavam o português corretamente, Os outros tinham ainda um sotaque muito carregado, pois, diferentemente deles, tinham nascido na Alemanha.
O pai de Hugo viera da Alemanha fugindo da guerra, ele trouxe a sua família, sendo que sua esposa morrera logo que aqui chegaram, fazendo com que se casasse novamente.
Dessa segunda união nascera dois filhos homens, e mais cinco mulheres.
Sendo assim, os cinco filhos do primeiro casamento do seu pai,  por serem estrangeiros, ainda tinham medo de represálias por parte dos militares.
Por isso, foi que um de seus irmãos por parte de pai, fora buscá-lo para que levasse o pai para o hospital.
Hugo seguia dentro do carro a pensar em Tereza: -Será que lhe diriam o motivo de sair assim, tão repentinamente da fazenda,
o que pensaria Tereza sobre isso?
Estavam vivendo um tempo em que as pessoas não se falavam muito, á não ser, para amedrontar
as pessoas.
E, de fato, os comentários sobre a partida de seu noivo foram tantas que,  faziam Tereza se perguntar: - será que ele não me quer mais, será que me abandonou depois de colocar uma aliança no meu dedo?
Todos a olhavam com pena no olhar, sua mãe meio que perversa ficava cutucando sua ferida sem piedade: - E ai Tereza, seu noivo a abandonou, casou-se com esse anel?
Mas, Tereza ficava quieta em seu canto, mesmo porque não podia se defender, aprendera assim, jamais pelejar contra seus pais, nem mesmo com palavras.
Enquanto isso, Hugo chegara com seu pai e seu irmão á cidade mais próxima, No entanto, o hospital recusou atendê-lo. alegando que o estado dele era muito grave, e que precisava de U.T. I. que não dispunham, Precisavam transportá-lo para uma outra cidade, situada a 32 quilômetro dali.
Ofereceram uma ambulância para levá-lo, ao concluírem a gravidade da situação do paciente..
Foram quarenta minutos de tensão, o maior medo de Hugo é que seu pai morresse no caminho, no entanto, deu tempo de darem entrada no hospital,
Levaram seu pai numa maca, e os deixaram esperando na recepção. Meia hora depois um médico apareceu na porta dando-lhes a noticia, que seu pai falecera.
O médico perguntou de onde eles vinham, Hugo lhe contou um pouco da historia, fazendo com que o doutor, generosamente, acelerasse a liberação do corpo.
Como estavam com pouco dinheiro, não tinham como levar o corpo para casa, então, perguntaram ao médico de quanto tempo dispunham para a retirada do cadáver. O médico o aconselhou a tirar naquele mesmo dia.
Ainda  restava algumas horas de comercio aberto, então, os dois rumaram para a funerária, compraram um caixão,  encontraram um cemitério disposto a fazer o enterro, só que, antes precisaram pagar pelo túmulo.
Depois de concluído os tramites fúnebre,  seguiram para a rodoviária, pegaram o primeiro ônibus disponível e se puseram a voltar para casa. Quando chegaram na vendinha, encontraram sua mãe e irmãs, esperando, ansiosos por noticias.
Sua mãe chorava muito. Eles tiveram que contar que seu marido não voltaria mais, ficara enterrado por lá mesmo. E, que não tiveram nenhuma chance de fazer diferente.
Por alguns dias Hugo permaneceu com sua mãe e irmãos, tentando convencê-los a morar com ele na fazenda onde trabalhava.
Seu irmão mais novo não queria  sair dali de jeito algum, pois, já estava acostumado a fazer carvão, e  tinha medo de não conseguir trabalho melhor.
Porém, sua mãe havia concordado, não queria que suas filhas ficassem a vida inteira a viverem enterradas no meio do mato, fazendo um trabalho tão difícil.
Sem ver outra alternativa, acabaram todos concordando em seguir com ele.
Arrumaram as poucas coisas materiais que tinham, amarraram tudo no lombo do cavalo, e seguiram rumo a esperança de uma  vida nova , agora, todos juntos novamente.
Enquanto todos se preparavam para a mudança repentina Hugo se pôs a pensar: - será que conseguiria aguentar tamanha pressão, agora, a caminho do casamento, e tendo que dar um certo suporte a sua primeira família. até que ponto aguentaria?
Todos prontos:  pouca roupa, quase nenhum mantimento, algumas vasilhas e um grande sonho, dois
cavalos, portanto, quatro patas, e algumas mãos preparadas para carregar tudo aquilo. Mas, a carga nas costas de Hugo era bem maior.
Tomaram o caminho da vendinha, era mais de sete quilômetros de caminhada forçada, Cada passo, uma penúria, um desconforto, principalmente para suas irmãs mais novas, que choravam a perda do pai, e também, ao esforço a que eram submetidas sem que tivessem outra alternativa.
Hugo ia a frente como quem abre caminhos, a esperança os seguia, como quem dá seu aval. Nada mais que isso.
Seu irmão, aquele que o acompanhara em sua triste jornada até o hospital, e o acompanhou num momento tão triste, quando tiveram que deixar seu pai enterrado numa tumba tão fria, sem sequer desfrutar das lágrimas dos que o amavam, este seguiu viagem rumo a sua historia, já estava casado, portanto, voltou para seu lar.
Apenas Hugo, a mãe, as irmãs, e seu único irmão cuja genética era  integral, andavam lado a lado.
Chegaram a vendinha com o coração saindo pela boca de tanto cansaço, Já era tarde, na boca da noite, não dava mais para seguir em frente.
Hugo ajoelhou-se sobre o capim, na estrada e pediu a Deus uma direção. Não podia, simplesmente, deixar sua família dormir no relento. Mas, o que fazer, se já não podia voltar?
Ao recebê-los, o dono da vendinha olhou para eles com certa pena no olhar. E perguntou-lhes do porque estarem ali naquela hora?
Hugo  lhe relatou toda historia, dizendo que não pensara no adiantar das  horas, só queria se ver longe dali.
O homem chamou a sua esposa e lhe repassou tudo que Hugo lhe dissera, os dois resolveram ajudá-los de alguma maneira,
Instalaram algumas redes no pequeno armazém, alguns colchões em um outro quarto e acomodaram todos eles.
Hugo ficou extremamente grato, e agradeceu a Deus.
Depois de se lavarem, o dono do barzinho deu-lhes de comer, e todos se aninharam  satisfeitos.
Antes mesmo de raiar o dia já se encontravam dispostos. Os adultos se prepararam para seguir a viagem, enquanto os mais jovens continuaram descansando.
Depois de tudo pronto, hora de acordar as crianças, e seguir viagem.
As crianças acordaram resmungando, ainda um tanto sonolentas, mas tiveram que se aprontar,
Logo que tudo estava arrumado, eles se despediram de seus anfitriões com muita devoção e carinho, arriaram os cavalos, puseram as coisas em seus lombos e saíram sem olhar para trás, afinal, um novo ciclo se iniciava.
Ainda faltava muitos quilômetros a se desbravar, aos cuidados dos pés ligeiros.
As crianças iam se revesando, ora, colocados junto aos mantimentos, ora, andando com seus próprios pés.
Só os adultos não podiam desfrutar de tal comodismo.
Até que quase era noite, as claraboias  se fecharam, apenas  a escuridão se abriu em seu meio, para sondar a noite destituída de lua,
 Nem suportavam mais seus próprios pesos, ainda tinham nos braços uma criança a dormir, só o cascalhar nas patas dos cavalos lhes permitiam seguir em frente.
Lá pelas tantas, viram de longe, alguma faísca de luz, que lhes dizia: - segue em frente, não falta muito!
 Pareceu um século até alcançar as lavouras, que se estendiam dos dois lados da pequena estradinha de terra, que os levariam ao lar.
 No entanto, embora viçosas e lindas, a sorrir entre dois estremos, eles não puderam observá-los como deveriam, a escuridão lhes tirava a percepção das cores e o cansaço falava mais alto.
Ao passar pelo caminho Hugo dirigiu seu olhar para a pequena casinha onde Tereza morava e suspirou, as luzes estavam apagadas, e ele a imaginou dormindo.
Mas, a pequena Tereza não dormia:  imaginava o seu noivo, dela se despedindo, indo embora para sempre. Ela não estava apaixonada, nem sabia o que isto queria dizer, só sabia estar enlaçada a ele, sobre o compromisso de servir.
Finalmente, alcançaram os jardins da casa, um cheiro de jasmim incendiou o ar, era primavera, e as flores saudavam os seres com um perfume inebriante. Hugo e os seus se encaminharam para a porta que os convidava a entrar.
Herta Fischer
Um trecho de: construindo caminhos.

Capítulo 3
A caminho  <3

Estava tudo as escuras, para achar a lamparina, Hugo precisou usar seu isqueiro. - la estava, sobre a cabeceira da cama, acendeu-á e uma labareda fraca se pôs a dançar no cômodo.
Sua mãe começou a  preparar as camas, pouca coisa á se fazer. Apensa alguns tecidos estendidos ao chão, A noite seria longa.
Valter, seu irmão mais novo, ficou num canto, resmungando. Como se estar ali, fosse um tremendo sacrifício.
Sua mãe nada dizia, acendeu o fogo, preparou um chá preto, adoçou, colocou uma xícara em cada
mão, oferecendo aos dois, que se limitaram a degustar com uma certa satisfação. Pegou uma também para ela, sentou-se num banquinho, falando em seguida: -O que faremos agora, qual o primeiro passo?
Hugo olhou para ela, com uma certa timidez, como se a visse pela primeira vez. nunca havia
visto nada parecido. Pela primeira vez em sua vida, tinha que tomar decisões por todos.
Valter, que estava quieto tomando seu chá, olhou para ele desconfiado, como se não visse nada de bom.
Hugo se levantou depressa, deu alguns passos em direção a porta, deu meia volta e olhou para os dois, falando logo a seguir: - Amanhã falo com o patrão. tudo vai dar certo, vocês vão ver!
Vamos dormir!
Todos se ajeitaram de alguma forma, sem nada de conforto, mas o cansaço logo os botou pra dormir.
A manhã chegou radiosa, o sol despontou com muita força, assim como também despertou Hugo, que ao se levantar, viu sua mãe preparando o café.
- Bom dia mãe, dormiu bem?
- Bom dia, filho, obrigado por perguntar, dormi bem, sim!
E você?
- Não muito bem, estava muito acelerado, com varias coisas na cabeça.
- O que te incomoda? perguntou com uma certa preocupação no olhar:
Hugo abaixou a cabeça como se olhasse para o sapato, depois levantou o seu olhar bem devagar, como se pensasse no que dizer: - Eu vou me casar!
Sua mãe levou um susto, de imediato, nem tinha passado pela sua cabeça que Hugo pretendia constituir família. sabia que o seu filho mais novo já pensava no assunto, porém, Hugo, nunca dera a entender que queria se casar tão logo.
-E como faremos? ela perguntou: Ou melhor: como caberemos todos aqui?
-A casa é grande, dá para dividirmos. É só colocar alguns moveis fazendo uma separação, ficaremos todos juntos.
- Será que vai dar certo, quem é ela?
- È uma boa moça, mora naquela casinha perto da estrada, por onde passamos.
- Já falou com os pais dela?
-Sim! ha alguns dias atrás, Já era para ter marcado a data, mas, ai, aconteceu isso com o pai!
Talvez, ainda nesta semana, eu marque, porque tenho pressa, não pretendo ficar muito tempo por aqui, tenho muitos planos.
 Sua mãe ficou orgulhosa, percebendo que Hugo se transformara:  antes era apenas um menino morrendo de medo do pai,. Hoje, um homem tomando decisões.
- Bom! eu vou falar com meu patrão!
E saiu apressado pelo adiantado das horas.
Estava quase chegando na casa principal, onde o dono da fazenda morava, quando deu de cara com ele, cuidando de um pé de macieira, quando o viu, saudou-o com uma certa curiosidade no olhar:
- Tudo bem, Hugo?
Hugo estendeu-lhe a mão para cumprimentá-lo, depois de apertar-se as mãos respeitosamente, ele respondeu:
- Sim!  mas, precisamos conversar!
-Eu demorei pra voltar por.. E contou toda a historia.
O dono da fazenda ouvia com muita atenção com uma certa pena no olhar. Até Hugo lhe dizer, ter trazido sua família.
De repente mudou a expressão de seu rosto, de pena a surpreso.
- Mas... E o seu casamento? ele perguntou:
- Continua em pé, ainda esta semana vou para o cartório mexer com a papelada.
Só preciso saber, se minha família pode ficar por aqui, só até arrumarem um outro lugar pra ficar?
-Quantos são? falou pigarreando:
Sete, com minha mãe!
- Por mim, tudo bem, desde que vocês se ajeitem, só não garanto trabalho para todos!
- Não! Não!  Só pro meu irmão, por enquanto!
- Tudo bem! pode mandar ele pra roça!
-Ah! e tem também uma outra coisa, amanhã eu preciso voltar para a antiga casa da minha mãe, ainda tem umas coisas para trazer, ela tem algumas galinhas e porcos. Tudo bem, se a gente trazer?
- Não tem problema não, contanto que dividamos a carne,- disse ele dando risada:
 Hugo também sorriu, agradecendo.
Voltou para casa, falou com seu irmão, e ambos saíram para trabalhar.

Capítulo 4

O casamento

Passaram-se os dias, tudo se ajeitou. A mãe e os irmãos de Hugo agora trabalhavam todos na roça, Um a um vieram a ser aceitos na fazenda. Enquanto os adultos trabalhavam, as crianças mais velhas cuidava do serviço caseiro, e das crianças mais novas.
Tereza, por sua vez, cativou as irmãs de Hugo, e se tornaram grandes amigas.. a tardinha, se reuniam para brincar, contar histórias e rirem juntas.
Hugo ficava quase que abandonado, ele era mais velho e sisudo, então, nunca participava das brincadeiras, nem dos risos.
A noitinha ele acompanhava Tereza até a sua casa, e passava algumas horas conversando com seu pai.. Tereza pensava que era assim que se namorava.
Numa bela tarde ensolarada, quando as galinhas já se preparavam para empoleirar-se nos galhos da velha árvore sobre o olhar atento de Tereza, que amava aquele prelúdio das galinhas, uma voz conhecida se fez ouvir no silêncio: - Tereza, preciso lhe falar!
Tereza o fitou por um momento, saindo daquele torpor e suavemente se levantou, batendo com a palma das mãos o vestido, para desamassa-lo e deixa-la mais atraente,
Hugo nem se ligou naquela amostra de afeição, apenas se pôs a falar: - Marquei a data. Daqui a duas semanas, seremos marido e mulher.
