Cristina estava triste, e não era uma tristeza qualquer. Não era por ninguém, nem por algo, e sim por ela mesma. Enfrentava algo desconhecido, que lhe escapava da compreensão. A idade lhe pregara uma peça. De repente, teria que atuar, sem que o palco lhe pertencesse. Sua percepção diminuía a cada passo. Olhava e esquecia. Seus pés, antes tão ágeis, já não caminhavam como antes, e suas mãos, antes tão prestativas, já davam sinais de que não mais a compreenderiam.
Queria estar inteira, mas inteira nunca mais estaria. O tempo a desgastou, tirando-lhe as arestas. Não havia tempo para resgates, nem coragem para admitir. Como uma árvore cuja raiz se desprendeu da terra, já previa a queda. Suas folhas amareladas, sem brilho, secavam-se à sombra do nada. E o nada a observava. Havia sombras do início ao fim do dia. Uma pequena luz se acendia às vezes pelos caminhos que trilhava, mas queria voltar ao começo, e começo não havia.
Portas se fecharam, o mundo mudou. Tentou entrar no passado, mas nem rastros ele deixou. Tudo o que conhecia, tudo que tinha como certeza, de repente se anuviou. “Mentira!”, diziam. “E eu sou verdade?” Uma verdade esquecida, em terra de ninguém, onde as passagens se fecharam e as pegadas se apagaram. Para onde voltar?
Não há volta. Nem idas nem vindas, só essa solidão que espreita, e a vontade de encontrar um caminho, onde os caminhos já passaram. Se a viram, esqueceram; se esqueceram, não a lembram mais; e se não é lembrada, já não existe naquele lugar.
Herta Fischer
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