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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

quarta-feira, 5 de março de 2025

A meia Luz

Em terra pisei, pausei, pousei e passei. O vício de andar me embriagou, areias bebi com licor. Errante me fiz num instante, tantas vias e fatos constantes, via e ouvia pela metade. Terra o fogo não consome, um pouco de pedra é homem.


Epidemia de sons, metamorfose cruel, muito que parece pouco e pouco que parece tudo. A casca revela quem é, no que parece e no que não é. A polpa que conta tudo se esconde atrás do espelho.


No avesso canta o verso, soneto que vaga disperso, nem é noite nem é dia, a meia-luz fica imerso. Ainda não me entendi, quando quero e não quero, quando gosto e desgosto, tudo no mesmo passo. Vou, e é tudo o que quero. Voltar é sacrifício, ficar, espero.


Hertinha Fischer.

Um dia fiz morrer

E a noite desce sobre mim,  

Sua mão pesada me guia,  

A escuridão invade minh’alma,  

Sussurrando calma em meus ouvidos.  


Onde estão meus jardins?  

Em que terras se esconderam?  

Perdeu-se o azul do céu,  

Escondeu-se o que era meu.  


Busquei o amor,  

Mas ele desapareceu,  

A lua que antes sonhava  

Em eclipse se perdeu.  


Eu quis permanecer,  

Mas o tempo me levou,  

Acusaram-me de silêncio,  

E o grito então cessou.  


Passei despercebida,  

Nem olharam em meus olhos,  

Para desvendar o que havia  

Nos sonhos que se perderam.  


Já alcancei as nebulosas,  

Nesses tempos estelares,  

Sobraram poeira e fumaça,  

Desbotando todas as fases.  


As janelas já se fecharam,  

Na soleira, permaneço,  

Esperando dias melhores,  

Na hora já derradeira.  


A força que era abundante  

Agora fecha a torneira.  

Hertinha Fischer


terça-feira, 4 de março de 2025

Saudosas tardes rosadas

As tardes quentes e rosadas de verão anunciavam o merecido descanso. 


Ao sair da roça, surgia um pequeno trilho entre a vegetação rasteira, que terminava em uma estrada de terra onde passavam sonhos sobre rodas. Ao lado, postes de transmissão de dois módulos sustentavam linhas simétricas que pareciam dançar no ar, um espetáculo para olhos cansados. Da estrada, outro trilho, marcado por um pé de bananeira nanica, levava a dois pessegueiros plantados frente a frente. No meio, o trilho desembocava num terreiro imenso. Abaixo, grandes arvoredos cresciam até o céu; acima, infinitas bananeiras de várias espécies disputavam espaço. Entre o bananal, uma passagem larga e sombreada conduzia a outro terreiro menor, que ficava um pouco à frente da casa, ligando-a à estrada.


A casinha se destacava, situada na base do primeiro terreiro, com bananeiras ladeando suas costas. No terreiro de cima, havia o paiol, onde eram guardadas as colheitas, às vezes de milho, outras de tranças de cebola. A morada tinha uma pequena porta de madeira voltada para o oeste e outra para o sul. Duas janelas pequenas e desalinhadas davam para o norte, e uma para o sul. A leste, as costas da casa encostavam-se a um grande pessegueiro, que segurava um varal de roupas feito de arame farpado, estendendo-se sobre os capins até encontrar um coqueiro ao lado do primeiro chiqueiro.


Abaixo do chiqueiro, havia o pasto do cavalo, cercado por arame farpado, ocupando uma boa porção de terra que se estendia até um taquaral na beira da estrada, descendo até o rio. Dali, o terreno seguia ladeando um segundo chiqueiro, formado por erosões, subindo pelos braços da mata até novamente encontrar o primeiro chiqueiro próximo à casa. Na frente, um mata-burro marcava a passagem para buscar água no rio e lavar.











segunda-feira, 3 de março de 2025

Moribunda imagem

Gaiola dourada, prisão do passarinho,  

Anéis adornando o corpo do canarinho.  

