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Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ao sabor da felicidade

Quando nasci, Deus me colocou num bercinho de palha, e uma casinha simples me acolheu com amor. Filha de pais analfabetos, a quarta entre cinco irmãos, carregava comigo uma história linda para contar. Apenas uma parede separava a cozinha do quarto, e dois cômodos guardavam toda nossa esperança. Uma prateleira com três divisões segurava algumas panelas queimadas, e no pequeno fogão a lenha, sempre num canto da cozinha, preparávamos nossas refeições. Duas cadeiras e um toco de pau eram o descanso ao fim de cada dia. Éramos muito felizes, sem nos preocupar em sonhar com mais nada. Nossa vizinha, dona Francisca, o senhor Dario e suas crianças eram parte das nossas brincadeiras. A mata ao redor escondia segredos que adorávamos descobrir, entre barbas-de-bode nas jabuticabeiras que desciam das cunheiras até o chão, nosso esconderijo, onde nossas gargalhadas nos entregavam. Um pequeno riacho entre galhos era onde minha mãe e dona Francisca lavavam roupas e buscavam água para cozinhar, carregando baldes na cabeça sobre rodilhas de pano — água limpinha e potável que hoje já não existe mais por lá. Com apenas dois anos, lembro-me de tantas coisas como se minha memória resistisse ao tempo. Coisas boas não se esquecem; a felicidade se cultiva na mente e nem o tempo apaga. Meu pai saía cedo para a roça, minha mãe ia ao rio lavar roupas, e eu e meus irmãos íamos brincar. Havia tempo de sobra, que só terminava quando dormíamos todos juntos na mesma cama. Era bonito de ver: meu pai no merecido descanso, minha mãe livre das preocupações, e nós, cheios de esperança de ver o sol nascer para inventar novas brincadeiras na mata além do quintal.
Brincávamos, brigávamos, mas estávamos sempre juntos, crescendo não só no tamanho, mas também na esperteza. Até que, num belo dia, sem sabermos o motivo, vimos meu pai colocando nossos pertences nas costas e dizendo que iríamos nos mudar para outro lugar. Quando somos pequenos, tanto faz para onde vamos, tudo é aventura. Assim, carregando algo nas mãos, partimos para conhecer a nova casa, palco de novas experiências que faziam o coração bater mais forte. Uma pequena fila se formou pelo trilho que atravessava a mata fechada, até que, do outro lado, encontramos uma casinha fechada. Eu, com meus olhinhos de criança, não me cansava de admirar aquele lugar encantador. Parecia ter saído de contos que eu ainda não tinha lido, mas que já vivia no meu inconsciente, pois era mágico. Uma casinha de barro, com duas portas e três janelas — até então, minha casa só tinha uma porta e nenhuma janela... agora eram duas portas e três janelas! Que paraíso! Saí de um para entrar em outro, ainda mais bonito e singelo, com tantas coisas que nem sei contar. Meus olhinhos de menina brilhavam de alegria, e meus pequeninos pés não se cansavam de explorar.

