Desde a minha infância eu já sabia que era diferente. Não me sentia especial, apenas diferente. Nunca olhei para frente, nem procurei andar pela melhor estrada, tampouco escolhi caminhos. Fui colhendo flores, pisando em espinhos, enquanto Deus cuidava da sola dos meus pés. Percebia a diferença de padrões entre as pessoas, mas nunca parei para pensar nos porquês. Ia e vinha conforme a maré da vida me levava: ora intensa e forte, ora vazia e fraca. Caminhava com certo medo, e diante de acontecimentos inéditos meus sentimentos mudavam de lugar. Na alegria, colhia; na tristeza, plantava. Aprendi que tudo faz parte: a seca, a chuva, os ventos fortes, a neblina, a escassez, a fartura — tudo dependia do tempo. Assim, também, me entreguei a seus braços, como quem confia. Sabia que, mesmo quando minha história mergulhava em densa neblina, fora do alcance dos meus olhos, ainda havia caminhos. Sempre há. Embora às vezes pareça apenas uma imagem quase se apagando, ainda é possível ver algo prestes a se revelar. E assim caminhei, à margem, buscando o que ainda me esperava, esperando pelo que não via. Sempre achei que os sentidos nos fazem cometer enganos; a sensualidade é um ego forte, capaz de trazer torturas à alma. Vive-se melhor quando deixamos a sensualidade falar menos. O que mais importa é o momento em que o pé toca o chão; o próximo passo é só suposição. Como na escrita, nunca sabemos o que virá, mas sabemos que a mente produz abundantemente e que, de alguma forma, haverá continuação. Mesmo que coloquemos um ponto final, a história só termina quando não houver mais memória. E assim continuei, esperando pela próxima oportunidade. Um fim abria espaço para novas conquistas, novos conhecimentos, novos horizontes a se desenhar. Eu aproveitava os momentos. Tive medo dos resultados, não nego, mas esse medo me fez mais forte, me levando a ponderar bem o que fazia para não carregar pesos desnecessários.
Herta Fischer.
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Eco do fim
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