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Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Eu dando vida as coisas

E o caminho era suave, sem obstáculos, na linguagem das flores. Um perfume de cores e risos se espalhava pelo olhar. A liberdade fluía como bálsamo nas veias, tingindo as linhas da alegria exposta. Corpo e mente em harmonia com o vento que acariciava as folhas. Um pequeno mundo, geograficamente resumido. Pedrinhas desbotadas amorteciam o marrom das trilhas empoeiradas. O mestre, o tempo, escrevia em si mesmo, nas folhas brancas soltas no ar. Uma mente dançante imitava o movimento das folhas no chão, animando a magia de um ser. Um ser que nem sabia ser. Um corpo pequeno, de poucos dias, sonhando com a realidade abstrata. Ao redor, o vento falava, dando vida ao vazio do espaço. A corrida do coração abria os lábios num sorriso. A dança contínua do tempo acompanhava o corpo que cantava o silêncio das coisas. Tudo era vivo, mesmo o que parecia morto. Se ali estava, existia. E se existia, tinha propósito, na alegria de me ver passar.

Hertinha Fischer



domingo, 29 de junho de 2025

Não houve nós dois

Havia luz naquele olhar, capaz de derrubar todas as minhas defesas. Surgiu de repente no meu caminho, andando desmascarado e sutil. Olhei e adoeci no mesmo instante, sabia que morreria de amor. Meus olhos o seguiam, mesmo sem sua presença física. Meu coração o chamava até que ele me ouviu. Era como se o tempo, cheio de felicidade, girasse sob meus pés. Momentos inexplicáveis todos direcionados àquela luz.


Tão pouco tempo parecia uma eternidade. Cada encontro se tornava um instante eterno até o próximo. Eu dizia: "Feitos um para o outro!" Mal sabia eu que nada existia do outro lado. Uma magia incendiária consumia toda a razão. A cada encontro, eu me preparava como uma rainha para seu rei, acreditando na ilusão de reciprocidade. Os doces beijos com gosto de chocolate e hortelã tatuavam meu coração. As risadas ternas, os passeios de mãos dadas, o ir para a cama depois da despedida, levando o gosto da felicidade para os sonhos. Esperar pelo próximo encontro, ouvir o ronco da moto chegando, sentir os abraços na cintura, as gotas do sereno nos envolvendo, o amor se revelando em nós. O mundo se resumia: nada existia sem ele.


Até aquele dia. Um sábado à tarde, ensolarado e cruel. Eu esperava o ônibus para voltar à casa do meu pai. Ele apareceu de repente, como um vento tempestuoso. "Onde vai?" perguntou. "Na casa do meu pai", respondi. "Ele me espera." Sem piedade, como se não tivesse me ouvido, retrucou: "Vai nada, está indo se encontrar com outro!" "Que outro?" perguntei, perplexa. "Não sei, você que vai me dizer!" Já havia explicado que meu pai, viúvo, me aguardava todo sábado para que eu preparasse o almoço de domingo e cuidasse de suas roupas. "Mas não é isso que estão dizendo..."

Hertinha Fischer










sexta-feira, 20 de junho de 2025

Marchinha do acontecer

E as nuvens densas se alinharam


no semblante do sol azul.

Quando o amor despertou o urso,

sobre o gelo formado no sul.

O mar ficou açucarado, quando

o amor acendeu a luz.

A poeira de areia que o vento levantou

trouxe alegrias fartas e ondas a quem amou.

Sobre o terço rezado, contavam-se

os dedos,

o amor, quando revelado, de ambos os lados,

libera coragem e dissipa os medos..

Hertinha Fischer.

Sinônimo de amor é sonhar

Se estou aqui, estou parado,  

se vou ali, estou andando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou na roça, estou trabalhando,  

se fico em casa, estou descansando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou feliz, estou sorrindo,  

se fico triste, estou sentindo,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se chego em casa, estou chegando,  

se saio, estou passeando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se olho o céu, estou orando,  

voltando à terra, estou voando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou sonhando.  


Se estou deitada, estou pensando,  

se estou dormindo, estou sonhando,  

ninguém segura esse coração,  

quando estou amando.  


Hertinha Fischer.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Emoções e fracassos

 Estava eu, sem chão, naquele momento.

Acostumada a ter meu pai na direção, comandando as

tarefas, e nós, sobre seu comando, trabalhando e se

desenvolvendo. 

Repentinamente, nos vimos sem esse auxilio.

Sem ferramentas adequadas para continuar na lavoura, como

um motor de irrigação, por exemplo, meu pai se viu obrigado

a tomar outras direções. 