Tereza gelou por dentro. - que seria aquilo? Se perguntava por dentro: - Será que a sua vida mudaria muito? Esperava que sim!
Sua mãe se apressou a preparar o enxoval. Algumas peças de linho se tornaram lençóis novinho em folha, ficando lindos, depois de receber pelas suas próprias mãos belos bordados.
O vestido de noiva foi confeccionado por uma costureira amiga de sua mãe, E os panos de prato  foram feitos pelas cunhadas e sogra. Tudo ficou pronto em tempo record.
Hugo ficou responsável pelos utensílios de cozinha e moveis de quarto.
O único problema que Tereza via, era o fato de ter que dividir a casa com mais duas famílias. A do Hugo e do seu irmão mais novo: Valter também se casara e trouxera sua mulher para morar ali.
O grande barracão foi dividido em três. O que separava um do outro, era apenas um pedaço de  encerado que
descia do teto até o chão.
Chegou o grande dia de Tereza.
Pela manhã ela sentiu-se uma rainha, sua mãe, quase sempre ocupada com outros afazeres, agora, era só atenção. Arrumaram seu cabelo com um lindo penteado, e grandes cachos se deslizavam para o lado, enquanto uma linda grinalda tecida a mão aparecia majestosa sobre sua cabeça. o vestido, embora simples, deixara Tereza deslumbrante, parecia uma rainha saída dos causos ouvidos.
Um automóvel encostou em frente a porta de sua casa, e Tereza não cabia em si de contente. Seus irmãos, mãe a pai foram se acomodando, e quando ela se preparava para entrar, sua mãe a advertiu: Não, Tereza, você vai em outro carro!
Tão logo, Tereza se afastou, chegou um outro veículo, bem mais moderno, com um motorista de terno e gravata, que convidou-á a entrar. Sua mãe á ajudou com o vestido e o imenso véu que se deitava em suas costas descendo até o chão, tudo como manda a tradição.
O veículo que se afastava levava Tereza e seus sonhos. Tudo tão simples que parecia voar sobre a estrada empoeirada. Tereza fechou os olhos para que não acordasse daquele sonho. Nem era pelo casamento em si, mas, pela alegria de se ver vestida daquela forma, nunca em sua vida sentira-se tão bonita.
A igreja já estava á sua frente, um misto de ansiedade lhe deixou afoita, sua mãe desceu do carro que estacionou atrás, vindo em sua direção. Seus irmãos também desceram e se encaminharam para a porta da igreja. A mãe lhe estendeu a mão e ela desceu, ela mesma se incumbiu de levá-la até a porta, onde seu pai lhe esperava. Então, a porta se abriu, e lá na frente, entre o altar e os convidados estava a figura de Hugo, todo uniformizado, de terno e gravata, como um perfeito cavalheiro, ele veio ao seu encontro. O pai de Tereza o cumprimentou, e entregou-lhe a mão de Tereza.
Ao caminhar até o altar, os dois já se sentiam íntimos, um fazendo parte do outro, como duas vidas interligadas. Dali para a frente, seriam inseparáveis.
Depois das bençãos, foram para o cartório e novamente fizeram votos.
A volta para casa foi bem mais interessante. Um longo cortejo de carros os acompanhou até o salão onde alguns convidados já estavam esperando pelos noivos. O fazendeiro ajudou-os com a festa. Sua mãe e sua sogra cuidaram do resto.
Estava tudo tão lindo, que Tereza nem se sentia mais Tereza, Sentia-se a rainha de Sabá.
Tão acostumada a simplicidade, a carência de afeto, a carência de coisas bonitas, as vezes, até de comida. Agora se via entre pessoas bonitas, bem vestidas e bem cuidadas. A festa era sua festa. Todos cumprimentando, desejando-lhes felicidades. Ela e Hugo esbanjando simpatia. mesas postas com tudo quanto era tipo de guloseimas.
Era a gloria!
A festa acabou lá pelas tantas, as cortinas se fecharam colocando Tereza em sua realidade. O que fazer? - pensava ela: - E agora, vou para a minha casa, ou para a casa do Hugo? Não sabia!
Optou por seguir a mão de Hugo que não a largava.
E foi caminhando entre os arbustos, até se dar conta que estava deitada na mesma cama que ele.
A noite foi desconcertante, jamais viveria outro momento igual , entre a vergonha e o medo, tornou-se mulher, mas, ainda se sentia criança.
Pela manhã, despertou ainda temerosa, foi para a cozinha, já ouvia burburinho do outro lado, todos estavam em pé.  Saiu de mansinho para fora a procura de gravetos, precisava atiçar o fogo.
Estava sentada no chão com a cabeça baixa a assoprar a pequena chama que brotava dentro da pequena boca de um fogão a lenha, quando Hugo se levantou. Ela demorou para levantar a cabeça, só o fez, quando ele lhe acariciou as costas, falando com uma voz um tanto melosa:- Não consegue fazer fogo? ele lhe perguntou:
Ela apenas balançou a cabeça com os olhos marejados de lágrimas, não se sabia se era pela quantidade de fumaça, ou se era por causa de algo mais.
O café ficou pronto, ambos tomaram-no em silêncio, parecia que não havia nada a se falar.
Hugo saiu para trabalhar. Tereza já se via a brincar no quintal. lavou a louça depressa, arrumou a cama de qualquer jeito, e saiu para fora. Suas cunhadas já estavam a sua espera. - Como demorou?- falou uma delas:
- Ta pensando que é fácil se casar! - Disse em tom brincalhão:
E la se foram elas a subir nas árvores: A brincar de esconde-esconde, pega pega, e outras brincadeiras mais.
Na hora do almoço, Hugo voltou para almoçar. Cadê Tereza? A casa fria, o fogo apagado. Isto o deixou nervoso a se perguntar : - Para onde ela foi?
Ficou vermelho de tanta raiva. Esperara o café das nove horas que não viera. Chega em casa para almoçar, cadê sua mulher.
Desceu até a casa da mãe de Tereza bufando, ao passar pelo pequeno riacho viu sua cunhada pegando um balde de água. -Viu a Tereza por ai? - lhe perguntou:
Aparecida lhe olhou com pena. - Não! ela lhe respondeu!
Andando para outro lado ele ouviu um burburinho de criança, e se dirigiu para lá. E qual não foi a sua surpresa a encontrar sua mulher  brincar com suas irmãs.
Ao vê-lo Tereza se retraiu, parou de brincar e se encolheu todinha. suas vestes estavam sujas de barro, seu rosto também. E agora, seu coração se anuviava.
Olhou para ele com jeito de criança que perdeu o seu brinquedo, muda de medo ela o encarou, dizendo: - O que foi?
Hugo a olhou de soslaio, como se não a pudesse encarar.- Vamos subir e conversar! se pôs a dizer:
Tereza subiu atrás dele, uma sombra de tristeza cobria-lhe o semblante, enquanto Hugo pisava forte no chão.
La chegando Hugo se pôs a falar: - Terezinha Maria, que vem as ser isto? - falava apontando para o fogão:
Tereza não abriu a boca, sabia estar errada, não queria colocar mais lenha na fogueira, literalmente, porque, precisava, sim, acender o fogo.
Começou a se agitar, pegando os gravetos enquanto Hugo despejava a sua ira:- Sua mãe não te ensinou, não lhe disse que precisa cumprir com a sua obrigação. Levar o café na roça as nove horas, como faz qualquer mulher casada que se preze. Fazer o almoço ao meio dia, levar para a roça o café das quatro, preparar o jantar as seis.
Quanta coisa, pensava ela:-  E quando irei brincar? No entanto, não abriu a boca.
Hugo parou de falar, de nada adiantava esbravejar.
-Olha! Disse ele;
- Espero o café das quatro. tem um relógio pendurado na parede, ou também não conhece as horas?
Por ora, vou almoçar com minha mãe, tenho certeza que por lá a coisa é outra, e saiu, resmungando feito mamangava brava. deixando Tereza muito mal.
Tereza pensava: preciso pedir que alguém me ensine a ver as horas. De fato, Hugo tinha razão, ela era analfabeta, não conhecia as letras, nem os números, nem regras de mulher casada, nem nada!
Esperava que tudo fosse simples, e agora se dava conta que não tinha nenhuma preparação para nada. E ainda teria que suportar tantas outras coisas que aconteciam a noite, das quais ela nem imaginava ser possível.
Da janela de sua cozinha enquanto preparava um omelete, viu seu marido saindo para trabalhar. Tão logo, apareceu a sua sogra na porta.
Oi Tereza! falou com um sotaque carregado: _ Oi, ela respondeu timidamente!
- Eu entendo, dizia ela: - Eu entendo que saiba tão pouca coisa. Vou te ensinar a cozinhar, a preparar o café, a ser boa dona de casa.
E assim, sucessivamente, por vários dias a sogra lhe auxiliara.
Embora, ainda, algumas vezes, Hugo se enraivecia com sua conduta.
Ainda brincava com suas cunhadas, depois dos deveres cumpridos, mas, quando chegava a hora das refeições, la vinha a sua sogra e a incentivava a colaborar.
Passaram se dois anos, seu irmão mais novo se casou com uma de suas cunhadas, a família ia crescendo e Tereza já se acostumara com aquela vida estranha.
Seus pais se mudaram para bem longe, já não tinham mais tanta influência em sua vida, agora, era ela e Hugo, tão somente, ela e o marido.
Certo dia, quando ele chegou de mais um dia de jornada, a comida fumegava em cima do fogão, ela se pôs a fazer-lhe o prato, quando ele começou a falar: - Vamos embora daqui, estou farto de trabalhar e não ganhar quase nada, Encontrei um lugar melhor, fica mais longe, E quero levar minha mãe conosco.
Depois do jantar vou falar com ela e com meus irmãos, afinal, me sinto, ainda, responsável por eles, Você vai comigo?
Tereza apenas fez que sim, com um movimento de cabeça.

Capítulo 5
-Como se ir para a casa da sogra fosse um passeio, pensava ela:
Era só sair de um lado e entrar pelo outro. E la se viu ela tomando uma xícara de chá preto, sentada ao lado de Hugo que não parava de falar  com a mãe em alemão, uma língua que ela desconhecia.  Portanto, se limitava a olhar para as paredes sem ter como participar da conversa.
E aquele dialeto lhe dava muito sono, quase estava a cair da cadeira, fazia um esforço tremendo para não cair no sono diante de todos. As horas pareciam não passar, o relógio está quebrado, pensou: - Só pode! Mas, como nem horas ela conhecia, só via o ponteiro dar voltas e voltas.
Até que eles começaram a falar em português, se voltando para ela, Hugo falou: - Está tudo certo, Tereza. Amanhã, pala manhã eu vou pedir para o patrão fazer nossas contas, e no mais tardar, no fim de semana, faremos nossa mudança!
-Olhando para a sogra ela perguntou: - Vai com a gente?
A sogra olhou para ela com uma pequena ponta de duvida no olhar. - Ainda não me decidi, tenho que falar com o Valter!
-Então, fale logo minha mãe, não posso perder tempo. Disse-lhe Hugo, antes de se despedir:
E ambos saíram apressados, Hugo na frente, e Tereza atrás, como sempre.
Tereza pulou na cama e dormiu quase que imediatamente, enquanto Hugo ainda fazia planos em sua cabeça.
Logo que o galo cantou pela primeira vez, Tereza se colocou em pé, não sentia-se muito bem, estava meio zonza,acendeu o fogo, colocou água para ferver, e quando a água começou a borbulhar, sentiu o marido á seu lado.
- Tereza, ele começou a falar pausadamente:- Você esta bem?
- Não muito, ela respondeu:
- O que esta sentindo?
- Uma leseira, parece que não consigo abrir os olhos, mesmo acordada, parece que ainda durmo.
- Eu preciso te perguntar uma coisa, espero que não se ofenda. Olhou para ela com uma chama de carinho, pela primeira vez, depois continuou: - Você está grávida?
- Grávida? repetiu com tanto ênfase que ela mesma se assustou com o tom da própria voz:
- Como assim?
-Grávida uai, esperando um bebe!
- Não sei! como saber?
- Quando que você sangrou pela última vez?
Ela enrubesceu, limpou as mãos no vestido, depois
esfregou as mãos uma na outra, virou a cabeça para lá, para cá, para depois responder:- Sei lá, já faz algum tempo! Mas que isso tem a ver com estar grávida?
 Hugo não conseguiu entender.
- Sua mãe não lhe contou?
- Contou o quê?
- Como se sabe estar grávida!
- Não! ela falou meio envergonhada: - E minha mãe conversava comigo sobre essas coisas!
- Meu Deus! Hugo falou meio desconcertado: - E agora, como iremos saber de quantos meses você está?
-Ah, sei lá. eu achava que não sangrar era uma coisa normal, diante do que a gente faz a noite, eu até que gostei, fiquei mais livre para subir em árvores.
Hugo balançou a cabeça em sinal de desaprovação, mas, diante do quadro, achou melhor conversar com ela depois.
Tomou seu café e saiu, agora com muito mais vontade de se mudar dali.
Foi a casa do patrão, ao encontrá-lo falou de sua decisão.
O patrão disse para ele esperar até o dia seguinte, para ele ter tempo de fazer as contas do que lhes devia.
Começaram a embalar suas coisas imediatamente. No inicio seu irmão Valter não queria ir com eles, mas, diante da convicção de sua mãe e de sua esposa no querer ir com Hugo, acabou lhe convencendo a ir também.
Dois dias depois, eles se viram a caminho.
O caminho era muito difícil, as vezes caminhavam apenas por trilhos feitos pela passagem de cavalos, adentravam matas fechadas e terrenos acidentados.
Se os olhássemos de cima, mais parecia uma pequena carreirinha de formigas.
Hugo ia na frente com um cavalo tomado de coisas, Atrás vinha o Valter com outro cavalo, também tomado de coisas. No meio outro cavalo puxava um pequeno rastelo levando as coisas mais grandes.
E bem atrás vinha Tereza e suas cunhadinhas, a sorrir e a brincar.
Foram aproximadamente umas oito horas de caminhada sobre um sol forte. Tereza só não sentiu tanto, por que não se deixou contaminar pela exaustão. ele era muito divertida em se tratando de estar com gente alegre. Só não agia assim com seu marido, que levava tudo muito a serio.
Chegaram ao lugar quase na boca da noite. Foi quando Hugo parou diante de um rancho quase a cair de  tão velho.
Quando seu irmão Valter parou do seu lado, ficou branco de raiva, e num disparate de nervos começou a dizer: - Bem que eu não queria vir, mas você insistiu tanto, e agora que estamos aqui. Aqui ficamos!
Hugo olhou para o irmão com a cara de sempre, E meio que se desculpando falou o seguinte:- Se você quiser ficar com sua esposa, tudo bem, mas eu não fico!
