As folhas diárias, já rabiscadas, anoitecendo, eram rasgadas, revelando à luz um pouco borrada nuances de nuvens na noite enluarada. Um pouco de mim se perdia no trago gelado do tempo fugidio, com coração e mente, pensamento fluindo, fingindo sono na cama à noite. A parede, um tanto esburacada, sob o olhar da lua já meio curvada, exibia uma íris vermelha e lacrimejante, desejando a luz quase apagada. Para longe da vida, voa-se ligeiro, já que o corpo não é inteiro; o sonho é leve e companheiro, como ser fechadura e também chaveiro.
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Eco do fim
Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...
quinta-feira, 29 de agosto de 2024
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Magma dos olhos
A milhões de anos-luz de qualquer ideal, como uma estrela que já se desprendeu da luz solar, vai flutuando entre as esferas, se alimentando dos cosmos. Abre suas asas feitas de átomos, aproveitando a metamorfose dos corpos celestes que se formam ao redor do sol. Um magma quente e borbulhante se desprende do coração e vibra na corrente da vida.
Com uma explosão de cores, fumaça e fogo, ilumina o caminho e libera coragem. Transforma-se em uma ilha deserta, repleta de ações e criações. Produz o que falta, abastece-se de força e segue compondo os caminhos de lava e calor. Não sabe quando vai parar ou pairar, já que Deus ainda não se revelou numa sarça ardente. Ainda se esconde entre planetas, sem apontar a direção em seus mapas. Se o céu é um vazio, onde estará Deus? Será Ele o que move minhas asas, o motor do corpo? Será o magma que escorre dos olhos? Ou o calor que ela produz? Não sei!
Hertinha Fischer.
sexta-feira, 23 de agosto de 2024
Eu e o meu lugar
Talvez você só veja a casca. Como eu gostaria de poder dizer que sou sempre a mesma. Mas, embora meu físico seja constante, salvo as marcas do tempo, minhas ideias se confundem. Hoje estou mais tranquila, como na meia-estação, mas há invernos que se instalam na minha alma, mesmo fora de época. Ventos frios e cortantes me fazem encolher em arrepios; às vezes, é assim que me sinto. Talvez eu tenha aprendido a viver nos trópicos das emoções, onde a constância não tem lugar, e cada dia é apenas um dia. Faz tempo que não choro, faz muito tempo que estou a um passo da coerência de existir sem dor. E, mesmo sofrendo uma dor aqui e ali, nada tira de mim a sensação de que sou mais forte do que imagino. Que a vida se torna compreensível em nossas perdas, que sou apenas uma nuvem passageira. E aqueles ao meu lado podem, facilmente, tomar outro rumo e me deixar só. E, mesmo sozinha, encontrarei meu lugar, pois o lugar sou eu, e de mim mesma sei. Não vou me tornar outra pessoa, nem abandonar minhas virtudes ou defeitos; pelo contrário, diante das tempestades, serei tempestade, e diante do tempo bom e ensolarado, serei sol. Serei o que puder ser até que não seja mais, ou seja, sei lá! O que vem depois são apenas desejos; o que é visível agora, neste momento, isso é real, pode ser visto e sentido. O bem-estar está aqui, ao meu lado, e as circunstâncias não o incomodarão. Como o arco-íris, que aparece no céu de tempos em tempos, assim sou eu quando me aceito por completo, sem pequenas coisas a me corromper. Sou feliz agora!
quarta-feira, 21 de agosto de 2024
O destino da escolha
Tem passos do meu passado
que nem sequer me lembro,Devo ter deixado pegadas,
e lágrimas contra o vento
Se fui depressa demais
Ou meus passos foram bem lentos
Paisagens sem muitas lembranças
Só me insinuam lamentos
Alguns registros notórios
De grandes dificuldades,
a memória só compreende
O que não é felicidade
Momento bom se absorve
no centro do pensamento
Depois que a euforia se dissolve
Logo vira esquecimento
Por isso agora me aqueço
No dia e na sua hora
que se mostra por inteira
na riqueza onde ela mora.
Felicidade constante
só vive dentro da gente,
se acomodando na alma,
tomando conta da mente
Se um dia pudesse voltar,
para um dia qualquer, eu diria:
passe-me o quanto quiser
mas, volta-me qualquer dia!
Hertinha Fischer.
segunda-feira, 19 de agosto de 2024
Terra que ninguém pisa
Estou sempre pensando no outro.
Eu que não sou você,Como será que sente, como vê as coisas sem
os meus olhos?