Sem aviso prévio, a plantação já não se desenvolvia bem,

as sementes não mais despertavam como antes.  A plantação seguia

lenta e sem o desenvolvimento necessários para finalizar-se com saúde.

E por várias vezes, a gente perdia tudo na roça, sem proveito algum na colheita.

Antes mesmo disso acontecer, meu pai já trabalhava como intermediário na

venda de sementes de cebola, que, naquela região era muito bem aceita.

Foi então, que apareceram mais dois produtores da região sul, que o procuraram

para revender essas sementes naquela região.

Como meu pai não necessitava mais de nosso trabalho, nós passamos a trabalhar

como diaristas para outros agricultores, enquanto meu pai se comprometeu ,exclusivamente,

em suas vendas.

No inicio até que era divertido, poderíamos ganhar o nosso próprio dinheiro, e ficar com ele, já que nosso pai, não nos dava nada além de alimentação, moradia e vestes.

Até que, em determinado dia, ele começou a resmungar algo como: - Vocês precisam tomar uma decisão em suas vidas, Até aqui eu cuidei das necessidades básicas de vocês, mas, está na hora de cada um cuidar de si.

O que ganho com vendas dá muito bem para mim e sua mãe, mas, para tratar de todos vocês como adultos, vai sair muito caro.

Eu ainda era uma jovenzinha de quatorze anos de idade, embora, já me sentisse bem mais madura do que minhas irmãs mais velhas. E fui ficando incomodada com o jeito do meu pai agir. De repente, ele não mais precisava de nenhum de nós?

Numa tarde ensolarada, quando a noite já preparava sua chegada, chegou um carro em nosso quintal, com quatro ocupantes.

Vinham de uma cidade que me era completamente desconhecida. Estavam a procura de moças para trabalhar em sua lanchonete.

Não tenho e não tinha, naquela época, nenhuma ideia de como chegaram até nossa casa. Sei que acabaram encontrando o caminho de meu destino.

O homem e a mulher eram os donos da propriedade, e outros dois, seus funcionários.

Foi uma conversa rápida. Decidido ali mesmo, em nosso quintal. E repentinamente, antes que a noite avançasse muito, já me via dentro do carro, ao lado de minha irmã numero quatro e os dois desconhecidos rapazes.

A viagem durou aproximadamente uma hora, talvez. O silencio arrebatava a quilometragem. 

Quando chegamos ao local, entramos por uma grande porta, E dentro do estabelecimento, havia um grande balcão de madeira, com alguns banquinhos encostados em frente. Algumas mesinhas  e pequenas cadeiras de madeira, dispostos em um médio salão. Dentro do balcão havia um outro balcão, embutido na parede. Uma chapa de lanche e várias garrafas de bebidas dispostas numa prateleira acima . Ao lado, uma geladeira de porte médio. 

Atravessamos esse compartimento e entramos numa espécie de deposito, com vários engradados de garrafas de cervejas e refrigerantes. E mais a frente havia uma cama, beliche, já pronta,  para nós duas dormir. Ao lado um pequeno banheiro com chuveiro.

E foi assim, meio que, silenciosamente, que toda a mudança começou.

A tarde, o ambiente mudava um pouco, varias pessoas, se aglomeravam, encostados no balcão, enquanto eu e minha irmã os servíamos meio timidamente, Depois de alguns dias já mais soltas, com um pouco mais de pratica, fomos aperfeiçoando a forma de atender os clientes que ali chegavam para lanchar, ou simplesmente relaxar, depois de um intenso dia de trabalho.

Certa noite, estava eu, fazendo sanduiches para dois clientes, e quando me virei, havia mais quatro pessoas para atender. Reparei que havia um rapaz entre eles, que assim que me viu, não tirava os olhos de mim. Outros três, aparentavam ser bem mais velhos que ele. Muito tempo depois fiquei sabendo que eram tios e sobrinho, e que o rapaz tinha dezenove anos de idade. Vieram na cidade, para instalar um parque de diversão. Seus tios eram os proprietários e ele, estava passando um dias na casa de um de um  deles, aproveitando para passar alguns dias com eles no parque.

Ele apareceu mais algumas tardes e sempre me olhava com aqueles belos olhos verdes. Numa noite, quando eu recebia o valor de consumo, seu tio me deu mais do que devia, quando fui devolver-lhe o troco, ele não quis receber me pedindo que ficasse com ele, como caixinha. Eu fui colocar o dinheiro no bolso, e o rapaz, imediatamente, pegou em minhas mãos e me fez devolver para o caixa. Não entendi direito o que o levou a fazer isso, mas, como sempre, minha educação exigiu que o obedecesse.