Não vou deixar nem minha mulher, nem nossa mãe, nem nossas irmãs enfiadas neste mato. Dê uma olhada ao seu redor, não tem nada aqui, exceto montanhas e mais montanhas. E a casa, você viu, não ha condições de se morar aqui. Eu quero mudar de vida, não viver como bicho!
Valter ficou quieto por alguns segundos, pensando:
-Realmente, Hugo tinha razão, seria colocar os outros componentes do grupo, principalmente, as mulheres, numa situação escrava. Uma condição muito pior do  que quando moravam no meio da floresta a fazer carvão.
Tendo que admitir isso, Valter voltou atrás e decidido a voltar foram conversar com as mulheres.
Tereza estava muito cansada, carregando no ventre uma vida, ela se deitou sobre a relva a olhar para o céu, e numa prece silenciosa pediu a Deus que tudo se resolvesse depressa!
Hugo foi até a bica, pegou um balde com água e veio ao seu encontro. As mulheres se apressaram em
acender uma fogueira perto do barraco, com tijolos encontrados por ali, prepararam um fogãozinho, Hugo colocou a vasilha sobre o fogo, e a esposa do Valter, se propôs a fazer chá.
Foi então, que lhes contaram a decisão, e embora sabendo que todo aquele sacrifício fora em vão,
elas ficaram, sobremodo, satisfeitas.
Comeram alguns pedaços de pão com linguiça seca, acompanhado de chá preto, e se prepararam para dormir.
As crianças foram colocadas sobre uma cama feita de capim, E os adultos se aninharam como puderam, sem nenhum conforto, mas cheio de esperança no coração.
Hugo se deitou ao lado de Tereza, iniciando uma conversa ao perceber que ainda estava acordada. - ---Tereza, ele falou o seu nome de um jeito manso:- Quero me desculpar com você por tê-la submetido a toda essa prova, eu deveria ter vindo sozinho para ver se tudo que me contaram era verdade. Acreditei na palavra do meu amigo Daniel, quando ele me disse que era um bom lugar para se começar a andar com os próprios pés. Eu estava tão eufórico com a possibilidade de arrendar terras, começar vida nova, plantando e colhendo sem precisar contar com o pouco dinheiro que recebo trabalhando por dia.
Queria mesmo dar uma vida melhor para você e para a minha família, Mas, não contei com isso.
Tereza apenas tocou em seu braço, afagando-o de leve, pronunciando exatamente o que ela queria ouvir:- Tudo bem, vamos dormir!
Logo que o dia amanheceu, o sol nem havia despontado no horizonte, todos estavam em pé, e silenciosamente, arriaram os cavalos, colocando de volta em seus lombos as coisas que trouxeram.
E se puseram  a uma nova caminhada de volta.
Alguns quilômetros foram percorridos e a mãe de Hugo apressou o passo até chegar perto do filho, que caminhava a frente, tendo nas mãos a corda pelo qual puxava um dos cavalos.
Ela teve que andar um pouco através do mato até se encontrar do lado dele. Ele a olhou surpreso:- O que foi minha mãe? perguntou:
Sua mãe tinha um ar de preocupação em seu rosto. E apressadamente se pôs a responder em sua língua natal: - assim que chegarmos na fazenda, eu vou me mudar, disse ela:- Não quero mais ser um peso pra você e seu irmão. A sua irmã Herta, nos ofereceu um lugar em seu sitio. Disse que tem uma casinha ao pé do morro que está vazia, disse também que poderemos, eu e suas irmãs, usarmos a terra para plantar. sendo assim, eu decidi aceitar, só não tinha aceitado ainda, por pensar que aqui nos daríamos bem.
Eu sei que você recebeu uma proposta do  Senhor Carlos Polli. E só não aceitou porque a casa oferecida era muito pequena. Mas, se você pensar só em você e sua mulher, pode bem se mudar para lá.
Hugo olhou para a sua mãe com uma certa tristeza no olhar, fora ele que a tirara da floresta, e agora, tinha que deixa-las só. Não era isto que queria, mas, não havia outro modo de resolver a situação. Eles até poderiam ficar na fazenda por alguns dias, mas, o dono jamais permitiria que ficassem por mais tempo, devido o fato de já terem pedido o desligamento.
Hugo também não sentia-se bem em ficar, pois antes de saírem de lá, sua cunhada Aparecida, havia discutido com o patrão, ela não concordou com a conta que ele fez, e achando que estava sendo injusto, o chamou de ladrão.
Agora, seria até demasiado feio eles voltarem como se nada houvesse acontecido.
Caminharam mais alguns passos, até que se ouviu a voz de Hugo. Começou dizendo:- Mãe, eu sinto muito por tudo!
Um olhar bondoso se voltou para ele, e com uma calma que só pode vir de uma mãe, ela lhe responde: - Que é isso, meu filho, você fez o que pode!
E, parando por um momento, esperou a caravana passar até se encontrar com a s meninas que vinham atrás.
Ao cair da tarde já se aproximaram da fazenda, Tudo igual:  a estradinha se abrindo, a lavoura, as casinhas, as pessoas, enfim, fora só um passeio, desbravando caminhos, assim como sonhara!
Como o esperado, o patrão lhes deu um prazo para tirarem de lá as suas coisas. Uma semana, ele disse: - nem um dia a mais!
Em três dias estavam todos de malas prontas.
Fizeram as mudanças intercaladas. Primeiro a da mãe, depois a do irmão Valter, e por último, saíram Tereza e Hugo. todos para um destino  diferente.
 Hugo optara por mudar-se num sitio não muito distante dali. Arrendara um pouco de terra de um homem chamado Carlos Poli, Patrício do pai de Hugo.
Ao chegarem em seu novo destino. Tereza achou o lugar bem simpático. Uma pequena casinha de madeira, revestida com argila e  coberta por densas camadas de sapé, a esperava acima do morro. Ao abrir a porta, notou que havia apenas dois cômodos. Quarto e cozinha.
Foi dispondo os seus pertences em cima de um fogãozinho a lenha de três bocas. Enquanto Hugo montava o jiral, (uma estrutura de madeira parecida com uma estante) Havia muitas tábuas por ali, e muita madeira cortada. Assim, algumas serviram como banquetas, conhecida, na época como Tripeça.
A cama também foi montada, e colocado sobre ela o colchão, um tecido grosso cortado em forma de quadrado, costurado nas extremidades, preenchido com capim seco.
Tudo no seu lugar. Hora de procurar por lenha.
Tereza pôs-se a explorar o lugar. Havia mata fechada bem perto da casa, onde ela pode facilmente colher alguns galhos e madeira seca.
Voltou para casa satisfeita.
Acendeu o fogo, colocou sobre a chapa o que restou do almoço, acendeu as lamparinas, pois já quase anoitecia. Fez um prato e entregou para Hugo, fez também o dela, e os dois  começaram a comer.
-O que você achou do lugar? - perguntou entre um bocado e outro:
Tereza olhou para ele com um olhar meio desinteressado, mas, respondeu: - Bom, Temos tudo aqui. Vi algumas casinhas na estrada, significa que podemos fazer novas amizades.
A casa não é tão ruim. Temos lenha quase na porta de casa.!
Só falta construir um cercado para os porcos, para não deixá-los vagando por ai. E começar o rocado; você já escolheu onde vai plantar?
- Sim, bem do lado de nossa casa, a terra é boa, só tenho que limpar o lugar, encontrar alguém que a possa arar, e... Deu uma pausa. Depois continuou: -Resolver o que plantar!
- Porque você não planta cebola. O preço esta melhorando e não da muito trabalho?
-É uma boa, disse ele com um sorriso nos lábios: - E como você sabe que o preço da cebola está bom?
 Ela também sorriu. e como quem esta um tanto orgulhosa de si mesma, respondeu: - Eu também sei das coisas. Posso ser analfabeta por não saber ler, mas, não sou analfabeta de ouvir. E os dois caíram na gargalhada.
Foram para a cama, fizeram aquilo que ela já se acostumara a fazer, e dormiram logo, pois o dia foi muito cansativo para os dois.
O dia seguinte era dia de sábado, quando Hugo tirava folga do trabalho da roça e ia para a cidade fazer compras.
Tereza acordou as cinco horas da manhã com o  primeiro cantar do galo, acendeu o fogo, preparou o café, enquanto seu marido, encilhava o cavalo e se preparava para enfrentar os quinze quilômetros que separava a sua casa da cidade.
Tereza se sentia bem naquele dia, pois, era a primeira vez que ficaria sozinha desde que se mudara. não tendo as obrigações diárias que a obrigava a subir e descer o morro para levar café para o marido, e que, também não se preocuparia com a hora do almoço.
Hugo saiu logo depois de tomar café, se despediu, montou em seu cavalo, e ela ficou olhando até ele sumir na primeira curva. Entrou para dentro, lavou as xícaras, arrumou a cama e voltando para a cozinha reparou que estava com pouca água. Aproveitaria o dia para se abastecer de lenha e de água.
Pegou um caldeirão que estava esquecido num canto, fechou a porta e saiu rumo ao rio, que ficava um pouco longe de seu quintal.
Levou consigo a roupa usada durante a semana para lavar. Queria deixar tudo arrumado para o dia de domingo, pois pretendia dar umas voltas e conhecer o pessoal que morava ao redor.
Para chegar até o rio, precisava atravessar uma estradinha de terra,. Quando ia se aproximando da estrada, ouviu um pigarro, alguém se aproximava. Então, a curiosidade lhe aguçou, Quem seria?
Sabia que era uma mulher, mas, não dava para ver o rosto.
Então, se abaixou como quem colhia alguma coisa até a mulher se aproximar mais.
Ao vê-la a mulher parou e lhe cumprimentou:- Bom dia!
Ela respondeu de imediato:- Obrigado, um bom dia para a Senhora também!
Observando a mulher mais de perto, percebeu um olhar bondoso que a olhava com tanta ternura que ela emudeceu.
E como já era comum naquele lugar, ambas começaram a conversar como se fossem velhas conhecidas.
Tereza lhe contou ser a mais nova moradora da casa, e que estava gostando muito do lugar, embora se sentisse muito só.
A mulher falou que seu nome era Vicentina, ela morava a uns quinhentos metros  da casa de Tereza, e que estava indo até o moinho.
- Ah, A senhora faz farinha de trigo? - perguntou:
A senhora sorriu divertida respondendo logo a seguir: - Não, eu faço farinha de milho. Estou indo até o moinho, você não quer conhecer?
E antes mesmo que Tereza pudesse responder, a bondosa Senhora colocou a mão em sua barriga: -
está grávida de quantos meses?
Tereza se agitou um pouco antes de responder, mas, olhando a pequena Senhorinha nos olhos e vendo nela tanta meiguice, não teve mais nenhuma vergonha de salientar: - Não sei, eu não sei! repetiu, balançando a cabeça: - Não dá para saber.
- Eu acho, A Senhorinha começou a dizer:- fez uma pausa, apalpando um pouco mais sua barriga: -Que você vai ter essa criança ainda esta semana.
Tereza arregalou os olhos como se não estivesse acreditando no que ouvia. Ela sabia que a criança teria de sair algum dia, mas, ficava falando para ela mesma, o tempo todo, que demoraria séculos. E agora,  ouvia que seria naquela semana.
Como a Senhora pode saber? - perguntou:
- Eu sou parteira, quase todas as crianças da região nasceram pelas minhas mãos!
- Não pode ser, Tereza disse: - É uma resposta as minhas preces!
Vicentina  á olhou como quem não entendeu: - O quê? ela perguntou:
_ Um milagre, dona. Ontem mesmo eu estava chorando de tanta preocupação, pensando em como seria quando chegasse a hora da criança nascer. Meu marido conhece tão poucas pessoas que tem automóvel, todos moram tão longe. Eu ficava a pensar que não daria para ir até a cidade á cavalo, com certeza, a criança nasceria pela minha boca!  Disse ela em tom de brincadeira: Vicentina soltou uma gostosa gargalhada.
- Seria suicídio ela acrescentou. A cidade é longe, O seu marido teria que pedir socorro a algum vizinho próximo, porque, quando aparece as dores, significa criança a caminho, muitas vezes, não da tempo nem de chamar por alguém!
- Pois é! E meu marido na dele, como se não se preocupasse.
- Eu tenho certeza que ele se preocupa, mas, homem é assim mesmo, não dão o braço a torcer. Escuta, vamos até o moinho comigo e a gente vai conversando sobre o parto!
Tereza ficou meio na duvida, mas tinha o dia inteiro para pegar água, para lavar a roupa, que algumas horas não lhe fariam falta. Queria mesmo conversar com alguém que não fosse seu marido, poder falar de coisas mais amenas, de mulher para mulher, pediu que ela esparasse um pouco, escondeu a roupa e o balde atrás de uma moita de capim, e a seguiu.
A pequena estrada de terra se encontrava com outra formando uma encruzilhada. Lá chegando, saindo da estrada, pegaram um trilho que entranhava na mata. Foram descendo conversando alegremente, mas, Tereza não deixou de observar a beleza daquele lugar.
Caminharam por alguns minutos e Tereza já conseguia ouvir o barulho de uma corredeira.
- Faz tempo que a Senhora mora nesse bairro? perguntou:
- Hiii faz tanto tempo, que parece que nasci aqui. Meu marido é dono das terras onde moramos, construímos nosso barraco há muitos anos.
Só que, meu marido foi picado por uma cobra peçonhenta. Ficou no hospital por muito tempo, e nunca ficou bom. Tem uma ferida feia na perna, está sempre necessitando de curativos, e pouco consegue andar. Então, sou eu que faço tudo em casa. E ainda fiquei com a responsabilidade de tocar o negocio para a frente. Como vê, por aqui a vida é muito difícil.
  Tereza não pode ver o semblante da mulher, porque ela andava na frente sem se virar, mas, sentiu que havia muita tristeza naquele coração.
Foi então, que como passe de mágica, foi aparecendo ante seus olhos maravilhados, uma pequena construção de madeira coberta por sapé, exibindo dentro dele um forno enorme.
Tudo bem limpo ao redor., somente algumas árvores que pareciam alcançar o céu. - um pequeno paraíso perdido, ela pensou:
Ouvia-se também o bater do monjolo, um instrumento que soca e moi os grãos . A força da queda d'água o impulsiona como se fosse uma gangorra. De um lado, uma concha recebe a água até se encher totalmente. Isto faz com que outra parte do monjolo, onde ha uma estaca, se levante. Ao esvaziar a cuba, o movimento se inverte. E nesse sobe e desce, o grão vai sendo socado dentro do pilão. Tudo feito a mão, uma peça única, como Tereza jamais tinha visto, como se de repente estivesse num conto de fadas,  e a fada madrinha estava lá na pessoa de Vicentina.
