domingo, 18 de dezembro de 2016

Tudo parece fácil para os outros

Então, hoje eu estava pensando naquele escritor
que foi viver em um farol para escrever seu livro.
Ele precisava de solidão para ser criativo, e além
disso, precisava sentir-se grande, e só poderia sentir-se
assim, onde ele pudesse estar consigo mesmo, sem a influência
de outras vozes.
Olhava para o horizonte e só via água, talvez, se saísse um pouco
mais cedo viria o nascer do sol e se um pouco tarde veria o sol se por.
Mas, o que ele via não poderia competir com ele,
pois o que ele via parecia miragem; o sol a sumir nas águas, ou o
sol a emergir da mesma, enquanto, ele pairava sobre ele mesmo.
È bom, as vezes, nos sentirmos, assim, donos de tudo, e poder, assim, ver o que
ninguém mais vê, porque falar e falar sobre o que acontece é como
tear que faz as mesmas coisas em todo tempo. Tudo da no mesmo.
Ele começou seu livro falando das coisas mortas. das coisas que se vão
sem deixar vestígios, que se esquecem, que somem sem nunca chegarem a ser achadas.
mas, que continuam lá, fazendo parte, mesmo que não estejam mais memoradas no tempo.
Assim começou:
-Era uma vez um menino cheio de vida, que brincava em seu quintal com uma bola
vazia, chutava o pequeno pedaço de borracha que fazia um som brincalhão, nada tinha
a ver com bola, mas em sua imaginação o era, pois algum dia foi.
Em sua imaginação de menino, viu sair de sua mente um outro menino, que com ele quis brincar.
Olhava para sua casa, e nada tinha a ver com sua lembrança, estava velha e desfigurada, quase a despencar pelo chão.
Onde estava, pensava ele:
Olhou pela vidraça, enquanto o outro menino pulava a cerca a buscar a bola que tinha se perdido em algum lugar.
Viu a sua mãe amarrando os cabelos com a barriga encostada na pia. Não participava de seus sonhos, mas, sempre estivera ali.
Que bom, pensava ele: - Tenho sonhos em minhas mãos, mas, a realidade está ai, sem que eu possa mudá-la.
Sonhar com crianças a bailar sentadas num balanço, a colher as horas com alegria. Disposto a fugir das circunstâncias que os adultos os impõe. Onde mora o amor?
De que amor nos ensinam, de que solidariedade nos falam, quando eles mesmos se perdem na incompreensão e no vazio depois de se amarem?
Nunca se completa, só competem dentro de um jogo que nunca acaba.
Como árvore podre, cuja superfície se encobre de nódoas. Onde as cobras se movem, Onde os cogumelos se alastram, aproveitando do que já está morto.
Porque?
Porque nos fazem no abandono?
Se deixam levar como peixes no mar, se escondem em conchas e a deixam a deriva. Não faça se não for para cuidar.
Não ame se não sabe perdoar.
E o farol, ele estava lá, a fazer vozes, a construir historias, talvez, as mesmas que ele queria viver, sobre a luz forte que mostra direções, mas, de si mesmo, não sai do lugar.
E o homem, porque estava lá. Na ignominia, desapercebido do mundo. As folhas em branco sentadas num canto, esperando pelo zelo. sem nem ao menos saber quem seria; Apenas uma bola amassada dentro de um balde, ou algo a desfoliar entre o dedo de alguém?
Tudo o que ele deixou para trás foi a impossibilidade: talvez, de viver por ele mesmo... É bem mais fácil sonhar que viver. É muito mais fácil estragar tudo e depois sofrer. E bem mais fácil ainda:- falar, que fazer, escrever, que viver. Dar lições, que aprender,

Herta Fischer,