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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sábado, 19 de dezembro de 2020

Inexato sentir

 Por ti, por te, poteia, coisa de poeta português.

A ti dou meu coração
Que coração recebes?
A mesma boca que beija, agora blasfema a face
que desejastes.
Faz-se noite face a noite, em ruínas desmorona
de desejos ao contrario.
O que parecia puro, na verdade,
transforma-se em infecto sentimento,
O inverso e reverso de amigo a inimigo.
Mascavado o translúcido, defeituoso o apurado,
corrompido o límpido, de paixão ao ódio deslavado.
Promessas não cumpridas, ação sem ação ou inércia.
Coisa de quem não tem no querer constância. Ora
conserta para quebrar, ora quebra pra consertar.
Sem forma e espumante, ondas arrebatadas no ar,
coisas de quem nunca soube,
o que significa amar...
Hertinha

Surdez

 Ao som sublime do silêncio em

que meus ouvidos descansam.

Mergulhada na sabotagem dos olhos,

que apreciam e não ouvem.

Nem o bater das asas, nem os cantos serenos de sapos na madrugada,

 nem as gotas que cantam no telhado, na seresta

da noite enluarada.

Toco a musica de minha alma,

lembrando letras tristonhas, já sem os acordes de violões

e guitarras.

Emudecidas e esmiuçadas dentro desse campo sem flores.

Foi-se o barulho das citaras, Foi-se o som que se ouvia.

Ainda vejo a figueira com seus frutos, o cipó que lhe abraça.

o balançar de suas folhas, só não posso mais ouvir

o canto que te faz dançar.

O tempo secou meus tímpanos, as cordas se esticaram a ponto

de rebentarem, os hinos, agora, são só barulhos indecifráveis,

 os cantos, gemidos e confusão,

Figuras dançam sem musica, musica, só dentro do coração.

Hertinha Fischer


Viagem de rima

 Pouco sei, pouco entendo, pouco faço.

E de pouco em pouco encho o pote.
As vezes vou a pé, as vezes de avião, noutras, vou
de bote.
Na maciez do caminho: lento, apressado, na correria
ou de trote.
Nas costas, em cima, embaixo, mitas vezes de reboque
Fazendo pirueta, dançando, me arrastando,
dando cambote.
Na luz, na contra luz, avermelhada, alaranjada, estampada,
mesmo que embote.
Com força, sem força, vigorosa e viçosa, tantas vezes fracote.
Levando a vida, a vida me levando, quando se cansa, me carrega no cangote.
Fazendo sonhos, refazendo, escondendo dentro de caixote,
Na mão, na contra mão, empurrando mesmo que capote,
Amparando, espezinhando, caçoando, no deslise ou no capote,
Na amizade, inimizade, rixa, tendo feita de mascote.
Perdas, incertezas, indelicadezas, o que mais vale, é o dote.
Hertinha

sábado, 12 de dezembro de 2020

Oferta

 Eu te ofereço sinceridade, mesmo que esteja na contramão de seus desejos.

Eu te ofereço sossego, um barquinho livre, vagando sobre o oceano.
Uma viagem no centro da vida, até o limite do fim.
Apregoado com palavras e sentimentos condizentes.
Te presenteio com a liberdade
Na máxima constatação do obvio
Te ofereço a lampada de Aladim, é só tocar no coração
que haverá uma alegria constante em meio ao caos
Te ofereço opções, sem, no entanto, separar-te de ti mesmo
E tempo para desgastá-lo
Muito tempo para ir e voltar, estarei a espera.
Hertinha Fischer

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Tempo para tudo

 Alguém já viu o dia reclamar de suas vinte e quatro horas?

Ele te dá tempo para tudo:
Tempo para adoecer e sarar.
Tempo para chorar e sorrir.
Tempo para se alegrar e sofrer.
Tempo para cair e se levantar.
Tempo para comprar e vender.
Tempo para amar e odiar.
Tempo para se entristecer e cantar.
Tempo para limpar e sujar.
Tempo para descansar e trabalhar.
Tempo para acreditar e descrer..
Tempo para sonhar e desistir.
Tempo para praguejar e orar.
Tempo para falar e calar.
Tempo para ouvir e desdenhar.
Tempo para louvar e degradar
Tempo para entender e cogitar
Tempo para nascer e morrer.
Tempo para juntar e espalhar.
Tempo para abraçar e afastar
Tempo para agradecer e blasfemar
Tempo de dar e de roubar
"Que cada um use bem o tempo que o dia tem e dá, porque você não terá todo esse tempo"
Hertinha Fischer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Gélido pensar

 Entreguei-me ao acaso como quem brinca

de se dar.

Num ímpeto, emulsionei sonhos e realidade

que rapidamente se juntaram

como duas cordilheiras imponentes

que se ergueram no tempo.

E lá me ergui entre os nevoeiros

que não me abalam, em pico me desenha nas alturas

como um astro que sobrevive ao vento forte.

Empoleirei entre as pedras afiadas um dedal de esperança,

para que não houvesse abalo que me pusesse deslizando entre

geleiras.

Vinha um frio na barriga e uma fadiga ocultada,

de pedras e ar rarefeito de ilusão,

quase a circuncidar o coração.

Um branco de doer os olhos, essa mania de olhar descalço

Focar em nada, sem nenhum aparato que o protege,

só a imensidão de ladeira a desviar-se de si mesma,

descendo a ribanceira da vida que não dá trégua.

Num caso de acaso sem fim.

Hertinha




quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Balaio

Como a inspiração chega? Assim, de repente, invadindo e preenchendo o coração da gente.


O sol, que entra pela janela, às vezes sinistro, revelando os pós suspensos no ar.


E aqueles pássaros que não sabem cantar, praticando cantos enfadonhos.


E a guerra que se instala aqui dentro, em conflito com o simples e desejado da vida.


E o velho tempo, já sem dentes e doente, aguardando soluções que nunca chegam.


E os morros, afundando em si mesmos, como se devorassem o próprio corpo.


E o vento, insensível e sem aviso, chega sem noção da sua força, devastando tudo ao seu redor.


E os homens, na ânsia de mostrar poder, destroem o próprio lar.


E o mar, que nunca foi consumidor, enfrentando o lixo alheio.


E ainda eu, refletindo sobre aquilo que está além do meu controle.

Hertinha