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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Fluxo da existência

 Enquanto o corpo descansa, meu pensamento voa.

Volto para a margem da saudade, á saudar quem ficou por lá.
Embora escondida em pó, estão sempre contornadas de amor.
Uma delicadeza a sorrir distância, pergaminhos do coração.
Nada muda: a mesma criancice a desvendar segredos. O mesmo caminho a sorrir flores, o mesmo perfume a amar o ar.
A mesma mulher de cabelos fartos e negros - A mesma forma de cuidar, o mesmo companheiro a acompanhar.
Não se precisa de pinça, de colher, de pincel nem de cinzel. Nada encoberto está, abaixo do tempo. Tudo as claras aqui dentro.
A caixinha cheia de curvas e massa, onde sangue circula nas vias, mareadas de densas paisagens e rostos que nunca serão esquecidas. Num eterno relampejar de lembranças.
O fluxo da minha existência, como se antes já me sondasse, o abraço singelo dos glóbulos, a união apaixonada das células, o despejo do puro amor.
Onde estive, com quem? Nenhuma lembrança!
Só depois da caixinha pronta, os guardados se multiplicaram, e se abrem quando a saudade os chama.
Hertinha Fischer.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Virotes de vidro

 Quando tudo era pedregulho,

dedos machucados, sola comendo bagulho,

língua grudada no céu da boca

ouvido sentindo barulho

Vai onça com suas garras

monta no lombo do alce que passa

vivendo em transe as suas farras

dentes visíveis e ameaça

Clarão entre galhos, sono mortífero

lua que finda seu artifício

frio intenso nos polos rodeio

calor intenso no vale do meio

Clama a vida dentro da cova

na vida que chama a sua nova

viver a margem não danifica

nas pedras da orla se mortifica

Arcos e flechas no seu harém

aljava de couro que á sustém

Se fica em seu coldre,  é pura a sorte

Se sai no disparo, é certa a morte

O vento se esconde atrás da montanha,

quieta a viagem, não parece estranha

Se for acordado por nuvem sinistra

Só choro e lamento ele ministra.

Charada é flerte com mente sutil

Se acha que sabe, me passa o refil

Hertinha Fischer







sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Deserto de UZ

 Ah, se pudesse rasgar meu CPF e sumir no mundo.

Ah, se pudesse fazer-me morrer para muitos.
Ah, se pudesse falir minhas contas.
Ah, se pudesse não mais precisar de ninguém
Ah, se pudesse enterrar meus sentimentos.
Ah, se pudesse esquecer que amo.
Ah, se pudesse ter uma pátria só minha
Ah, se pudesse decidir sozinha.
Ah, se pudesse fazer valer meu pensamento,
Ah, se pudesse voltar no tempo
Ah, se pudesse não somar idade.
Voltaria sem pestanejar no útero de minha mãe e me abortaria.
Hertinha Fischer

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pátria

E agora sem pátria,
sem estrelas pra contar
sem portas para abrir,
nem dentes para sorrir

E agora sem pátria
sem voz para falar,
sem autoridade para defesa
sem campo aberto pra fugir

E agora sem pátria
sem escora e sem pé
nem fumaça na chaminé
chave na mão sem ignição

E agora sem pátria
sem carroça e sem cavalo
Sempre foi rei, agora é vassalo
pés descalços que é só calo

Sem sorte, vê o corte,
tudo é maldição
e a ferida é bruta
a sangrar o chão

Sem defesa
sem testemunha
e juiz sem alma mostrando as unhas


Talvez um anjo lhe dê resposta
venha a noite e lhe abra a porta
que se envergonhe os que te afligem
suas manobras virem fuligem.

Hertinha Fischer










quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

ornamentando saudade

 Aquelas laranjeiras de flores branquinhas, prontas para sair de si.

Uma senhora de cabelos negros a cantar sertanejo.
Vida plena no coração do riacho, que sorria águas frescas.
Tempo se encontrando com tempo.
A paixão do barro amassado, a amora arrochando em pés delicados.
A cerca dos arvoredos, a doçura dos ingás.
Sorrisos sonorizados abaixo das telhas vermelhas.
Salas desprovidas de ornatos, sem muitas complicações.
Camas amontoadas, sobre um chão colchão
Sinceridade pulava cedo, alegria dormia tarde.
Capins secos, escorregador, tábua velha, incinerador.
Fogo a lamber panelas, brasas a lamber a terra.
Cavalos a correr no pasto, arrame abraçando espaço
Cipós a subir em árvores, orquídeas a brincar em galhos.
Cebolas a cavar buracos, feijões a soltar das cascas.
Brincadeiras de verão saltando, inverno se divertindo
Chuvas frescas a encantar o solo, enxurradas a abrir caminhos.
Domingo trazendo gente, café no bule quentinho
Carne enlatada virando churrasco, galinhas fazendo seus ninhos.
Folhas a saudar suas rosas, rosas a proteger seus espinhos
Vida sertaneja a sambar na relva, E Deus trazendo carinho.
Hertinha Fischer.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Passado em cacos

 Ainda bem que não esperei. Embora, sempre tenha andado ao lado da esperança - Falas e falhas, falei e falhei, subsisti e desisti.

Domesticada e selvagem ao mesmo tempo de passa tempo.

Amedrontada por nada e corajosa por tudo. Ser - sonhei, sendo- realizei.
As montanhas me esperam, veneram a altitude, olhares de cima, cumes e vales, mais vale que valesse.
Nas entranhas da terra - fogo que não queima, derrete pedra, formas se levantam nos outeiros, os abismos a recebem para encarar o que vive acima das trevas.
Nós, que passamos, passado também se demora para esquecer o que se esquecerá ao passar, não retornará o presente, nem o passado, até mesmo o futuro. furtivo, passa.
Segredos enterrados, sequestrados e submerso nas profundezas da terra. Ruínas sem historia, apenas cacos a serem tocados com imaginação. Só Deus atravessa tempo e espaço. Vivo e eterno, conduzindo a verdadeira razão, até novos meios de criar novos céus e terra, onde novos seres que não seja homem, se torne algo bem maior, que, simples, corpo que passa!
Hertinha Fischer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Cardo extremus

 Sei e quando vi, já era tarde.

A paineira já desabava
Teu braço que me acolhia
de cansaço, se recolhia
Entretanto, entre tantos,
minha vista se cansava
A neve que caia de seus galhos,
no outono.
Assim como eu, já secava
As beiras floridas das estradinhas,
sulcos abertos de tanto passar,
transformou-se num ladrão de
memória, solidão a solidarizar.
Já na festa não ha muita musica.
nem cigarras á despertar
Horrenda limpeza de cores
telhados a desdenhar.
Ruído de vozes ao longe,
amarga e sem conteúdo,
voz de criança, mudez.
Sem sementes para despertar,
só na casca se torna graúdo
O cansaço me toma de todo
da raiz a ponta dos dedos.
Sem cheiro e sem paladar
ameaça com seus enredos
Nada significa, tudo se intensifica
Não simplifica, nem justifica
Inútil ir sem causa, enfim
que a causa morre ante mim.
È como passar sem perceber,
e perceber o amarrotar.
Hertinha Fischer.