Qual a sua sensação quando ri.. ou chora.
O quão se alegra, ou o quanto se entristece?
Como se relaciona com seu mundo,
o qual pertenço e não vejo.
Que história há em suas raízes. O quanto cresceu
ou conquistou?
O que faz na quietude?
Como lida com suas emoções?
Não me conta, nem se abre,
Assim, como eu, vive, sonha, dedica-se,
mas não consigo, sequer imaginar
como?
Hertinha Fischer.
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
Malogrado cansaço
Não sei mais se subo ou desço. Hoje me invadiu uma sensação de tanto faz. Passou por mim um desejo de virar a mesa, jogar tudo o que aprendi fora e sair por aí, sem memória nem bagagem, curtindo o som da vida a sós. Imaginei-me à sombra de uma jabuticabeira, contando seus segredos de flor, enquanto se prepara para sair de si e virar frutos, que, por sua vez, um dia se tornam nada. Que miséria a nossa, quando os vais e vens já não produzem nada. Certos amantes dizem que o tempo cura, mas, se nem doentes estamos, como nos curar da mesmice que embala o tum-tum-tum? De novo dia! De novo noite! E de novo… Me vejo cansada, e o tempo, novo? Vai e vem, abre e fecha, e não me liberta do mesmo de sempre. E o grito que morre na garganta? E os sussurros do cansaço? E o cansaço de ter que ser o que já não se consegue?
Hertinha Fischer
segunda-feira, 12 de agosto de 2024
A ultima rosa
Estou a ronronar em meus dias férteis
como uma gatinha manhosa,Não vejo nada de novo no céu, á não ser nuvens azuis
Minha bandeira já desgastada não veleja no vento
nem braveia em descampado.
Em júbilo vejo uma casinha ao longe,
a espera de mim,
já despojada de qualquer cetim
a me cobrir.
Vejo homens e mulheres com espadas nas mãos,
prontos para cortarem a união.
E eu, pronta para ir embora.
Aqui trilhei, em minhas fantasias - colhi maçãs no pé, reguei
minhas rosas, corri e me cansei.
Não tenho autoridade para fazer do meu jeito, então, só me resta
alcançar o horizonte que já me sonda de perto.
E ir, ir e ir, em busca da ultima rosa que falta na coleção
do meu jardim.
Hertinha Fischer.
quinta-feira, 8 de agosto de 2024
Na lembrança dos pássaros
E quando não mais estiver
A existência for um descampado
E o fio do do varal te contar
Quantas vezes essa mão se ergueu,
pelo muito que já viveu
O ladrilho já bem descorado
De pegadas que o tempo esculpiu
De idas, vindas e trabalho
De um rosto que muito se viu
Soarei como os ventos que cantam
ao chegar, novas, as estações
A trazer folhas secas de longe
á uivar suas belas canções
E do mato se ouvir um murmúrio
Com os pássaros livres a cantar
Entoando cantos e hinos
com seus bicos e corações.
A se lembrarem que ali já passei
Com minha prancha imaginária
A surfar nos caminhos e nos ares
Como mares de recordações.
Entre os barcos de boas memórias
Um furação de saudade irromper
O vento contará da passagem
De um ser que veio pra vencer.. E
foi embora, para se promover
Hertinha Fischer
Eu, casa e coisas
Sem casa e sem coisas, elas
não me pertencemCerro os olhos e tenho os aposentos,
desatento, nego-as, quando
entro.
Não sou assim, por sim
Quando o sol se põe
entro em transe, sem regras
e sem modelo,
Enfim, posso ter sossego, sem
fingimento, me entrego ao esmo.
Dou volta ao mundo, dentro
de mim estão as paisagens,
os rostos e a linguagem que
não consigo falar.
Assim como se subentende Lua e sol,
pela claridade, dia e noite pela passagem,
Também decifro as mensagens ocultas
do globo pela onda que emite no
esboço de mim, que parece através do corpo,
subentendendo um eu que tem
casa e coisas, mas, que não sou eu.
Hertinha Fischer.
O mar do ar
Escute as ondas da chuva,
rebentando nas pedrasdo céu.
Levantando poeira e água,
transformando a terra num véu.
A folhinha que o vento levou
em pequeno barco se transformou
Deslizando sobre a tormenta
das ondas do tempo, que, por
certo, a tristeza domou...
domingo, 4 de agosto de 2024
Ninho vazio
E assim se abria uma janelinha de madeira, rangendo de satisfação para o lado norte.