Vicentina retirou da água alguns sacos de estopa que continham grãos de milho, Dissera para Tereza que deixara os grãos de molho a dois dias atras.
Tereza ouvia muito atenta as suas explicações.
-Agora preciso colocar as sementes no pilão, que o monjolo faz o restante do trabalho. É um trabalho meio pesado para uma mulher, mas, é um trabalho que eu gosto de fazer, as vezes venho para cá só para ficar ouvindo o som da queda d'água e o gemido do monjolo.
- É um lugar magico,-Tereza começou dizendo: Dá uma sensação de paz, e esse cheiro de milho azedo, um motivo a mais para se pensar que não é real. Posso ficar aqui por horas, parece que o tempo para, que além desse lugar não existe mais nada de interessante.
Vicentina ficou orgulhosa com a contatação da mais nova amiga: -Você gostou mesmo daqui, dá para ver isso em seus olhos. Eu acho que vamos ser grandes companheiras! Tereza  tinha certeza que sim!
Tereza sentara num tronco próximo a queda d'água e ficou observando o vai e vem do monjolo, ouvindo aquele som do ranger rasgado de madeira se esfregando uma na outra e depois vinha o som da batida  da estaca no pilão, era um sucessivo ranger e bater. a concha se enchendo após a subida e a água caindo ao descer.
Vicentina estava tão concentrada em colocar a mistura no forno, que parara até de conversar por algum tempo, até Tereza sentir um cheirinho agradável de milho torrado.
Vicentina tirou um pó fino que restara no fundo do pilão, peneirou sobre a roda quente e rodante da fornalha, os grânulos úmidos se aglutinaram formando grandes bijus. Foram empurrados para fora assim que se encresparam nas bordas, deixando Tereza salivando.
Tereza percebeu que Vicentina já estivera por ali um pouco mais cedo, pois o forno já estava aquecido. E que mais tarde, por certo, voltaria, assim que o restante da massa fosse submetida pelo processo de trituração no pilão.
Aquilo tudo dava um grande trabalho, pensou ela: - Antes do milho ficar de molho ele passa pelo processo de separação de germe,  para que o milho não fique amargo ou venha a oxidar. mas, este processo não era Vicentina que fazia, pois ela não tinha uma máquina chamada canjiqueira.
O tempo passara depressa e Tereza teve que se despedir, não sem antes pegar um generoso pedaço de biju para ir comendo pelo caminho.
Se despediram prometendo se encontrarem em um outro momento. Vicentina entendeu que Tereza precisava cuidar de sua tarefas, que também não eram poucas.
Tomou o caminho de volta pensativa: Quantas coisas aprendera em um curto espaço de tempo.
Lavou as roupas deixou-as quarando ao sol, enquanto levava água para encher os baldes vazios. Precisava fazer umas três viagens. Entre uma ida e outra ela preparava as refeições.
A tarde chegou rapidamente, e ela ficou ansiosa para a chegada do marido. Tomou um refrescante banho, colocou um pijaminha surrado, acendeu todas as lamparinas que tinham, e ficou esperando a noite cair.
Não estava muito preocupada com o avançar das horas, porque sabia ser a primeira vez que seu marido ia para a cidade, sendo assim, ele poderia não cronometrar muito bem a distancia, e dependendo da hora em que resolveu voltar para casa, a noite poderia lhe surpreender ainda a caminho.
E foi assim. Já estava um tanto escuro quando ela ouviu o som do casco do cavalo, anunciando a sua chegada. Embora ela tivesse ficado com medo de ficar ali sozinha, resolveu nada dizer, apenas o saudou, quando saiu para fora, ao vê-lo desmontando do cavalo e tirando de cima dele, dois sacos  de mantimentos.
- Ficou bem? ele lhe perguntou: E logo a seguir, depois de tirar o arreio do cavalo, complementou:
Eu me atrasei  um pouco, pois encontrei vários amigos na cidade, e como você sabe, que nem sempre temos a oportunidade de conversar, acabou ficando um pouco tarde. Mas, da próxima vez, vou tentar voltar mais cedo. Você não ficou com medo, Ficou?
 Tereza fez que sim com a cabeça. -Um pouco, ela falou: depois seguiram para dentro deixando o cavalo amarrado num mourão fincado ao lado da casa. -Não vai colocar o cavalo no pasto?
 ela perguntou:
 Ele disse-lhe que primeiro ia se lavar, comer alguma coisa, depois o soltaria.
Ela preparou uma bacia de água quente, onde ele se lavou. Depois preparou a comida num prato e ofereceu a ele.
Ambos estavam muito cansados,  Hugo apenas levou o cavalo para o pasto e voltando se prepararam para dormir,  só acordando na manhã seguinte bem cedo, como já era de costume.

Tereza acordou antes de seu marido. No dia anterior havia matado um frango, depenando-o, cortando-o e temperando-o.
Acendeu o fogo usando os gravetos e a lenha que tinha amontoado do lado do fogão, Pegou uma panela grande de alumínio, colocou uma generosa porção de banha de porco, e os pedaços de frangos para fritar.
Depois começou a preparar o café da manhã.
Apanhou alguns ovos na prateleira, a farinha de trigo, o fermento, o açúcar, e bateu uma massa para bolo, tudo feito com a maior delicadeza.
Colocou sobre a chapa uma pequena frigideira, despejando uma pequena porção da massa, assando-á como panquecas. Em sua casa não havia forno, então, precisava usar de criatividade cada vez que necessitava preparar algo para o café da manhã.
Hugo acordou com muita fome, ainda mais quando sentiu aquele aroma vindo da cozinha.
Pegou uma toalha, jogou sobre os ombros e foi para o rio se banhar, aquele era um ritual de todos os dias.
Ao voltar, tudo estava arrumadinho sobre uma pequena mesa no meio da cozinha. Então, ele fez um comentário:- Nossa! Tá me saindo melhor que a encomenda!
Tereza sorriu orgulhosa de si mesma. Depois que mudara ela amadureceu, tanto, que Hugo nem precisou mais chamar a sua atenção.
Nem era meio-dia ainda quando o almoço ficou pronto. Carne de frango ao molho pardo com batatas cozidas  amassadas, Simples e delicioso.
Logo que terminaram de almoçar Hugo perguntou sobre suas roupas. Tereza adiantou que tudo estava sobre a cama.
Hugo trocou de roupa dizendo que ia sair.
Tereza perguntou:-Para onde você vai?
E Hugo respondeu com toda naturalidade:- Não sei se você observou quando estávamos vindo para cá. Passamos por uma vendinha a uns cinco quilômetros daqui, Lá no bairro da Roseira?
-Ah, sim, disse Tereza: -A venda dos carecas? - Eu ouvi falar!
Parece que é um estabelecimento, cujo donos são irmãos, dois, pelo que me consta. E por não terem cabelos, a venda leva esse nome, e o bairro também. embora seja batizado como Roseira, todos conhecem como o Bairro dos carecas.
Hugo sorriu meio desconsertado, e acabou perguntando: - Como ficou sabendo de tudo isso?
- Foi a Vicentina que me contou, ontem, depois que  você saiu, eu me encontrei com ela e ficamos amigas, ela me contou varias coisas sobre este lugar. Ah, e inclusive que ela é parteira!
- Nossa! que bom! agora eu já sei quem chamar na hora do parto!
- Eu já pensei sobre isso, mesmo porque ela mesma se ofereceu para fazê-lo!
-Um peso que me sai dos ombros, disse Hugo, ao tocá-la antes de sair.
- Você volta cedo? ela perguntou;
Hugo respondeu que não sabia, tudo dependeria da hora da pelada ele disse:
- Que pelada?
- Não precisa ficar enciumada, é só futebol, do lado da venda tem um campinho de futebol, aos domingos a rapaziada vem jogar para passar o tempo, e como você já sabe. Eu gosto!
Todos os moradores da região se encontra nos domingos para assistir o jogo e conversar. Lá é que ficamos sabendo o preço daquilo que plantamos, e também como encontrar bos sementes para plantar, Enfim.. além de ser um local de entretimento, é também um lugar de fazer negócios.
Tereza estava um tanto triste, Mais um final de semana sozinha. Hugo nem pensava nela, não a convidava a passear.
Mas, tudo bem, pensou ela:
Hugo já ia longe quando ela decidiu  fazer uma visita a sua nova amiga.
Terminou de lavar a louça, deu uma varridinha na casa, trocou de roupa, fechou a porta e saiu.
Foi observando o caminhinho que mais pareciam trilhos, atravessou uma pequena corredeira que atravessava a estrada alagando um grande trecho, do qual seria impossível pular, ainda mais quando carregava aquela imensa barriga, foi obrigada a molhar os pés,
Ainda bem que estava calor, ela pensou:
Ao alcançar a casa da amiga, ficou surpresa com a aparência da mesma, Tão idêntica a sua.
As paredes tinham uma bela estrutura de madeira na horizontal e vertical, amarradas por cipós. preenchidos com barro misturado a água. E coberta com sapé.
Bateu palma, e logo Vicentina apareceu na porta sorrindo. - Oi Tereza, que bom que veio, entre!
Ela foi entrando, e com olhos ávidos foi observando tudo o que via por dentro.
A casa era um pouco maior do que a sua, com a mesma instrutura, só o fogão era um pouco mais baixo, Assim como o seu fogão, era feito de taipa, Com uma chapa comprida de três furos, num deles descansava uma pequena chaleira fumegante, tão negra que parecia nunca fora lavada.
Em cima do fogão havia um varal repleto de carne e couro de porco, sendo curtidos na fumaça.
Do lado do fogão estavam dois gatos a dormirem sossegados.
Um pequeno pilão de madeira num canto, no outro, um pequeno armário contendo algum alimento,  xícaras e panelas.
Um quarto um tanto escuro se encaixava á cozinha, e em frente, uma sala se abria, mas só continha uma cama de casal, onde José, marido de Vicentina estava deitado com uma perna esticada exibindo feridas abertas. Tereza sentiu uma aflição. Era uma cena surreal. Parecia vir de outro mundo. Ela conhecia bem a pobreza, mas, aquilo era demais.
Vicentina lhe ofereceu uma garapa. reclamando que não havia pó de café. E Tereza aceitou.
Depois de um tempo, as duas saíram para fora,  a tarde estava linda, o ar se arrepiou todo com a presença das duas, e num ímpeto de se fazer notado, deu uma baforada e uma brisa suave encheu a tarde de magia. As duas se sentaram numa pequena tripeça encostada na parede e começaram a contar suas histórias.
Depois de algum tempo foi chegando mais gente, quase todas as mulheres da redondeza vinham até a casa de Vicentina para passar a tarde, e por lá ficavam até o anoitecer.
Quando Tereza se deu conta, a tarde já se despedia sorrindo entre os arvoredos, ficou um tanto apreensiva pensando que seu marido já houvesse chegado, então seria um Deus a acuda, pois ele, com toda certeza viria com uma ladainha tal qual: - Por onde você andou, com quem esteve? coisas do tipo!
Ele, como homem, podia fazer de tudo, ir para onde quiser, demorar o tempo que teria que demorar, mas, com ela, a coisa mudava de figura, ela tinha que andar na linha!
Apressadamente se despediu, e outras mulheres a seguiram até o riacho, onde tiveram que dispersar.
Tereza seguiu para a parte de cima, enquanto outras mulheres seguiram para a frente.
Apensa um trilhinho a separava de casa, sentiu um alivio ao ver a casa na escuridão.
Abriu a porta devagar, apalpando achou a lamparina, procurou por fósforo, e lembrou que tinha uma caixa no bolso do vestido, Riscou o primeiro palito que logo se iluminou, acendeu duas das lamparinas.
Colocou mais lenha no fogo e logo uma chama crispou, aquecendo a casa e o seu coração. só Hugo ainda não chegara.
Ficou a pensar em como se sentia só, antes de se casar, sua casa ficava cheia de vozes e de alegria,  seus irmãos não a  deixavam em paz, sempre inventando novas brincadeiras.
Agora sua vida mudara drasticamente, ou ela estava calada com a presença imponente do marido, ou se sentia só sem ele em casa.
Tinha que medir o que falava, tinha que dosar seus sonhos, tinha de ser da forma que ele queria, nunca da forma que ela desejava. Até quanto a fumar seu cigarrinho de palha, coisa que ela fazia na presença dos pais, ele a proibira de fazer.
Tudo bem, ela pensava, eu aguento!
Ouviu passos se aproximando, seu coração se agitou no peito, como se um turbilhão de sensações lhe tirasse o ar. O que lhe falaria?
Não deu  tempo para pensar, a porta se abriu e Hugo adentrou na casa, Olhou para Tereza que estava de costas, a mexer algo na panela, pigarreou para chamar a sua atenção; Tereza se virou e lhe sorriu.
Ele lhe devolveu um sorriso sem graça, e sem mais explicações pegou a lamparina numa das mãos e foi para o quarto.
Tereza se apressou a colocar água na bacia para ele se lavar, levou a água temperada até o quarto e saiu.
Alguns minutos se passaram até Hugo aparecer na cozinha usando um calção azul e uma camiseta regata branca, estava muito bonito.
Dificilmente ele aparecia assim, tão vulnerável e a vontade, geralmente, andava de calça comprida e de camisa.
Tereza colocou a comida num banquinho para ele se servir, também fez seu prato, que comeram
em silêncio.
De repente, Hugo quebrou o silêncio indagando:- Como foi o seu dia?
- Bem! Ela respondeu com uma certa tristeza no olhar:- Estive na casa da Vicentina, passamos a tarde a conversar. E você?
- Nada de novo, assisti o jogo, conversei com os amigos, e vim para casa. A noite acabou me alcançando ainda no caminho. Tive que andar sobre a escuridão, não dava para ver onde pisava, então tive que caminhar bem devagar.
Parece que acabara o assunto, ela se levantou, colocou água na bacia para lavar a louça, enquanto ele saiu para fora, sentou num banquinho, acendeu um cigarro e ali ficou até a hora de se deitar.
Depois que Tereza lavou a louça ela saiu para fora. Não havia lua, só uma escuridão assombrava o lugar. As estrelas cintilavam como nunca, parecendo dançar sobre a negridão dos ares.
Sentiu uma imensa saudade de seus pais e irmãos.
Começou a lembrar voltando no tempo; pensava em quanto a sua vida fora boa, mesmo não tendo quase nada, ela tinha a alegria, agora, sua vida se transformou apenas em quietude e trabalho.
Logo que se viu um tanto triste, mudou o rumo de seus pensamentos; Não posso pensar no passado, eu tenho que me concentrar no agora, afagou a barriga num gesto de ternura e sorriu; Logo a minha casa se encherá de cores.
