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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Desconforme

 Dessas trocas, me abstenho.

não quero dar nem receber.

enfraqueci sobremodo,

já nem quero perceber.

Havia navio nestas águas
com leme e bom timoneiro
o que antes era lento,
agora, passa ligeiro.
De uns tempos, já sem tempo
que o tempo se demorou
ruínas e galhos quebrados
em tempos que já passou
Um brilho quase apagado,
nuances de tristeza e dor
O que ainda resta
é amar o próprio amor.
Ainda há uma janela aberta,
canções entrando por frestas
um pouco de esperança e crença
alegria fazendo serestas.
Ha de ser apenas um dia
uma noite, talvez duas ou três
a me embalar em sonhos
de novo,
fazendo-me viva outra vez.
Hertinha Fischer

sábado, 9 de janeiro de 2021

Etimologia


Estava eu á passear sobre as instancias da vida,
como sempre, meio esquecida de tudo.
Nunca fui muito de dar importância para as coisas,
coisas só compõe o lugar.
Sou como uma andorinha, que se aproveita da corrente de ar
para fortalecer suas asas.
Assim, também, aproveitei todos os instantes, com muita fidelidade
ao sentimento que despertava em mim.
Nunca cobrei da vida mais do que ela me oferecia.
Fui uma eterna apaixonada pelo acaso que me visitava.
Gostava de explorar e de aprender, mesmo que fosse, só para sondar
as copas das árvores, me deliciando com seus movimentos.
Palavras iam e vinham á compor meus pensamentos, muitas vezes,
ousados e adiantados para aquele tempo.
Nunca fixei demais em coisa alguma, nem dava tanta importância
para o futuro, o meu futuro eram as horas que passava embaixo dos meus pés.
A vida nada mais é do que um eterno despertar e dormir.
Entre um vai e vem é que mora a eternidade. Nada além de ir e vir.
Nunca gostei de silêncio, mesmo que o silêncio me rodeasse.
Entre eu e eu mesma, sempre havia barulho. Um incessante barulho
de pensar.
Mesmo enquanto dormia, sonhos povoavam meu descanso.
Nunca gostei de solidão, sempre havia alguma conversa entre eu e alguma coisa: até mesmo
as paredes me compreendiam.
As vezes, era uma voz incompreensível de um graveto a se quebrar sobre meus passos, Noutras,
folhas sussurrando para o vento.
Tudo que aprendi tem a ver com tudo que vivi. Me parecia louco viver e não compreender
o significado de tudo que nos rodeia.
A vida em si é uma composição única. Pode-se passar os anos, pode-se envelhecer, é fato! Mas a ópera
só acaba no dia em que se esquece a letra.
Hertinha Fischer





sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Mutável entardecer

 Meia noite de um dia qualquer de janeiro. Saio la fora para sondar a noite que já

se instalou á algum tempo.

Olho para o céu, a gente costuma olhar para ele, só quando a visibilidade está a todo vapor.

Ele se mostra, nesta hora, um tanto tristonho, combinando com meu sentimento.

Então, sento num canto e começo a contemplá-lo, sem preconceito. E me vem a mente um tempo

distante.

Começo a imaginar como ele era no passado, por que tudo muda a todo instante.

Lembro-me de momentos que se transformaram em fumaça, quase igual, as nuvens, que,

naquele instante, ameaçava todo azul que o compõe.

E entre um pensamento e outro, me questiono sobre o que passou.

Lembro da casinha onde nasci, do lugar que me acolheu, e que, agora,não existe mais. Quer dizer: existe, mas, não da forma que era. Tudo mudou de lugar, a paisagem se modificou, o rio secou, a mata tomou conta de alguns caminhos. E os sonhos sonhados desvaneceram-se a medida em que o tempo passava.

Então, não é o tempo que passa, mas, as coisas que se modificam com o tempo. 

Tudo ao derredor envelhece e morre. Depois de alguns anos, vira fumaça e não se sabe bem para onde vai.

A casinha, que, antes, enfeitava á beira da estrada, as bananeiras enfileiradas, compondo a obra, as laranjeiras imponentes, o caminho pelo qual passávamos todos os dias, os risos, as brincadeiras, tudo

se foi, como alguém que parte para sempre.

