Havia tantas portas fechadas que abri-las já não importava. Sempre haveria um lugar onde o tempo se encostava. Segurava-se a uma espécie de esperança, onde ainda havia costa, havia mar. Sabia que atravessava o tempo como quem percorre um labirinto. Tudo se desfazia ao redor dela, gente engolindo gente, e só ela permanecia intacta.
Simplesmente amava e, amando, não percebia. Coisas se acumulavam nas calçadas, nos bares, nas praias; coisas movidas por desejos e súplicas, por mais desejos e súplicas. Doença generalizada. Um encanto pelo feio, que se multiplicava como se fosse belo. Lutar contra isso seria como golpear o ar.
Sociedade em desfloramento, seca, despedaça-se e se mascara.
Nunca me notarão enquanto caminho só pela rua. Sou a realidade de mim, me incluo na promessa e a promessa me eleva, quase pura e perdida em pureza, quase nua e vestida de fumaça. Caminho onde as flores me olham com certa tristeza que a tarde apaga e a noite tenta sonhar comigo, como se sonhos ainda pudessem me despertar.
Olho para dentro de mim mesma, quantas mensagens estão guardadas, prontas para eclodires em palavras, que ninguém ouvirá.
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