Na quarta visita a lanchonete, ele me fez um convite para ir conhecer o parque de diversão. Como na noite seguinte seria meu dia de folga, aceitei o convite.

A tarde, tomei meu banho e escolhi minha melhor roupa, que nem era tão sofisticada assim. Apenas uma blusinha florida e um macacão jeans e um sapatinho de salto baixo. Sai para a rua toda contente, sabendo que o encontraria.

Logo que entrei no parque, as luzes coloridas, com diversos percursos e atrações como carrosséis, roda gigante, chapéu mexicano e algumas barraquinhas de jogos variados, me deixaram meio tonta. Nunca havia sequer chegado perto de um. Meus olhos o procuravam, nem precisei andar muito, lá estava ele, dentro de uma barraca. Assim, que me viu, pulou a grade e veio ao meu encontro.

Colocou seu braço ao redor do meu pescoço e foi me levando para conhecer o parque. Me levou para brincar no chapéu mexicano, e fiquei deslumbrada com tal acontecimento. Era uma delicia girar acima do chão, e poder observar a cidade de cima, como era noite, as luzes á deixava mais exuberante. Ele estava ao meu lado e ficamos nos olhando e rindo o tempo todo. Depois me levou na roda gigante, e assim, fui conhecendo toda a magia de um parque de diversão, honrando o nome que levava.

Depois de nos divertirmos bastante, chegou a hora de subir de volta para casa. Ele se ofereceu para me acompanhar. Quando já estava quase chegando, paramos, nos olhamos e nos beijamos. Eu já havia beijado alguns rapazes, esporadicamente, quando ia no cinema de minha cidade com minhas irmãs mais velhas. Nos domingos, nosso pai nos dava o dia livre. Depois do almoço, deixávamos a cozinha limpa e podíamos fazer o que quisermos. Como a única opção que tínhamos a noite era dormir cedo para acordar cedo na segunda feira para trabalhar. Quando tinha um filme bom passando no cinema, nós íamos, de ônibus, até a cidade que ficava a mais ou menos uns vinte quilômetros de nossa casa. Apesar de ter que andar por cinco quilômetro a pé até chegar ao ponto, e depois, voltar tudo a pé novamente.

O filme começava as oito horas e terminava as dez. E o ônibus saia do seu ponto as dez, então, não dava para assistir o final do filme. Já que, para chegar do cinema até o ponto, Tínhamos que andar uns dez minutos. Mesmo assim, a gente ficava feliz demais por poder fazer algo diferente do cotidiano.

Como o cinema, na época, era um lugar de encontro, sempre havia rapazes do nosso bairro, que tomava o mesmo ônibus, e consequentemente, como bons adolescentes, o ônibus passava a ser um ótimo lugar para paqueras. Que acabava em convites para assistir o filme juntos. Numa dessas vezes, ao invés de assistir a um filme que não tinha final, se trocavam caricias. E foi assim que acabei ganhando o primeiro beijo, seguidos do segundo, terceiro, e outros vários. Longe da vista do meu pai, tudo era divertido. 

Não passava disso, na segunda feira tudo era esquecido, diante do trabalho árduo na roça. 

Mas aquele beijo foi bem diferente, tinha uma conotação mais ardente, algo que jamais havia imaginado, seria amor? Talvez!

Nos dias que se passaram, a gente dava sempre um jeitinho de nos encontrarmos, as escondidas, longe de olhares curiosos que pudessem gerar fofocas maledicentes. E os beijos se multiplicavam.

Certo dia, enquanto ainda havia eu e ele, Seria meu dia de folga. Resolvi ir para casa de meus pais e lhe contei.

Foi então, que pediu para que nos encontrássemos no terminal de ônibus da cidade. Eu, como já mencionei, morava na lanchonete de uma cidade um tanto distante da cidade que fazia ligação com o sitio que meus pais moravam. Ele viria de outra cidade, onde seus tios moravam, sentido contrario de mim. E foi no exato momento que eu desembarcava do ônibus que me trazia, ele desembarcava do ônibus que o trouxe. E nós nos aproximamos, nos beijamos, ele pegou em minha mão e começamos a passear pelas ruas como se nada mais existisse a não ser nós dois. 

