Sua mãe a olhava de soslaio, quase duvidando de suas palavras.
- Estou quase a morrer junto com ela! - completou.
Dias e dias caçando-a por dentro, ou melhor, anos, talvez!
- Essa doença não tem cura, Rosinha! Não é falta de esperança, é vida ou morte!
- Eu sei, minha mãe, só que desgasta a gente, deixa uma melancólica sensação de desuso!
- Desuso? Que palavra mais deprimente!
- E a vida não é?
- Não, Rosinha, a vida é maravilhosa com a gente, só que o corpo que nasce fraco se desgasta mais rápido!
- E tinha que ser comigo?
- Não é com você, não tem nada de castigo nisso, é a natureza!
- Minha natureza, mãe!
- Sim, a sua, porque você vive nela, tem consciência disso. Mas poderia ser outra, ou outro, por que não?
- Você tem cada ideia, mãe. É lógico que sou eu, eu sinto!
- E eu também, talvez até mais que você. Sinto-me até um tanto culpada.
- Culpada de quê? De ter me gerado?
- Sim! Se não tivesse te gerado, essa doença não existiria dentro de você. Eu não precisaria te ver sofrendo desse jeito!
- Ah! Não gosto dessa conversa!
- Todos morreremos algum dia, mais cedo ou mais tarde. Eu poderia carregar todas as suas dores se pudesse!
- Mas você não pode! E eu ainda não morri. Se estivesse morta, nem estaríamos tendo essa conversa!
- Verdade!
- Então, vamos sair por aí, andar sem rumo pelos campos. Talvez seja isso que precisamos!
- Espere, vou buscar os chapéus!
Mãe e filha deram as mãos, trancaram as portas e foram andando pelas trilhas da solidão. Ambas sabiam que o fim era iminente, mas por que sofrer antes da hora? Por que cavar feridas quando podiam aproveitar os bons momentos que ainda restavam?
- Sabe, filha! - sua mãe lhe falou de mansinho, não querendo quebrar aquele silêncio gostoso que fazia entre as matas e a estradinha caprichosa e pedregosa.
- Eu nunca me arrependi de ter você. Nunca! E mesmo agora, com essa doença limitando a sua jornada, ainda podemos atravessar o tempo.
Herta Fischer
Herta Fischer
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