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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sábado, 23 de maio de 2020

Terno Inverno

Nuvens descem a terra para um a turnê,
um branco meio negro se vê ao derredor,
 o céu e a terra repleta de neblina densa que sorri, meio
desapontada, para um lugar que pouco se vê.
Abraçando-á com seus braços de vento.
Os seres se escondem entre cobertas e roupas
de lã, desmaiando-se em sono.
O fogo a crepitar em brasas, a mansa labareda
esquentando o coração.
Poucos ruídos, vindo de longe, quebra o silencio
das horas, não se sabe se é dia ou noite,
ambas se deram as mãos.
Uma vontade de doce, a rodear, procura pelo
quente das coisas.
Sentimentos se afloram mais que todas as
vezes, o frio traz paz.
Aconchegado entre quatro paredes, em amor
se transforma, no carinho de corpos unidos,
numa junção de querer e poder, traz orações.
Chama-nos para a intimidade mais que qualquer momento,
como uma arruela e prego,  se unem, para o
prazer de ficar.
O vento faz melodia para as árvores dançarem,
a chuva fraca acompanha o vento, deitando
seus pingos entre janelas.
Parece que Deus está descansando,
chamou seus anjos para o substituir,
e os anjos aproveitam para brincar
de trololó.
Usando a corrente de ar frio e a falta de sol,
para brincar de voar...
Hertinha Fischer

















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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Enfastiada

Não estou triste, não,
Só o sonar da tarde é que
me leva com ela.
Há  uma solidão se derramando
no escuro, encobrindo a cor
do sorriso que quase dou.
Um luar morrendo entre as folhagens
desbotadas na beira da estrada.
Pouco resta de luz à desmaiar entre galhos,
suado com poucas gotas sonolentas de orvalho
O silêncio que incomoda, a roda do moedor,
sutil, leva a semente a gemer por causa
dela mesma.
Não há descanso, as horas sofrem o fastio
do tempo, que na mais profunda dor, morre
e vive, vive e morre.
Sonhei fora do corpo, vivo entre o mar e o deserto,
ambos me enchem de ternura, mas refrigério
não dá, um e seco, outro salgado, e o
sonho fora de mim é oco...

Hertinha Fischer












Negro céu azul

A chuva não vem,
o barro fragmentado, estorricado
abaixo dos meus pés a sangrar.
Tremendo estão as nuvens sem
água sem estação.
Há uma sangria por toda parte,
e um cheiro de morte no ar.

Nos poucos troncos de juncos enfileirados,
o fogo quente á consumir as hastes, folhas
secas e podres beijam o chão.
Aves abandonaram seus ninhos,
pobres dos passarinhos
O charco é só convulsão.

Negro céu azul se tornou em toda parte,
secura traiçoeira e poeira,
se levantou no sertão e na cidade
Mãos calejadas descansam da enxada
mas não tem repouso não.
Nem o diploma adiantou nesse tempo
de calamidade.

A figura do peão, agora desfigurado,
ante a fúria do vulcão que tem
por nome fome.
Vagueia por entre pedras,  com
seu cavalo sedento, vazio esta seu coldre
A arma que um dia usava,
agora mata sua fome.
 Hertinha Fischer


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Cansaço audível

Estou cansada, muito cansada.
Desse existir em promessas
Esse ir e vir em expectação.
Um cansaço quase audível,
como um leão a rugir.
A alma padecendo no asfalto,
onde flores não nascem.
A vida passando ante o olhar,
sem graça e sem novidade.
Uma garça a sondar os peixes,
escorando numa perna só
por horas.
Que dilema sem fim é a vida,
um curso sedento de água,
e água não há.
Uma casa enorme, só um
quarto à ocupar.
Gostaria de ser pássaro grande,
de olho em suas presas.
que só para o estômago vive.
Ou um gato a espiar pelas janelas,
onde procura pão.
Ou ainda uma formiga adestrada para o seu fim,
mais olfato que memoria.
Estou livre dentro da prisão, ninguém me prende,
só essa insatisfação: fastio de ociosidade..
Trabalhando para jogar fora, cansaço de todas as horas..
hertinha Fischer

Era uma vez


Era uma vez, a alegria feito bola de sabão.
A paz surgia onde não havia solidão.
E a tal felicidade em disparada,
corria mais que um alazão.

Era uma vez, ruas cheias, perdidas na
consumação.
Sorriso do comércio, bolso cheios
de ilusão.
Carros potentes, fruto da imaginação, gente
fingindo alma pura e coração.

