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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

terça-feira, 16 de junho de 2020

Conformidade desconforme

Tantas coisas á se fazer
entre um dia e outro
De canseira e de prazer,
já estou quase que morto.
Mãos e pés que não se cansam,
de fazer e de andar
quase que em tinta branca,
transformam o azul do mar.
Ao nascer, nem percebi,
que a vida era só canseira,
o nervosismo de uma noite,
só me dá uma rasteira.
Sem amor nem amizade,
que persista, ha de se ver,
o sol apaga a lua,
a lua, o sol á escurecer.
Vou saindo de mansinho,
rodeando minha historia,
não pretendo conhecer
o final dessa aurora.
O chão nos chama pra volta,
eu, querendo permanecer,
mesmo que a tristeza me destrua
não quero me ver morrer.
Hertinha Fischer.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Primeira morada

Meu pai sempre foi um agricultor.
tinha a escrita de um semeador.
Cultivava suas próprias sementes,
era isso que sabia fazer.
Me lembro que quando criança eu pensava ser uma cebola,
nasci entre elas e meus irmãos.
A terra delineava em sabedoria, a plantação 
sabia onde nascer, e a safra sobre duas mãos fortes,
nasciam e morriam em tempo certo.
Sempre achei  que tudo aquilo sempre estivera pronto
para a nossa família. 
Embora outras famílias ao redor estivessem vivendo
em casas maiores, sobre uma circunstância muito
mais atrativa, a minha pobre morada parecia bem melhor.
Pouco me lembro das coisas: potes, armários, camas,
mas, da alegria do dia.  nunca me esqueço.
Das vezes em que uma ramada de cipós  deitada sobre as
árvores se fazia balanço, do rio, que de tão pequenino,
parecia menino á brincar com a gente.
Das cebolas estendidas na terra á receber o sol para
sua secagem, depois, as tranças de suas hastes, as
tabuas dependuradas no teto a agrupá-las, até que 
fossem vendidas.
O acordar para brincar com os irmãos, enquanto a
vida nos mimava com seu tempo.
As festas na casa de amigos; a dança, a musica sertaneja tão pura,
os doces de batata-doce, o milho verde assado, o suco de laranja
madura, o leite empelotadinho.
Pouco sabia da vida lá fora, talvez nem soubesse que existia gente
fora da gente.
Meu mundo tinha o tamanho das minhas pernas, estendia-se apenas onde
pudesse chegar, e as pessoas conhecidas seriam os únicos sobreviventes do universo.
Quando chegava alguma visita, o que era raro, eu ficava imaginando
de onde saíam, onde moravam, o que comiam, porque não viviam conosco?
As vezes até pensava que havia outros mundos,mas, nada se parecia
com aquele a qual me acostumara. 
Pena que a gente cresce e aprende a gostar de outras coisas, se apaixona
fácil por outro amor, e se esquece do ranchinho da gente, o primeiro amor
da primeira morada.
Hertinha Fischer









 

sábado, 23 de maio de 2020

Terno Inverno

Nuvens descem a terra para um a turnê,
um branco meio negro se vê ao derredor,
 o céu e a terra repleta de neblina densa que sorri, meio
desapontada, para um lugar que pouco se vê.
Abraçando-á com seus braços de vento.
Os seres se escondem entre cobertas e roupas
de lã, desmaiando-se em sono.
O fogo a crepitar em brasas, a mansa labareda
esquentando o coração.
Poucos ruídos, vindo de longe, quebra o silencio
das horas, não se sabe se é dia ou noite,
ambas se deram as mãos.
Uma vontade de doce, a rodear, procura pelo
quente das coisas.
Sentimentos se afloram mais que todas as
vezes, o frio traz paz.
Aconchegado entre quatro paredes, em amor
se transforma, no carinho de corpos unidos,
numa junção de querer e poder, traz orações.
Chama-nos para a intimidade mais que qualquer momento,
como uma arruela e prego,  se unem, para o
prazer de ficar.
O vento faz melodia para as árvores dançarem,
a chuva fraca acompanha o vento, deitando
seus pingos entre janelas.
Parece que Deus está descansando,
chamou seus anjos para o substituir,
e os anjos aproveitam para brincar
de trololó.
Usando a corrente de ar frio e a falta de sol,
para brincar de voar...
Hertinha Fischer

















