quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Dona de mim (continuação) cap. 2

Tão dona de mim. Tão dona de nada.Trago sonhos,
faço entregas , mas, o bem, nunca será aceito em sua totalidade,
porque traz em seu leito, renúncias.
Voltei-me novamente ao tempo presente, que de presente, me concede todos
os dias, amargor. Não é um amargo feroz, é tão manso que me deixa afagá-lo,
que me faz sorrir, pois sorriso eu tenho de sobra, mesmo que toda luz se apague, mesmo
que fique cega pela adaptação de quem não precisa mais da luz, mesmo assim, o sorriso
me é fiel, estará caminhando a meu lado como o melhor amigo que já conheci.
Eu nasci forte, diz minha mãe que nasci tão forte, que nem cabia mais em sua barriga, que o caminho que fiz para chegar, era pequeno demais, que tiveram que rasgá-lo.
Eu me enchi de coragem, atravessei lentamente por aquele caminho sofrido, humildemente avancei
sem me preocupar com as dores. e me fiz como um dia feliz. Nunca mais o abandonei.
Estava eu ainda pequena, nenhum entendimento me consolava, me tornava conhecida das coisas, e as coisas de mim, faziam parte. dançavam a minha frente, exibiam-se como bailarinas no palco,  e
me deixavam alucinada pela forma que despertavam meu interesse, ensinando-me a curiosidade.
A curiosidade me fazia cocegas, como uma irmã brincalhona, e as coisas se colocavam como fábulas contadas, com verdadeiro ensejo de serem descobertas e sentidas pelo meu desejo de tocá-las.
Aquele era o meu tempo, colado em mim como uma lesma em seu caracol, pelas suas mãos fortes me levava como background do meu viver.
Não existia mundo além de mim, não existia mal algum que me vigiasse, não havia dores, nem  misérias, embora estivesse cercada dela.
Era rodeada pela falta de conforto, mas não sentia desconforto, era tudo que eu conhecia, então, o que estava além, não existia.
A roupa velha que me vestia, tinha apenas a finalidade de me cobrir a nudez, pouco importava o seu estado, pouco importava os olhos que me vissem e me condenassem por ser maltrapilha e indecorosa
aquela forma de ser.
Alguém me assistia naquele singelo lugar. Uma casinha pequena que não perturbavam meus grandes sonhos. Acolhia-os. Eram grandes e tão pequenos, que cabiam em qualquer canto.
Se  a minha casinha era tão pequena e nela cabiam meus grandes sonhos, quão grande seria essa casinha, embora pequena, era maior que tudo o que eu sonhava.
Porque meu espaço era o meu mundo, e o meu pequeno mundo tão grande para mim.
Me sentia no paraíso. e o paraíso continha uma família da qual eu fazia parte, que de parte eu ficava
por ter sonhos demais.
Eu me sentia um pássaro sem asas a explorar a grande mata, a catar sementinhas, para criar minhas fantasias que eram muitas.
Todas as horas se me abriam os biquinhos, famintos de novidades, e eu os alimentava com minha
amiga esperteza.
Fui crescendo entre os braços do tempo, e minha curiosidade aumentava enquanto o relógio marcava suas horas sem cessar. Me dizia assim bem manso: sua hora vai chegar.
-Que horas, eu pensava: - todas as horas são minhas!
Nesse balanço enfadonho do vai e vem e vem e vai, para mim era só brincadeira de existir.
Até que comecei a sentir desconforto em não saber. Olhava para os outros, eles sabiam tudo de tudo, e eu,  uma simples criança perdida nas manhãs dos meus devaneios.
Tudo era manhã, não existia noite, nem tarde, nem dia, era a mesma coisa em todo lugar, apenas manhãs brincalhonas.
Eu precisava avançar, eu tinha sede de saber, queria seriedade, queria participar do mundo, não só daquele que criara com tanta afeição, eu precisava descobrir se havia vida em outros lugares. Já era tempo de dar a luz novamente, desta vez um pouco mais ousada eu seria.
Uma escolinha havia em algum lugar que eu desconhecia, eu sabia que estava lá, pois via meus irmãos saírem sorrindo, acompanhados de suas mochilas, que carregavam lápis, borrachas, cadernos
tudo tão organizadinhos que me traziam surpresa no olhar.
Eu os via saindo, e ficava carrancuda, porque eu também não poderia ir?
Meu pai, não raramente, me pegava tentando escrever. Ficava me fitando com orgulho e satisfação. Ele não sabia escrever, a oportunidade de alfabetização não lhe bateu a porta, a necessidade do trabalho foi mais urgente..