Era uma vez, trocaram o carro por helicóptero
e avião,
Domando as nuvens por pura satisfação, trocando moeda entre uma e outra nação.
Só não contaram que a vida é um leão.
Não existe revista que dê jeito nisso, não!

Era uma vez, o jovem se desfez do ancião,
Da sabedoria fez escarnio e presunção
. olha de cima como se fosse o sabichão.
Quase sempre o destino é a prisão,
entre grades e desgostos em amplidão, sofre
a consequência de sua própria presunção.

Era uma vez, rodeados de simplicidade e mansidão,
honra e leveza e muita devoção,
havia regras e boa educação, marcando ponto em
cada canto da nação, alegres almas sorriam
de satisfação, tudo acabou em guerra de
irmão contra irmão.

Era uma vez.......







quarta-feira, 22 de abril de 2020

Castelo de papel

Olhando para o passado. O que sobrou dele?
Castelo de papel.
Se fez algum sentido para alguém,
já foi esquecido.
A orla, aos poucos, é sugada pela maré, vira barranco,
Mariscos secam onde a água não chega,
Castelo de papel
Vozes de antes se calaram, pregadas como
pregos na parede, um dia virou ferrugem
e se desfez,
Castelo de papel
E o sonho sonhado de madrugada,
ao surgir do sol, fica esquecido,
e o sonar do sino que toca por alguns instantes,
para depois se calar,
Castelo de papel
O amor sentido, atribuído a algo ou alguém
num relance de intimidação virou ódio e
mágoa e nunca mais voltou a ser.
Castelo de papel.
A tinta, o lápis, a caneta encontrou seu mundo morto,
mãos suadas em comportamento estranho, na escrita
de um computador.
Castelo de papel
A crença que no amor brota, a degustação do bem afável,
a leitura da inspiração,caiu no poço fundo da incompreensão,
Castelo de papel
Piedade á mercadejar, ciência absurda de posse,canavial
sem açúcar, semente oca, sem vida sem historia.
Castelo de papel
E quando a chuva chegar, será que ainda haverá segurança,
será que sobra alguma coisa,
Castelo de papel?
Hertinha Fischer



terça-feira, 21 de abril de 2020

Exultação

Havia uma estradinha de terra serpenteando o lugarejo,
cabendo nas mãos dos meus sonhos.
Suave e perfumada, com cheiro de terra, meus pezinhos
lisonjeiros as esmiuçavam entre os dedos.
O vento sorrateiro zombava de sua sensibilidade, arrancando-à
de seus devaneios, levando-à a brincar de pipa nos ares.
O cinza se misturando ao azul celeste do céu, quase a encobrir o sol.
A vida pulsava com o coração acelerado em meio ao capinzal repleto
de sementinhas onde passarinhos desenhavam seus ninhos sorrateiros.
Um cantar constante de grilos e cigarras ao cair da tarde, e a noitinha, pirilampos
incendiavam os ares com suas luzinhas cintilantes.
Onde as bananeiras dormiam, também dormiam os sapos, confortáveis pela umidade
que ela oferecia.
O ingazeiro majestoso, exibindo a copa florida, entre milhares de árvores que pareciam alcançar o céu.
Taquareiras à cantar, abraçando umas as outras, numa melodia assombrosa, e ao
mesmo tempo tão divinal.
Os raios de sol a brincar em seu meio, escapando por entre elas, dançando a musica da floresta,
até se cansar.
A noite surgia com sua magia, pondo quase tudo pra dormir, na sorrateira escuridão, burburinho se ouvia no doce rincão.
A penumbra despertava seus grilos, restaurava a paixão dos sapos,  aninhava suas aves.
As árvores perdiam suas cores, pintando com carvão seus caules e folhas, saudando a lua que já despontava atrás do chiqueiro.
Um clarão vindo do oeste, tocava de manso a copa das árvores, fazendo-á vibrar. E a estradinha de terra, escura e perdida, novamente se achava a sorrir.
O clarão despertava seus súditos, tocando a flauta da vida noturna, os seres encobertos pela luz do dia despertavam na toca, saindo de seus estado de sono, e tudo se avivava novamente.
Uma luz se apagava, outra se acendia e a vida nunca dormia.
Bem no meio desse gosto, nascia uma casinha, cercada de terra batida, entre o bananal que a protegia do vento, entrava em transe, quieta em seu lugar, lá dentro a vida descansava, lá fora, outro tipo de vida surgia.
Num vai e vem de magia, tudo recomeçava de novo e de novo, os mesmos personagens, outras historias, mas a estradinha, a casinha, sempre seriam as mesmas. serpenteando o sertanejo coração da terra.. povoando nossos corações de alegrias...
Hertinha Fischer