As tardes me sondavam como a mariposa explora as ondas de luz.
As cigarras cantavam para mim: "Conta sua história, canta sua história, viva sua históriiiiaaaa."
A hospitalidade da relva solta sob grandes arvoredos me inspirava tanto que eu acreditava que seria uma história longa e apaixonante. Quando os bem-te-vis se agitavam em busca da melhor nota para compor o som de cada folha caindo ao chão, outros seres alados se esforçavam para acompanhá-los com seus melhores trajes de festa. Peitos azuis, vermelhos, acinzentados, amarelados, violeta, inflados pela arrogância de suas cordas vocais, abriam seus biquinhos para me ensinar a cantar músicas indecifráveis e mágicas de viver com prazer.
Muitas vezes ficava horas ouvindo a orquestra sinfônica da selva, executando solos poderosos e arrepiantes. As folhas que se desprendiam suavemente de suas hastes caíam aos meus pés como um despejar de paz. Aprendi a ser original. Não precisava ser cópia de ninguém, apenas ser eu mesma. Aquela paz me levava a construir alicerces fortes e poderosos, onde nenhum medo poderia pousar. Só precisava viajar cada vez mais fundo dentro de mim. Havia uma certa loucura por voar.
Aprendi a linguagem dos pássaros. Uma imensidão de relvas crescia dentro do meu peito, arbustos de fé construíam meus ninhos, e os ovos de incentivo eclodiam, ganhando belas penas de compensações. Segui cantando e assobiando ao mesmo tempo. Tudo era alegria.
O tempo trouxe algumas angústias, mas logo as levou. Dentro de mim, soava alto uma aurora incrustada como um diamante de ternura. Amei a vida e a odiei em alguns momentos. Com o tempo, deixei as fábulas e o encanto de sonhar com fantasias. A realidade estava longe de ser abstrata.
Hertinha Fischer
Nenhum comentário:
Postar um comentário