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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sexta-feira, 14 de março de 2025

Revelando-me como pessoa

Já se iam as longas horas, 


que delongas me contaram.  

As colinas cansadas inclinavam-se, suavemente,  

sobre uma superfície montanhosa.  

Enquanto meu semblante se rejuvenescia,  

na altivez do pensar.  

Nunca me sentia maior, nem melhor,  

apenas uma miudeza sem igual,  

como as asas de um gafanhoto,  

sustentava-me no alto.  

Fui crescendo entre meio,  

sem saber, ao certo, se realmente era.  

Tudo me parecia grande demais, impenetrável demais,  

para que pudesse fazer parte.  

Foi aí que me engrenei em mim, fui adentrando  

na sutileza do eu, quase em murmúrio,  

para que eu mesma pudesse me escutar.  

E ouvi meu próprio falar como os surdos  

ouvem seus grunhidos e os compreendem.  

Atentei para a descoberta silenciosa de  

poder, sem que soubessem que sabia.  

E a poesia voou para dentro, e se propôs  

a falar para fora, jorrando-me para a  

completude da vida plena.  

Ouvindo-me e relatando-me.  


Hertinha Fischer.

quinta-feira, 13 de março de 2025

"Heimatlos

Onde eu estava?


Não sei!

Ainda não sei se estou,

sou apenas uma energia que

se perdeu entre outras que

foram surgindo.

Tentei emergir lá do fundo

do oceano da vida,

e só encontrei, na superfície,

uma forma de me afogar.

Só dependia do não crescimento,

mas as células se multiplicavam

enquanto dormia, e os acontecimentos

não me davam alívio.

Tive que seguir por meios próprios,

próprios daqueles que nasceram

sem folga.

Nunca descansei por completo, mesmo

quando, na solidão, meu corpo

se ausentava de mim.

Por um dia! Só por um dia, pensava: E esse dia

chamava outro e outro.

Não quero futuro, nunca o quis, aliás, ainda não quero.

Se quisesse, provavelmente, não teria,

pois tudo colabora para me contrariar.


Hertinha Fischer.

sábado, 8 de março de 2025

Guerra interna

Há sessenta e quatro anos, nascia eu.


Eu, sob a lona azul do circo, flutuando acima de um tapete verde, como um tatuzinho no buraco da terra, mas acima dela. Uma pequena de pele queimada, olhos esverdeados, vivendo entre galinhas e cães. Onde os rios passeavam pela mata, traçando caminhos como o chão de um formigueiro. Despencando dos penhascos, caindo lindamente, com suas saias brancas e rodadas.


Sem saber para onde vou, sigo pelos encantos da mata, túneis de esperanças se abrem. Vi trincheiras abertas sobre a mata fechada; talvez ali houvesse guerra. E a guerra interna ainda vive em mim, enquanto sigo ligeiramente as borboletas, desejando voar como elas. Tento avançar como quem persegue uma presa, com a agilidade de quem precisa e, muitas vezes, rastejando.


Confronto a monotonia com olhos de lince, caçando coelhos. Quanto mais penso, mais me consumo nesse cansaço de existir. Os anos me atravessaram e me transformaram de tal forma que não consigo mais voltar. Também esqueci como caminhar cheia de vida, mas ainda assim, a esperança brota, como galhos cansados que brotam até que a seiva perca sua função e a terra consuma os galhos secos.

Hertinha Fischer



quarta-feira, 5 de março de 2025

A meia Luz

Em terra pisei, pausei, pousei e passei. O vício de andar me embriagou, areias bebi com licor. Errante me fiz num instante, tantas vias e fatos constantes, via e ouvia pela metade. Terra o fogo não consome, um pouco de pedra é homem.


Epidemia de sons, metamorfose cruel, muito que parece pouco e pouco que parece tudo. A casca revela quem é, no que parece e no que não é. A polpa que conta tudo se esconde atrás do espelho.


