Total de visualizações de página

Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

sábado, 23 de julho de 2022

Entre trilhos e segredos


O trem das horas apita o dia,
atrás da aurora, o sol a brilhar.
O olhar insistente, que de ti se alimenta,
no amor reluzente, do coração do além,
Se me trago consigo, se me largo não tenho,
entre meio e quarto é o que me sustém
o reverso das dores, entre flores se fazem
e o amor que me pega, se alegra em alguém.
Hertinha Fischer.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Miopia secular

 Hoje minha vida é como um fio encapado, isolando-me dos curtos circuítos.

Preferencia por energias embuçadas que não causam queimaduras em ninguém e nem choque em mim.
Daquelas que se dão as frestas, sem alarde, se promovem em suaves sombras, raiando como pisca-pisca, nem de pronto, nem tão lógica.
Como poste que leva linhas em longas distancias, transporta luz que não se vê. Assim também pretendo ser.
Algo tão sutil e tão necessário, embora, nem se dê conta do que vem a ser, assim mesmo, o é, até que se desligue o abajur.
Hertinha Fischer

domingo, 10 de julho de 2022

A onda da perpetuidade


O amor floresceu em nós em tempos de bonança, espalhando-se em flores pela primavera. Ousamos transpor o tempo e, nos invernos, nos reinventamos. Cada hora chegava para visitas constantes, no rodopiar de ponteiros precisos, sustentados pela fé que não se cansa. Todos os dias colocamos mais um pequeno galho sobre o telhado do nosso ninho, que nunca envelhece. Tudo vive na magia do sentimento, alimentado pela Divindade, mesmo sabendo que é inconstante. Um dia, a despedida chega sem avisar, e teremos que dividir, em lágrimas, a mesma mesa. Ainda assim, toda a vida vivida será lembrada, e toda a felicidade compartilhada nos consolará. A festa, em algum momento, acaba. Os pés cansados de tanto dançar pedirão descanso e, descansando, tudo parecerá completo. Até mesmo a terra, que já recebeu tantas sementes e as transformou em gratidão para alimentar tantos, um dia se cansará e precisará de consolo e repouso. Renovada, se preparará para novas espécies e novos amores. Não há esquecimento, nunca! O que foi, é! Assim como a chuva, que se vê cair e depois parte, mas um dia retorna do seio da terra para irrigar esperança e fé. Milhões de anos depois, aqui estamos, fincados na mesma raiz, na mesma forma, com os mesmos sentimentos crescendo como folhas, conscientes das mesmas promessas e contando histórias diferentes no mesmo papel.
Hertinha Fischer.




quinta-feira, 7 de julho de 2022

Asas equipadas

Me disseram o quanto a vida era enganosa,
na soberba, plantei, urtigas, ao invés de rosa.
Me disseram tanta coisa, e das coisas me esqueci,
até me enterrar nas coisas, que eu mesma construí.
Esquecer é coisa de memória,
que larga o que não tem valor,
se agarra mais na dor do que no amor.
E de lamento em lamento, esquece o bom sentimento,
deveras esquecer o antes, para aproveitar bem o momento.
Momento seguinte é ilusão de percurso, como
água a subir ao céu.
 É como curtir os favos e derramar todo mel.
A vida vigente é esperta, mas não constitui
um laço, vai ampla e sem regimento
até que surja cansaço, Não é corda que se estica,
nem nó de passarinheiro, para alguns, passa lentamente, para
outros, passa ligeiro.
Embora, a divindade, possa ser de boa esperança, 
se não houver bons princípios, de nada vale a bonança.
O peso correto  e medida certa, só se completa em boa
balança.
Que no derradeiro dia, quando não se pode  fartar. ainda
reste coragem, para não precisar se queixar.
Hertinha Fischer. 




sábado, 2 de julho de 2022

Pelas ruas do destino

 A lembrança separa o caminho entre eu e a esperança.

