Estava eu espantada comigo mesma,
sorrindo por dentro por coisas bobas.
Era apenas um sapatinho fechado, de verniz,
sola de couro. Eu nem imaginava, mas era o couro
que fazia cocegas nas pedrinhas; elas riam, e eu,
ficava deslumbrada com aqueles sorrisos.
Meus pés pequenos se perdiam naquele
imenso sapato, precisei amarrar o cadarço com um nó bem
apertado, até me ferir, mas, o que aquilo significava?
Significava tudo, um prazer incalculável!
Não era só o sapato, era o que ele fazia com as pedrinhas.
Um som lindo, e quanto mais eu os esmagava com os pés,
mais som elas produziam, e mais contente eu ficava.
Coisas simples, você diria: Como alguém pode se alegrar
ao vestir um sapatinho de couro, e sentir tanto prazer,
ao ouvir o som das pegadas.
Como um valsear num grande salão, sobre a luz fraca
de sensações, minha pessoa rodopiava em cima de dois
pés saltitantes, a pisar a areia fina, a sentir a musica,
a orquestra da alegria, a valsa , a esplêndida particularidade
do gosto.
Eu não era mais eu. Eu era o pensamento, o despertar
dos sonhos mais singelos, a alegria de viver e de pertencer
aquele pedacinho de terra, que se desenhava sozinha
sobre meu olhar de menina.
E as pedrinhas. Ah! o encanto das pedrinhas que me amavam,
e o sapatinho mais charmoso, perfumado de verniz, vestido
com couro fino e feliz.
Fora dele eu me sentia crescida, dentro dele despertava a criança.
a inocência, a mescla do divinal.Uma magia sem igual.
Minha vestes estavam rasgadas, maltrapilha e sem brilho,
e aquele sapatinho tão fino, tão educado, me aceitava sem igual.
E aquele som, aquele som que ele fazia, quando meus pés pisavam
mais forte, ainda guardo aqui comigo como presente de um amigo.
Coisa pouca, quase nada, a felicidade estava ali.
Herta Fischer
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Restos do resto
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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