quinta-feira, 30 de março de 2017

O sofrimento nos lapida

Eu estive la no topo
da decepção, quando me lembrei que
podia descer.
Eu me sentia uma coitadinha, sentia pena de mim,
sem coragem para me encarar, sem coragem
para me desfazer daquilo
 que me incomodava.
Se era que havia algo, pois a minha mente fantasiava
fantasmas...
Por ter nascido entre alguns irmãos, eu
me encontrei perdida na solidão, quando o
instante se tornou apenas eu.
Fazia parte mas nada fazia sentido, procurava por amor,
mas, os homens só queriam corpo, e meu
corpo não estava pronto para se dar, não sem sentimento.
Comecei a viver o ostracismo sem perceber,
Foram os livros que me deram algum objetivo para
seguir em frente, Os livros e as palavras neles contido, que
me reiniciavam, que me motivavam,
que me faziam companhia.
Eu passei, então, a fazer parte dos livros, como se todos
os romancistas conhecessem a minha historia, e me colocassem como
protagonista principal.
Me via amada como, talvez, nunca tinha sido, não contava com
o amor fiel dos meus pais, que viviam a distancia.
Eu sempre achei que amor é cuidado, é preocupação, é
presença.
E na agonia de me ver só eu ia me desfazendo como
uma folha de papel jogada no tempo.
Tinha que trabalhar para sobreviver, e muitas vezes, o
tempo que me sobrava era simplesmente desperdiçado em
pensamentos negativos em relação a vida, em relação a minha
pessoa, em relação a tudo e a todos.
Minha tristeza era tão grande, que parecia não mais caber em mim, então,
passei a dormir a maior parte do tempo, como quem foge de algo.
A noite, sonhos ruins me atormentavam, e de dia, a vida me parecia
carregada de incompreensão.
Parecia um autômato andando pelos vales sem cor, sendo sã e parecendo doente.
Ao voltar do trabalho um pequeno quarto me esperava, um quarto frio, sem ninguém
para me receber com alegria.
Cheguei ao ponto de não ver mais saída,
Comecei a procurar por Deus, talvez Deus fosse a tabua,
Comprei uma bíblia e comecei a ler. Mas, não compreendendo bem as palavras,
só me sentia pior. porque os meus pecados se tornavam evidentes.
Quão grande pecado era estar desistindo de mim.
Fiquei a vagar por muitos anos, entre um caminho e outro, cada vez mais perdida,
cada vez mais desolada e triste.
Não sabia orar, via muitas vezes, minha vida se esvaindo dentro daquele pote
que eu mesma me coloquei.
Não sei se foi por causa das lágrimas, não sei se foi por estar tão sensível, que
minha orações chegaram a Deus.
E como o despertar de uma criança no colo de mãe, certo dia eu comecei a mudar.
Conheci um homem, hoje meu marido, que também estava sozinho e perdido. Embora no inicio
nossa relação tenha sido muito difícil, começamos a crescer juntos.
Ele também estava a procura de algo, mais que simplesmente viver, algo que preenchesse o espirito,
porque o corpo estava só.
Então, juntos, começamos a desejar Deus, de uma forma sublime, Deus por inteiro, Deus em nós.
E nos ajudando mutuamente, entendemos que para Deus se manifestar, devemos deixar as preocupações de lado, pois tudo se dará á seu tempo.
E fomos caminhando em cada momento como se fosse único, nos compreendendo, nos motivando em cada conquista.
Toda aquela escuridão dos dias tristes foi se dissipando, e a aurora se abriu em nosso caminho, a luz cada vez mais presente, o amor cada vez mais eficaz.
Já se passaram trinta anos, eu e ele ainda estamos juntos, cada vez mais ampla se torna nossa fé.
E cada vez mais a paz se faz presente.
Quando olho para trás eu vejo que a descida foi necessária, talvez, se a vida tivesse me dado tudo, eu não teria tanta necessidade de crescer.
Deus, hoje, para mim, é o maior incentivo, posso perder tudo, posso viver sem nada, mas, sem Ele, seria impossível viver.
Deus é o amor entre os homens, e a compreensão do incompreendido, é a dor dos vencidos a vencer.
é Cristo em sua forma real. O bem, a suplica, a oração, O começo, o meio, e o fim, sem Ele somos
água contaminada matando e destruindo. Mas, com Ele, água viva a jorrar. Descobri que a solidão que vivi foi necessária, Já era Deus trabalhando em mim....

Herta Fischer  (hertinha)