Parece que nunca existi antes, que a minha imaginação flore e se descobre a cada instante, que a magia

que ficou para trás, não passou de contos de fadas.

Sobra apenas cacos de recordações, entre porções de terracotas amassadas na memória.

Tão sutil, que mais parece uma nuance de cores mal pigmentadas, desenhadas por mãos de uma criança.

Onde foi parar todo aquele tempo?

Quem foi que recolheu aquela lona tão protetora?

E agora, este outro tempo me escapa entre os vãos dos dedos, em outra época, com uma outra estrutura,

só aqui dentro do peito é que as coisas continuam iguais.

Transportando o esquecimento, que por certo, já está as portas, quando tudo ficar para trás, e não mais haver nenhum motivo para lembranças...

Hertinha Fischer





sábado, 19 de dezembro de 2020

Inexato sentir

 Por ti, por te, poteia, coisa de poeta português.

A ti dou meu coração
Que coração recebes?
A mesma boca que beija, agora blasfema a face
que desejastes.
Faz-se noite face a noite, em ruínas desmorona
de desejos ao contrario.
O que parecia puro, na verdade,
transforma-se em infecto sentimento,
O inverso e reverso de amigo a inimigo.
Mascavado o translúcido, defeituoso o apurado,
corrompido o límpido, de paixão ao ódio deslavado.
Promessas não cumpridas, ação sem ação ou inércia.
Coisa de quem não tem no querer constância. Ora
conserta para quebrar, ora quebra pra consertar.
Sem forma e espumante, ondas arrebatadas no ar,
coisas de quem nunca soube,
o que significa amar...
Hertinha

Surdez

 Ao som sublime do silêncio em

que meus ouvidos descansam.

Mergulhada na sabotagem dos olhos,

que apreciam e não ouvem.

Nem o bater das asas, nem os cantos serenos de sapos na madrugada,

 nem as gotas que cantam no telhado, na seresta

da noite enluarada.

Toco a musica de minha alma,

lembrando letras tristonhas, já sem os acordes de violões

e guitarras.

Emudecidas e esmiuçadas dentro desse campo sem flores.

Foi-se o barulho das citaras, Foi-se o som que se ouvia.

Ainda vejo a figueira com seus frutos, o cipó que lhe abraça.

o balançar de suas folhas, só não posso mais ouvir

o canto que te faz dançar.

O tempo secou meus tímpanos, as cordas se esticaram a ponto

de rebentarem, os hinos, agora, são só barulhos indecifráveis,

 os cantos, gemidos e confusão,

Figuras dançam sem musica, musica, só dentro do coração.

Hertinha Fischer


Viagem de rima

 Pouco sei, pouco entendo, pouco faço.

E de pouco em pouco encho o pote.
As vezes vou a pé, as vezes de avião, noutras, vou
de bote.
Na maciez do caminho: lento, apressado, na correria
ou de trote.
Nas costas, em cima, embaixo, mitas vezes de reboque
Fazendo pirueta, dançando, me arrastando,
dando cambote.
Na luz, na contra luz, avermelhada, alaranjada, estampada,
mesmo que embote.
Com força, sem força, vigorosa e viçosa, tantas vezes fracote.
Levando a vida, a vida me levando, quando se cansa, me carrega no cangote.
Fazendo sonhos, refazendo, escondendo dentro de caixote,
Na mão, na contra mão, empurrando mesmo que capote,
Amparando, espezinhando, caçoando, no deslise ou no capote,
Na amizade, inimizade, rixa, tendo feita de mascote.
Perdas, incertezas, indelicadezas, o que mais vale, é o dote.
Hertinha

sábado, 12 de dezembro de 2020

Oferta

 Eu te ofereço sinceridade, mesmo que esteja na contramão de seus desejos.

Eu te ofereço sossego, um barquinho livre, vagando sobre o oceano.
Uma viagem no centro da vida, até o limite do fim.
Apregoado com palavras e sentimentos condizentes.
Te presenteio com a liberdade
Na máxima constatação do obvio
Te ofereço a lampada de Aladim, é só tocar no coração
que haverá uma alegria constante em meio ao caos
Te ofereço opções, sem, no entanto, separar-te de ti mesmo
E tempo para desgastá-lo
Muito tempo para ir e voltar, estarei a espera.
Hertinha Fischer