Lá estava eu, entre lençóis amarrotados, deitada sobre um colchão velho, estendido no ladrilho da sala. Sentia um vazio dentro de mim, tão grande quanto o dos quatro cômodos que formavam a casa. Cheguei do trabalho cansada e com fome, sem ninguém para me esperar, apenas a presença solitária de um minúsculo rádio de pilha me fazendo companhia. Tocava uma música serena, que falava de amor e me enchia de nostalgia. Eu era completamente só, embora fizesse parte de uma grande família. Meu pai havia acabado de comprar aquela casinha, dividida em duas, parede com parede. Minha irmã mais velha, o marido e a filha moravam do lado esquerdo, enquanto eu, por força maior, fiquei no lado direito, apenas para ter onde dormir. Não havia móveis nem nada, só paredes e janelas quebradas.
Eu sonhava com um amor que, pelo menos, me arrancasse daquela solidão insuportável que tomava minhas noites, quando uma nuvem negra de tristeza completa caía sobre mim. Sentia-me como um pequeno barco à deriva, num mar imenso de incertezas e desalento. Durante o dia, distraía-me no trabalho, mesmo sendo duro no chão de fábrica, sugando tanta energia que, ao chegar naquela casa que nada tinha de lar, eu me jogava no colchão e, para esquecer a fome, me entregava aos sonhos mais loucos. Muitas vezes, quando a música falava de amor, eu me deixava levar, vivendo a letra como se fosse minha. Minha realidade não tinha nada de felicidade, era totalmente carente de sentimentos, e a única forma de sobreviver era me identificar com a dor — quanto mais doía, mais eu me entregava a ela, como se fosse meu porto seguro.
Chorava tanto que meus soluços me sufocavam e meu peito parecia explodir. Buscava amor em lugares e pessoas desconhecidas, já que minha família parecia não se importar. Sempre precisei muito de carinho e vivi à sombra, dando muito de mim e recebendo apenas migalhas. Talvez pela forma como fui criada e pelo jeito reservado dos meus pais, que nunca demonstravam preocupações com os filhos. Como patinhos abandonados, eu e minhas irmãs vagávamos pelas margens da vida, catando pequenas oportunidades para sobreviver. Saí de casa aos quatorze anos e passei a vagar, trabalhando aqui e ali, morando em pensões e, muitas vezes, sem ter o que comer. Meu pai, descendente de alemão, casou-se cedo, e minha mãe tinha apenas dezesseis anos. As obrigações de dona de casa e mãe de cinco filhos a desgastaram tanto que adoeceu. Quando meu pai achou que já tínhamos idade para nos virar sozinhos, simplesmente nos descartou, como quem se livra de um peso. Cada um seguiu seu caminho, e duas de minhas irmãs se casaram para fugir da situação. Eu, mais jovem, jamais encostaria em alguém ou usaria outra pessoa como apoio; modéstia à parte, era mais inteligente que isso. Trabalhava, muitas vezes como uma escrava, mas pelo menos tinha onde comer. Com pouca escolaridade, mas muita necessidade de trabalhar, consegui emprego de garçonete, morando nos fundos da lanchonete, entre garrafas vazias e solidão.
Assim se passaram dois anos, até que consegui emprego numa fábrica, e as coisas começaram a melhorar. Morei com uma boa família por esse tempo, foram gentis comigo, mas eu precisava de um lugar só meu, para não depender tanto dos outros, pois sempre me senti uma intrusa. Foi então que, milagrosamente, meu pai comprou uma casa e, como não havia quem cuidasse dela, ofereceu-a à minha irmã mais velha. Como era grande, antes que fosse alugada, mudei-me para lá, sabendo que em algum momento teria que sair. Mas à noite tudo virava um tormento: fantasmas me cercavam como mariposas atrás de luz, quase me reduzindo a nada. Quando o dia se despedia e a noite surgia para me lembrar das dores e aterrorizar meus olhos cansados, eu ficava paralisada pelo medo. Um medo inventado, alimentado pela minha mente cruel, que dava vida a tudo ao meu redor. Eu e o mundo parecíamos ser um só. As paredes se moviam, as janelas fervilhavam de seres estranhos que, por entre os vidros quebrados, se espremiam e me atacavam de forma tão real. Eu fechava os olhos com tanta força que minhas pálpebras ardiam, enquanto os sons que eles bramiam me enlouqueciam. Talvez fossem ecos daquilo que faltava na minha vida: já apagados, o som da voz da minha mãe me acariciando, o do meu pai me apoiando e o dos meus irmãos, distante, embora próximo, ausente pelas suas próprias preocupações.
