Sempre sem estilo ao me vestir, minha alma é o verdadeiro manto. Venho de um tempo em que as coisas eram feitas para durar, talvez por isso meu olhar carregue tanto. Eu desvendava a mágica das sombras — o olhar parcial do dia e o completo das horas. À noite, escondia as cores sob o tapete, preservando as sombras, quebradas apenas pela fraca luz da lamparina a querosene. Lá fora, os sons arrepiantes das formas assustadoras; até o silêncio parecia sussurrar.
A lua cheia espiava pelos buracos da parede, trazendo conforto ao revelar que nada estava totalmente oculto na escuridão. Só então eu ousava sair debaixo do cobertor, aproveitando a luz daquele olhar lunar. O canto generoso do galo me despertava com expectativa para viver, pois dormir era como morrer por algumas horas. O sol espalhava sua luz, dissipando as sombras e devolvendo cores aos jardins, vozes às galinhas e alegria às abelhas. O espírito humano se preparava para brilhar.
Ah, que nostalgia. Já não há escuridão na noite; a cidade vive num eterno dia artificial. Agora, quem me acorda são os motores, sem asas, apenas o ranger dos pneus no asfalto. E o olhar da lua já não atravessa mais minhas paredes.
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