Total de visualizações de página

Eco do fim

Enquanto novos caminhos se abrem, os meus já estão cansados. Quase sem fôlego, minha alma repousa. Houve um tempo de amar, de me cuidar para...

sábado, 2 de abril de 2016

Dom recebido do alto

Eu gostaria de poder dizer que meus caminhos sempre estiveram abertos,
que alguém me incentivou a seguir. Mas, não!
Eu tive que abrir passagem. Eu tive que, as vezes, usar minhas  mãos para cavar
ribanceiras até chegar ao mundo das palavras, Não foi fácil, tinha medo de errar, e assim,
fui deixando meus sonhos para trás.
Eu fui uma menina pobre, sem estrutura alguma, criança de mato. Só me foi possível seguir
em frente com muita luta. Luta para estudar, e luta contra eu mesma.
Meus pais eram analfabetos, mas deram um jeito de me colocar na escola, eu e meus irmãos.
Concluí a quarta série, na época. Mas depois tive que trabalhar, e assim, não pude fazer o que mais queria, que era prosseguir com os estudos.
Só depois de algum tempo, é que, novamente, vi uma nova janela de possibilidade se abrindo.
Já tinha vinte e cinco anos de idade, quando encontrei uma escola que me deu a oportunidade de fazer o curso fundamental na forma de supletivo.
Em dois anos eu concluí a oitava série, No entanto, por insegurança e falta de dinheiro, novamente tive que parar de estudar.
Só aos quarenta e cinco anos de idade que, por sorte, ou acaso, meu marido ficou sabendo que tinha aberto inscrições para o telecurso, na escola em que estudava meu filho mais velho.
E assim, com a cabeça cheia de preocupações com a casa, marido e filhos,  eu regressei aos estudos que tanto amava.
Foi muito difícil ter que deixar  minha família. A noite, tomava um ônibus junto com dezenas de jovens que faziam o curso normal na mesma escola, e numa classe cheia de alunos mais velhos, se adaptando novamente na aprendizagem.
Nesta época, as escolas já não tinham nenhuma organização, os professores eram arrogantes, e nos forçavam a aprender sozinhos. Fui vitima de várias situações desagradáveis de pessoas que não estavam la para estudar  e ficavam, junto com os professores trocando receitinhas, e, ou, conversando sobre assuntos fora do currículo escolar.
Por várias vezes eu abandonei a classe para estudar sozinha no pátio.
Como tinha apostila, passei a estudar mais em casa do que em sala de aula, E nas provas tirava sempre boas notas, causando muita inveja para alguns alunos que só iam a escola para conversar.
Dois anos se passaram depressa, E só então, comecei a escrever.
No inicio foi frustrante, começava e no meio do caminho eu desanimava. Tinha vários papéis que iam se acumulando sem que eu conseguisse algo que realmente ficasse bom..
Foi então que aprendi a mexer no computador, e criei meu blog.
Nossa! Não dá para imaginar o quanto fiquei feliz, por, finalmente, conseguir realizar um sonho de menina, que sempre foi escrever.
Talvez, não signifique nada para muitos, mas, para mim, é gloria, é como andar descalça em nuvens de algodão, tanto é o prazer que sinto.
Desde então, eu faço questão de registrar meus pensamentos, simples, mas cheio de gratidão e amor.
por todas as vezes, que consigo com palavras, dizer o que sinto,
E também, pela magia de saber que posso, que apesar das circunstâncias pouco favoráveis, rasguei todo o preconceito que se tem sobre quem não estudou, e acreditar que o dom perfeito vem do alto, pois, muitos, que tiveram a possibilidade de estudar, nasceram em berço esplêndido,  e não sentem o mesmo que eu sinto em relação a esse dom maravilhoso que é saber ler e escrever.
Herta Fischer




Nenhum comentário:

Postar um comentário