A casinha era cercada por bananeiras, coqueiros, pessegueiros, laranjeiras e outras árvores frutíferas, exatamente como eu queria. A cozinha, pequena, tinha uma porta e uma janela, além de um fogão a lenha feito à mão, imponente ao lado da porta, aguardando o fogo que logo daria vida à casa. Meu pai colocou uma mesinha embaixo da janela, e nossa prateleira ficou entre a mesa e o fogão. Do outro lado, um banquinho sustentava o balde onde guardávamos a água para beber e cozinhar. Só minha mãe não ficou muito contente, pois o rio era longe, e o sacrifício seria maior, já que não havia mais dona Francisca para cuidar de nós. Era preciso caminhar cerca de um quilômetro para lavar roupas ou para outras necessidades. Eu, porém, estava feliz observando meu pé de lima, onde as galinhas se empoleiravam ao anoitecer. Ainda mais animador era termos nosso próprio quarto, pois eram dois ao todo: um para meus pais e outro para nós cinco. Também havia uma sala, simples, com apenas uma mesa e quatro cadeiras, mas já era um avanço, pois na outra casa não tínhamos nenhuma. O quintal era grande; na frente, havia apenas um pequeno espaço entre a casa e o jardim, mas na lateral o terreno se estendia bastante, terminando num corredor ladeado por pés de bananeira que iam da entrada até a estradinha. Antes de chegar à estrada, havia um pequeno ranchinho, como nossa casa, coberto com telhas de barro. Ao lado dele ficava um pomar misturado com jardim, repleto de flores e frutos.
Na primeira noite, a gente nem conseguiu dormir, tanto era a excitação, embora estivéssemos deitados sobre panos, pois precisávamos de uma cama, era uma delícia estar ali, naquele lugar misterioso, cheio de lugares para serem explorados.
Ao nascer do dia, logo que o galo cantou já estávamos acordando para saborear o mel de mais um dia de alegrias.
Meu pai se preparava para desbravar a terra que se estendia do outro lado da estrada, logo acima de nossa casa, com uma foice na mão, derrubava a densa mata e os capins se rendiam na força de seus braços fortes. Enquanto que nós rolávamos ribanceira abaixo, deitados sobre os capins macios de marmelada que cobria metade da vegetação nas laterais do plano que meu pai roçava. As gargalhadas se misturavam com o barulho da foice  e dos cantos do passarinhos que pareciam se reunir na dança de nossa alegria.
Ao meio dia, meu pai olhava para o céu, dizendo que já era hora do almoço e nós em disparada rumávamos pra nossa meiga casinha. Não precisávamos de relógio, os ponteiros escondidos do sol nos mostravam as horas.
Minha mãe já estava com a comida pronta, fresquinha e fumegante; o arroz com feijão nos esperava sobre o fogãozinho a lenha. Sem geladeira, a comida precisava ser feita incansavelmente todos os dias, geralmente acompanhada de ovos, algum legume ou verduras. Depois do almoço, cada um se recolhia ao seu quarto para tirar uma soneca. Meu pai roncava, enquanto nós líamos revistas — ou melhor, eu apenas olhava as figuras, enquanto minhas irmãs se perdiam em algum romance. Foi então que minha imaginação de criança começou a desejar aprender as sagradas letras, para ser como minhas irmãs mais velhas, que nunca se cansavam de ler. Aos cinco anos, eu já pegava papel e lápis e tentava escrever alguma coisa; saíam apenas rabiscos, e eu não ficava nada satisfeita — eu queria aprender a ler. Depois da sesta, meu pai se levantava, batendo o tênis no chão para retirar a terra. Ao ouvir esse som, rapidamente escondíamos as revistas debaixo do colchão de palha que minha mãe teceu para nós. Se meu pai visse alguém lendo, ficava bravo, dizendo que a leitura nos deixava preguiçosos, sem vontade de trabalhar. Mesmo que fosse só para brincar, tínhamos que acompanhá-lo à roça.

Assim que toda a vegetação se espalhava pela terra, era hora de colocar fogo para chamar quem a revolveria com um par de cavalos e um arado. Com a terra toda preparada, chegava o momento de plantar; então não havia mais tempo para brincadeiras, era hora de aprender a trabalhar. Apenas minha irmã mais nova não ia para a roça, pois tinha apenas três anos... Eu, com cinco, já ajudava como podia. Meu pai não nos obrigava a fazer trabalhos pesados, mas precisávamos contribuir de alguma forma. Às vezes, mal aguentava o peso da enxada e já estava arrancando o mato do meio do milharal. Não me incomodava, pois me divertia estar entre os adultos, fazendo trabalho de gente grande, e me esforçava para não fazer feio. Também brincava com bonecas feitas de espigas de milho, sonhando em um dia ter uma de verdade. Com trapos velhos, vestia as espigas e as embalava, enquanto fingia cozinhar num fogão improvisado com dois tijolos e latas vazias que minha mãe jogava no quintal. Sonhava em poder dizer que logo entraria no mundo dos adultos, pois queria muito aprender a ler e escrever, para mergulhar nos romances que minhas irmãs liam nas revistas. Eu só via as imagens, mas também queria entrar nas histórias. Até que, ao completar seis anos, chorava todos os dias pedindo para que meu pai me colocasse na escolinha perto de casa. Ele me levou até lá para falar com a professora, que, depois de tanta insistência e tocada pelas minhas lágrimas, aceitou me testar. Ao ver minha disposição e desempenho, não pôde recusar minha matrícula. Disse que, se o diretor aparecesse para visitar a escola, me esconderia embaixo da carteira, por eu ser tão pequena.

