quarta-feira, 17 de maio de 2017

Mentirinha inocente

Estava aflita dentro dela, o espírito agitado como
uma mula a dar coices. Já era tarde, e pela manhã
descobrira ser fértil.
Ficara mocinha- como diria sua mãe!
Um dia, dois dias, os óvulos sendo lançados
para fora dela, numa mistura de pranto e sangue.
Tudo que ela pensava naquele momento era
que os abutres, enfim, se encaminhavam em sua direção,,
sentindo cheiro de mulher.
Seu pai a guardava á sete chaves, como se fosse a joia mais preciosa,
ela se sentia reclusa, com um pouco de raiva dele.
Mas, pai! - dizia ela: - só estou conversando!
Mas, o pai, com razão, advertia: - É com essa proximidade que tudo começa!
Agora, ela sabia bem o por quê!
O ninho estava pronto, o colaborador só precisava ser aceito. - e assim, se faz filhinhos, pensava:
Na escola já sentia o drama, quando a olhavam com um certo desejo de posse, ela fingia
que não entendia, mas, lá dentro, se arrepiava de prazer.
Era bom sentir-se desejada, só não era bom ser vista como um brinquedo, como
algo que se pode obter.
Certo dia sua mãe contou-lhe o necessário, e a partir daí, as coisas começaram a fazer sentido.
Entendia o medo de seu pai:  ser mãe naquela idade seria como abdicar de seus sonhos, e ainda mais cruel, seria ser abandonada " de barriga", por que, nunca se sabe até que ponto, o doador seja capaz de tal responsabilidade.
Quando algum rapaz se aproximava dela, ela mantinha uma certa distancia, com medo de engravidar, seria muito escandaloso para ela, se pegasse uma gravidez indesejada.
certo dia ela perguntou a sua mãe: - Mãe, estando agora fértil, seria possível engravidar com beijos?
Sua mãe deu uma gargalhada nervosa, e respondeu: - Não, minha filha, não se fica grávida com beijos!
-Então, eu já posso namorar?
-Você ainda é muito jovem- a mãe falou em tom sério:- Pode bem esperar um pouco mais!
-Sim! eu sei! mas, é que, minhas amigas já namoram, e, eu tenho uma certa curiosidade sobre os rapazes.
-Guarda essa curiosidade para a hora certa!
- Mas, quando será a hora certa, como saber?
- Não se sabe, filha, a gente só precisa tomar um certo cuidado. Não somos animais, por isso Deus nos deu inteligencia, nos programando com uma limitada liberdade.
Os animais usam seus instintos, chegando o momento, eles apenas satisfazem suas necessidades. Já nós, fomos dotados de consciência. Devemos pensar antes de tomarmos qualquer decisão, ainda mais se tratando da vida de outra pessoa.
Lembrando, que, uma vez feito, se deve cuidar, E cuidar de outra vida que não seja nossa, exige muito mais de nós.
E não se deve jogar essa responsabilidade em cima de outros.
Por isso é que tomamos tanto cuidado com você, pois, se fizer algo desse tipo sem estar preparada, sofre por dois.
A menina ficou pensativa por alguns instantes, tentando absorver tudo o que a mãe dizia, depois voltou a falar com desenvoltura. Pela primeira vez conseguira  falar sobre o assunto sem enrubescer.
- E se eu gostar de alguém?
- Se você gostar de alguém, pode até namorar, mas, namorar não significa que tenha que ir mais além.
Quer dizer: - Não significa que tenha que ter relações mais íntimas com seu namorado!
- Mas, se ele insistir!
- Ninguém pode te obrigar a fazer nada que você não queira!
-Mas, e se ele não mais me querer depois disso?
- Melhor ele não te querer agora, do que não querer depois! sinal que não te respeita, e se não te respeita agora, que dirá, depois!
- Verdade! Que bom poder contar com a Senhora.
-Pode contar comigo sempre!
E as duas se abraçaram por um longo tempo.
Os dias e passaram, todos os meses vinha  na lembrança aquela conversa, Ela se sentia bem em saber que não tinha namorado, portanto, não precisava lutar contra ela mesma,, nem contra o desejo alheio.
