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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sábado, 27 de março de 2021

Factual

 Encaro-me, as vezes, de frente,

e só vejo rastros de mim

á vaguear na incerteza.

Construo e desconstruo-me, incessantemente,

para que possa ainda ser novidade.

Olho para a objetividade, e nada mais é do

que aquilo que esta constantemente de passagem.

Já estive com vontade de voar, e descobri que não tenho

asas.

Já tentei me iludir com as alegrias, mas, era

só uma criança brincalhona a brincar comigo de

esconde-esconde.

Já tentei mudar de direção, e me encontrei nos mesmos

caminhos.

Já mudei o enredo da historia, e nada saiu do mesmo.

Já acreditei em contos de fadas, e me dei conta da realidade nua e crua.

Já tentei sair de mim, e só vi sofrimento.

Já tentei domar a memória, e quem foi domada foi eu.

Já tentei voltar ao passado, e não encontrei mais nada lá.

Já tentei ver com outros olhos, me deparei com outras ilusões de

percurso.

Já tentei, inutilmente, forçar a positividade, nada muda uma situação

de negatividade.

Já tentei acreditar em milagres, E descobri que de nada adianta querer.

Então, com todas essas certezas, sigo em frente, pois, não fomos

feitos para retroceder.

Uma folha, depois que se desprende do caule, mesmo

sendo colada novamente, não passará de uma folha morta.

Hertinha Fischer




quinta-feira, 25 de março de 2021

A validade da vida

 Estou aprendendo, ainda, depois de sessenta anos de passos.

Leio minha história, através dos anos, a mesma de tantas outras.

Falo muito em renuncia, porque o lema da vida é essa.

Renunciar a criancice, a inocência irracional, para encarar

a verdadeira face do raciocinar.

Até que, em algum momento, a renuncia é que nos alcança.

E vamos perdendo, cada vez mais, a capacidade de frear as emoções.

Ser criança é a proximidade com a aceitação, das coisas, como elas são.

Depois que crescemos, vamos entendendo o feio dos mal feitos dos outros,

e acabamos nos enfeitando das mesmas fitas.

Olhando mais para as deficiências do que para as eficiências.

Prefiro encarar a realidade, do que cruzar a linha da lucidez em busca de algo

que que não existe, só para satisfazer-me na mentira.

Porque a mentira nos torna fracos, impossibilitado de reconhecer a potência que a verdade 

nos favorece.

Embora, muitas vezes, a verdade, pode significar dor. Mas, não agride tanto, quanto a mentira.

Se tenho, na memória, um caminho já definido e conhecido, difícil seria me perder. Mas, se, construo, dentro de mim, um caminho desejado, não visto, nem conhecido, apenas sonhado as avessas, nunca chegarei a lugar nenhum.

Já sabia, de antemão, que, de alguma forma, vivo e luto pela sobrevivência, como qualquer animal irracional, mesmo, na racionalidade, a forma é a mesma. A única diferença, é que posso escolher o melhor caminho, as melhores condições e até o melhor momento, embora, também não possa esperar que tudo se realize conforme planejei.

E em algum ponto da historia, sem que perceba, os afins encontrará com seu fim, e....tudo terá seu certificado de validade.

Hertinha Fischer










O outro lado do sonho

Desperta estou, ainda que pareça que não dormi.

Quantas águas já se beberam e quanta sede ainda haverá?

Mundo que se deseja, mundo que nada é.

Ainda bem que não nos lembramos de olhar adiante,

O adiante que é viajante, numa estrada anuviada, onde a colina

esconde o fim.

De fato, nada sabemos, só o que realmente queremos,

Um querer que nada tem, cercados de novos empenhos,

que acaba por ser o quê?

Nuvens sem água, árvores sem frutos, pernas sem pé.

O que será depois que partimos?

O que haverá por trás das cortinas que encobrem

o verdadeiro palco?

Será mesmo, essa a derradeira fonte, ou haverá

um manancial escondido entre nossos devaneios?