Sussurros suados, silêncio profundo,  

Alegoria guiando o passo do moribundo.  


Houve tempos de luar,  

Luz tênue a brilhar.  

Tudo se apagou enfim,  

Restou só o vagar sem fim.  


Samba e enredo sem razão,  

O cão perseguindo o próprio rabo em vão.  

A beleza desfez-se no vazio,  

E o feio, oco, surgiu.  


Na terra seca balança,  

A bandeira sem esperança.  

Quanto mais a terra se cava,  

Mais fundo o buraco se alarga.  


Mansão suntuosa por fora,  

Por dentro, barraco que chora.  

Hertinha Fischer



domingo, 2 de março de 2025

A derradeira tarefa

 E repentinamente, ela emudeceu diante da possibilidade de ter que deixar seu corpo. Não queria sair de si, Não queria seu espaço vazio, mas a força, antes, tão fogosa, agora definha na incerteza.

Já sabia que um dia teria que partir, mas, não queria acreditar que em algum momento, teria que abandonar sua casa, seu companheiro e tudo aquilo com o qual convivera por décadas.

Seu quintal bem feito - aquele sol da manhã, que espalhava perfumes em sua sala de estar.
A mesa, onde guardava seus mais ousados sonhos, quando, pela tarde, encostava seus cotovelos e colocava a vida para açucarar.
E a comodidade do sofá da sala que, a noite, se fazia, macio, para lhe ver descansar.
As paredes que guardavam tantos passos, o portão, que, por tantas vezes a viu sair ou chegar. Que não poderia mais fechar ou abrir.
A poderosa cama que a acalmava enquanto dormia, E que agora, suavizava um pouco, o corpo já sem forças.
Tinha tantas coisas por se dizer, que precisava, as vezes, cochichar para as paredes. Já que ninguém quer ouvir um moribundo a falar coisas sem sentido.
Havia uma coisa que ela gostava de lembrar: O tempo em que viveu sem aquela preocupação em tomar remédios para se sentir melhor.
Nascera numa casa modesta, a segunda filha, sendo que, a primeira não sobreviveu mais que três meses de vida.
Sua mãe tivera a primeira filha, logo que se casara. Mas, a criança teve uma doença com apenas dois meses de vida, vindo a morrer aos três.
Naquela época, as mulheres engravidavam depois que deixavam de amamentar, Não havia métodos para evitar.
Tão logo a primeira filha veio a óbito. Sua mãe engravidou, após, nove meses, veio outra menina. Esta menina era ela, cheia de vida e bela como uma manta de tramas bem feita.
Talvez pelo trauma da perda, a mãe teve dificuldade para amamentá-la, por causa do abcesso em ambos os seios.
Teve que ser alimentada com água de arroz, e eventualmente, com leite de vaca, já que naquela época, tudo era mais difícil. Não tinham nenhum modo de refrigerar alimentos.
Ela ficou raquítica e não cresceu como deveria. No entanto, havia uma força sobrenatural, que fez com que sobrevivesse e se tornasse uma linda menina.
Com pele branca e algumas sardas, cabelos negros levemente encaracolados como de sua mãe.
Tinha apenas um ano e meio quando veio outra menina, também de pele branca, cabelos loiros como espigas de milho seca, sem ondulações.
Cresciam juntas, como duas crianças felizes. Aos seis anos de idade, já havia, além da irmã, mais dois novos membros. Um menino e outra menina.
A mãe sempre atarefada com as crianças e os afazeres da casa e o pai a trabalhar na lavoura para trazer o sustento, fez com que tivesse que trabalhar bem mais cedo.
Fazia pequenas tarefas como levar o almoço para o pai, na roça, ou cuidar dos mais novos, quando a mãe tinha que ir para o riacho para lavar roupas ou buscar água.
Conforme os anos foram passando, as tarefas foram aumentando, gradativamente, até que, passou a ajudar o pai na lavoura.
Como filha mais velha, isso fatalmente iria acontecer. Sua força de vontade superava a pouca estatura, e logo se viu, sendo o braço direito do pai. Agora, todos os outros irmãos já estavam sobre seu comando.
Viu-se a buscar água na bica, logo pela manhã, depois levava o almoço do pai até a lavoura, e a tarde, levava o café, aproveitando para ensinar a irmã mais nova, tudo o que sabia e que aprendera com o pai.
Certo dia, seu pai ficou preocupado. Já estava tarde e o café não chegava. Então, abandonou a foice e voltava para casa, foi quando viu duas menininhas a brincar num pequeno córrego que atravessava a estrada. Ao chegar mais perto, viu suas duas filhas rindo ao colocar os bolinhos na água, fazendo de conta que eram barquinhos, pulando e gritando de alegria ao vê-los nadarem.
Seu pai ficou furioso, mas, também sorriu, não podendo deixar transparecer a graça. Fez com que voltassem para casa com ele, e após tomar seu café, voltou para a roça.
Foi assim que cresceu, tendo que parecer mais velha do que realmente era, e mais grande que sua própria estatura.