Tudo era paz, até aquele dia.
Sentada na praça saboreando um sorvete, distraidamente, nem viu o rapaz se aproximar, quando ouviu uma voz atrás dela, levou um susto:
-Oi! Desculpe meu atrevimento, não consegui ficar alheio á sua beleza!
-Oi! - ela respondeu: -  um tanto incomodada pela surpresa:
- Meu nome é Timóteo, e o seu?
_ Lídia, - falou quase que sussurrando:
- Lídia, que belo nome!
Ela sorriu, mostrando as carreirinhas de dentes quase perfeito, deixando o moço quase sem palavras.
Então, ele sorriu também.
-Posso me sentar?
- sim! - a palavra pulou de sua boca:
Ela se encolheu toda como se ele não pudesse lhe tocar. -  nem de leve! pensou:
E as perguntas vieram feito enxurradas; - onde você mora? estuda? quantos anos tem? mora com seus pais?
Nossa! não dava nem para respirar.
Depois de conversarem por algum tempo, entre perguntas e respostas,  trocaram números de telefones combinando de se encontrarem novamente.
Talvez um cineminha! - ele falou: - com ela concordando a sorrir.
Seu pai já estava um tanto relaxado nesta questão, e sua mãe já a deixava sair sozinha, não sem antes despejar algum conselho.
O domingo chegou!  O telefone tocou perto do meio dia, Era ele! combinando de se encontrarem ás seis,  para dar tempo de tomarem um sorvete antes do filme começar. Lá pelas dez horas e meia, seu pai a pegaria em frente ao cinema.
As dez em ponto o pai já estacionava em frente.
As dez e meia o povo começou a sair, um a um, mas, ele não via a sua filha.
Esperou mais um pouco e nada!
Entrou em desespero. Desceu do carro e foi até a bilheteria. Interpelou o moço que fazia o balanço da noite: - Já saiu todo mundo?
-Sim! O que o Senhor deseja?
Minha filha- disse ele: - com uma certa apreensão  no olhar:
-Que tem sua filha?
Gaguejou um pouco ao perguntar:- Você não á viu por aqui?
- Como posso lhe dizer, meu senhor, se não á conheço!
Passa tanta gente por aqui, só posso te garantir que já estamos fechando, não há mais ninguém lá dentro!
Ele gelou por dentro: - será que ela saiu antes, ou nem chegou a entrar e já estava em casa?
-Tudo bem, disse ao rapaz: - pode ser que já esteja em casa, obrigado e boa noite!
Saiu sem esperar pela resposta, entrou em seu carro e ligou para a esposa:-Amor, nossa filha já chegou?
- Uma voz surpresa do outro lado, quase a meia voz se ouviu: - Como assim, você não foi buscá-la?
-Sim! mas, ela não está aqui!
- Como não está ai?
- Não estando! espero a uma hora e nada, já perguntei por ela, e ninguém sabe!
- Com uma voz abafada por lágrimas a mãe concluiu:- Meu Deus, onde estará essa menina?
- Você não tem o telefone do moço? É só ligar para ele, porque já liguei no celular dela e ninguém atende!
- Nem perguntei! Disse ela em desespero: -Me preocupei em prepará-la para resguardar-se, e... Ficou em silêncio por alguns instantes, depois voltou a dizer: - preparei-á para resguardar-se e me esqueci de dizer que havia  gente má no mundo.
O pai desesperado deu algumas voltas pelo local:passando em sorveterias, bares, na praça, e sem respostas, voltou para casa!
ligaram para várias amigas, mas ninguém sabia de nada, exceto que saíra com um rapaz desconhecido.
O pai resolveu ligar para a policia, porém, o policial disse que esperassem vinte e quatro horas para receber queixa de um desaparecimento.
A noite tornou-se mais escura naquele dia. Todos, ou quase todos dormiam, porém, a mãe e o pai de Lídia não,
as horas iam passando devagar e ainda não tinham nenhuma noticia da filha, nem um telefonema, nem nada!