De um lado, passado. Do outro, saudade, o meio soluça felicidade.
Cada curva esconde cansaço, cada passo parece um laço.
Derradeiro sentimento de causa, esporeia o cavalo de troia,
dia e noite a olhar de soslaio o que dentro parece joia.
Alongado parece a manhã, anuviado a tarde que sonda, a noite tudo é duvida, no sonho que apenas ronda.
Como espuma de oceano, que se espreme na orla e areia, a alegria em meio á tudo, de satisfação, apenas esperneia.
A sumir dentro dele mesmo é obra do tempo, que se vinga dos pobres mortais, Buscando mais dia e mais anos, quanto passa a querer sempre mais.
Não se cansa de sofrimento, nem de lágrimas, sequer de tormento, vai a luta a cobrir-se de fé, mesmo sabendo que é só momento.
Quando, enfim, la na rua distante, que de passos um dia se chega, a cidade do conhecimento desaparece, no tempo que também esquece.
Não sou muito de caçar palavra, nem conheço de domar pensamento, sorrateiro as letras aqui dançam, no baile do sentimento.
Se um dia o fim me visitar, apagar meus rastros na visibilidade, deixará seus vestígios perenes, encalacrados numa doce saudade.
Hertinha Fischer.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Harmonia e inteligência da existência

 Pela manhã do dia sete, do mês doze, do ano 1960

Logo que a madre se abriu, depois de nove meses de absoluto silêncio, surge, uma vida, lambendo as beiradas do tempo.

E ouve-se gritos, na perfeição de quem já se pode ver e ouvir. Alguém cujo rostinho se ajusta perfeitamente ao corpo, roseado de jubilo e poder. Já pronto para a agonia de fazer parte e ter que enfrentar as tempéries, empurrando espaço pra cima, enterrado na superfície fantasmagórica da gravidade.

Entre paredes espremidas, cama desarrumada, olhares apaixonados e uma doce harmonia á sintetizar a elegância  da realização mais sublime do ser. Barriga satisfeita, seios fartos de bravura, desencadeando suspiros de alivio e prazer.

E a terra por debaixo de tudo, completamente segura de si, á semear culto, á receber seus méritos, quando tudo que carrega é suprido de divindade. Vitoriosa e perspicaz, dormita por sobre águas e fogo, sem se afogar e nem derreter.  Entre as matas, se faz dilúvio, sem se misturar nem escorrer para fora. Sobe, discretamente, entre os ares, para depois, igualmente, não se perder. Pensa no fruto que a ela corresponde, dentro do tempo, que a tudo responde.

Dentro do tempo, onde vivem todos, na harmônica sabedoria da natureza que não deixa escape para quem vem. Sabe, portanto, que a vida, tão necessária, um dia precisa descansar, então, arruma um jeito de clonar espécies. E derramar bençãos, fincar raízes e sobejar esperança.

Um mesmo caule, uma só lembrança do que se foi, folhas e frutos á sobressair da mesma base, numa sustentação antagônica, uma simbiose perfeita.

A maturidade do princípio que nunca esquece o caminho, a inteligência muda que não muda, guarda-se para a eternidade. Compõe o inevitável e engloba qualquer espaço de tempo.

Hertinha Fischer










sexta-feira, 3 de junho de 2022

De bençãos em bençãos

 Não te preocupes com o tempo que voa.

É bem necessário que seja assim.
Se tempo não houvesse nas tramas incertas,
por certo, nem se lembrariam de mim.
O tempo ondula ações e memórias, nos gastos novelos
de dor ou prazer,
Pra que possamos, dentro da vida,
desenvolver o que viemos pra ser.
Escreve-se rostos, e rostos se apagam,
sentimentos de amor vira saudade,
Porém o dia e o tempo se ignoram,
para mostrar-se na eternidade.
Como uma pena que o vento encanta,
sem asas vagueia como se as tivesse.
Invisivelmente, também se aceita,
la no céu a sua prece.
Ternura e misericórdia que a terra recebe,
em tempos de chuva e tempos de sol
Nesta terra de sonhos e puros desejos,
Deus, para sempre, será o farol.
Hertinha Fischer.