Conheci uma mulher que vivia sozinha numa casinha humilde, cheia de sonhos. Já não era tão jovem, mas estava sempre repleta de vida. Trabalhava como se a palavra cansaço não existisse, e o que fazia deixava qualquer homem com inveja. Sempre pronta a ajudar quem passasse por ali precisando de algo, tinha um coração do tamanho do mundo. Os cabelos, tão brancos quanto sua alma preciosa, contrastavam com as pernas frágeis que pareciam não sustentar seu corpo, mas sua força vinha de um lugar misterioso. Trazia sempre um sorriso nos lábios e uma palavra amiga para os de coração partido, além de um prato de comida quentinho no fogão para quem chegasse com fome. Mulher de fibra, sustentava-se sozinha e ainda enviava mantimentos para filhos e noras. Seu trabalho não era fácil — o cabo da enxada contava os calos das mãos e as olheiras profundas revelavam o quanto já limpou de chão. Quantos pés de laranjeira testemunharam suas lágrimas e suor, à espera da bênção das suas mãos. Muitas vezes a vi empurrando uma carriola pesada, cheia de lenha e esperança, e nada podia deter a força daqueles braços feitos para brilhar. Limpava flores, cortava a grama, podava árvores, colhia frutos e não desperdiçava nada; quando não comia, dava aos outros ou transformava em sucos e geleias, sempre dando bom destino ao que colhia ou plantava. Quando ouvia alguém reclamar da vida, lembrava do exemplo da boa senhora que desconhecia a palavra descanso e nunca reclamava. Um dia me contou que, logo após se casar, o marido a levou para um lugar distante, onde a casa era de madeira, não havia nada para preparar comida, nem mesmo um fogão — apenas um latão velho e alguns poucos grãos de feijão.
Então, com o conhecimento de quem já sofreu, ela resolveu improvisar: cavou um buraco no barranco do tamanho de seu latão, buscou água no rio, acendeu o fogo e, quando o marido chegou ao cair da tarde, já havia feijão quentinho à mesa. Ele ficou surpreso com a força de sua mulher; qualquer outra se desesperaria sem saber o que fazer, mas ela não! Sempre dizia que quem quer nem imagina o poder que tem. Quero registrar aqui um pouco da vida dessa mulher, como forma de agradecer por tudo que aprendi com alguém tão grande em um corpo tão pequeno. Seu nome era... era Daura, pois infelizmente já não está entre nós. Deixou uma saudade imensa no meu coração!
Autora: herta fischer
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