Se dirigiu á porta em passos lentos, entrando  e a fechando-á  atrás de si, rumou para o quarto, se enfiou entre as cobertas e dormiu.
No dia seguinte, acordou com o cantar do galo. Era com um ritual, ele batia as asas, e o primeiro canto já a  fazia colocar os pés fora da cama.
Os gravetos amontoados ao lado do fogão, apanhados no dia anterior, a lenha cortadinha, a palha, o fósforo, tudo lhe parecia tão cômodo. como se Deus, de antemão, lhe propusesse ritualizar os meios.
Tão logo a água fervia, um cheiro de café incendiava o ar com seu perfume, fazendo com que Hugo também despertasse.
E o dia começava.
Hugo ainda sofria em abrir caminho, agora, abria caminho para a lavoura, tinha que roçar a densa mata com uma pequena foice, quadrado por quadrado. Era muito desgastante.
As nove horas em ponto, já via através das árvores, a sua amada Tereza apontar com um bule de café sobre a cabeça, sustentado por uma rodilha de pano. E nas mãos um pequeno pacote contendo guloseimas que ela mesma preparava.
Hugo  sentava sobre o capim a esperar por ela, e ambos falavam sobre coisas do campo, faziam planos e se deliciavam um na companhia do outro.
Depois que ele tomava o seu café,  acendia um cigarro, tirava algumas baforadas, enquanto Tereza recolhia tudo e amarrava num pequeno guardanapo bordado.
Se despedia com um sorriso e caminhava de volta a casa onde tinha muito trabalho a sua espera.
No final da tarde recebeu a visita de sua amiga Vicentina.
Como vai? - ela lhe perguntou:
-Estou bem, hoje senti algumas pontadas na barriga!
Vicentina ajoelhou-se ao chão, encostando o ouvido em sua barriga: - Nossa, seria melhor você evitar fazer muito esforço hoje, acho que esta criança não demora pra nascer!
Uma pontada dolorida fez com que Tereza quase desse um pulo, assustando-á e também sua companheira: - O que foi, Tereza?
- Medo, talvez! disse-lhe quase aos prantos:
- A amiga lhe olhou com ternura rindo com o canto dos lábios: - Não precisa ter medo, do mesmo jeito que entrou há de sair, Vai dar tudo certo!
Tereza lhe ofereceu uma xícara de café, que ela acabou aceitando, pois, quase nunca tomava aquela bebida deliciosa a não ser na casa dos outros: - Eita bebidinha cara, pensou:
Ao se despedir de Tereza ela lhe aconselhou a deitar-se um pouco, dizendo que, se a dor persistisse, deveria chamar seu marido e pedir-lhe que a fosse buscar.
Tereza agradeceu, e a viu seguir ladeira abaixo.
A tarde quase morria no horizonte, deixando as nuvens cor de rosa, Alguns raios de sol adentrava seu terreiro por entre as árvores, quando Tereza começou a entrar em trabalho de parto. sentiu a bolsa se romper e um líquido amarelado a escorrer pelas pernas.
Ia sair correndo para chamar por Hugo, mas, lembrou-se das palavras da amiga: - Não se afobe, depois que se rompe a bolsa ainda leva algum tempo para a dilatação!
Isto fez com que Tereza deixasse o tempo passar, mesmo porque já estava quase na hora do descanso, logo Hugo voltaria para casa.
As dores foram aumentando, cada vez em intervalos menores, até que ouviu Hugo colocar a foice encostado na parede e adentrar a cozinha, ao vê-la encolhida sobre um banquinho, adivinhou que chegara a hora.
- Vou chamar Nhá Vicentina falou: sem esperar pela resposta saiu apressado.
Enquanto esperava Tereza sofria, uma dor terrível como nunca sentira antes, como se algo tivesse que sair pela boca, começou a vomitar.
Tão logo Vicentina chegou começou  o preparo.
Pediu ajuda a Hugo, e este foi lhe mostrando ode se guardava a bacia, a tesoura, os panos.
Depois que estava tudo as mãos. Dona Vicentina sentou-se num banquinho próximo a cama e aguardou.
As dores iam e vinham, só que agora com muito mais intensidade deixando Tereza aos gritos.
Vicentina tentava acalmá-la: - fique quietinha, aguenta firme que é assim mesmo, o primeiro é sempre mais difícil, depois você se acostuma!
Tereza mordia os lábios, tentava ficar na posição de feto, mas tinha que esticar as pernas e agonizar por dentro, para não assustar ainda mais seu marido, que estava na cozinha sem saber como ajudar.
Hugo se sentia inútil diante do sofrimento de sua esposa, andava de um lado para o outro, esfregava as mãos, suava frio, fumando um cigarro atrás do outro.
Resolveu dar uma espiada na porta do quarto, mas, desistiu, Vicentina, por certo, o expulsaria de lá.
Enquanto isso,Vicentina lutava para que Tereza tivesse um parto tranquilo, com um pano umedecido enxugava seu suor, de vez em quando, fazia um exame de toque para sentir a quantidade de dilatação
que havia. Sabia faltar bem pouco para a criança nascer. Estava tudo certo, as contrações espaçadas, a criança posicionada corretamente, só esperando chegar a hora certa para vir ao mundo.
meia hora depois os gritos se tornaram mais intensos, e sobre a supervisão da amável senhora, Elza chegou ao mundo: Um chorinho de criança encheu o ar carregado, e Hugo, acostumado a controlar suas emoções, quase chorara.
Esperou mais alguns minutos até ouvir a voz de Vicentina chamar pelo seu nome. Ao entrar no quarto, a chama da lamparina em contraste com a sombra formavam desenhos dançantes no assoalho de terra batida, e o olhar de sua amada estava tão iluminado que quase o cegou.
Do lado de sua mulher,  dentro de uma pequena rodilha de pano, ele pode ver, como se fosse uma bonequinha de pano, tão branquinha, a sua primeira filha.
Segurou a mão de Tereza que estava exausta pelo trabalho de parto, tão demorado e tão doloroso, Ela então, abriu os olhos bem devagar, e uma mescla de alegria e alivio se via em seu olhar.
Vicentina estava na cozinha e logo um aroma delicioso de comida entrou pela porta, só então, Hugo se lembrou que estava com fome,
Meia hora depois Ela lhe serviu uma polenta quentinha, era a única coisa que podia fazer naquela hora, uma refeição bem rápida.
Levou um prato para o quarto e serviu a pequena Tereza, antes que ela caísse no sono. Depois, pediu que Hugo a levasse até em casa, pelo adiantado da hora, ela não tinha mais coragem de ir sozinha por entre a mata.
Se despediu de Hugo que não cansava de lhe agradecer, prometendo fazer uma visita logo pela manhã, quando então, mataria um frango para preparar uma canja para Tereza.
Hugo voltou para casa um tanto apressado, cheio de nova energia, Agora, precisava trabalhar dobrado para não faltar nada a sua pequena família.
Aproveitou a água que já fervia no fogo, lavou-se e se deitou ao lado do seu amor, tanto o bebe quanto Tereza dormiam tranquilamente, Tereza colocara o bebe a sugar seu seio, e isto lhe dava uma visão quase angelical. Hugo acabou dormindo com um sorriso no rosto.

Capitulo 6
Pela manhã Hugo acordou com batidas na porta, levantou-se, colocou a calça e camisa e meio sonolento foi ver quem era. Vicentina o saudou com um sorriso, falando depressa: - Vim fazer o café, preparar o almoço e cuidar de Tereza!
Hugo se encheu de satisfação ante a amorosidade da vizinha.
- Muito obrigado!
Tereza ainda dorme, o bebe também, mamou quase que a noite inteira!
-No inicio é assim mesmo, depois vai espaçando!
- Já pegou o frango, Hugo?
- Já, sim, ele está preso dentro daquela caixa!  falou, apontando para um caixote virado de ponta cabeça do lado da casa:- enquanto você acende o fogo e prepara o café eu vou me banhar no rio!
Hugo desceu até o rio pensando no que faria durante o dia, teria ainda que terminar de roçar, amontoar os resíduos de capina para queimar. Ainda bem que podia contar com Vicentina para auxiliar Tereza.
Vicentina acendeu o fogo, colocando água na chaleira para ferver, enquanto isso, saiu para fora, matou o frango e o pendurou num gancho para deixar o sangue escorrer.
Preparou o café, colocou num bule, e deixou em cima da chapa, pegou uma caneca, encheu-á com a bebida, saiu para fora, sentou na tripeça, sorvendo os goles com prazer; - Há, que delicia! pensou em voz alta: - Como é bom tomar um cafezinho depois de passar uma semana tomando água quente com açúcar!
Hugo voltava do rio com uma toalha sobre os ombros, ao vê-la tão satisfeita, sorriu: - Vou tomar cafe e ir para a roça!
- Fique tranquilo, eu vou preparar uma canja para Tereza e deixar o almoço pronto para você, depois vou até a fábrica colocar um pouco de milho no pilão, passo por aqui ao cair da tarde!
- Muito obrigado, minha amiga, não sei o que faríamos sem os vossos préstimos!
- Nem precisa agradecer, ajudar os outros é a minha tarefa, eu me sinto útil!
Logo que Hugo se dirigiu para a roça, Vicentina ouviu um chorinho de criança vindo do quarto, ela se dirigiu para lá, encontrando Tereza debruçada sobre a cama, tentando trocar a criança. Estava toda enrolada, não conseguia dobrar a fralda.
 Logo que sentiu a presença da amiga, sorriu satisfeita: - Me ensina como faz isso!
- Bom dia! vicentina falou sorrindo: - Como você está?
-Estou me sentindo ótima, e você?
- Estou bem, Dá isso aqui!- ela resmungou tomando a fralda das mãos de Tereza, e numa destreza de quem sabe tudo ela dobrou a fralda dizendo: -Olha, só vou explicar uma vez! Dobra-se a fralda no meio na forma de triângulo, levanta a criança assim! falou: levantando as perninhas para cima, coloca embaixo, leva a ponta do meio para dentro, e as duas bordas, cada uma de um lado, depois, prende com um alfinete!
Tereza sorriu sentindo-se meio boba; - É só isso? - perguntou: - Tá vendo, tudo muito simples, mais fácil que lavar fraudas! Deu uma gargalhada complementando:- Mais fácil que parir.
Tereza acabou rindo também.
- E o banho?
- Como assim, o banho?
- A que horas eu farei isso?
- No meio do dia, quando estiver mais quente!
- Eu não sei como fazer!
- Eu volto aqui e lhe ensino. Agora, descanse mais um pouco que eu estou preparando o almoço!
- E quando eu posso sair com meu bebe para fora?
-Só daqui uma semana, ela disse: - olhando para Tereza de um jeito muito sério.
- Uma semana, porque esperar tanto tempo?
- Para que a criança fique um pouco  mais forte, nunca devemos expô-la a claridade antes disso, pode prejudicar a retina dos olhos!
- Nossa!
- E trate de não se esforçar, precisa guardar dieta por quarenta dias!
- Quarenta dias, e como eu vou fazer isso? Eu preciso trabalhar!
- Após três dias você já pode se levantar e fazer pequenas tarefas: como fazer comida, lavar louça, lavar fraudas, só não pode lavar a cabeça, nem molhar os pés, e carregar peso, nem pensar!
- E como eu faço, se eu preciso buscar água para fazer isso tudo?
- Se vira, pede para seu marido!
- Coitado, ele não tem tempo, trabalha o dia inteiro sem parar, ainda mais agora, que nem posso ajudá-lo!
- Eita, que dificuldade!  Se você não pode fazer, ele vai ter que achar um tempo para ajudar, senão, fica difícil!
Ele não desce todo dia para se lavar no rio, então, não custa nada colocar um balde em suas mãos, já que volta com ela vazia!
E largue de querer poupar o seu homem, porque vocês precisam se ajudarem mutuamente, se você pode ir para a roça fazer serviço de homem, porque o homem não pode, quando preciso, fazer serviço de mulher?
Tereza esboçou um sorriso angelical, antes de pronunciar seu parecer: - Não aprendi assim, lá em casa, só as mulheres fazem isso, os homens trabalham na roça o dia inteiro!
- Sim, eu sei, ninguém está dizendo que eles precisam fazer isso o tempo inteiro, só quando nós estamos sem condições de fazer, tem coisas que eles não fazem mesmo;  comida, por exemplo, mas, tem coisas como lenhar, cortar a lenha, encher os baldes de água, enfim, é trabalho de homem, não de mulher!
Ficaram ainda algum tempo debatendo as utilidades dos homens em serviços domésticos, até que a comida ficou pronta, então, ela se despediu de Tereza, com a promessa de passar mais tarde para ensinar-lhe a banhar sua filha.
Aquela semana passou depressa, com Vicentina chegando e saindo, sempre tão solidária.
Hugo já terminara de preparar a terra, e contratou serviço de aragem. Enquanto esperava pela terra pronta, ajudou Tereza em sua necessidade, aprendendo um pouco mais, coisas que ele pouco fazia.
Na semana seguinte Tereza já voltava a vida normal, buscando água na bica, indo para o rio para lavar roupas, sempre acompanhada por sua filhinha.
Certa manhã, quando ela estava debruçada em uma tábua de lavar, esfregando freneticamente uma
calça de seu marido,  ouviu algumas vozes muto próxima de si, pensou ser gente conhecida, pois ninguém mais passava por ali, além dela e do marido.
Levantou os olhos curiosos para o inicio do caminho, e o primeiro rosto que viu, foi o de sua amada cunhada Mena. Ela chegou toda sorridente falando em alto e bom som:- Oi amiga, como vai você?
E se encaminhou para uma pequena bacia que descansava á sombra de uma árvore, pegando um embrulho disposto dentro dela. A pequena Elza resmungou e ela á segurou firme em seus braços, comentando alegremente: - Como é linda a sua filha, Tereza!
Tereza tirou o pano da cabeça, e nele enxugou as mãos, depois se encaminhou para a cunhada dando-lhe um abraço; - Que bom que você veio, fico muito feliz, veio só você?
- Não, a mãe e a Joana vieram também, estão la em cima esperando por nós!
- Vamos subir, então, coitadas!
E subiram o morrinho conversando, com Mena levando a menina, e Tereza com dois baldes cheio de água, um em cada mão.
Que alegria para ela, depois de muito tempo sem se verem, quanta saudade das brincadeiras, das conversas.
Prepararam o almoço, conversaram, enfim, passaram um dia muito feliz, tanto, que Tereza sentiu uma dor no peito, quando elas tiveram que partir.
Dois meses depois, Elza adoeceu. Tereza estava muito esgotada, além de ter que fazer todo o serviço domestico, ainda tinha que lidar com aquilo.