No avesso canta o verso, soneto que vaga disperso, nem é noite nem é dia, a meia-luz fica imerso. Ainda não me entendi, quando quero e não quero, quando gosto e desgosto, tudo no mesmo passo. Vou, e é tudo o que quero. Voltar é sacrifício, ficar, espero.


Hertinha Fischer.

Um dia fiz morrer

E a noite desce sobre mim,  

Sua mão pesada me guia,  

A escuridão invade minh’alma,  

Sussurrando calma em meus ouvidos.  


Onde estão meus jardins?  

Em que terras se esconderam?  

Perdeu-se o azul do céu,  

Escondeu-se o que era meu.  


Busquei o amor,  

Mas ele desapareceu,  

A lua que antes sonhava  

Em eclipse se perdeu.  


Eu quis permanecer,  

Mas o tempo me levou,  

Acusaram-me de silêncio,  

E o grito então cessou.  


Passei despercebida,  

Nem olharam em meus olhos,  

Para desvendar o que havia  

Nos sonhos que se perderam.  


Já alcancei as nebulosas,  

Nesses tempos estelares,  

Sobraram poeira e fumaça,  

Desbotando todas as fases.  


As janelas já se fecharam,  

Na soleira, permaneço,  

Esperando dias melhores,  

Na hora já derradeira.  


A força que era abundante  

Agora fecha a torneira.  

Hertinha Fischer


terça-feira, 4 de março de 2025

Saudosas tardes rosadas

As tardes quentes e rosadas de verão anunciavam o merecido descanso. 


Ao sair da roça, surgia um pequeno trilho entre a vegetação rasteira, que terminava em uma estrada de terra onde passavam sonhos sobre rodas. Ao lado, postes de transmissão de dois módulos sustentavam linhas simétricas que pareciam dançar no ar, um espetáculo para olhos cansados. Da estrada, outro trilho, marcado por um pé de bananeira nanica, levava a dois pessegueiros plantados frente a frente. No meio, o trilho desembocava num terreiro imenso. Abaixo, grandes arvoredos cresciam até o céu; acima, infinitas bananeiras de várias espécies disputavam espaço. Entre o bananal, uma passagem larga e sombreada conduzia a outro terreiro menor, que ficava um pouco à frente da casa, ligando-a à estrada.


A casinha se destacava, situada na base do primeiro terreiro, com bananeiras ladeando suas costas. No terreiro de cima, havia o paiol, onde eram guardadas as colheitas, às vezes de milho, outras de tranças de cebola. A morada tinha uma pequena porta de madeira voltada para o oeste e outra para o sul. Duas janelas pequenas e desalinhadas davam para o norte, e uma para o sul. A leste, as costas da casa encostavam-se a um grande pessegueiro, que segurava um varal de roupas feito de arame farpado, estendendo-se sobre os capins até encontrar um coqueiro ao lado do primeiro chiqueiro.


Abaixo do chiqueiro, havia o pasto do cavalo, cercado por arame farpado, ocupando uma boa porção de terra que se estendia até um taquaral na beira da estrada, descendo até o rio. Dali, o terreno seguia ladeando um segundo chiqueiro, formado por erosões, subindo pelos braços da mata até novamente encontrar o primeiro chiqueiro próximo à casa. Na frente, um mata-burro marcava a passagem para buscar água no rio e lavar.











segunda-feira, 3 de março de 2025

Moribunda imagem

Gaiola dourada, prisão do passarinho,  

Anéis adornando o corpo do canarinho.  

Sussurros suados, silêncio profundo,  

Alegoria guiando o passo do moribundo.  


Houve tempos de luar,  

Luz tênue a brilhar.  

Tudo se apagou enfim,  

Restou só o vagar sem fim.  


Samba e enredo sem razão,  

O cão perseguindo o próprio rabo em vão.  

A beleza desfez-se no vazio,  

E o feio, oco, surgiu.  


Na terra seca balança,  

A bandeira sem esperança.  

Quanto mais a terra se cava,  

Mais fundo o buraco se alarga.  


Mansão suntuosa por fora,  

Por dentro, barraco que chora.  

Hertinha Fischer