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Entre buracos

Certa vez olhei para o céu e vi detalhes por toda parte. O dia iluminava meu semblante, levando meu olhar. Com a chegada da noite, me perdia...

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre buracos

Certa vez olhei para o céu e vi detalhes por toda parte. O dia iluminava meu semblante, levando meu olhar. Com a chegada da noite, me perdia no horizonte, como cinzas levadas pelo vento, negando-me à luz do sol e recriando-me na sombra do luar. Foi então que me apaixonei pela vida. Tudo se resumia em luz e sombra. Eu, também um pouco sombra, me escondia em mim mesma, como gato sem rumo à procura de telhado, e às vezes tudo virava ilusão. Era como sonhar com asas e dragões. Pertencia e ao mesmo tempo não pertencia a nada. Recebia direções que nem quem as dava conhecia, e preparavam meus pés para sapatos que não me serviam. Como nuvens aprendem o caminho das águas, em que mar velejam? Eu sabia que estava viva, que dias e noites me transformavam, mas lá dentro, na origem de mim, quem me guiaria? Sentia-me como uma planta, plantada meio à deriva, com cuidados especiais. Tinha teto, afeto, era envolta por essa fragrância, mas também precisava ser regada e podada para crescer. Como nuvens que aprenderam a velejar, aprendi o caminho de mim.  Ainda que insistisse, nada seria a meu gosto, qualquer caminho se tornava apenas caminho. Tudo em mim, se fazia em mim e fora de mim, nada havia. 

Minha memória dá voltas e sempre retorna para onde não posso estar. O que antes era rico, agora empobrece; as riquezas que antes se derramavam sobre mim, com abundância de poder, hoje me podam. Não consigo mais seguir em frente! Minhas estradas me engoliram, não contam suas histórias e nem lembram das minhas, me atravessam como punhais de melancolia e descaso, me empurrando para baixo da casca, de onde não consigo sair, obrigando-me a avançar sem vontade. 



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