Sua filha chorava muito e ela não sabia o que fazer. Não havia médicos por ali, nem alguém que á auxiliasse. Ela fazia chazinhos de hortelã, de camomila, entre outras receitinhas de comadre, mas, nada parecia adiantar.
Tudo parecia desmoronar ante seus olhos assustados, a riqueza de seus olhos ia se enfraquecendo como uma pequena estrelinha a se apagar, ela insistia muito para que a menina mamasse, mas, parece que o alimento, ao invés de fazer bem, fazia mal.
Até que um dia, ela não mais aguentou, e ante a debilitação de sua filha, pediu para que Hugo a levasse até o hospital.
Hugo pediu para que um vizinho os levasse de carro até a cidade, temendo pelo pior.
Ao chegarem ao hospital, um medico assistiu a criança, e olhando para Tereza com uma cara de preocupado, balançou a cabeça, dizendo: - Ela vai ter que ficar internada, está com pneumonia!
Tereza sentiu um aperto no peito, e não suportando mais tanta agonia, debulhou-se em lágrimas.
Foram dois dias de puro pânico, duas noites e dois dias sentada num banco de espera, até que o médico veio lhe ver.
Olhou para ela, e segurando as suas mãos lhe disse: - O sofrimento acabou, sua filhinha se foi!
Nossa, aquilo foi demais para ela, se jogou no chão, não se importando com quem a olhava, e rolou de um lado para o outro, para aplacar seu desespero.
O médico a levantou do chão e a levou até uma salinha, pediu para a enfermeira lhe dar um calmante, enquanto Tereza gritava: - Não quero me acalmar, quero minha filhinha de volta!
- Sinto muito!- dizia o médico:- posso ligar para alguém?
- Sim, ligue para esse número!- ela falou: entregando-lhe um papelzinho.
Demorou mais uma duas horas para seu marido chegar, pois o numero de telefone era de um sobrinho de seu esposo, proprietário de uma loja de tecidos, próximo do hospital, mas, ele teve que buscar Hugo no sitio.
Hugo preparou a documentação, acionou a funerária, que levou o copinho sem vida da pequena Elza até o cemitério, e lá a deixaram enterrada embaixo de um monte de terra fria.
Voltaram para casa muito tristes, embora Tereza estivesse um tanto mais calma devido o calmante, ela não abriu a sua boca durante a viagem.
Ao chegar em casa, ela enfrentou o marido pela primeira vez: - Porque não nos levou ao hospital antes, eu bem que pedi por várias vezes, mas, você não me ouviu!
Hugo trazia no peito tão grande tristeza, e bem calmamente explicou a Tereza o seu jeito de pensar: - Tereza, olha, eu bem que queria fazer tudo isso, mas, nossa condição financeira não é boa, o dinheiro que usei para pagar a consulta e os dias de internação, eu tive que pedir emprestado ao meu sobrinho, e agora, ainda tive que emprestar mais para pagar o enterro! Eu pensei que não fosse nada tão grave, pois criança é assim mesmo, fica doente com facilidade, e com a mesma facilidade se restabelece.
Como eu iria adivinhar que pudesse acontecer essa tragédia?
Não fique assim. Aconteceu, e agora, de nada adianta ficarmos nos culpando.
Tereza resolveu se calar e engolir sua frustração e dor, seu marido tinha razão. passado é passado. Tinha que confiar em Deus.
Os dias se passaram, as tarefas diárias não lhe dava muito tempo para pensar, pois. além de cuidar da casa, do marido, ainda ia para a roça. Seu marido plantou um grande roçado, além de cebola, plantou milho, feijão e arroz. dava muito trabalho, mas, não havia outra maneira de conseguir dinheiro para pagar as dividas e ainda sobrar ate´a próxima colheita.
Um ano se passou quando Tereza engravidou novamente, nasceu sua segunda filha; A pequena Vilma. Um ano e quatro meses depois nasceu a terceira menina: Marta. E dois anos depois foi a vez de um belo menino: Frederico!
Hugo estava feliz, a colheita sempre era muito boa, depois de separar a parcela que teria de pagar para o proprietário da terra, sobrava uma boa quantia que guardava para as necessidades básicas do dia a dia.
Criava porcos para consumo próprio, e ao abatê-lo, usava a banha para conservar a carne, assim, tinham carne para o ano inteiro, além de criar frangos, também fizeram horta. Sendo assim, nada lhes faltava.
Hugo comprou um fardo de tecido, e Tereza fez amizade com uma costureira, moradora próxima a sua casa, mandou fazer muita roupa nova para as crianças, para ela, e também para Hugo.
Mas, ainda tinha um problema, a casa era muito pequena para cinco pessoas. inclusive o quarto, que ficava entupido de coisas e colchões por todo lado.
Embora não houvesse um guarda-roupa decente. Hugo comprara de um mascate que passara por ali, um grande mala de madeira, mais parecido com uma caixa enorme, com tampa, que servia para guardarem seus pertences e roupas.
Nas andanças de Hugo pelo lugar, ele conheceu Dario. Dario era um lavrador que morava a uma certa distancia de onde Hugo morava e trabalhava, Ele era proprietário de um sitio e tinha uma casa desocupada.
Hugo estava um tanto descontente com o atual senhorio, que reclamava da forma de pagamento combinado, Hugo trabalhava muito e ganhava bem, vendendo os produtos colhidos no Ceasa. Isso fazia com que Carlos polly não ficasse muito contente com o que Hugo lhe pagava, ele queria sempre mais, e Hugo não achava justo, então, andavam meio que se estranhando ultimamente, fazendo com que Hugo ficasse pensando em arrumar outro lugar para plantar e para morar.
E foi assim que o fez, antes mesmo de se mudar ele já estava preparando um outro roçado no sitio de Dario.
Tão logo colheu as ultimas espigas de milho plantados no sitio do Carlos, já se preparou para a mudança de lugar.
A nova casa não era tão diferente da outra, casa de taipa coberta com telhas de cerâmica. Tinha somente um quarto e uma cozinha maior.
Nem o quarto nem a  cozinha continha janelas, a luz entrava pela única porta que dava acesso a entrada. Mas, o lugar era bem bonito.
Um terreno bem limpo rodeava a casa, uma estradinha levava até o rio, ao lado do rio havia um pé de jabuticabeira carregada de flores. Não era, propriamente um rio. Alguém cavara uma canaleta do pé do morro até bem perto da casa, A água vinha lá de cima e enchia um pequeno riacho cavado a mão, depois jogava os excessos que acabava escorrendo pela mata, deixando a vegetação mais viva, onde nascia toda espécie de juncos e lírios.
Antes da água desaguar no rio, havia uma biquinha feita de telha de cerâmica fincada num lugar mais alto, tipo um barranco. A água deslizava sobre a telha e caia como um manto invisível fazendo um som tão acolhedor, que dava a impressão de estar numa cachoeira.
Na borda do riacho estava uma tabua de lavar, com uma parte dentro da água e outra fora dela como um escorregador. Era assim que Francisca, a mulher de Dario lavava a roupa, ensaboando, batendo-á na tabua, e usando as mãos como concha quando necessitava de mais umidade. Depois colocava a roupa para quarar ( expôr as roupas ao sol para clarear) no gramado ao lado do rio.
Tereza amou aquele lugar, e decidiu compartilhar daquela comodidade, por assim dizer: Era funcional e tirava a sua preocupação em arrumar outro lugar para lavar suas roupas, além de que, a sombra da enorme árvore de jabuticaba serviria para as crianças brincarem a sua sombra, enquanto ela realizava o trabalho.
Dona Francisca já era velha conhecida de Tereza, pois, as tardes de domingo costumavam se encontrar na casa de Vicentina, como tantas mulheres da redondezas. Então, foi muito fácil obter o aval para compartilhar das mesmas coisas.
Ela arrumou tudo bem arrumadinho, como sempre, embora, sua casa fosse tão humilde e pobre!
Um fogãozinho  a lenha feito de taipa, enfeitava o fundo da cozinha, ao lado, ela colocou a prateleira rustica, perto da porta dispôs alguns troncos de madeira talhada que serviriam de cadeira.
Achou alguns tijolos velhos e fez uma espécie de banco para colocar os baldes com água.
Estava feliz, muito feliz com tudo o que tinha, podia ser pouco, mas,  para ela, era uma benção.
Tão logo mudaram-se, ela  engravidou pela quarta vez, desta vez veio outra menininha que colocaram
o nome de Herta, dois anos depois, veio outra menina. Irene.
Agora a família estava completa: Ela, Hugo, seu filho Frederico e suas meninas: Vilma, Marta, Herta e Irene.
Depois disso ela se viu doente, sem saber o que a incomodava, porém, não achava tempo para ela, Tudo se resumia nos cuidados com o marido e filhos.
Tereza era a primeira a se levantar e a última a se deitar.
Agora estava um pouco mais feliz, pois sua amiga Francisca era muito gente boa, uma ótima companhia, e muitas vezes a auxiliava em relação as crianças. E tinha também a boa e velha amiga Vicentina, que nunca a deixava na mão.
Os dias iam se passando como todos os dias, na correria de sempre, afazeres: idas e vindas.a levar refeições na roça para o marido.
Hugo trabalhava incansavelmente, dia aós dia, semeava, limpava, plantava, cuidava, colhia, e transportava toda a colheita nas costas, armazenando-á num cômodo germinado, as costas de sua casa.
Um trabalho árduo e pesado.
Até que num determinado dia resolveu comprar um cavalo, saiu a procura de um, até encontrar o cavalo mais bonito que ele já vira.  acabou batizando-o com o nome de lebuno, fiel companheiro e ajudador.
Lebuno tinha  os pelos de uma cor diferente. um marrom sereno, quase apagado, muito brilhante, era um animal grande e de rara beleza. Muito manso e gentil, assim como Hugo sonhara.
E passou a trabalhar na roça, era ele que, agora, fazia o trabalho de transporte, na época da colheita, ele só parava quando Hugo parava.
E aos sábados levava Hugo até a cidade, depois voltava com as compras no lombo, enquanto Hugo voltava a pé, puxando-o pelo cabresto.
Hugo ambicionava fazer grandes lavouras, esperava que as crianças crescessem um pouco para poder ajudá-lo mais. Por enquanto, elas executavam pequenas tarefas domesticas, como levar o lanche da manhã e da tarde até a roça, dando um pouco de alivio para Tereza, que já se encontrava um tanto exaurida pelas responsabilidades atribuídas a ela.
Hugo continuava o mesmo, sempre tão serio e fora do ar, dava tão pouco carinho a mulher, não a ajudava nas tarefas domésticas, como se aquele trabalho fosse exclusivamente trabalho de mulher. próprio de homens daquela época.
Tereza se desdobrava em gentilezas, tanto para com os filhos, tanto para com ele. Não deixando nada para depois: lavava, passava,  cozinhava,  dava água e comida para os porcos, arrumava e limpava a casa,  buscava água no rio para encher os baldes, e ainda cuidava das crianças menores; agora, tinha as duas filhas mais velhas indo para a escola.
Certo dia, a sua filha caçula sentiu-se mal, desmaiou diante de seus olhos e começou a revirar os olhos, Tereza ficou tão aflita que começou a gritar, saiu correndo de casa e deitou-se no gramado começando a rolar como um bicho qualquer. Os gritos estéricos acabou chamando a atenção da vizinha que correu  atá ela,  perguntando:- O que aconteceu Tereza?
Tereza apontou o dedo na direção de seu quintal, e a mulher viu uma criança caída e outra menina  a olhar com medo nos olhos.
Correu para lá e acolheu a menina nos braços, esfregando-lhe álcool nos pulsos, até que a menina foi voltando em si. Depois olhou para a  outra menina que chorava ao lado, afagou a sua cabecinha e falou meigamente:- Não chore, sua irmãzinha está bem!
A menina lhe olhou com os olhinhos cheio de lágrimas e lhe falou meio gaguejante por causa dos soluços:- E minha mãe?
- Já estou indo lá para ver como ela está?
Ao chegar perto de Tereza, ela tremia como vara verde ao vento. e chorava sem parar.
Francisca a levantou do chão e a levou para casa, ao entrar ela viu sua filhinha brincando com uma caneca velha e ficou mais calma.
- O que aconteceu com ela? perguntou:
Dona Francisca começou a lhe explicar:- Acho que foi um ataque!
Tereza a olhou com uma certa apreensão no olhar:- Um ataque, como assim?
- Deve ser ataque de bicha!
Tereza ficou verde, sabia bem o que significava esses ataques, a menina poderia ter morrido.
- bem que eu notei que estava meio barrigudinha!
Depois acrescentou:- Eu falo para o Hugo comprar  lombrigueiro para as crianças, mas, ele nem liga!
Dona Francisca ficou la por algum tempo, e tão logo percebera que ficara tudo bem, se despediu e voltou para a sua casa. ficou pensativa por algum tempo, e decidiu comprar lombrigueiros para seus filhos, Que também eram muitos.
Além de sua filha mais velha que morava com a avó, ela tinha mais cinco. Todos menores de dez anos, inclusive a sua caçula que ainda era um bebe.
Assim que Hugo chegou da roça, Tereza lhe contou o ocorrido, e Hugo prometeu comprar os remédios no sábado seguinte.
Sua caçula teve mais uma crise dois dias depois e tudo aconteceu como uma réplica do dia passado.
Só depois que Hugo providenciou os remédios, medicando todas as crianças, que a crise nunca mais aconteceu, dando um certo alivio a Tereza.
Três anos se passaram e tudo continuava na mesma. Porém Hugo vinha percebendo que os filhos cresciam, a sua menina mais velha já completara onze anos, e não estava certo, dormirem todos no mesmo quarto, mesmo porque, isto reduzia a sua intimidade com sua esposa.
Foi então, que resolveu procurar uma casa maior para morar. Andou perguntando aos amigos, se eles não sabiam de nenhuma casa desocupada nas redondezas, pois, ele não queria ir para muito longe, ainda tinha compromisso com a plantação, e não podia realizar uma mudança para muito longe.
Foi então, que soube de uma casa que foi desocupada a umas duas semanas, bem perto de onde moravam. Só que o dono das terras e da casa morava em um bairro muito distante, ele precisava encontrá-lo para pedir-lhe consentimento.
No domingo seguinte, ao invés de almoçar e sair para passear como fazia em todos os fins de semana, ele foi conversar com a pessoa.
Seu Neco era uma pessoa muito rica, tinha muitas posses: casas e sítios.
Não demorou muito para aceitar a proposta de Hugo, que lhe dissera ter muita disposição para plantar.
Lhe agradou o fato de Hugo lhe propor arrendamento de terra, e sem pestanejar, autorizou Hugo a se mudar.
Hugo levou Tereza e as crianças para conhecerem a nova moradia.