Logo começou a perceber que poderia colocar os irmãos para trabalharem, a fim de não sobrecarregar-se demais.
E lá estava ela, dando ordens aos mais novos, enquanto trabalhava arduamente na lavoura com o pai, distribuindo tarefas a cada um deles.
Sua imaginação aflorava enquanto crescia, logicamente, já sonhava em se casar.
Seu pai não deixava que as meninas conversassem com rapazes, mas, ela, dona de muita esperteza, já começava a dar seus pulinhos. Saia com as amigas no domingo a tarde, para fazerem visitas. Quando, porém, encontrava um moço atraente, as visitas se tornavam muito mais assíduas. Uma de suas amigas tinha um primo muito bonito, morava um pouco distante de sua residência, mas isso não impedia que se encontrassem de vez em quando.
Sua mente se realizava em sonhos, como se o que vivesse no dia a dia, bastasse para continuar a existir.
Domingo era um dia diferente de todos os outros. Seu pai dava folga para ele mesmo e os outros seguiam o mestre. A tarde livre tinha gosto de aventura, longe do olhar inquisidor de quem quer que fosse. Nesse dia a luta dava descanso, para nascer outros sabores diferentes de diversão.
A dura vida de roceira estava entranhada em si, era a única maneira que conhecia de subsistir. Seu anfitrião lhe deslocava para lá e para cá, dando certa importância ao que fazia. E realizava, como abelha rainha, a construir maneiras e maneiras de aprender.
Enquanto a irmã um pouco mais nova que ela, cuidava dos pequenos afazeres em casa, para ajudar sua mãe, ela se desdobrava para não fazer feio frente ao pai. Realizava quase todo trabalho junto com ele.
Franzina em tamanho e uma fortaleza por dentro - capinava, abria covas com a enxada, buscava lenha para alimentar o fogão, regava as mudas com regador, tratava do cavalo, buscava água no rio, destrinchava um porco, inteiro, como ninguém. cuidava dos irmãos mais novos, Sempre ela a frente, atrás do papai.
Por sorte, aprendeu a colocar os irmãos para trabalhar, tornando menos árdua as tarefas que eram lhe atribuídas. Mas, a parte mais pesada, ela carregava sem reclamar.
E o tempo a despertou para o brilho. Fora da lavoura, se esmerava em procurar por amor.
Os rapazes estavam sempre por lá. Tinha um que a queria, fazia tudo para chamar-lhe a atenção. No entanto, não fora bem sucedido. Ainda havia um certo medo de namorar.
Medo de enfrentar a ira do pai, que dizia: É a partir de amizade e conversa com rapazes que tudo começa.
-È claro! ela pensava: -Como começar sem conhecer?
E os dias iam se indo, como quem obedece ordens. Aliás, de obedecer ela sabia bem.
Começou a se convencer de que teria que sair da roça. Só assim poderia, alcançar a liberdade tão desejada.
Tinha muita vergonha de ser quem era. Havia uma certa pureza em seu pensar.
De certo modo, sentia um certo ciúme, de quem, errante, estava livre.
Aconteceu que, em certo momento de sua história, as algemas foram retiradas, e ela pode conhecer o outro lado da moeda.
Só não sabia que a maneira de existir de cada pessoa é diferenciada. E mesmo livre do sistema patriarcal, sua alma estava acorrentada nos princípios.
Saiu da solicitude de sua casa, enredando por caminhos desconhecidos e maus.
Tentou montar um negócio na cidade, e, inocentemente, perdeu mais um pouco.
Conheceu um homem que desejou, fez o possível e o impossível para colocá-lo em sua vida. E o casamento veio a acontecer, de modo simples sem nenhum glamour.
Logo a causa deu seus frutos, e uma linda menina nasceu.
Enfeitou sua alma de luz, pode enfim, saber do que se tratava a vida.
Traçou caminhos, fincou estacas em suas defesas, chorou ( por que não) as vezes.
Luas e sóis traçaram dias e noites, lençóis e travesseiros cavaram tempo, e como o tempo corre atrás da gente, logo ela estaria a deriva.
Buscou solução onde as palavras lhe davam esperanças. Trabalhou dentro de si para não sucumbir. Tratava-se de vida, mas, sabia que a vida tem seus declínios.
Quarenta anos depois, o tempo lhe apresentou outro membro, uma menina linda que lhe deu o nome de avó.
E mais uma vez, o destino distorceu seu caminho.
Teve um infarto, foi parar em um hospital, quase sem pulso.
Ficou por vários dias na U.T.I , sendo medicada por remédios fortes, perdeu o sentido do que ocorria em seu redor.
E teve mais uma chance. A vida ainda lutava.
Passou se os dias a correr mais depressa, agora ela tinha uma pontada de esperança, que, as vezes, lhe dava um pouco mais de energia, mas, o corpo fingia. Não era a mesma e sentia as vibrações cada vez mais lentas.
E o medo de deixar a construção para trás, ainda emerge, como quem se prepara para o último estar.
Não quer ir embora, mas, as malas já se arrumaram. E logo terá que partir.