Ainda era de manhã bem cedo, perto das oito horas, e eu tinha que pegar um ônibus as quatro horas da tarde, rumo ao sitio de meus pais. E ainda teria que andar cinco quilômetros a pé, depois do desembarque. Havia na cidade um lugar muito bonito, chamado cruzeiro. Onde havia várias pedras e jardins com uma grande cruz de ferro, situado num lugar bem alto, de onde se poderia ver a cidade inteira. E nós subimos até lá. Não havia ninguém por perto, e pudemos conversar e namorar em paz. 

Passamos o dia em nosso mundo, sem comer e sem beber água, nos alimentando de beijos. Apenas quando apareceu, por acaso, um sorveteiro, é que ele comprou um sorvete para ambos. Quando percebi já tinha passado das quatro horas da tarde. E o último ônibus que me levaria até o sitio, saia as seis, então, meio relutantes, nós tivemos que descer e nos despedirmos. E foi assim, que ele me deixou, com a lembrança do ultimo beijo e um leve aceno de mão.

Quando desci no ponto, já estava escuro, E tive que ter muita coragem para caminhar cinco quilômetros sem luz. Fui rezando, e limitei-me a distrair com a doce lembrança do encontro. Ainda sentia o perfume em minhas mãos, e o gosto dos inúmeros beijos trocados.

Passei o final de semana em transe. E na segunda feira, voltei para o trabalho, que transcorria sem muitas novidades. O meu amor foi embora pra cidade em que morava, e desta vez, era bem mais longe, a 374 quilômetros de mim.

Passou-se varias semanas até que, um dia, uma carta chegou. Vinha de uma loja de móveis que ficava do outro lado da rua. Um funcionário veio me entregar. Fiquei  muito surpresa quando vi o nome do remetente. Nada mais, nada menos, que ele. Com papel de carta, cheirosa e delicada, com uma gravura de duas pessoas abraçadas no alto de uma colina,  com uma boa caligrafia que dizia assim: - Meu amor, como você estava linda nesse dia. Sinto tantas saudades suas e meu amor não cabe nesse papel. Este foi o dia mais lindo de minha vida. Beijo!

Poucas palavras que trouxeram alegrias imensas para meu coração.

O tempo passou, veio mais uma carta bem romântica e depois o silêncio.

Trabalhei mais alguns meses na lanchonete, depois pedi para sair e fui trabalhar numa padaria próxima. O salário era maior e o trabalho bem mais divertido. Mais gente trabalhando, mais gente entrando e saindo, e assim fui fazendo novas amizades, E como não tinha mais o deposito para dormir, aluguei um quarto numa pensão, onde vieram morar comigo, uma irmã e uma amiga.

Certo dia, após uma longa jornada de trabalho, Já estava quase na hora de sair, chegou uma senhora que costumava a passar por lá de vez em quando para tomar um café. Era muito brava  e a gente gostava de irrita-la. Não me lembro o que foi que eu falei, e ela imediatamente, levantou a bengala para bater em mim, eu agachei no balcão ficando de cócoras, e quando me levantei, lá estava ele, com cara de preocupação, olhando para mim. Fiquei muito surpresa ao vê-lo. Estava chovendo naquela hora, e seu cabelo muito mais encaracolado  por estar molhado. Vestia uma camisa cor de caramelo, calça azul e sapato preto, lindo e elegante como sempre. 

Começou dizendo: Nossa! levei um susto quando via aquela senhora querendo te agredir! Eu apenas o olhava como se fosse uma alucinação. Gaguejei um pouco ao responder que já estava acostumada com a senhora e que, ela não fazia mal nem a uma mosca. Como estava quase na hora de acabar meu turno,  pedi que me esperasse.

E foi o que ele fez.

Minha irmã que também trabalhava ali, me ofereceu um guarda-chuva e me aconselhou a leva-lo ate a pensão. Na hora fiquei meio sem jeito, mas como estava chovendo muito e sem ter onde ficar para conversarmos, pedi a ele que fossemos até a pensão. E novamente nos perdemos um no outro, ele me beijava ardentemente, enquanto sussurrava em meu ouvido: - Quanta saudade!

Naquela época havia muito respeito por parte dos rapazes, eles nunca tentavam nada a mais do que simples beijos. E foi o que aconteceu. Conversávamos entre um beijo e outro.

Ele me contou que viera na casa de seus tios e já estava voltando para sua cidade, e não resistindo, resolveu vir  me ver. Que eu estava linda e que ele desejava estar sempre comigo, mas, que estudava e trabalhava, e como a cidade em que morava era longe, não podia me ver com muita frequência. Eu não perguntei nada, nada mesmo, só ficava inebriada com seus beijos quentes. Veio a hora da despedida, eu o levei ate a porta, sentindo meus lábios inchados, sentindo uma certa vergonha por causa disso. E ele se foi.