O lugar era bem bonito, a casa, bem! a casa era do mesmo naipe que a outra, de pau a pic coberta com telhas de cerâmica, com dois quartos, sala e cozinha. Não era grande, mas pelo menos era melhor distribuída. Tinha um pequeno paiol na parte de cima, onde Hugo poderia armazenar milho e cebola.
A casa ficava as margens de uma estradinha de terra, na parte de baixo, na frente havia um pequeno jardim, e um caminhinho que se estendia até a estrada, onde estavam plantados dois pés de pessegueiro em ambos os lados. Havia um grande corredor que levava ao paiol que ficava na parte de cima, coberto por bananeiras de várias espécies, também de ambos os lados.
E rodeando a casa também havia pessegueiros e bananeiras.
Na parte esquerda se via grandes árvores e arbustos que sumiam de vista, e do lado direito também, grandes pés de ingás  e outras árvores frondosas se misturavam a uma grande extensão de mata.
Tanto a casa, quanto o paiol tinham uma boa área limpa para as crianças brincarem.
Ao redor do paiol havia laranjeiras, limeiras, limoeiros, abacateiros, parreiras.
Abaixo da casa havia um grande pasto, onde Hugo poderia soltar seu cavalo. A grande extensão de terra levava a um lugar com muita água. Embora um tanto longe para Tereza.
De la ela teria que tirar água para beber, lavar, cozinhar, dar para os animais etc...
Ia ter muito mais trabalho que na casa onde morava.
O rio ficava a mais ou menos 700 metros da casa, e ficava numa baixada, obrigando Tereza subir um morro com latas de água na cabeça e bacia de roupas limpas nas mãos.
Ela já estava acostumada, mas, seria tão mais cansativo, que a deixou um tanto desanimada, mas, acabou não reclamando, como sempre, ficava quieta e aceitava tudo de bom grado!
Tudo certo, a mudança foi feita aos poucos, Hugo e as crianças levaram tudo na mão, ou nas costas, até verem tudo no lugar. Hugo também comprou uma mesa para a sala, e mais uma cama de casal para as meninas.
Tereza gostou da casa nova. Agora, tinha uma sala e um quarto só dela. Ela e Hugo poderiam ter um pouco mais de privacidade, embora os quartos fossem separados só por meia parede.
A cozinha era bem equipada, com um fogãozinho a lenha quase que rente a porta, do lado se abria uma janela, bem embaixo dela ela colocou uma mesa de madeira.
Do outro lado ficou os baldes e a prateleira.
A sala ganhou um jogo de mesa e quatro cadeiras que ficaram dispostos bem no centro.
O quarto das meninas ganhou uma cama de casal novinha e outra de solteiro para o menino.
O quarto dela e de Hugo ficou com a mama de casal e Hugo comprou um guarda roupas de duas portas, onde ela guardou suas roupas e pertences.
A mala grande, que chamavam de baú, ficou no quarto das crianças acomodando as roupas delas.
Tudo certo, uma maravilha de lugar, pensava Tereza: ela só não gostava da distancia do rio, mas, para tudo se dá um jeito.  Assim, ela pensava: - Não da para ter tudo!
Nada parecia desanimá-la.
Hugo tratou de plantar mais, aproveitando a ajuda de suas duas filhas mais velhas.
Vilma e Marta estavam com aproximadamente 10 e 11 anos, apesar de ainda estarem estudando, ajudavam na roça por meio período.
Os menores ficavam em casa com a mãe. E Tereza precisava se desdobrar para dar conta de tudo.
Conforme os filhos cresciam, tornando-se aptos para alguma tarefa , iam sendo aproveitados ao máximo.
Vilma era a líder, por ser a mais velha, era ela que distribuía os afazeres entre os irmãos, fazendo com que Tereza já não precisasse se esforçar tanto.
Ninguém percebia que Tereza estivesse doente, com exceção de algumas saídas na companhia de Hugo, que, as vezes, chamava Vicentina para passar a noite na casa deles, para cuidar das crianças.
Demoravam para voltar e quando alguns dos filhos perguntava para onde tinham ido, eles se esquivavam da pergunta, dizendo: - fomos ao médico!
Assim se passaram vários anos, todos trabalhando como gente grande.
Ele era muito conhecido e respeitado na região, havia conquistado muitas amizades, inclusive, já vinha vendendo sementes de cebola para alguns agricultores.
A semente vinha do Rio Grande do Sul, os produtores traziam a semente pessoalmente na casa dele, e ele ganhava comissão sobre a venda.
Passou um bom tempo fazendo as duas coisas; plantando e vendendo, até que não deu mais.
A chuva não chegava em suas estações, o sol se tornou mais forte, e a lavoura muito mais frágil. Ele e a família se desdobravam no trabalho árduo de cada dia, e a colheita, muitas vezes, se perdia na roça.
Passaram-se alguns anos sem que nada melhorasse, as crianças cresciam, necessitando de mais recursos, e a lavoura não colaborava.
Foi então, que recebeu a noticia da venda do sitio em que morava, esta notificação deixou-o abalado, pediu então um favor ao locatário; para mudar-se de lugar!
O locatário resolveu construir uma nova casa não muito longe dali, num sitio paralelo aquele, e Hugo
foi escolher o lugar.
Escolheu um lugar perto de uma nascente, ao lado de mata virgem, abriu uma pequena estrada que dava acesso ao lugar, e chamou um construtor. O locatário comprou as tábuas de madeira e as telhas, enquanto Hugo pagou a construção.
Uma pequena casinha de quatro cômodos foi se desenhando aos poucos até receber uma camada grossa de terra como assoalho.
Numa semana de chuva e muito frio, fizeram a mudança.
As meninas se encantaram com aquele lugar, mudança é sempre bom, pensaram:  pois, dava a sensação de  poder viver outras histórias.
No entanto, as coisas só pioraram. Tereza já não tinha aquela força de antes, era visível o desgaste de tantos anos de trabalho. e a doença ia lhe corroendo por dentro.
Hugo a levava em todos os lugares que se falasse em milagres. todos os curandeiros da região foram visitados.
Alguns até diziam que Tereza sofrera um feitiço, e que a pessoa tinha a intenção de matá-la. faziam com que Hugo acreditasse que Tereza seria "salva" só com o fato de fazer algum descarrego, como por exemplo: jogar alguma coisa em água corrente, como um frasco de remédio ou algo parecido.
Viveram nessa ilusão por longo período enquanto Tereza escondia seu mal-estar, sempre trabalhando e administrando a casa.
Ao parar de plantar Hugo colocou os filhos para trabalharem por dia. sempre havia alguém precisando de gente para trabalhar, e  ele continuou vendendo sementes.
Até que num belo dia ele chamou os filhos mais velhos lhes dizendo: - Não posso ser o mantenedor da casa por muito mais tempo, vocês ja estão crescidos e já conseguem se virar sozinhos. Está mais que na hora de cada um seguir seu próprio caminho.
Era muito difícil para os filhos que sempre trabalharam na lavoura sem ganhar nada, agora, ter que sair de casa.
Porém, numa tarde quente de verão, enquanto todos se preparavam para jantar recederam uma visita surpresa. Não se sabe bem de onde vieram e como acharam aquela casa, mas, lá estavam eles. um casal de meia idade.
Ao recebê-los, Hugo nem os convidou a entrar, perguntando-lhes á que vieram?
Eles lhe disseram que tinham uma lanchonete numa cidade situada bem próximo de São paulo, que estavam a procura de duas meninas para trabalharem com eles.
Sem ao menos saber quem eram, Hugo deu seu aval para levar duas meninas, assim, como se fossem mercadoria.
A mais velha já com vinte anos de idade enfrentou o pai dizendo que não iria. Então, Hugo pediu que levasse Marta e Herta com eles.
As duas arrumaram seus pertences, coisa pouca, e seguiram os desconhecidos. entraram no carro, e sumiram na curva da estrada.
Tereza se recolheu em seu quarto, enquanto Hugo se dirigiu para a sala, ligou  o radio de pilha e se envolveu com o noticiário.
Ela se ajoelhou no chão frio pedindo a Deus que protegesse as suas duas filhas, enquanto lágrimas
caiam de seus olhos banhando um rosto sofrido e cansado.
Dias se passaram sem ter noticias das meninas. Foi então, que a filha mais velha resolveu ir até a cidade para saber se estavam bem. Mas, ao ir para lá, acabou não voltando. Arrumou emprego, e se acomodou em um quarto de pensão na cidade.
Com Hugo e Tereza só permaneceu o filho homem e a filha caçula, mas, também foi por pouco tempo.
O filho Homem acabou arrumando uma colocação num circo e foi viajar com ele. A menina caçula arrumou trabalho e também saiu de casa.
Três longos anos se passaram. as duas filhas mais velha de Hugo acabaram se casando, A do meio voltou para a cidade mais próxima e arranjou emprego numa fábrica, a mais nova e o menino voltaram para casa. Mas Tereza já sentia seu tempo se acabando.
Nesses três anos em que ficaram sozinhos, ela foi definhando dia a dia, sem ter mais tanto o que fazer, suas forças foram diminuindo: pela tristeza de ver a casa vazia, por se ver muitas vezes sozinha, pois Hugo não parava em casa, seu trabalho exigia que saísse muito.
Ele continuava a levá-la em curandeiros, mas, de nada adiantava, tudo parecia extremamente inútil.
A menina do meio que trabalhava numa fábrica tinha convênio médico, ao ver a mãe sofrendo daquele jeito, amuada e debilitada como nunca a havia visto, tomou a decisão de colocá-la como dependente.
Conversou com o diretor do R.H e contou a sua historia.
Contou que a sua mãe estava muito mal,  e que seu pai não tinha recursos para pagar um médico, e se ele podia inclui-la em seu plano de saúde.
O diretor aceitou e assim foi feito; Uma semana depois Hugo a levava no melhor médico da cidade circunvizinha a sua.
O medico a examinou e constatou que Tereza sofria de um mal chamado Prolapso genital, conhecido particularmente por bexiga caída, talvez, causada pelas tantas gravidez e partos caseiros.
E consequentemente carecia de cirurgia. Pedindo também, alguns exames, como ultra sonografia e sangue.
Hugo ficou esperançoso, e marcou os exames. Tão logo ficou pronto ele foi pessoalmente levar para o medico dar uma olhada.
Foi um choque para ele saber que Tereza não tinha um rim, a coisa era bem mais seria do que se pensava. A falta de um rim fez com que o médico desconfiasse de uma coisa bem mais grave, ou, simplesmente Tereza tinha nascido apenas com um rim, vá se saber.
Hugo chegou chorando na casa da filha mais velha, e lhe contou que Tereza ia sofrer uma cirurgia, mostrando na chapa o rim esquerdo que já não existia mais.
Vilma ficou um tanto apreensiva achando que o pai estava sofrendo por nada, chorava mais pelo estresse dos últimos dias, que propriamente, pela gravidade da situação que não existia. Afinal, Tereza nunca reclamara de nada, sempre tão trabalhadeira,
Chegou o dia da internação: Hugo a levou até o hospital la a deixando, enquanto se dirigia até a casa da filha que morava bem perto.
No dia seguinte bem cedo para o hospital se dirigiu, Tereza ainda não havia saído da sala de recuperação, quando o médico veio falar com ele.
- Senhor Hugo, Sua esposa não foi operada, Nós abrimos e fechamos ao constatar que tudo dentro dela esta se esfacelando: O rim esquerdo ela não tem mais, e o rim direito esta tomado totalmente pela doença. ela esta com tuberculose extrapulmonar.
Se fosse detectada a mais tempo teria tratamento, mas, neste caso, o rim direito se desintegrou totalmente e o rim esquerdo esta tomado pela doença. Sinto muito, mas, já não ha nada que se possa fazer.
Hugo sentiu-se desmoronar, e toda a emoção contida por toda a sua vida acabou por aflorar, entre lágrimas e soluços ele se viu perguntando ao doutor:
- Ela vai sobreviver?
O doutor o olhou com uma certa pena no olhar e lhe acenou com a cabeça negativamente.
Hugo voltou para casa com muita angustia no coração, olhou para  o que tinha vivido
e viu a sua esposa em todos os lugares, como uma luz forte que o conduzia, e que nunca o deixara
só. lágrimas rolaram sobre seu rosto cansado, já não havia querosene que pudesse manter a luz de Tereza acesa!
Tereza ainda estava no hospital sobre observação pós operatório, ela não sabia da gravidade da situação, apenas sonhava em voltar para casa.
Dois dias depois sua filha mais velha foi buscá-la, o médico tinha lhe dado alta, e como não havia como contatar seu pai, ela levou a mãe para a sua casa.
Vilma tinha acabado de dar a luz, a primeira netinha de Tereza, só que ela nem sequer podia carregá-la no colo.
Ficava deitada na cama olhando na direção do bercinho da neta, toda embevecida por ter se tornado avó. Já via a criança correndo no quintal de sua casa, tentando apanhar o rabo de alguma galinha que passava, um sorriso lindo se desenhou em sua face, só faltava ficar bem.
No dia seguinte Hugo viera lhe buscar. Acomodou-a no banco de traz do carro de seu amigo, e iniciaram o caminho de volta.
Tereza se contorcia de dor, parecia estar com espinhos sobre a pele, e uma secura na garganta quase lhe tirava o ar.
Mesmo assim não abriu a boca, até se ver a chegar em casa, só então, tomou quase dois litros de água, no entanto, a secura permanecia.
Foi para a cama, já não tinha mais forças, sabia que precisava limpar a casa, lavar a roupa, cozinhar para seu marido, mas não tinha coragem.
Hugo preparou alguma coisa para eles comerem, do qual Tereza recusou. Não tinha fome, e só o pensar em comer lhe dava náuseas.
E foi assim por três dias: muita dor e nenhum refrigério.
Na sexta feira a tarde a sua filha do meio apareceu para cuidar dela, e assim que chegou notou que sua mãe estava muito debilitada: não comia, não tomava água, e gemera a noite inteira.
Herta colocava leite num recipiente, encharcava um punhado de algodão com a bebida, e pingava na boca da mãe. Ao perguntar o que ela estava sentindo, ela apenas respondia: - parece que tenho uma faca atravessada no peito!
No dia seguinte, sentindo que sua mãe não podia ficar ali, pois se acaso ficasse, iria morrer de fome, ela pediu ao pai que a levasse de volta ao hospital, E assim Hugo o fez.
Tereza estava em transe, daquela mulher forte só restava osso é pele, só uma pequena chama ainda brilhava em seus olhos castanhos, Enquanto dormia, dopada por remédios colocado no soro, ela divagava de volta ao passado.
