Houve um tempo em que eu sentia falta das pessoas, quando sorrisos e gargalhadas vinham apenas dos vizinhos, e eu me perguntava: – Que felicidade era aquela? Dentro de mim habitava uma tristeza profunda, uma tristeza que doía. Eu via os momentos acontecendo do lado de fora, queria fazer parte deles, mas não conseguia.
Demorei anos para perceber que minha tristeza não estava em mim, mas nas pessoas que não sentiam minha falta. Lembro de uma vizinha que mal me conhecia e, aos domingos, sem que eu pedisse, me trazia um prato de comida quentinho, talvez nem tão especial, mas com gosto de cuidado. Eu trabalhava, ganhava meu dinheiro, não me sentia pobre, mas comer sozinha é a maior pobreza que existe. Não era pobre de bens, mas de amor.
Perguntam-me se eu sabia amar. Não, eu não sabia. Minha solidão era tão grande que desaprendi, perdi o gosto de gostar. Nas tardes de verão, quando não trabalhava, saía às ruas, sentava na calçada e brincava com as crianças. Talvez fosse o único consolo que aquecia meu coração.
A solidão destrói. Pensar nela ainda dói mais. A comida satisfaz a fome do corpo, mas o que dizer da fome do coração? Tudo dói; até o simples pensar e sentir-se rejeitada dói. Morar sozinha tem dessas coisas; nem sempre há com quem conversar, dividir ou chorar.
O Natal é pensado como um dia especial, um dia em que ninguém deveria estar só. Mas e os outros dias, passados na mais profunda solidão? Sei que isso faz parte do passado, mas lembro bem do que significa. Estive tão só que, se desaparecesse, só notariam minha ausência após muitos dias. Fui esquecida.
Essa solidão de que falo, hoje, sei que só me fez bem, pois me transformou.
Herta Fischer.