As pessoas acabam esquecendo de tudo quando estão tão presas às próprias conquistas. Comigo não foi diferente; já se foram os anos em que havia alguma conexão. Quando ainda sonhávamos juntos, a família unida num mesmo pensamento e propósito, cantávamos a mesma canção. Agora, o mundo nos colocou em posições distintas e, infelizmente, competíamos uns contra os outros para ver quem se sairia melhor na vida. E eu perdia. Sempre perdi, desde criança, por ser menor, por não ter a mesma força para disputar. Preferia perder a ver nos olhos deles a decepção. Agora, trancada neste quarto, espero ansiosa pela luz do dia, quando todos os fantasmas se recolhem na noite e não voltam a sair. Não posso contar com ninguém. O tempo, que nos escapa e nos comanda, acaba por nos transformar em seres errantes e completamente sós. No trabalho, até me divertia, e todos os pesadelos ficavam para trás, guardados na memória, mas ganhavam força ao anoitecer. Rezava para que o dia nunca acabasse e eu não precisasse atravessar aquela porta novamente. Mas o que fazer? Não sou dona do tempo, nem de mim. Assim que me deitava no chão frio, a fantasia tomava conta. Quando todos os sons da rua se calavam e todos pareciam dormir, eu tentava desesperadamente sair de mim — e quanto mais queria, menos conseguia.
Os olhos pareciam pesados demais para relaxar, o corpo leve demais para se deitar, e na minha imaginação eu podia voar, mas raramente me sentia tranquila nesses voos. Não havia paz. Pensava nas almas penadas, como se todas estivessem ali, me cercando, querendo me levar. Não havia abrigo que as mantivesse longe; atravessavam paredes e, mesmo que não pudessem, minhas janelas continuavam abertas. Deixava o rádio ligado e via morcegos dançando ao som de cada música, mesmo de olhos fechados, continuavam me assombrando. Às vezes, sentia um peso no estômago, os braços pesavam uma tonelada, e ao tentar me mexer, não conseguia. Isso durou quatro longos anos, mesmo quando me mudei para um quartinho nos fundos, depois que meu pai alugou a casa. Achei que tudo mudaria, afinal, cercada por quatro paredes, me sentia mais segura. Comprei um fogão, um guarda-roupa e uma cama de solteiro, preenchi o cômodo para que coubessem menos fantasmas. Mas nada adiantou. Era como dormir sobre uma lápide fria, e os túmulos me assombravam, quase me levando à loucura. Aos poucos, fui me rendendo ao medo até descobrir que eles estavam dentro de mim; o que me assombrava não existia de fato. Eu os criava, e tomavam forma porque eu acreditava que eram reais. Ao me sentir desprotegida e acreditar que ninguém me amava, criei dentro de mim aqueles seres que representavam o que eu sentia: completo abandono. Comecei então a afastar os pensamentos negativos e a pensar na luz, relaxando como uma criança no colo da mãe, e assim, dormir ficou cada vez mais fácil. Não digo que não tenha entrado em depressão, pois para alcançar a claridade das coisas, antes precisei conhecer a escuridão que me dominou.
A escuridão dentro de mim era imensa, e precisei buscar forças fora para entender, enfim, que eu mesma era responsável pelas minhas noites mal dormidas. Levou quase um ano para fazer aquela faxina: retirei todos os resquícios da mágoa que sentia em relação à minha família, comecei um curso sobre alegria, aprendendo a senti-la por mim mesma, sem depender que outro a semeasse. Passei a acreditar mais em mim. Também coloquei na cabeça que tudo o que eu via na luz era exatamente o que existia no escuro; andava apalpando cada coisa, cada móvel, e não tropeçava em nada que não estivesse ali materialmente. Então, como mágica, minha mente foi voltando ao normal. Os pesadelos diminuíam a cada noite até sumirem por completo. Mesmo quando assisto a algum filme de terror, só me arrancam sorrisos; nada mais me faz arrepiar. Não me sinto abandonada: meus pais apenas me deixaram ir para que eu pudesse escrever a minha própria história; meus irmãos, igualmente, seguiram suas vidas, apenas não podiam me incluir nelas. O passado, já tão distante, não me traz nenhum terror, apenas lembranças de quando eu estava enterrada viva num caixão de fanatismo — fanatismo pela autopiedade. Me tornei uma pessoa muito mais forte, capaz de transmitir tanta experiência aos meus filhos que eles até me chamam de ninja!
Herta Fischer (Hertinha)
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Eco do fim
Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
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