Os gravetos da impotência encobrem a nascente verdade.

Ocorre que, somente alguns, descobrem por meios próprios,

que a verdadeira consciência, da vida, ainda está em

construção, do outro lado da ilusão!

Hertinha Fischer





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domingo, 21 de março de 2021

O porvir

 Porvir, uma palavra bem definida e, sem sentido algum,

quando se trata de viver,

Estamos focados no porvir, quando a unica coisa que nos espera é a morte.

Estamos sempre em expectativa de viver a eternidade aqui e agora, Nem pensamos em

quantos sofrimentos experimentamos no decorrer da vida passageira á qual sabemos e conhecemos.

Por isso é que devemos nos focar no invisível das promessas de Deus, A invisibilidade após a derrocada do corpo mortal que nos reveste.

O núcleo da semente é que desperta, a casca é a casa do espirito, casa esta, que morre, quando a vida desejada precisa eclodir.

Somos iguais a tantas outras espécies, que espera a eclosão da essência, escondida em Cristo, que nada mais é do que a nossa consciência.

Aquilo que aguardamos sem ver, embora,  estejamos despertos para um mundo que nos matará.

Ou, pelo menos, acreditamos que assim seja. No entanto, esquecemos, da polpa, que guarda a realeza da propriedade. Aquela propriedade que nunca morrerá, embora pareça que sim.

Quando olho para as coisas que me rodeiam, vejo tudo que meus olhos podem alcançar, embora, sinta somente as ilusões que pulsam em mim.

Uma ilusão de comodidade, esquecida de que tudo pode mudar a qualquer instante, e não possa mais fazer parte, dessa maneira que ainda persiste no agora.

Só então, consigo olhar para o tempo passado, quando os que já se foram, deixaram suas marcas, que ainda, por um tempo, serão lembradas, mas, tão logo, esquecidas.

Damos tanta honra ao tempo, mas é, justamente, o tempo que nos apagará, quer seja em corpo, quer seja, em memória.

Dizer que tudo acaba no tumulo é meio que, nebuloso. Dizer que permanecemos com consciência depois da morte do corpo é meio que sem sentido.

Dormiremos, diz o Senhor:  Porque dormindo não temos consciência de nada, por isso, esse termo é usado. Significando que toda memória estará apagada por algum tempo. E só Deus poderá resgatá-la em tempo determinado - Ele dá, ele tira e ele restitui.

Assim, como em gerações, a nossa marca passa de um para o outro, geneticamente, Assim, também despertaremos, na mesma patente em que fomos definidos.

Não mais como quem morre, mas como quem já passou da morte para a vida.

Embora seja difícil acreditar que precisemos morrer para viver. É isso mesmo. Despregar da casca para que a divina semente esteja pronta para se transformar em muitas.

Um só pé de feijão produz centenas. Não sem antes morrer por fora.

Então, não devemos temer a morte do corpo, porque o corpo nada é. Devemos temer a morte da semente, E isso, só Deus pode decidir!

Hertinha Fischer











quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Desconforme

 Dessas trocas, me abstenho.

não quero dar nem receber.

enfraqueci sobremodo,

já nem quero perceber.

Havia navio nestas águas
com leme e bom timoneiro
o que antes era lento,
agora, passa ligeiro.
De uns tempos, já sem tempo
que o tempo se demorou
ruínas e galhos quebrados
em tempos que já passou
Um brilho quase apagado,
nuances de tristeza e dor
O que ainda resta
é amar o próprio amor.
Ainda há uma janela aberta,
canções entrando por frestas
um pouco de esperança e crença
alegria fazendo serestas.
Ha de ser apenas um dia
uma noite, talvez duas ou três
a me embalar em sonhos
de novo,
fazendo-me viva outra vez.
Hertinha Fischer

