Total de visualizações de página

Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sábado, 19 de outubro de 2024

Eu por um dia

 Gorjeei quando tudo era manhã,

Madruguei nas tardes de veraneio
Colori as asas dos bem-te-vis
Seguindo o caminho dos meios

Meio, ainda não é fim,

o fim que ainda não veio
Se foras fim ainda quero
Ser a filha do meio.

Pairei no caminho do sol

a noite e na madrugada
Depois da lua, ainda no céu
A densa escuridão é sugada

Se tiver que partir, partirei,

Não sem antes decidir
O resultado do caminho,
Se certo, terei que seguir

Errante, dá para voltar,

sem tirar nenhum proveito,
perdida é que não se acha,
nem o esquerdo, nem o direito

Sou nuvem que não desagua

Só a mercê vive e morre
Confia na possibilidade,
E o vento a socorre.

Quando falo do eu,

me pergunto quem sou eu?
Uma divida constante
ou um calote do instante.

Hertinha Fischer.

domingo, 13 de outubro de 2024

Ocos dos outros

Que seja eu em todo instante, me lembro, me contesto.


Planto, colho e vivo. 

Não me perco em labirintos, nem fujo 

do que sinto. 

Sou inteira, desfaço meus próprios nós. 

Se me recolho, fico em silêncio, 

se me libero, pronta estou para questionar. 

Como o vento, sou ar em movimento. 

Nem sei ao certo se entrei ou saí. 

De onde venho, conheço a mim mesma. 

Nada crio, tudo já existe, 

cada minuto é um vigia, cada 

fase, uma história. 

Vejo e escuto pela metade. Nada alcanço 

fora do meu alcance. 

Sou coração! 

Salve, salve os que comigo caminham. 

Nada sei além de mim.

Hertinha Fischer.

Cascatas biológicas

 Minhas eternas suplicas,

que de tempo em tempo, cessa

Na correria pouco se vê, sentada á porta

pouco se faz.

Quando menina, tinha tempo,

jovem, dele me libertava.

Velha, já percorri

Hoje, ainda me resta um pouco,

entre janelas fechadas

Já não me conduzo como deveria.

A graça que perdeu a graça,

o tempo já furtou a claridade do olhar

Um pouco da nebulosa no coração

Emoção escorre pelas veias e 

vai parar nas pontas dos dedos. Medo

A alva que despertava em todas as manhãs

virou alvo. Nada a acrescentar.

Velha?, sim! mas ainda a vida respira

Uma velha dor, bem diferente, nova a cada

momento.

Saudade de muitos, muito pouco para lembrar

Não há mais correria, pesos nos pés.

Uma prisão sem grades, uma liberdade sem teto.

Peixe sem escamas, arraia sem ferrão.

 A inútil tarefa de prosseguir.

Não tendo como fugir.


Hertinha Fischer





quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Cantar do silêncio

Queria cantar o silêncio,  
nas letras que a calma traduz.  
Como dedilhar a meditação,  
em cordas vocais de luz.  

De olhos fechados enxergar,  
a noite com lábios pintados.  
Anéis de Saturno nos dedos,  
e violões nos confins tocados.  

O ar soprando sua flauta,  
em movimentos sutis.  
A dança dos ventos polares,  
no salão do clima gris.  

Sem som, sem melodia,  
estrelas poderiam narrar,  
o céu, nem sempre azul,  
onde resolveu se abrigar.  

Nuvens seguem sem temor,  
rumo aos corpos molhados.  
Quando grandes e tempestuosas,  
deixam na terra seus recados.  

É o silêncio que a vida evoca,  
nem sempre fácil de guiar.  
Quando ainda é lago ou rio,  
anseia por seu mar.  

Hertinha Fischer










O sorriso e o palhaço

O palhaço que fui zombou de mim.


Sob tintas e peripécias, havia apenas

vazio.

Uma imensa vontade de criar para os outros

um circo que nunca fui.

Vesti-me de sorrisos, pintei minha alma com

cores que nem existiam e parti,

como quem ainda busca um destino.

Não menti no sorriso,

pois me alimentei do sorriso

que roubei dos outros.

Hertinha Fischer.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Feitos de mim

 Sempre pensei que os caminhos fossem meus. Depois descobri que os caminhos eram eu.

Que doçura nas pisadas aleatórias sobre um colchão de folhas,
onde o próprio caminho foram delineados por quantidade de passos.
Um céu verde, onde as estrelas sentavam em troncos, e a lua, atravessava, de quando em quando, o caminho de folhas escuras.
Misterioso e soberbo, acampamento de pássaros, raposas e serpentes.
Coberta por ramagens que desciam do céu, tramas dos anjos.
A noite preguiçosa se esgueirava na escuridão, trazendo ruídos de longe, como se os víveres fossem dependentes dela para afugentar os predadores noturnos.
Trazia consigo os arrepios, o balançar das folhas sem vento e o ouriçar dos cabelos, fazendo com que compreendesse o significado de adrenalina.
E nós, filhos da terra, vigilantes e ligeiros, serpenteávamos por entre as frondosas árvores, com os pés entre os sulcos, fundados
pelas chuvas que também se aproveitava da trilha, para desaguar no rio.
Uma mescla de relaxamento e medo, mesmo durante o dia, nos enchia de encantamento.
Amava passar por lá, conversando com seres imaginários, como as fadas que cuidavam da floresta, pendurando orquídeas nos galhos encharcados de musgos e bromélias.
As aranhas se esmeravam em construir suas casas de seda pura, trançando escadarias de lá para cá, só para ver os grilos e as moscas tornarem-se banquetes nas horas vagas.
Os tatus faziam suas casas debaixo do solo úmido, e quando, por algum motivo, ás abandonavam, se tornavam morada das jararacas e urutus.
E o córrego que por ali passava, límpido e suave, desaguava lentamente sobre as pedras e se jogavam com alegria no pequeno riacho.
A sua volta, alguns tipos de frutas se deliciavam com seu frescor, lançando frutos doces ao seus pés, alimentando as antas e os seus concorrentes.
Que maravilha pensar que nasci nesse meio, com a liberdade que hoje não tenho.
Quantos sonhos meus foram deixados ali, quantas lágrimas de criança se misturaram com as folhas mortas. Segredos foram sussurrados para os pés de ingá.
Conheceram meu corpo enquanto me banhava no luar e o meu coração, acompanharam cada fração de batida, com a mesma emoção que eu também sentia ao vê-las silenciar ou cantar.
Só não sabia que o tempo era barro e o sonho era chuva.
As chuvas tempestuosas foram apagando essa relação íntima, até que só restaram lembranças para mim, ou sonhos para os que ainda passam por lá. Quem sabe?

sábado, 5 de outubro de 2024

Outono da primavera

 Talvez sejamos como a polpa

do vento
Adocicada e feroz
Leva e toca sem tocar
Fisga e desfolha sem olhar
Fiz promessa sem cumprir
Quis retorno mesmo sem ir
Aroeira brava sem flor,
arco-íris sem cor.
Indo embora, estou voltando
E voltando, já quero sair
Meus desejos são como vento
Seu caminho desconhece
Se esconde no universo
Do nada, ele falece.
E ainda me consolo
Nos pingos que caem na alma
Sendo Deus o meu caminho
Tudo por dentro se acalma.

Hertinha Fischer