No primeiro dia de aula, senti-me a menina mais feliz do mundo, realizando meu primeiro sonho. Depois desse dia, me esforcei tanto que, no final do ano, só fiquei atrás, em resultado, da filha da professora. Entrei de vez no mundo das letras; já sabia escrever e dominava a escrita, podendo ler os romances das revistas de fotonovelas. Também passei a esconder as revistas emprestadas de colegas debaixo do colchão para que meu pai não brigasse comigo. Sempre que se aproximava a hora do almoço, minha ansiedade aumentava, pois mal podia esperar para voltar àquele mundo tão magnífico das letras e dos contos. O tempo passou rápido e minha sede de conhecimento crescia cada vez mais, mas, ao completar dez anos e concluir a quarta série, precisei parar de estudar. Foi então que entrei de fato no mundo adulto, ajudando nas tarefas como qualquer outro membro da família, tanto na roça quanto em casa. As brincadeiras só aconteciam à tarde ou à noite, quando meu pai se deitava sobre um saco de estopa no quintal e nós nos deitávamos ao seu lado para olhar as estrelas. Não havia televisão, apenas um rádio velho que tocava lindas canções sertanejas e nos fazia viajar na imaginação. Um dia, minha mãe voltou da cidade e foi até a roça nos levar o café da tarde, dizendo ter comprado duas bonecas: uma para minha irmã caçula e outra para mim. Quase morri de alegria. Pedi ao meu pai para buscar água e corri para realizar mais um sonho. Minha boneca era linda, de plástico, vestia um maiô verde também de plástico, e naquela noite dormi abraçada com ela.
Essas lembranças são as mais fortes na minha mente, pois marcaram profundamente a minha infância. Meu pai decidiu sair da nossa casinha, já que a terra onde morávamos era arrendada, e o dono iria construir outra casa ali perto. Nossa vida começou a melhorar: saímos de uma casa de barro para uma de madeira. Os cômodos eram tão pequenos quanto antes, mas a sala tinha o piso de tijolos; já a cozinha e os quartos continuavam com chão de terra batida. No mais, tudo ficou igual, exceto que meu único irmão passou a dormir na sala, pois meu pai comprou um sofá para ele, dando a nós quatro mulheres um pouco mais de privacidade. Nós dividíamos a mesma cama de casal em um quarto de quatro por quatro. O rio ficava mais perto, mas para chegar até ele era preciso descer uma ribanceira e depois subir carregando baldes cheios de água. Aos quatorze anos, meu pai deixou de plantar e nos mandou procurar trabalho em outro lugar. Como ele só nos dava comida, tivemos que nos virar para comprar roupas, trabalhando como empregados para diferentes pessoas. Ganhávamos tão pouco que mal dava para adquirir o básico na pequena feira da cidade. Ainda assim, eu não me importava, pois foi naquele cantinho escondido que conheci a felicidade de pertencer a uma família humilde, mas rica em valores. Aprendi que não é a casa ou as coisas que nos tornam importantes, mas sim o que aprendemos com nossos pais na infância. Essas bagagens que carregamos para sempre é que nos preparam para a vida.
Quando pequena, eu me sentia grande, pois meus sonhos eram maiores do que eu, e minhas realizações, embora vistas como pequenas, enchiam meu mundo de possibilidades. Meu crescimento espiritual se solidificava dia após dia, e o conhecimento aumentava à medida que eu crescia. As conquistas, a simplicidade de quem sabe manejar uma enxada, as conversas entre irmãos e os conselhos sábios dos meus pais construíram pilares de aço que formaram um caráter impossível de ser derrubado. Hoje, é com esses mesmos pilares que construo o alicerce da vida dos meus filhos, transmitindo tudo o que aprendi ao longo dos anos. Meus agradecimentos vão primeiramente a Deus, o oleiro da minha construção, e depois aos meus pais, que fizeram de mim uma herança para meus filhos, que, por sua vez, são a herança que deixo para Deus.


Autora: Herta Fischer              Direitos reservados










































       



























             

























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