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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Enfastiada

Não estou triste, não,
Só o sonar da tarde é que
me leva com ela.
Há  uma solidão se derramando
no escuro, encobrindo a cor
do sorriso que quase dou.
Um luar morrendo entre as folhagens
desbotadas na beira da estrada.
Pouco resta de luz à desmaiar entre galhos,
suado com poucas gotas sonolentas de orvalho
O silêncio que incomoda, a roda do moedor,
sutil, leva a semente a gemer por causa
dela mesma.
Não há descanso, as horas sofrem o fastio
do tempo, que na mais profunda dor, morre
e vive, vive e morre.
Sonhei fora do corpo, vivo entre o mar e o deserto,
ambos me enchem de ternura, mas refrigério
não dá, um e seco, outro salgado, e o
sonho fora de mim é oco...

Hertinha Fischer












Negro céu azul

A chuva não vem,
o barro fragmentado, estorricado
abaixo dos meus pés a sangrar.
Tremendo estão as nuvens sem
água sem estação.
Há uma sangria por toda parte,
e um cheiro de morte no ar.

Nos poucos troncos de juncos enfileirados,
o fogo quente á consumir as hastes, folhas
secas e podres beijam o chão.
Aves abandonaram seus ninhos,
pobres dos passarinhos
O charco é só convulsão.

Negro céu azul se tornou em toda parte,
secura traiçoeira e poeira,
se levantou no sertão e na cidade
Mãos calejadas descansam da enxada
mas não tem repouso não.
Nem o diploma adiantou nesse tempo
de calamidade.

A figura do peão, agora desfigurado,
ante a fúria do vulcão que tem
por nome fome.
Vagueia por entre pedras,  com
seu cavalo sedento, vazio esta seu coldre
A arma que um dia usava,
agora mata sua fome.
 Hertinha Fischer


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Cansaço audível

Estou cansada, muito cansada.
Desse existir em promessas
Esse ir e vir em expectação.
Um cansaço quase audível,
como um leão a rugir.
A alma padecendo no asfalto,
onde flores não nascem.
A vida passando ante o olhar,
sem graça e sem novidade.
Uma garça a sondar os peixes,
escorando numa perna só
por horas.
Que dilema sem fim é a vida,
um curso sedento de água,
e água não há.
Uma casa enorme, só um
quarto à ocupar.
Gostaria de ser pássaro grande,
de olho em suas presas.
que só para o estômago vive.
Ou um gato a espiar pelas janelas,
onde procura pão.
Ou ainda uma formiga adestrada para o seu fim,
mais olfato que memoria.
Estou livre dentro da prisão, ninguém me prende,
só essa insatisfação: fastio de ociosidade..
Trabalhando para jogar fora, cansaço de todas as horas..
hertinha Fischer

Era uma vez


Era uma vez, a alegria feito bola de sabão.
A paz surgia onde não havia solidão.
E a tal felicidade em disparada,
corria mais que um alazão.

Era uma vez, ruas cheias, perdidas na
consumação.
Sorriso do comércio, bolso cheios
de ilusão.
Carros potentes, fruto da imaginação, gente
fingindo alma pura e coração.

Era uma vez, trocaram o carro por helicóptero
e avião,
Domando as nuvens por pura satisfação, trocando moeda entre uma e outra nação.
Só não contaram que a vida é um leão.
Não existe revista que dê jeito nisso, não!

Era uma vez, o jovem se desfez do ancião,
Da sabedoria fez escarnio e presunção
. olha de cima como se fosse o sabichão.
Quase sempre o destino é a prisão,
entre grades e desgostos em amplidão, sofre
a consequência de sua própria presunção.

Era uma vez, rodeados de simplicidade e mansidão,
honra e leveza e muita devoção,
havia regras e boa educação, marcando ponto em
cada canto da nação, alegres almas sorriam
de satisfação, tudo acabou em guerra de
irmão contra irmão.

Era uma vez.......