Quem mais poderia me enxergar como os olhos de minha mãe?
Era um olhar claro, cheio de amor e fé. Não podia andar com meus próprios pés, nem escolher os caminhos, mas podia contar com o calor do seu colo quando o inverno se instalava no meu semblante.
Os tropeços da infância não deixavam muitas marcas, mas, com o tempo e a correria da vida, as quedas se tornavam mais intensas e as feridas, maiores. Fui deixando para trás as brincadeiras inocentes e entrando em um mundo perigoso, onde um vulcão de emoções explodia.
Minhas andanças ficavam cada vez mais frenéticas, e o mundo me cercava de tal forma que eu me perdia em seu labirinto de poder. Ainda havia aquele medo de crescer – de descobrir para onde não ir, de aprender o errado, mas não com os erros.
A arrogância da adolescência não traz sabedoria – segue com olhos entreabertos, cerrados, descrentes. Todos pareciam tão certos, tão amáveis, tão plenos, enquanto eu, meio tonta, vacilava à revelia.
Buscava me relacionar, sentia uma urgência em ser aceita, mas a pressa me levou ao mundo das frustrações. Havia uma riqueza de palavras dentro de mim, mas a timidez prendia minha língua. Meus familiares eram de poucas palavras, e com eles aprendi a ser reservada no falar. Contudo, minha mente vagava livremente, sonhando com a vastidão dos sentimentos profundos.
Assim foi minha entrada na vida adulta, aprendendo muito na solidão, quando o silêncio me tocava e os sonhos ganhavam brilho. Só após muitos calos nos pés e dissabores na alma, descobri que todos somos iguais.
O que a boca não conta, os olhos revelam. Minha história não foi a melhor nem a pior, mas esteve cheia de agitação e riqueza nos detalhes. Às vezes intensa, às vezes leve e solta. É assim que a vida nos molda.
De repente, mais próxima do horizonte.
Hertinha Fischer
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