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Restos do resto

Tento falar de outras coisas, mas elas sempre acabam sendo as mesmas. Os encontros viraram vazio, quem ainda se conhece? A cama guarda o car...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Tão simples

-Eu gosto de você! dizia uma voz
atras de mim;
 - porque não diz isto olhando nos meus olhos?
- Tenho vergonha!
- Vergonha de olhar?
- Não! vergonha de gostar!
Herta Fischer

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Felicidade vem de dentro

Estava eu espantada comigo mesma,
sorrindo por dentro por coisas bobas.
Era apenas um sapatinho fechado, de verniz,
sola de couro. Eu nem imaginava, mas era o couro
que fazia cocegas nas pedrinhas; elas riam, e eu,
ficava deslumbrada com aqueles sorrisos.
Meus pés pequenos se perdiam naquele
imenso sapato, precisei amarrar o cadarço com um nó bem
apertado, até me ferir, mas, o que aquilo significava?
Significava tudo, um prazer incalculável!
Não era só o sapato, era o que ele fazia com as pedrinhas.
Um som lindo, e quanto mais eu os esmagava com os pés,
mais som elas produziam, e mais contente eu ficava.
Coisas simples, você diria: Como alguém pode se alegrar
ao vestir um sapatinho de couro, e sentir tanto prazer,
ao ouvir o som das pegadas.
Como um valsear num grande salão, sobre a luz fraca
de sensações, minha pessoa rodopiava em cima de dois
pés saltitantes, a pisar a areia fina, a sentir a musica,
a orquestra da alegria, a valsa , a esplêndida particularidade
do gosto.
Eu não era mais eu. Eu era o pensamento, o despertar
dos sonhos mais singelos, a alegria de viver e de pertencer
aquele pedacinho de terra, que se desenhava sozinha
sobre meu olhar de menina.
E as pedrinhas. Ah! o encanto das pedrinhas que me amavam,
e o sapatinho mais charmoso, perfumado de verniz, vestido
com couro fino e feliz.
Fora dele eu me sentia crescida, dentro dele despertava a criança.
a inocência, a mescla do divinal.Uma magia sem igual.
Minha vestes estavam rasgadas, maltrapilha e sem brilho,
e aquele sapatinho tão fino, tão educado, me aceitava sem igual.
E aquele som, aquele som que ele fazia, quando meus pés pisavam
mais forte, ainda guardo aqui comigo como presente de um amigo.
Coisa pouca, quase nada, a felicidade estava ali.
Herta Fischer



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Espinhos e rosas

Se não fosse os espinhos não se nasciam as rosas...
Muito relativo o conceito de bom ou ruim.. justos e injustos.. Muitas vezes o considerado ruim pode ser mais justo do que aquele que é considerado bom por motivos interesseiros.. e vice-versa.
É tão mais fácil seguir tendências.. fazer o que todo mundo faz...O mais difícil é manter as coisas como sempre esteve.. puras e verdadeiras, sem ostentações...nem falsos merecimentos..
Herta Fischer

Mediocridade

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.
Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis

Dedo podre

Dedo podre ou apenas carência afetiva?
Se puder avaliar com a razão suprema de quem tem cérebro.
verás que o predador avalia sua presa enquanto a observa, e escolherá aquela que mais lhe parecerá ingênua e frágil.
Nunca atacará aquela que está atenta. e que lhe parecerá forte.
Assim como qualquer predador espreita a sua presa pela força de sua fome, alguns predadores (homem/mulher) espreitam suas presas pela vontade de "possuir", de tornar-se dono(a)
do corpo e da alma.
Como qualquer estelionatário, lhe parecerá bem intencionado, pois usa sua lábia para enganar. Assumindo uma postura sexual tão melindrosa e tão atraente capaz de enganar até mesmo os mais experientes.
Diz-se que o diabo é esperto, ele busca te atrair sondando os pontos fracos. Ataca a presa que mais lhe parece vulnerável e desatenta..
Herta Fischer.

Olhar alem

Talvez, se eu me levantasse em favor do visível, do objeto de paixão, da ciranda dos que botam confiança em mortos, dos sofredores alienados que se embotam ainda mais não querendo aceitar misericórdias. que gostam de se abater, para se dizer dele, que se importa, que é fiel. Se eu me entregasse mais ao passageiro, e gritasse como todos gritam em vão, sem ganho, nem perdas, pelo simples fato de querer de, alguma forma, fugir de sua realidade.
Talvez pudessem me ver de outra maneira, conseguissem sentir o que sinto, não me taxassem de fria, não me questionassem tanto sobre a que espero, a que se vê a minha esperança. No não me entregar tanto as grandes comoções, no entender que tudo passa, no confiar que depois de amanhã, talvez, nada me restará a não ser olhos fechados, coração parado e nenhuma, nenhuma lembrança ou emoção.
Herta Fischer

sábado, 3 de dezembro de 2016

O indivisível

Estou indo embora de uma vez,
não posso mais aguentar estes dias chatos.
São dias em que as rosas não se abrem,
a chuva não cai, e ninguém a me dizer
por quê?
Nuvens pairam em mim, e a minha
alma não encontra nenhum consolo, só
esquisitice e pensamentos frios.
Já tentei mudar, tentei florir em todos
os jardins que encontrei, mas, as pragas
do mundo teimam em me ver murchar.
Tento desesperadamente espalhar esperança,
as transformo em palavras, para que sintam
nos ouvidos  o som da chance que ainda
temos.
Não de mudanças externas, nem mudança
de estatus, nem amor demais. è só
o acolhimento verdadeiro de cada
um para cada um, sem aquele sentimento
que confunde  a gente. O de se amar para
 enfim amar.
Semeia-se amor próprio, quando O Senhor Jesus
nos ensina a esvaziar-se de si.
Semeia-se toda forma de amor confundindo-se
com lascívia.
Semeia-se corrupção querendo colher bem.
Tá tudo errado.
Não quero mais fazer parte, não quero mais
me tornar sócia deste conturbado sistema.
Quero sair, ser de fato, livre. Numa liberdade
simples, onde o real prazer exista.
Quando eu possa me assemelhar ao
indivisível, Ser um todo e não mais
me sentir apenas pedaço.
Que ninguém mais me questione sobre
o que penso, o que acredito, como vivo,
sem me conhecer.
Porque da mesma forma que vivo eu penso,
da mesma forma que eu penso, vivo.
Só não posso ser como todos, pois eu sou
inteira em mim mesma, e não suporto
a mediocridade de quem tenta me
despedaçar, controlar a minha crença,
como se pudessem tirar de mim a
coisa mais divina que ha.
O crer que a vida é muito
mais importante que qualquer corpo,
pois, todo corpo um dia vira pó,
mas, a vida permanece para sempre!
Esteja eu onde estiver.
Herta Fischer