Eu com quinze anos, ainda sem nenhum preparo para o romance, fui adentrando a solicitude tempo, me achando a rainha das horas, perdida nos embaraços das emoções. Sem palavras para defender o que sentia, deixei-o ir. E os momentos tão sublimes foram se apagando ante outros encontros e decepções.

Só agora,  com sessenta anos de idade, amadurecida e repleta, de vida, por dentro, consigo, enfim, falar dos sentimentos profundos que despontava em mim, ainda em tenra idade, das quais as palavras ainda me eram tão escassas. Se fosse hoje, sem duvida, eu te diria, que te amei!

Hertinha Fischer











sábado, 14 de junho de 2025

Estação de cada vez

Sempre confiei no tempo,


em mim havia a tranquilidade


de resolver tudo no dia seguinte.


Mas compreender, como compreendia, não era


algo para os outros.


Os erros que eu cometia se apagavam,


depois da noite. Nunca guardei nada para o amanhã.


Meu dia era e é apenas um dia.


Não se vive o amanhã no hoje.


Não é preciso carregar tudo para


debaixo dos lençóis.


Muito menos semear mágoas nos sonhos.


Pode-se guardar munição para guerras futuras,


mas não se usa munição sem que existam


guerras.


O que nos serve, serve em vida.


Depois da morte, nada mais serve..

Hertinha Fischer






sábado, 7 de junho de 2025

Feitio da vida

A vida me exibia como parte dela, sem me notar, e lá estava eu. Não havia escolha, o sentido me guiava. Como uma frase bem escrita em um conto inteiro, eu lia, mas não entendia. Desejava o céu, mas era terra. Um ser dentro de um universo que nem sabia existir. Movimentos de figuras, pessoas! E o que mais eram esses componentes? Defender-se sem culpa, culpar-se por existir. Às cegas, ir e vir, caminhar desconexo. Saber o que sabiam, ensinar-me sem compreender. Que mundo rarefeito e desconexo – nascer em um meio desconhecido e precisar sobreviver. Talvez por isso a vida nos negue o conhecimento ao nascer. Nada se perde, tudo é um amontoado das mesmas coisas. O que não se copia, não se cria, ou se ausenta da superioridade, sem novidade, apenas superficialidade. 


Hertinha Fischer

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O eu que se perdeu

Não é apenas o eu que passa,  


mas tudo que dele emana.  

Um sopro transformado em vento,  

uma sombra solitária ao meio-dia.  

As ondas que se desfazem na praia,  

a areia que se perde na orla.  

O pulsar de um coração sem sangue,  

a leveza cercada de excesso.  

O alto em lugares baixos, a luz em dias  

sem lua.  

Somos alegrias passageiras.  

Curvados pelo medo, mas eretos.  

Sedentos do amor alheio,  

carentes do amor próprio.  


Hertinha Fischer.

domingo, 1 de junho de 2025

Bioalegria

Nunca me entristeci com nada, embora já tenha chorado bastante. As situações que não podia resolver, deixava para o tempo ajeitar à sua maneira. Enquanto vivia, tentava aproveitar cada etapa com entusiasmo, mesmo quando algo não dava certo. Nasci na pobreza, minha casa era pequena: só uma cozinha, uma parede e um quarto para sete pessoas. Quando acordava e saía, tudo o que meus olhos alcançavam era meu. O vento brincava com meus cabelos, a estradinha serpenteava pela terra, escondendo-se do meu olhar curioso. O riacho, pequeno e acolhedor, abraçava suas águas. A jabuticabeira na beira do riacho deixava cair flores brancas sobre si, transformando-se de um dia para o outro em bolas negras e doces. O chão de terra batida, coberto por vegetação alegre, fazia cócegas nos meus pés. A tábua de lavar roupas, coberta de musgos, se tornava um escorregador para o rio. As músicas do rádio embalavam as tardes, acordavam as noites e recebiam os dias com poesias. A ribanceira, com um córrego ao centro, brilhava sob o sol. A velha bacia nos banhava e depois virava balanço no galho do pessegueiro. A roça verdejante nos observava do alto, ansiosa para brincar conosco. As pessoas, conhecidas de perto ou de longe, cultivavam amizades com carinho. Havia uma certa ordem, fruto da harmonia entre a natureza e o tempo, cujo patriarca era Deus!


Hertinha Fischer.