Num certo dia eu brincava de menina, meu sonhos estavam comigo.- numa ladeira de esperança, eu
empurrava uma vontade de ler e expandir o meu universo, queria-o um pouco mais aberto queria-o aos meus pés.  Precisava ser dona de mim.
Com apenas seis anos de idade, meu pai me disse que  eu ainda era tão jovem, eu tinha que esperar por mais um ano para poder iniciar a carreira de estudante. Ah! mas eu não podia esperar!
Sinceramente, acho que no céu eu tinha amigos, pois meu pai tão arrogante, só fazia a sua vontade, enfim, resolveu me matricular.
E eu fui, tão pequenina, sozinha no estradão empoeirado, como a rainha de sabá cantando a sua vitória, falando com minha mochila que mais parecia um bocó. Olha para mim, eu dizia:  Você carrega os meus sonhos, tenha cuidado, em você está meus lápis, meu caderno e minha borracha.
Comigo vai a vontade de estudar. delas eu tiro coragem para crescer.
E minhas mãozinhas frias e desengonçadas entrelaçaram felizes quando enfim eu fui aceita na escolinha encantada.
Timidamente cheguei no dia seguinte com uma alegria contagiante, acompanhada de um certo medo. tudo me parecia irreal.
Uma escolinha toda pintada de branco, a minha cor preferida, depois da cor azul. Um banheirinho do lado de fora. Com telhadinho e tudo. Lá dentro um piso feito de madeira com um largo furo no meio, Para mim, tinha cheiro de escola. Muito sofisticado para o meu gosto que só conhecia o ínfimo das coisas.
Entrei:  havia muitas cadeiras pedintes, pediam que as usasse, e uma delas me cativou. A primeira da fileira me pareceu mais interessante. Atendiam pelo nome de Carteiras, Basicamente: um banco de dois lugares, Onde se encaixavam uma bancada com compartimento para guardar pertences,
A filha da professora seria minha parceira, E, eu, quase morria de vergonha ao me deparar com tamanha beleza e sofisticação.
Me sentia como um ovinho de codorna em comparação com um ovo de avestruz. Mas, para minha surpresa, não tinha nada que a desabonasse. Muito pelo contrário:  era bondosa e companheira.
Tanto, que, depois da aula, a professora me convidava para tomar chá com elas.  Nossa escola. A escola do meu mundinho, era muito distante da cidade, obrigando, assim, que a professora morasse nela. Então, como tinha que se ausentar de sua casa na cidade por cinco dias na semana, ela trouxe sua filha para lhe fazer companhia, assim, poderia estudar também.
E nós nos tornamos boas amigas. Marta era seu nome.
Logo nos primeiros momentos, quando meus sonhos gritavam, minha professora tomava a minha mão entre a a dela, e me ajudava a fazer os primeiros rabiscos.
Tão logo comecei a escrever sozinha. tão logo meus talentos se afloraram.
Conheci o outro lado da moeda. De um pequeno mundo composto de sete pessoas á uma classe cheia de gente. E quando tinha que voltar para casa, alguns moleques me bolinavam, obrigando-me a conhecer malandragem.
Perto da escola havia um barranco como trincheiras de guerra, entravam lá para jogar pedras no teto da escola, e me obrigavam a entrar com eles. E com medo de sofrer violência pela desobediência, eu tinha que fazer o mesmo que eles faziam.
Eu acabei contando para a professora, e ela, tão bondosa, me segurava na classe até que todos iam embora. Assim, me livrei de muitas dores.
Tantos anos se passaram, e me levaram com ele, como o vento e sua andorinha plainando no conforto
um do outro.
Eu e o tempo, sonhos roubados, foi tudo em vão.
Tão logo me encontrei com as letras, tão logo as conheci, tão logo as abandonei. Meu mundo de palavras ainda me foram poucos. Assim como aconteceu com meu pai e minha mãe, eu tive que parar com os estudos, tinha urgência em aprender outras coisas. Estudar não enche barriga.
Fui para a roça, talvez, com menos alegria, mas, com muita coragem.
Peguei no cabo da enxada, tão pesada e tão malandra, não fazia nenhuma força, só deixava se levar pela minha.
Tudo passou. Depois de tudo, Fui indo, fui voltando. As experiências foram tantas, Voltei a estudar, e conclui o segundo grau, aprendi um pouco mais. E agora, estou aqui, como quem faz alguma coisa que gosta. Tão pouco, mas tão muito para mim.  Assim, como minha casinha pequeninha que guardavam  meus sonhos grandes, Meus sonhos ainda encontram algum espaço para crescer.
Herta Fischer (hertinha)