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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Casa abandonada

 Quando a saudade chamou, voltei.

Entendi que o passado é casa abandonada, cheia de fantasmas.

Tudo morreu por lá.

Mesmo puxando rostos na memória, sempre faltava o necessário,

Presença é tudo.

Risos cessaram, rios secaram ou se retiraram.

Casas desabaram, amigos se foram.

Alguns esboços sobraram, quase a sucumbir em cacos, irreconhecíveis

As estradinhas murcharam sem os pés que as regaram

Os jardins foram roubados pelo tempo, Em lugar das flores, esquecimento.

Os famosos sábias das laranjeiras, sem lugar, nem sei onde foram parar.

Meu pé de ingá, de saudade, caiu aos pés da terra, transformando-se em maternidade

de besouros.

A chuva apagou os rastros, o céu levou sentimentos.

O amor se tornou imigrante estrangeiro, migrou para outros janeiros.

Hertinha Fischer





Um olho no peixe, outro no homem

Vencendo os dias como quem enfrenta um dragão,  

apaga suas labaredas com água e sabão.  

Golfinho encantado, que do mar sabe tanto,  

escuta as falas de que não abre mão.  


Salta sobre as ondas, cortando a garganta,  

nos olhos das águas lança o seu mantra.  

Sopra o apito ao seu reinado atento,  

à hora que passa e nunca alcança.  


Abre sua boca, alçapão de ladrão,  

peixe e sereia viram refeição.  

Hertinha Fischer




terça-feira, 12 de setembro de 2023

Vencendo os acúmulos

 Vamos de alegria, assim como meu sertão que não se cansa.

Bata palmas, reze, bendiga.
Seja leal com os outros e com você mesma.
Agracie a felicidade e a convide para se instalar.
Vente, seja brisa, suavize-se
Floresça, floreie, favoreça.
Ande com suas asas e voe com seus pés de esperança
Umedeça seus lenços e ofereça as tardes quentes,
renove-se, revista-se, lave-se no manancial de águas claras.
Plante o que quiser, mas só ofereça aquilo que cresce para cima.
Cansei de contar passado, cansei de acumular saudade, cansei do que se foi. Ausência não se vive. Hoje estou pronta para frutificar no deserto, para ser capaz de vencê-lo.
Hertinha Fischer.

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Saudade poética

Tempo bom que não se esquece,
quando vira saudade, faz-se uma prece.
Papai andava a cavalo, mamãe andava a pé
capins de corpo e dança se lançavam sobre
meu pé.
Vargem ofegante, respiro de águas paradas,
cheio de observação,
arrozais ofertados, nela, se dorme, em ascensão
Tudo cresce quando se planta, reveste a roça
de pura manta, lembra a magia que a boca espera,
estômago cheio, magica lembrança
A estrada que, ali, aparece, feitas de terra que
desfalece. máquinas mortíferas e barulhentas
deita a grade que não se esquece.
Por dentro da mata ainda uiva, pequenos
trechos desconhecidos, terra batida por
passos lentos, trilhos selados e esquecidos
Ainda dorme aqui no peito, cintilante adeus a cantarolar
gravado na alma, ainda surge, um grande amor a esverdear.

Hertinha Fischer





sábado, 9 de setembro de 2023

acasos em festa


Olhar perdido. vaga-lume
Desperta, como
o mar desperta seus sonhos.
Vago seria se não houvesse prece
Fraco seria se não fosse amor
Haja e houve
Pertinentes acasos em festa,
sobre ombros estrelados,
sobretudo açucarados.
Troveja versos, raios de promessas
Cumpre mandatos nos alqueires
rega sonhos nos açudes, pega pedra
que se peneire.
Cria luzes no alçapão, acendedor de
coração.
Caminhos se abrem por sobre as veias,
em ventre, santo, não titubeia.
Haverá quem o chame de ascensão,
conheço mesmo por elevação.
Hertinha Fischer.

sábado, 2 de setembro de 2023

Risos e rezas

O inodoro está cheio de sentimentos e cheiro.


A bica seca bebe água de fora quando a brisa chega. O céu, sendo céu, levanta cedo, enchendo seu copo de azul e clareando espaços para as nuvens. Bebem juntos curaçao blue, sentados à margem do dia. Os corvos gostam do ar e se cansam do desagradável. Lá em cima, sentem-se reis de cheiro bom. Nem as plantas gostam do escuro; estendem seus braços para alcançar a luz. Se as pedras falassem, declamariam meu nome; às vezes, também sou pedra. Coisas são coisas, sem significado. Também me sinto coisa, quando a coisa é tão profunda que não alcanço. A coisa não pertence à raça da criação, é fruto da descrença: sem forma, sem corpo, sem presença. Anulo um eu por fora, embora seja, por dentro, puro desdém. Nem sei quando vou chegar se nem marquei hora para sair. Despenquei quase verde no maduro da vida. A terra me acolheu com suas mãos, amparando minha semente. Eu, que nem tinha jeito, sem jeito, me instruí no acaso, como qualquer ser que morre. Quem puxou minhas mãos para crescer soprou gorduras para preenchê-las, inflando-as até as unhas. O vento é sopro de agosto; às vezes, se esquece e sopra a qualquer hora. A terra, às vezes, abafa, como forno apagado. Até o vento esquenta. Tudo é questão de estar. Se não está, não é.


Hertinha Fischer














Fé, crenças e versos

 Veste-se de verde e veludo esse meu chão,

coroando-se de frutos e flores.
Faz seus ninhos, no alto e canta,
alegria em seus amores.
Onde houver revelação, por meio de fé e precisão
Deus ressurgirá a tocar
Flauta em seu coração
Amigo há que almeja,
pra todos, grande afeição
Que a vida brote em seu seio
o lírio da salvação
Ditado que conta-se em versos
vozes que clamam no deserto
se alegrem que já é a hora
de encontrar o céu aberto
Diluvio de realizações
suave brisa nos rincões
paz em seus furacões
laranjas em pés de limões
Tudo o que se faz de melhor
vem em sua direção
como balsamo abençoado
cura ferida de aflição
Teima em certeza em bondade
Vira-se mirando a sorte
Se entrega nas grandes promessas
que já se venceu a morte
Tua Pátria já bem definida
No outro lado da ponte
No trincado do chão
É cristalina a fonte
Grande a tristeza aqui
juntando mazelas e aflições
Coloque o juízo na frente
E Cristo em seus corações
.
Aurora já se vê ao longe
Tudo é manhã e fulgor
Espanta o seu espanto
Já vem logo o teu Senhor.
Hertinha Fischer.