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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

A ultima rosa

 Estou a ronronar em meus dias férteis

como uma gatinha manhosa,
Não vejo nada de novo no céu, á não ser nuvens azuis
Minha bandeira já desgastada não veleja no vento
nem braveia em descampado.
Em júbilo vejo uma casinha ao longe,
a espera de mim,
já despojada de qualquer cetim
a me cobrir.
Vejo homens e mulheres com espadas nas mãos,
prontos para cortarem a união.
E eu, pronta para ir embora.
Aqui trilhei, em minhas fantasias - colhi maçãs no pé, reguei
minhas rosas, corri e me cansei.
Não tenho autoridade para fazer do meu jeito, então, só me resta
alcançar o horizonte que já me sonda de perto.
E ir, ir e ir, em busca da ultima rosa que falta na coleção
do meu jardim.

Hertinha Fischer.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Na lembrança dos pássaros

 

E quando não mais estiver

A existência for um descampado
E o fio do do varal te contar

Quantas vezes essa mão se ergueu,

pelo muito que já viveu

O ladrilho já bem descorado

De pegadas que o tempo esculpiu

De idas, vindas e trabalho

De um rosto que muito se viu

Soarei como os ventos que cantam
ao chegar, novas, as estações
A trazer folhas secas de longe
á uivar suas belas canções
E do mato se ouvir um murmúrio
Com os pássaros livres a cantar
Entoando cantos e hinos
com seus bicos e corações.
A se lembrarem que ali já passei
Com minha prancha imaginária
A surfar nos caminhos e nos ares
Como mares de recordações.

Entre os barcos de boas memórias

Um furação de saudade irromper

O vento contará da passagem

De um ser que veio pra vencer.. E

foi embora, para se promover

Hertinha Fischer



Eu, casa e coisas

 Sem casa e sem coisas, elas

não me pertencem
Cerro os olhos e tenho os aposentos,
desatento, nego-as, quando
entro.
Não sou assim, por sim
Quando o sol se põe
entro em transe, sem regras
e sem modelo,
Enfim, posso ter sossego, sem
fingimento, me entrego ao esmo.
Dou volta ao mundo, dentro
de mim estão as paisagens,
os rostos e a linguagem que
não consigo falar.
Assim como se subentende Lua e sol,
pela claridade, dia e noite pela passagem,
Também decifro as mensagens ocultas
do globo pela onda que emite no
esboço de mim, que parece através do corpo,
subentendendo um eu que tem
casa e coisas, mas, que não sou eu.
Hertinha Fischer.

O mar do ar

 Escute as ondas da chuva,

rebentando nas pedras
do céu.
Levantando poeira e água,
transformando a terra num véu.
A folhinha que o vento levou
em pequeno barco se transformou
Deslizando sobre a tormenta
das ondas do tempo, que, por
certo, a tristeza domou...
Foi pra longe de sua terra,
Com o ar,
desenrolou sua guerra
permitiu que levasse no colo
as primícias que a tudo desterra
Já desfalecida em tanto mistério
sobre nuvens e seu despautério
Carregada de raios e tormenta
na leveza, construiu seu império.




domingo, 4 de agosto de 2024

Ninho vazio

 E assim se abria uma janelinha de madeira, rangendo de satisfação para o lado norte.

Pura sorte do sol, adentrando aquele quarto desarrumado, repleto de memórias boas.
Uma senhorinha de cabelos negros, erguia suas mãos para o céu, em suplica.
Queria que tudo corresse bem para todos os ausentes. Aquela hora, sua mesa estaria repleta se não fosse o tempo e
suas peraltices. Mas, ao invés de sentar-se, degustando o almoço. preferiu se refugiar no quarto, onde podia se relacionar com Deus, através da prece.
Parecia que seu mundo encolheu, Faltava-lhe o melhor dos dias, que, em dias de sol pleno, barulhava a alegria, fazendo despertar o seu melhor.
Agora, o fogão lhe parecia sem graça. As panelas tão grande, e as labaredas do fogão, tão acesas e sem muita disposição.
Tudo se encolheu, ou ficaram grandes demais.
Seus olhinhos se amiudaram diante da solidão. Eram sete a sentar-se a mesa, agora, cinco cadeiras estavam vazias.
Sua maneira de atender a todos se resumia em tristes passos a toa, soando tristeza e desalento, ao dispor suas mãos em afazeres.
Viver para quê? de perguntava constantemente:
No inicio do preludio, eram só expectativas, que desenvolveram nela, uma vontade imensa de continuar, agora, que já tinha realizado de tudo, quanta alegria saíra pala porta.
E quando a janela se abria para mais um dia, ela também rangia sua insatisfação. Suas preces se iam com o ar, provavelmente, chegariam até Deus, que, compassivamente, abraçaria seus entes queridos, no lugar dela.
Ela mesma nunca os abraçara com os braços, seu coração inundado de ternura, os abraçava com seus préstimos. E agora, nem isso! pensava:
Era bom demais, presenciar as brincadeiras, as mordidas, as brigas entre irmãos, as chineladas que se atreviam a colocar ordem nas coisas. O bem estar, sempre alimentando o amor que crescia.
E o silêncio... que agora crescia entre o quintal, engolindo os risos e traquinagens.
Fazia com que a saudade crescesse.
Não mais importava que dia seria - Se domingo ou quarta feira. Tudo parecia igual.
Saia, as vezes, a capinar, sem nenhuma vontade, sem nenhum prazer; Já não ouvia os cantos de sua própria voz, nem o som de nenhuma criança a brincar
Estava um tanto doente já fazia algum tempo, A força que a compunha, agora, fraquejava, sem os motivos que agora não tinha mais.
Pouco a pouco, a doença foi tomando espaço.
E o lugar se entristecia com ela.
Hora de partir! pensou:
E numa fria manhã de junho, sua alma foi libertada. Jogou a toalha e se deitou, com os olhos virados para a janela, onde ainda, em transe, pode ouvir, suas crianças cantando, o triste canto do adeus!

Hertinha Fischer.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Detalhes

 Arranca dos céus o azul

enfeita minha alma de luz

Sei, sou eu, que de eu, sou assim

Tão céu e tão luz

Pouco sei, mas, sei um pouco.

Que de pouco em pouco, descubro.

Tenho de mim, o que ninguém tem

Penso e pensando ainda penso

Traduzo-me em opereta

Canto rezo e desmembro-me

Esteira quebradiça, mesmo, despedaçada,

ainda sou do que fui feita,

Se chegar, sei que cheguei,

se voltar, nunca chegarei.

Na esperança, me voltarei.

Hertinha Fischer



quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Ambíguo sentir

 Ah! O latir de um cão: au-au

O miar de um gato: miau-miau
O luar e o sarau.
Ah! os telhados e seus mistérios
As pessoas e seus critérios
Vivos, vivas e vivacidade
Moços, moças e mocidade
Poças, poços e sangria
Desejo, posse e mania
Ah! Olhos que piscam, as estrelas
Cara amarrada, tristezas
Eu, que não vejo, sinto,
Se não ouço, minto.
Ah, Coração amarrado, degradado
Tens corpo, tens alma, desafinado
Conspira, inspira, arroga
Se rende, arranca a goga

Hertinha Fischer