Lá pelas tantas da madrugada, o telefone tocou, a mãe de Lídia correu para atender. Lá do fundo se ouviu uma voz abafada e chorosa falando: - Mãe? estou bem! E.. tum tum, caiu a linha, e um silêncio profundo caiu pela sala adentro, onde um par de olhos brilhantes e aflito clamava por respostas.
O pai de Lídia interpelou a mãe com um aceno de braço:- E ai?
- Nada- ela disse: -Só ouvi a palavra, mãe, estou bem!
Enquanto isso, Lídia se lembrava do acontecido.
Estava feliz demais sentada na praça com seu amado, quando ele pediu que entrasse em seu carro, para que chegassem mais perto do cinema. Sem nenhuma duvida, ela entrou e colocou o cinto, enquanto o rapaz fazia o mesmo.
 Timóteo ligou o carro, e o colocou em movimento. Conversavam alegremente, embora ela ainda estivesse um tanto constrangida diante da presença sensual daquele rapaz.
Nem percebeu que tomavam um outro caminho, indo em direção contraria do destino prometido.
As luzes da cidade iam ficando para trás, foi quando, num estalo ela lhe perguntou se não tinha errado o caminho.
Ele, por sua vez, tentou lhe passar segurança falando com um certo nervosismo na voz: - Sim, estou errando de propósito, vou te levar á um lugar mágico! - depois ficou quieto.
Ela se encolheu toda, esperando pelo pior. Não conhecia aquele homem; não sabia quem era, onde morava, nada!
- Lembrou-se do que sua mãe dizia quando criança:- Jamais entre num carro com um desconhecido!
Gelou por dentro e pensou no que fazer.
Resolveu fazer de conta que estava relaxada: e continuou conversando sem demonstrar o medo que sentia.
Enquanto ele dirigia, ele  falava que ela ia gostar do local para onde á levava, e quanto mais ele falava, mais amedrontada ela ficava.
Até que, depois de uma curva ele foi pisando no freio, fazendo menção de parar o veículo, ela colocou a mão no trinco, e tão logo o carro parou, ela abriu a porta, se jogou para fora, saindo em disparada.
Ouviu um chamado, mas nem olhou para trás, estava escuro, e logo que passou a curva, antes mesmo que ele pudesse se lançar atrás dela, ela se embrenhou na mata densa!
Se escondeu atrás de uma moita e lá ficou.
Viu o carro passar por lá por várias vezes até que não mais ouviu nenhum barulho, só então, usou o celular, ligando para casa, mas, a bateria estava quase descarregada, e só conseguiu falar algumas palavras.
Pensava em desespero:- como podia um encontro romântico e inocente se transformar naquele pesadelo.
Sentia frio e desconforto, mas, de lá, não arredou pé, até o dia seguinte.Enquanto seus pais desesperados continuavam á sua procura.
Timóteo chegou em sua casa, depois de procurá-la pela estrada por longas horas, desanimado e desentendido, entrou pela porta adentro. foi para seu quarto e não conseguia dormir. Se pelo menos soubesse o endereço da garota, pensava ele:
Sentindo-se culpado pela mentirinha deslavada. Deveria ter ido ao cinema, e se preservado de tal circunstância. Não conseguindo dormir, levantou-se pela manhã, contou o ocorrido aos pais e foram para a delegacia.
Mas, o policial que lá estava não deu a minima, quase que rindo da situação falou que não podia fazer nada, não até que alguém aparecesse para dar queixa:- Deixa para lá. ele disse: - A menina já deve estar em casa numa hora dessas, deve estar dormindo em sua caminha quentinha. É o que também deveria fazer!
As cinco horas da manhã, o pai de Lídia chamou um policial amigo dele e comentou o desaparecimento da menina. e ambos saíram para tentar achá-la em algum lugar. Enquanto sua mãe em desespero ficou orando em casa.
Quase que varreram a cidade de ponta a ponta, mas, era como procurar uma agulha num palheiro. Desistindo de procurar, voltaram para casa.