Hertinha Fischer






























Quando se vê

Eu me vejo, quem sabe.  


Tu me olhas, será verdade?  

Em qual frente, mentes?  

O íntimo tanto acomoda quanto incomoda.  

Ir é sempre de repente,  

as estradas, inocentes.  

Resolver é matemática,  

resolver-se, sistemática.  

O tempo, sal que alivia a dor.  

Derruba árvores, mas rega a flor.  

Hertinha Fischer

sábado, 1 de março de 2025

Saga do viver

Entre tantos, também despertei,  


Se vinha ou saía, também não sei.  

Na boca, o sono do sonho de alguém.  

Chorando às vezes, sorrisos escutei.  


Orbitava em mim mesma a chance de ter  

Algo que brilhasse o eu que pensei.  

Se era ou seria, quem poderá dizer?  

Fartei-me do suspense nas lágrimas que chorei.  


Se já era hora, também era dia,  

Esperança em meu peito me convenceria  

Que os medos, às vezes,  

Me socorreriam.  


As pontes já podres por onde passei,  

Nos vertentes sussurros lá embaixo mostravam  

O eu que se perdia na busca de si,  

No ar rarefeito que a alma buscava.  


Ainda em perigo, avante, mulher!  

Doravante só sobras e nostalgia  

Da distância que já percorreu.  

Sobraram as cinzas do que se acendeu.  


Hertinha Fischer.