De repente se viu num quarto bonito, cheio de quadros na parede, cortina de seda dançava sobre a luz do sol que adentrava seu quarto, sobre a cama um lençol de cores fortes, fronhas desenhadas com flores azuis. Do lado da cama um livrinho descansava sobre um criado mudo.
Ela pegou-o com as mãos tremulas e o abriu.
As letras dançavam sobre seus olhos tristes agora, nunca aprendera a ler. Que desperdício, pensava:- para que este livro!
Levantou-se num salto, abriu a porta do guarda roupas e viu um grande varal de vestidos caros, coisa que nunca tivera. Que lindo! expressou num sorriso sereno:
Pegou um vestido vermelho, e colocou-o  a frente do corpo, e saiu rodopiando sobre o assoalho de madeira.
Ao sentir a maciez da tábua sobre os pés, pensou em voz alta: Onde estou? Que casa é esta?
Abriu as cortinas e debruçando na janela, quase ficou sem fôlego:
Um cheiro de gasolina encheu o ar, e lá fora carros passavam, indo e vindo, entre uma multidão de transeuntes.
Coçou os olhos fechando-os, e abriu-os novamente para constatar que aquilo não era sonho, e tudo estava lá.
Saiu para a sala e se deparou com tudo que sempre sonhara. Uma televisão novinha exibia-se sobre uma estante de madeira talhada. dois sofás gigantes se deitavam sobre um belo tapete indiano.
Só podia ser um sonho, pensava: mas era tão real que podia até sentir o perfume das flores colocadas
dentro de um vaso sobre a mesa.
Onde estão todos? se perguntava:
Cadê minha casa, minhas coisas, não sou essa pessoa?
Voltou novamente para seu quarto, e olhou pela janela.
Uma escada descia até a rua, e em volta dela havia um belo jardim, sobre o jardim, um coqueiro derramava suas folhas que dançavam ao som do vento.
Eu preciso de água, pensou, estou quase a morrer de sede. saiu a procura da cozinha.
Quando abriu a porta, para sua surpresa, sua cozinha estava lá. Toda ranzinza com seu piso de terra, as paredes rachadas com algumas peças a faltar,  a luz passava pelas frestas, soltando fleches fracionados e multicoloridos em varias direções.
O fogãozinho a lenha estava aceso, com suas chamas fresquinhas a consumir um belo pedaço de madeira, as labaredas a lamber o fundo de uma panela que fumegava de alegria.
Olhou para o lado e encontrou o que procurava.
O balde descansava sobre um banco de madeira, correu para la.
Que decepção!  ele estava vazio, completamente seco. Lembrou então que não estava em casa já a alguns dias.
Precisava pegar água antes que morresse de sede.
Pegou o balde e saiu para fora, a escada estava lá, imponente como nunca. E lá fora as paredes de concreto,
-Onde esta o rio? se perguntava;
Onde foi parar o meu quintal, as bananeiras, o caminho para o rio?
Como vou achar água no meio desse cinza todo?
Olhou a sua volta e só viu prédios e casas e concreto, e cinza, e luto.
Luto? isso mesmo, luto!
Morreram suas esperanças de conseguir chegar até o rio. Não podia atravessar aquele mar de concreto, onde não se via nenhum verde, a não ser os pequenos espaços onde se concentravam pequenos jardins, nada parecido com riachos ou rios.
Engoliu em seco, e voltou para sua cozinha. E pensou consigo mesma; - vou sair pelos fundos!
Abriu a pequena porta de madeira, ela rangeu como de costume, deixando Tereza mais esperançosa, Aquela era a sua casa, a outra era apenas sombra de seus próprios sonhos.
Um sonho que agora nem fazia mais questão.
Ao colocar a cabeça vagarosamente para fora, com um pouco de apreensão, viu o seu quintal, a árvore na frente da casa, o bananal a formar duas colunas, por entre eles o caminhinho. Seu olhar se desanuviou por alguns instantes, e um belo sorriso lhe iluminou a face.
Mas tão logo tomou lugar a preocupação. Engraçado! pensou:
- Cadê minhas crianças?
Sempre havia por aqui, alguém a gritar um com o outro, e agora, porque todo esse silêncio?
Desceu um pouquinho a caminhar entre a coluna, viu o chiqueiro dos porcos, eles estavam a fuçar e fazer barulho. Ela sorriu! Vai ver que estou sonhando e só agora acordei!
O pasto do cavalo também estava lá, via-se o mata burro, a porteira, a cerca, e o cavalo parado, a sombra da grande aroeira vermelha.
Foi descendo devagar, o balde a dançar abaixo das mãos. Passou o mata burro, o cavalo relinchou, e ela seguiu em frente.
Olhou os arredores como se o visse pela primeira vez. As grandes árvores enfileiradas a beira do caminho, o capim roçando em seus pés descalços.
Passou pelo chiqueirão. uma espécie de chiqueiro feito por erosões. onde Hugo colocava alguns porcos para engorda.
Desceu até o rio, e ele estava lá: a pequena biquinha despejando água limpinha, como olhos a lacrimejar.
Tão lindo olhar para aquela telha que se transformava em calha, despejando água em abundância sobre um córrego feito a mão.
Abaixou ao lado dele, clocou o balde embaixo, e tão logo ele se encheu.
Depois de tirá-lo, colocou as mãos uma sobre a outra formando uma concha, tomando alguns goles.
A água tinha gosto de água, estava tão fresquinha, mas não matava sua sede.
Subiu com um certo esforço, passo a passo, como nunca havia feito, era sempre tão mais leve, e de repente tudo parecia dobrar de peso.
O balde e o seu corpo.
De repente ficou assustada, lembrou-se de que tinha se mudado, Aquele não era mais o seu lugar,
E lá de cima, ela podia ver a outra casa, do outro lado da estrada, onde ela morava agora, por isso ela não tinha visto mais suas crianças, Claro! eles já haviam crescidos!
Mas, porque ela estava ali? Não sabia responder, estava tudo tão confuso.
E a água? Que água? ela pensava: se não estou aqui, também aqui não existe água. E onde estou, afinal?
Enquanto isso Hugo cuidava de sua casinha, agora tão silenciosa, tão abandonada, pois não havia a alegria da presença de Tereza, apenas as memorias, o cheiro, as coisas. tudo em seu lugar A luminária a gaz estava acesa na sala, obra de Tereza, ela compara aquele lampião, cansada de ter que andar com a lamparina de lá para cá. Uma tristeza o assolou mais uma vez, e as lágrimas escorreram pelo seu rosto sempre tão controlado e carrancudo. Ele não percebeu as necessidades de sua esposa, fora tão egoísta, só pensara nele, nunca fez nada para facilitar a vida de sua mulher.
Mas o chorar nem era por isso, sempre seria pela própria necessidade. Quem cuidaria dele após
a morte de Tereza?
Ela ainda estava viva, ele sabia que ela estava com os dias contados, que, talvez, nem a vesse mais a caminhar pela casa, a se levantar toda manhã acendendo o fogo, a ser a última a ir para a cama e a primeira a se levantar.
As crianças cresceram, ele mesmo as convidou a sair, e agora, Tereza, a sua amada Tereza também não estava lá.
A solidão pesava em seu peito, e aquele silêncio o derrubava. Ligou o radio de pilha e uma musica sertaneja encheu o ambiente. A noite já caia de mansinho, nenhum ruido, nada, só o seu respirar e aquele som de misericórdia, A musica que Tereza gostava de cantar.
Num ímpeto de raiva e dor, desligou o radiosinho. -Quanta falta ela me faz! nem percebeu que falava em voz alta:
Mal sabia ele que Tereza em seu leito de hospital, estava tão perto dele, tentando voltar para casa!
Tereza andou pela estradinha de terra, tentando encontrar a sua casa, mas, quanto mais andava, mais longe se via.
A casa ia se distanciando cada vez mais, e ela continuava com sede, muita sede.
Foi desfalecendo aos poucos: uma moleza tomou posse do seu corpo, os pés formigavam e um sono profundo assolava a sua alma.
Até que tudo se transformou em trevas.
Acordou no dia seguinte bem disposta, e percebeu que não estava em casa. O silencio do hospital a incomodou. Não sabia dizer ao certo, quanto tempo estaria ali.
De repente duas pessoas conhecidas apareceram á sua frente, ela se virou e os reconheceu. Bom dia! o homem disse alegremente:
-Bom dia! ela respondeu a sorrir!
Era uma prima dela e seu marido que viera lhe visitar.
- Mas não é hora de visitas, falou:
-Não, não é! mas, deixaram a gente entrar.
-Que bom! sera que dá para vocês chamarem a enfermeira?
- Porque quer chamar a enfermeira, você não está passando bem?
- Imagina! muito pelo contrário, estou me sentindo ótima. eu só quero que
ela pegue a minha camisola nova que está no armário, porque hoje, eu volto para casa!
- ah é! falou o homem com uma certa surpresa na voz:- Você vai receber alta?
- Sim, hoje o Hugo vai me levar na hora da visita!
- Que bom, Tereza, ficamos felizes em saber! Disse a mulher.
A enfermeira entrou no aposento, e prontamente pegou a camisola no armário, perguntando: - É esta?
- Sm! me ajude a vestir?
- Espere um pouco!- disse a enfermeira com a voz carregada de carinho, Assim que as visitas saírem, eu te dou um banho e te visto, O.k!
-Ah! tá!
As visitas se tocaram e se despediram de Tereza.
Ao saírem, a enfermeira cumpriu o prometido, Deu-lhe um banho, ali mesmo, na cama, fez curativo
no corte da cirurgia recente, colocou a camisola nova e Tereza sorriu satisfeita e agradecida. Antes da enfermeira sair, ela perguntou as horas:
-São oito e meia!
Tereza ficou um tanto aflita, ainda faltava muito para a hora da visita, e a ansiedade já tomava conta de si.
A enfermeira a colocou deitada novamente, cobrindo-á com um lençol, e já estava saindo quando Tereza a chamou de volta:- enfermeira!
- Ela se voltou á perguntar:- Precisa de mais alguma coisa?
- Água por favor!
A enfermeira saiu e depois voltou com uma garrafinha de água colocando o frasco sobre o criado mudo, encheu um copo e deu-o á Tereza, que, quase se afogou com o liquido refrescante que descia meio lento sobre a garganta; - Parece que tenho espinho no peito!
- Deve ser por causa dos remédios, ela disse:
- Descanse um pouco, assim a hora passa mais rápido!
Tereza fechou os olhos, as pálpebras ficaram pesadas de repente, e uma moleza foi tomando conta de todo o seu corpo.
Tão logo, se viu em sua casinha. Agora estava na mesma casa em que deixara a alguns dias atrás., Estava parada diante de uma linda roseira em seu jardim. Tinha tanta disposição que chegava a dar arrepios de prazer, colocou entre os dedos um botão de rosa vermelha levando-a  até o nariz, não tinha perfume forte, apenas um aroma da beleza de se estar ali.
Voltou-se para a porta da sala, que estava entre aberta, mas, não entrou.deu meia volta seguindo até o rio.
-Que sede! pensava:
E a cada passo que se seguia, pé ante pé, descendo a escadinha esculpida na terra, ela ia olhando ao redor, sondando tudo com avide:, cada pé, cada detalhe das folhas!
Era como se renascesse, com novo interesse para as coisas, um amor supremo pela criação, uma vontade de fazer parte de tudo aquilo.
E realmente se viu em tudo.
Um pequeno lagozinho se desenhou á sua frente. dentre a mata fechada, um córrego escondido sobre densa vegetação se jogava sobre o lago esculpido a mão, numa deliciosa cumplicidade e afeição.
Derramando os excessos dentro de um cano de p.v.c. que despejava-se ribanceira abaixo, fazendo um barulho de cachoeira.
Embora Tereza já tivesse visto aquele espetáculo um milhão de vezes, ela nunca sentira tamanha emoção ao ver as pedras  nuas, lá embaixo, recebendo a atenção merecida das águas.
despiu-se dos chinelos, sentou-se a beira do lago e mergulhou nele seus pés.
Uma onda refrescante tomou conta do seu corpo, e uma paz reconfortante tomou conta de todo o seu ser. inspirou e respirou várias vezes, até não poder mais, e num ultimo  suspiro quase que inaudível
se viu fora do lugar.
A paz que sentiu a seguir, fez com que dormisse para sempre!
Hugo chegara na casa do sobrinho naquela hora, esperando que o amigo tivesse boas noticias,
A cidade em que estava era vizinha da cidade onde Tereza estava internada, ficando a aproximadamente uns vinte e sete quilômetros de distância Hugo dera o telefone do sobrinho, caso o hospital precisasse entrar em contato com ele. No sitio onde morava não havia telefone e ele nunca tivera um veículo. Então, sempre que precisava se deslocar com urgência, ou dependia da condução de vizinhos, ou recorria ao sobrinho que morava na cidade.
Estava combinado de fazer uma visita a Tereza naquele dia, então, ele chegou mais cedo, convidado para o almoço, depois o sobrinho o levaria até o hospital.
Enquanto esperavam pelo almoço, o telefone tocou. Hugo ficou sentado á mesa, enquanto seu sobrinho se levantou para atender.
Quando seu sobrinho desligou o telefone, vindo em sua direção, Hugo gelou, percebendo no rosto do amigo uma sombra de tristeza no olhar.
Não perguntou nada, apenas olhou para o sobrinho com aflição.
O sobrinho balançou a cabeça comovido com a situação e não precisou dizer mais nada. Hugo desandou a chorar convulsivamente, com as mãos  juntadas,tapando-lhe o rosto.
Não mais se falaram, apenas entraram no carro e se puseram a caminho da cidade vizinha.
Foi direto para a casa de sua filha mais velha.
Todos estavam almoçando naquela hora, por volta de meio dia e meia, quando se preparariam para visitar a mãe.
Ao ver o pai chegando, nem precisaram perguntar nada, ele chorava e dizia: - A mãe morreu!
E Tereza voltou para casa, agora seu corpo inerte jazia no centro da sala. E quem sabe, construindo o caminho de volta, desbravando como sempre!
Herta Fischer






















































































































































































































































































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