quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vida de cachorro

Seria tão mais fácil viver
como os animais, sem sentimentos.
Assim não teria que escolher, nem
teria que ficar amarrada em nada.
sem responsabilidades nenhuma, sem
compromissos com nada.
Não teria que trabalhar, nem lavar, nem passar.
Tudo me chegaria as mãos sem que
precisasse batalhar por nada.
Alguém cuidaria de mim: alguém ou a
natureza.
Estaria bem com as pulgas,
com os carrapatos, com as sarnas, nada
me incomodaria, ou incomodaria sem
que pudesse fazer nada, ou ter lembrança
de sofrimentos.
Seria um andarilho, ou ficaria preso para
sempre entre grades, olhando o viver
de fora sem que pudesse dele aproveitar.
Viveria a sombra, deitado sobre a relva, e ao
me levantar sentiria fome e sede, e teria que
caçar, matar para não morrer.
Mas, se acaso não tivesse forças para caçar,
teria que sobreviver sem reclamar.
Seria bem sucedido se tivesse dono, mas, seria
tão mais feliz se pudesse viver como um
animal qualquer, criado para fazer parte
da minha natureza, não da natureza que criaram
para mim, me podando em meus instintos.
O que quero é o querer dos outros, o que
desejo não pode se realizar quando quero e
preciso, a não ser que seja o mesmo
querer dos homens.
Fico só comigo mesmo, sem poder
fazer valer a minha natureza selvagem, e assim, os meus
instintos vão aos poucos se transformando.
Não aprendo com minha mãe nem com meus irmãos,
aprendo com gente, e gente não faz o que eu faço, não
me ensinam como se deve.
E assim passam-se os anos, eu deixo de ser um animal
para me transformar em algo que não conheço. Depois
que envelheço, fico doente, o meu dono me leva
ao veterinário, e lá vem a sentença; uma infeção
porá fim ao sofrimento,  nem percebo, mas o fim
é eminente, e mais uma vez decidem por mim...
Herta Fischer