O policial aconselhou-os a esperar até anoite, prometendo que, se ela não aparecesse, eles fossem até a delegacia fazer queixa de desaparecimento.
A mãe de Lídia se queixou da forma com que a policia via o caso, dizendo que, em vinte e quatro horas muita coisa podia acontecer:
- É de praxe - disse o amigo!
Dez horas da manhã, um carro parou em frente a casa. Quatro pessoas desceram, entre eles estava Lídia, descabelada e branca como cera.
Quando encontrou a mãe na sacada, ela a abraçou e desatou a chorar, pondo para fora a emoção contida.
Desculpe! - ela falou em pranto:- eu me equivoquei!
- Como assim: - se equivocou? - E quem são essas pessoas?
Só então ela percebeu as três pessoas olhando para ela; - São os pais do Timóteo!
-Timóteo? - então você dormiu com ele?
- Não! - ela respondeu com surpresa na voz: - Como pode pensar isto de mim?
- Então, me conte, que não estou entendendo nada!- Onde você passou a noite? quase morremos de preocupação!
O rapaz se aproximou meio sem jeito e entrou na conversa: Quer que eu conte? ele perguntou a ela:-  Não!- ela respondeu de pronto:- pode deixar que eu conto!
Mãe, me desculpe mais uma vez. Ontem, assim que encontrei Timóteo na praça, ele me convidou a ir de carro até mais perto do cinema, mas, ao invés de me levar até lá, ele tomou outro caminho, segundo sei agora, ele queria me fazer uma surpresa de primeiro encontro, Você conhece o bairro Campininha?  -pois bem, lá estava rolando um evento, e foi para la´que ele queria me levar. Só que, como era surpresa, ele não me disse nada, e eu também não preguntei. Mas, quando percebi que o caminho que ele fazia era outro, entrei em pânico. Lembra-se quando você  me dizia para tomar cuidado com quem andava, de como é perigoso entrar no carro de um desconhecido?
Tudo isso me passou pela mente, e sem que Timóteo pudesse desconfiar dos meus planos, porque eu desconfiei dos dele, eu fiquei em estado de alerta. Assim que ele diminuiu a velocidade, parecendo que ia parar, eu coloquei a mão no trinco da porta do carro, e assim que ele parou, Agora já sei por quê, pois ele me contou que se arrependeu, ia dar meia volta  e trazer-me para a cidade. Então, aproveitando esse momento eu pulei do carro. E sai correndo, entrando na mata e por lá ficando até o amanhecer.
Hoje pela manhã, ele, o pai e a mãe saíram á me procurar. e  me encontraram saindo da mata. E assim que tudo ficou esclarecido, eles me trouxeram de volta.
Foi tudo um equivoco, e  eu estou muito envergonhada disto!
Mas, para sua surpresa, os pais de Timóteo entraram na conversa:- Não minha filha!- não tem do que se envergonhar. Você agiu certo, E se ele estivesse com más intenções? - O erro foi dele, em falar que te levaria no cinema e fazer outros planos sem te consultar, por isso, nós te pedimos perdão!
Olhando para o filho com um certo ar de repreensão o chamaram: - acho que você deve desculpas a ela e aos pais dela, pela confusão e transtorno que causou, não é meu rapaz?
-- Sim meu pai, eu devo mais que desculpas:- eu sinto muito, mais muito mesmo o ocorrido, que isto me sirva de lição.
A mãe de Lídia convidou-os á entrar para tomarem café juntos, pois, todos estavam precisando. Assim que ligou para o pai de Lídia, ele veio correndo até sua casa, tudo ficou as claras.
As duas famílias acabaram se tornando bons amigos e Lídia continuou namorando Timóteo, agora, sem reservas, agora que já se tornaram mais que conhecidos, quando lembram do acontecido, dão muitas gargalhadas, lembrando do quanto pode causar danos uma simples mentirinha de adolescente!
 Herta Fischer






































































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