sábado, 9 de janeiro de 2021

Etimologia


Estava eu á passear sobre as instancias da vida,
como sempre, meio esquecida de tudo.
Nunca fui muito de dar importância para as coisas,
coisas só compõe o lugar.
Sou como uma andorinha, que se aproveita da corrente de ar
para fortalecer suas asas.
Assim, também, aproveitei todos os instantes, com muita fidelidade
ao sentimento que despertava em mim.
Nunca cobrei da vida mais do que ela me oferecia.
Fui uma eterna apaixonada pelo acaso que me visitava.
Gostava de explorar e de aprender, mesmo que fosse, só para sondar
as copas das árvores, me deliciando com seus movimentos.
Palavras iam e vinham á compor meus pensamentos, muitas vezes,
ousados e adiantados para aquele tempo.
Nunca fixei demais em coisa alguma, nem dava tanta importância
para o futuro, o meu futuro eram as horas que passava embaixo dos meus pés.
A vida nada mais é do que um eterno despertar e dormir.
Entre um vai e vem é que mora a eternidade. Nada além de ir e vir.
Nunca gostei de silêncio, mesmo que o silêncio me rodeasse.
Entre eu e eu mesma, sempre havia barulho. Um incessante barulho
de pensar.
Mesmo enquanto dormia, sonhos povoavam meu descanso.
Nunca gostei de solidão, sempre havia alguma conversa entre eu e alguma coisa: até mesmo
as paredes me compreendiam.
As vezes, era uma voz incompreensível de um graveto a se quebrar sobre meus passos, Noutras,
folhas sussurrando para o vento.
Tudo que aprendi tem a ver com tudo que vivi. Me parecia louco viver e não compreender
o significado de tudo que nos rodeia.
A vida em si é uma composição única. Pode-se passar os anos, pode-se envelhecer, é fato! Mas a ópera
só acaba no dia em que se esquece a letra.
Hertinha Fischer





sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Mutável entardecer

 Meia noite de um dia qualquer de janeiro. Saio la fora para sondar a noite que já

se instalou á algum tempo.

Olho para o céu, a gente costuma olhar para ele, só quando a visibilidade está a todo vapor.

Ele se mostra, nesta hora, um tanto tristonho, combinando com meu sentimento.

Então, sento num canto e começo a contemplá-lo, sem preconceito. E me vem a mente um tempo

distante.

Começo a imaginar como ele era no passado, por que tudo muda a todo instante.

Lembro-me de momentos que se transformaram em fumaça, quase igual, as nuvens, que,

naquele instante, ameaçava todo azul que o compõe.

E entre um pensamento e outro, me questiono sobre o que passou.

Lembro da casinha onde nasci, do lugar que me acolheu, e que, agora,não existe mais. Quer dizer: existe, mas, não da forma que era. Tudo mudou de lugar, a paisagem se modificou, o rio secou, a mata tomou conta de alguns caminhos. E os sonhos sonhados desvaneceram-se a medida em que o tempo passava.

Então, não é o tempo que passa, mas, as coisas que se modificam com o tempo. 

Tudo ao derredor envelhece e morre. Depois de alguns anos, vira fumaça e não se sabe bem para onde vai.

A casinha, que, antes, enfeitava á beira da estrada, as bananeiras enfileiradas, compondo a obra, as laranjeiras imponentes, o caminho pelo qual passávamos todos os dias, os risos, as brincadeiras, tudo

se foi, como alguém que parte para sempre.

Parece que nunca existi antes, que a minha imaginação flore e se descobre a cada instante, que a magia

que ficou para trás, não passou de contos de fadas.

Sobra apenas cacos de recordações, entre porções de terracotas amassadas na memória.

Tão sutil, que mais parece uma nuance de cores mal pigmentadas, desenhadas por mãos de uma criança.

Onde foi parar todo aquele tempo?

Quem foi que recolheu aquela lona tão protetora?

E agora, este outro tempo me escapa entre os vãos dos dedos, em outra época, com uma outra estrutura,

só aqui dentro do peito é que as coisas continuam iguais.

Transportando o esquecimento, que por certo, já está as portas, quando tudo ficar para trás, e não mais haver nenhum motivo para lembranças...

Hertinha Fischer