Era fim de tarde, o sol se aninhava no horizonte, espalhando feixes de luz entre as bananeiras. Eu e meu irmão caçávamos tralhas, prontos para construir algo para brincar. Na roça, não tínhamos muito com o que nos divertir, a não ser o que inventávamos com criatividade. Meu irmão gritou entre as folhas: – Achei umas molas de colchão velho, dá para fingir que é acelerador de carro! Assim, o rumo da brincadeira estava definido. Entre um feixe de pés de bananeira sempre havia um vão, largo o suficiente para ser nosso carro. Encontrei uma tábua que encaixei entre dois troncos, e aquele seria o banco. Meu irmão achou a tampa de uma panela e um tronco reto; furamos a tampa no centro e a colocamos na ponta do tronco. Do lado oposto ao banco, ele fixou o tronco um pouco acima do pé da bananeira, na altura e inclinação perfeitas. As molas foram colocadas no rodapé. – Yuipi! Perfeito! – dizia ele. Eu me sentei no banco, girando a tampa de um lado para o outro, enquanto acelerava com o pé. Meu irmão esperava do lado de fora, enquanto eu fazia o som do motor com a boca: Vrummmmmmmmm. Depois de um tempo, pisava em outra mola, fingindo frear, e puxava uma alavanca à direita como se abrisse a porta do ônibus, até meu irmão entrar com cara de bobo e me entregar algumas folhas como se fossem dinheiro. Eu pegava o troco numa pequena lata, entregava para ele, e ele se sentava ao meu lado. De vez em quando, trocávamos de lugar, passando de motorista a passageiro e vice-versa. A brincadeira seguia até escurecer, quando ouvíamos nossa mãe chamar para o jantar.
Escureceu e já não dava mais para brincar nas bananeiras, então pegamos uma lamparina a querosene e colocamos no meio do terreiro, um chão batido sem cobertura. Nosso terreiro era grande, cercava toda a casa e a frente, subindo por entre os canteiros de bananeiras que se estendiam dos dois lados até chegar a outro terreiro mais acima, onde ficava o paiol. Nossa casa era pequena e simples, mas muito bonita, rodeada de árvores frutíferas e pelo corredor de bananeiras que a deixava ainda mais charmosa. Voltando à brincadeira: colocamos a lamparina acesa no centro e sua luz atraía vaga-lumes. Às vezes vinham uns enormes, que derrubávamos e colocávamos num recipiente fechado para não fugirem. Quando já tínhamos vários, começava a parte mais divertida: pegávamos um lençol velho, jogávamos sobre a cabeça, segurávamos com as mãos e soltávamos os bichos. Que maravilha! Parecia uma cidade, e na nossa imaginação os vaga-lumes eram carros passando pelas ruas com faróis acesos. Mas, como tudo que é bom dura pouco, minha mãe veio encerrar a brincadeira, chamando todos para dormir. Ela apagou as lamparinas e eu fiquei de olhos fechados, com medo da escuridão completa que tomou conta de tudo.
Era madrugada quando bateu uma vontade de fazer xixi. Minhas irmãs roncavam e eu, com medo de acordá-las, já que sempre ficavam irritadas, tentei voltar a dormir. Acabei sonhando que estava lá fora, entre as folhagens, agachada, sentindo um alívio enorme ao esvaziar a bexiga. Mas, ao acordar, estava toda molhada, da cabeça aos pés, e fiquei quietinha, imóvel, sabendo que a luz do dia me traria problemas. Achando-me esperta, esperei minhas irmãs se levantarem, saí da cama e a arrumei com muito cuidado. Fui para a cozinha com cara de inocente, mas não demorou para minha mãe descobrir. Entrou dizendo: “Ah, ah! Aí está você, sua danadinha, achou que eu não ia perceber? Desde quando arruma a cama?”. Encolhi-me, sem dizer nada, e fui saindo de fininho como um cachorrinho, fingindo que não entendi. No fim, tudo acabou bem, afinal, quem nunca fez xixi na cama que atire a primeira pedra.
(Hertinha)
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Eco do fim
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
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