Total de visualizações de página

Mantendo o desejo de viver

Já é tarde, quase suave e aberta, e as manhãs se deixaram levar. Meus olhos deram vida, emprestando seu brilho ao meu coração. Apagou-se tod...

sábado, 28 de março de 2026

Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o carinho, o resto fica sozinho, enquanto uma onda de melancolia balança as cortinas. Falar do quê? Dos homens no bar, procurando alegria num copo. Da mulher que busca afeto na academia ou nos produtos de beleza? É isso que sobrou da humanidade? Que fúria é essa, em que nada se entende, nada se sabe, e nem se tenta compreender? Será que se sabe e mesmo assim não se busca? Os homens viraram armas contra si mesmos, um cano e dois caminhos. O outro vale tão pouco? Ah, vamos nos amar — será que quem se ama também ama os outros? No púlpito, só cabe um.

              

segunda-feira, 23 de março de 2026

Trancas nas portas


Hoje parece um peso insuportável, sem a leveza de antes. Embora o passado fosse trabalhoso, cansativo e árduo, havia caminhos abertos e mais ânimo para o dia seguinte.


O ar carrega um silêncio que quase me quebra, uma aura escura envolve a terra, como se Deus tivesse nos deixado à mercê de algo que nos separa.


Não posso dizer que a culpa seja da tecnologia ou dos homens, há algo muito mais profundo à espreita, como se a própria vida já não fizesse parte de nós. Houve uma separação quase imperceptível, que nos arrasta até a beira do precipício, olhando uns para os outros lá de cima, mesmo estando todos no mesmo lugar.


Cada ser vive em sua redoma, cercado pelas mentiras diárias e alimentado por pretensão. Crescem entre espinhos e florescem apenas para si, como tubérculos enterrados no fundo, exibindo folhas inúteis.


Se voltarmos, se mexermos e remexermos, talvez nos reencontremos naquele estado de lucidez que há muito deixamos para trás.


Vou embora daqui a pouco, já me preparei para isso, mas sinto que parto entristecida por deixar tanta gente mergulhada em confusão.

Herta Fischer


segunda-feira, 9 de março de 2026

O equilíbrio no viver

Me transformei em um personagem criado por mim. Abrir passagens quase sempre me desafia; ser quem sou ou me fazer ser é bem mais fácil. É preciso se esmiuçar para pertencer? A vida é vencer ou morrer, e prefiro vencê-la a entregá-la à morte de mim mesmo. Parece claro que todos vivem e se alegram, mas a alegria de estar sem realmente estar é mínima. Que todos se regozijem em minha passagem, pois de que valeria a alegria sem compartilhamento? Lembro-me da senhora que viveu e morreu em sua obra mais preciosa, desvendando o prazer no amor, sem abdicar de ser e viver. Viveu, se entregou, se transformou, e mesmo assim levou o que era seu e deixou o que não era. Talvez tenha transgredido ensinamentos em busca de facilidade, mas que felicidade não tive. De que adianta a felicidade sem paz? Não é a mudança que nos muda, mas sim nós que devemos mudar de acordo com as mudanças.

Herta Fischer