Aquele olhar de pidão, focado nos desejos loucos de vitória, enquanto desperdiçava o tempo à toa, carregava sobre si a força do nada. Porém, queria, mais do que tudo, um pouco de força nas mãos. Não que lhe faltasse, mas o cérebro lhe bastava no sono.
A pobreza já apertava o pescoço, como quem sufoca com o pouco ar de um navio afundando na preguiça. Um pouco para dormir, outro para espreguiçar, enquanto o teto quase caía sobre sua cabeça. A esperança já havia partido, e a saúde preparava as malas. Seu jardim, sem flores, agonizava entre as urtigas.
Sempre quisera tudo pronto, nunca se levantava para o trabalho, a menos que não houvesse nada para comer em seu portão. Mas até isso rareou de um dia para o outro, como se a caridade também tivesse secado. Reunindo um resquício de sanidade, decidiu mudar de vida e começou a buscar emprego.
No início, foi devastador. Tudo parecia difícil demais, até que seu espírito despertou, através de muito esforço. Era como frequentar uma academia; acabou virando hábito. E, como todo ser que se preza, encontrou alegria em se dedicar a algo. Consequentemente, descobriu que a pobreza foge quando encontra um trabalhador, mesmo que tardiamente.
Hertinha Fischer