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Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...

segunda-feira, 24 de junho de 2024

O homem e a preguiça

Aquele olhar de pidão, focado nos desejos loucos de vitória, enquanto desperdiçava o tempo à toa, carregava sobre si a força do nada. Porém, queria, mais do que tudo, um pouco de força nas mãos. Não que lhe faltasse, mas o cérebro lhe bastava no sono.


A pobreza já apertava o pescoço, como quem sufoca com o pouco ar de um navio afundando na preguiça. Um pouco para dormir, outro para espreguiçar, enquanto o teto quase caía sobre sua cabeça. A esperança já havia partido, e a saúde preparava as malas. Seu jardim, sem flores, agonizava entre as urtigas.


Sempre quisera tudo pronto, nunca se levantava para o trabalho, a menos que não houvesse nada para comer em seu portão. Mas até isso rareou de um dia para o outro, como se a caridade também tivesse secado. Reunindo um resquício de sanidade, decidiu mudar de vida e começou a buscar emprego.


No início, foi devastador. Tudo parecia difícil demais, até que seu espírito despertou, através de muito esforço. Era como frequentar uma academia; acabou virando hábito. E, como todo ser que se preza, encontrou alegria em se dedicar a algo. Consequentemente, descobriu que a pobreza foge quando encontra um trabalhador, mesmo que tardiamente.


Hertinha Fischer




A velhice do tempo

 "Talvez haja mais que um simples corpo,

Algo que reflete na alma e não nos olhos"
O tempo sabe, o tempo é inteligente. Sabe as horas.
Algo que definha o corpo é não sentir saudade.
Tudo que a saudade quer é que o tempo revele
o infinito que os olhos não contemplam, mas, que o fazem
sonhar, abertamente, na contemplação de seus dias vivos.
Enquanto houver sonhos, viveremos, mesmo que o tempo já tenha envelhecido de tanto nos ver passar.
Hertinha Fischer

domingo, 23 de junho de 2024

O beco do dia

 Por hoje chega,

A noite vem vindo, com aquele olhão negro e assustador
Quero vivê-la como quem dorme mais cedo.
Aquilo que as madrugadas levaram, depois que acordei, quero
senti-las
O viver que se foi no dia seguinte, as obras que realizei na dormência,
as coisas que tomaram minhas ideias,
as pessoas que se foram mais
cedo para dormir. Quero encontrar de novo.
A noite me acalma no silêncio de minha alma,
ancora toda angustia as escuras.
Que dia escuro que se fara noite clara?
Donde vens e para onde vai, essa noite que
traz paz e loucura, realçando
mais cansaço, quando a quero viver.
Calada e silenciosa, sobe os morros,
desce na doideira escura das auras das matas,
mata a claridade e cega olhos.
Inventa uma forma de me enganar,
deixando uma abertura envidraçada no céu,
só para me endoidecer de vez, enquanto
chega para me aninhar em seus
devaneios estreitos, a sonhar
com o belo dia que escondeu.
Hertinha Fischer

Aerodinâmica do sentido

 Deixa o tempo me tocar, enquanto existir tempo em mim.

Quero sentir a densidade das asas do destino a planar
em momentos.
Até que atinja a maioria dos sonhos que sonhei.
E o ar mostrar-me onde você se encontra, e como chegará até mim, com suas asas de beija flor.
Deixa, deixa, que também deixarei de esperar, até que a felicidade descubra o caminho que desejei.
Se serei teu caminho, anda-me!
Quem sabe a felicidade não nos segue.
E o amor brote das tempestades do sentir,
Hertinha Fischer.

sábado, 22 de junho de 2024

Viver em núpcias

O sublime canto dos anjos,  

entre serafins e querubins,  

chega ligeiro no vento do tempo,  

tecendo canções e emoções.  


Quem invade as madrugadas,  

depositando sonhos nos seres,  

a despertar, pela manhã, os seus favores?  

Quem semeia sentimentos de enredo,  

mais coragem que medo,  

a entrelaçar os seus amores?  


A terra os acolhe em sua boca,  

o crescimento lhes concede;  

na borda dos ventres germinam,  

percebem-se no mar - fim.  


O ar que não se vê,  

respira em mim e em você,  

nutrindo os alvéolos  

do bem querer.  


E assim a conta se fecha,  

na matemática tão precisa:  

na boca a digestão começa,  

e com os dentes é que se mastiga.  

Hertinha Fischer



terça-feira, 18 de junho de 2024

Simples coisas

 Enchi meu ar de coisas.

Coisas fúteis refleti
Respingos de incerteza, me cerca
Cerca de cera e pavio já queimado
me incendeia.
Que mais se aprecia, senão a vida?
Que mais que vida se nos faz?
O cansaço nos põe para fora,
a hora nos joga fora,
o fora que não demora.
Num rugido que não se ouve
Um respingar que não tem água
Um esquecer que parece eterno
uma eternidade para lembrar.
Vamos indo, mesmo sem ir
rindo e remando sem boca ou leme.
Num navio que sequer existe
um mar que ainda persiste.
Sonhando que é bom sonhar
na certeza de realizar
na vida que sequer se lembra de nos lembrar
que tudo é passar.
Hertinha Fischer.

domingo, 9 de junho de 2024

Revoada da emoção

 O revoar das poesias,

bate asas a trovejar
Entre o ar e pequenas gotas
Faz chover o seu passar
Canta, canta, suas letras,
Come, come, as vogais,
Anseia vento nas derrapagens
Soltando-se em seus ais
Das penas sai o papel
do bico, o seu cinzel
Do canto, sua diversão,
Decola do coração.
Escreve sua força no ar
Declara nas copas das árvores
Aninha corpo e mente
Nas escritas dos arredores
Do nada, eclode seus ovos
No calor da emoção
Versos que saem das cascas
são sua motivação.
Hertinha Fischer.

sábado, 8 de junho de 2024

Inventário da batalha

 Ante ao antes, que, sobremodo,

andei em linhas verticais

Soberbas vontades de ir além

do pródigo.

Além do além, cordas bambas e sais

Saborosos e rústicos desejos de ser, sendo.

De saber mais do que aprendi

e fazer mais do que senti.

No entanto, no tanto, me rebaixei,

deixando coisas sem fazer

e sentimentos por refazer.

Nunca sempre me acompanha,

Sem milagres e sem campanha

Sei que o voltar é sempre volta

E o chegar nunca me solta.

Hertinha Fischer