Pura sorte do sol, adentrando aquele quarto desarrumado, repleto de memórias boas.Uma senhorinha de cabelos negros, erguia suas mãos para o céu, em suplica.
Queria que tudo corresse bem para todos os ausentes. Aquela hora, sua mesa estaria repleta se não fosse o tempo e
suas peraltices. Mas, ao invés de sentar-se, degustando o almoço. preferiu se refugiar no quarto, onde podia se relacionar com Deus, através da prece.
Parecia que seu mundo encolheu, Faltava-lhe o melhor dos dias, que, em dias de sol pleno, barulhava a alegria, fazendo despertar o seu melhor.
Agora, o fogão lhe parecia sem graça. As panelas tão grande, e as labaredas do fogão, tão acesas e sem muita disposição.
Tudo se encolheu, ou ficaram grandes demais.
Seus olhinhos se amiudaram diante da solidão. Eram sete a sentar-se a mesa, agora, cinco cadeiras estavam vazias.
Sua maneira de atender a todos se resumia em tristes passos a toa, soando tristeza e desalento, ao dispor suas mãos em afazeres.
Viver para quê? de perguntava constantemente:
No inicio do preludio, eram só expectativas, que desenvolveram nela, uma vontade imensa de continuar, agora, que já tinha realizado de tudo, quanta alegria saíra pala porta.
E quando a janela se abria para mais um dia, ela também rangia sua insatisfação. Suas preces se iam com o ar, provavelmente, chegariam até Deus, que, compassivamente, abraçaria seus entes queridos, no lugar dela.
Ela mesma nunca os abraçara com os braços, seu coração inundado de ternura, os abraçava com seus préstimos. E agora, nem isso! pensava:
Era bom demais, presenciar as brincadeiras, as mordidas, as brigas entre irmãos, as chineladas que se atreviam a colocar ordem nas coisas. O bem estar, sempre alimentando o amor que crescia.
E o silêncio... que agora crescia entre o quintal, engolindo os risos e traquinagens.
Fazia com que a saudade crescesse.
Não mais importava que dia seria - Se domingo ou quarta feira. Tudo parecia igual.
Saia, as vezes, a capinar, sem nenhuma vontade, sem nenhum prazer; Já não ouvia os cantos de sua própria voz, nem o som de nenhuma criança a brincar
Estava um tanto doente já fazia algum tempo, A força que a compunha, agora, fraquejava, sem os motivos que agora não tinha mais.
Pouco a pouco, a doença foi tomando espaço.
E o lugar se entristecia com ela.
Hora de partir! pensou:
E numa fria manhã de junho, sua alma foi libertada. Jogou a toalha e se deitou, com os olhos virados para a janela, onde ainda, em transe, pode ouvir, suas crianças cantando, o triste canto do adeus!
Hertinha Fischer.
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
Detalhes
Arranca dos céus o azul
enfeita minha alma de luz
Sei, sou eu, que de eu, sou assim
Tão céu e tão luz
Pouco sei, mas, sei um pouco.
Que de pouco em pouco, descubro.
Tenho de mim, o que ninguém tem
Penso e pensando ainda penso
Traduzo-me em opereta
Canto rezo e desmembro-me
Esteira quebradiça, mesmo, despedaçada,
ainda sou do que fui feita,
Se chegar, sei que cheguei,
se voltar, nunca chegarei.
Na esperança, me voltarei.
Hertinha Fischer
quinta-feira, 1 de agosto de 2024
Ambíguo sentir
Ah! O latir de um cão: au-au
O miar de um gato: miau-miauO luar e o sarau.
Ah! os telhados e seus mistérios
As pessoas e seus critérios
Vivos, vivas e vivacidade
Moços, moças e mocidade
Poças, poços e sangria
Desejo, posse e mania
Ah! Olhos que piscam, as estrelas
Cara amarrada, tristezas
Eu, que não vejo, sinto,
Se não ouço, minto.
Ah, Coração amarrado, degradado
Tens corpo, tens alma, desafinado
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Queria novamente as estradas que percorriam minha alma, corajosas com suas nuvens de pó a fechar meus olhos. Dando nome ao novo, sussurrando...
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Ando em linha reta pelos caminhos tortos, morro um pouco, mas não por completo. Sei que a justiça tarda, mas, um dia, ela trará as sua...
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Eis que ainda brilha a esperança no pó da estrada. Sem cavaleiro, o cavalo troteia; sem trovador, os versos encontram seu destino. Ainda se ...